|
por
MIRTES LIA PEREIRA BARBOSA* &
RODRIGO SABALLA DE CARVALHO
*
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
**
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul |
|
Em
busca da ordem:
Tempos,
Espaços e o Disciplinamento dos Corpos nas Práticas Escolares
Nossas
atividades mais corriqueiras, como passear no parque, visitar um
amigo, ir ao supermercado, dormir, jantar, almoçar entre tantas
outras são organizadas e pensadas conforme espaços e tempos que
possibilitem que as mesmas aconteçam de determinada forma e não de
outra. Essas organizações podem variar entre grupos, cidades, países,
porém, em todos estes lugares existem aprendizagens a serem
realizadas para que as coisas funcionem de uma dada forma
considerada, naquele momento e para aquelas pessoas, como as mais
adequadas. Desse modo, é possível dizer que tais formas enunciam
uma busca pela ordem através da tentativa de prevenção da ambivalência.
Tal tentativa incessante de prevenção em relação à ambivalência,
conforme Baumann (1999) operacionaliza-se através de uma operação
que tem funções nomeadoras, classificadoras e normalizadoras. Para
tanto precisamos, enquanto sujeitos, aprender a utilizar o nosso
tempo, a controlar nossas atitudes, a viver de um jeito ou de outro
conforme o espaço que ocupamos, conforme nossas idades e desta
forma passamos a ser identificados/as pelo que fazemos, onde
fazemos, do jeito que fazemos, pelos grupos que vivemos, os lugares
que freqüentamos. Dessa forma é preciso perguntar: De que forma(s)
ocorre essa busca pela ordem na escola?
É
possível dizer que a escola, entre outras instituições como a família,
os grupos de amigos, a mídia, é o local no qual diversas práticas
investem na organização do tempo e do espaço como forma de produção
de aprendizagens. Aprendem-se formas de ser e agir, o que é ser
menino ou menina, adulto ou criança, educado/a ou mal-educado/a,
inteligente ou pouco inteligente, calmo/a ou agitado/a, estudioso/a
ou preguiçoso/a, aprendente ou não-aprendente, obediente ou
desobediente. Ao estabelecer regras e ritmos, os discursos da
Pedagogia promovem formas de classificação que ao serem
reconhecidas em cada sujeito nas práticas escolares marcam seus
corpos lhes posicionando em relação a uma população. Uma
cuidadosa distribuição dos indivíduos no espaço e no tempo
produz certos posicionamentos, os identificam enquanto grupo
produzindo-os como sujeitos. Passar pela escola confere às pessoas
um modo próprio de ser. Como bem nos mostra Louro (1995: p.67)
“seus gestos, seus passos, suas palavras e seus ouvidos foram
treinados e afinados por e para um tipo de ritual que é distinto,
diverso dos outros, de outras instâncias ou domínios.” Pensar
nessa “produção” a que somos submetidos/as, é importante para
podermos problematizar enquanto pedagogo/as as lógicas que nos
inscrevem enquanto sujeitos.
Desse
modo, refletir e problematizar os espaços e os tempos escolares é
o que nos propomos nesta escrita por compreendermos de que forma
esses elementos organizadores nos subjetivam ao nos ensinar formas
de viver, de conviver e de se relacionar consigo mesmo no intuito de
atingir fins políticos, sociais e econômicos. Através de
programas educacionais, propostas e projetos político-pedagógicos
as instituições escolares organizam suas práticas em busca de uma
dada ordem que a modernidade considera imprescindível para a
construção de uma sociedade mais “justa” e “igualitária”.
Nesta busca da ordem, conforme nos ensina Foucault a escola (entre
outras instituições) “investe no corpo dos indivíduos definindo
para todos e cada um, ao mesmo tempo, um local específico distribuído
cuidadosamente para evitar aglomerados confusos e proximidades
indesejadas” (2002: p.121). Temos,
assim, uma “arte das distribuições”, normalizando corpos,
exercendo práticas de individualização através da cuidadosa
distribuição dos indivíduos no espaço e no tempo, distribuição
que produz certa posição de sujeito, que os identifica enquanto
grupo e enquanto indivíduos. Modos de organização espaço-temporal
que, ao ampliar a visibilidade sobre os indivíduos, os produz como
sujeitos.
Sobre
o Tempo
O
tempo pode ser pensado não apenas no que tange às relações
cronológicas mas, sobretudo, nas relações sociais estabelecidas
entre os indivíduos. O tempo é resultado e uma forma de “tornar
visível e audível algo que não se vê nem se ouve” (VIÑAO-FRAGO
apud LOURO, 1995: p. 64). Usamos a noção de tempo para organizar
os espaços que ocupamos, para nos organizarmos em nossas tarefas,
ou seja, o tempo é resultado de uma necessidade de disciplinarização
e normalização dos corpos que a sociedade moderna, com a revolução
industrial no final do século XIX e XX, almeja para a pureza da
humanidade.
A
escola e a Pedagogia ao serem pensadas para a educação das massas
e para o controle dos saberes a partir destes períodos históricos,
organizam e inventam saberes sobre e para os indivíduos com a
vontade de capturá-los produzindo verdades a respeito de seus
desenvolvimentos. Assim, a educação escolar constitui-se através
de novas formas a partir dos diferentes saberes a respeito do
desenvolvimento e da aprendizagem infantil, conseqüentes da emergência
das Ciências Humanas. Esta
emergência de saberes sobre os indivíduos tem como um dos seus
fatores o sentimento de infância que inaugura uma nova maneira de
entender o infantil. Este passa a ser percebido como alguém
especial, diferenciado que necessita ser educado, cuidado, ensinado.
A sociedade inspirada pela industrialização e progresso investe em
“fabricar” indivíduos que lhes sejam úteis e produtivos.
Assim, a escolarização torna-se parte destes interesses
preocupando-se em formar, desde a tenra idade, sujeitos que através
do trabalho contribuam para o sucesso econômico e político. A
criança agora, escolarizada passa a ser objeto de estudo de
diferentes áreas do conhecimento que se ramificam com o intuito de
agir sobre o corpo infantil em estado escolar.
Varela
(1995) fala sobre um dos momentos de produção de saberes sobre a
infância e a condição da criança enquanto aluno quando, em princípios
do século XX, na conformação da sociedade ocidental, fazia-se
necessário escolarizar as crianças da classe popular, visto que a
Revolução Industrial carregava consigo uma nova ordem para a
sociedade, uma ordem da produção, a preocupação com a economia,
acréscimo e manutenção da riqueza, uma sociedade baseada no
contrato social no qual o controle era agora estabelecido através
de uma cada vez maior individualização. Interesses sociais estes
que compõem e produzem cada vez mais conhecimentos científicos a
respeito de como os indivíduos devem se comportar e como podem
aprender em cada faixa etária. Surge daí, de forma sempre descontínua
e nunca linear, o que hoje conhecemos como etapas do
desenvolvimento, seriação escolar, gradualidade de conhecimentos.
O tempo humano toma cada vez maior importância e direciona um tipo
de educação específica para o controle e normalização dos
sujeitos. A seriação, a organização por idades, a graduação
das aprendizagens, a seqüenciação de atividades e exercícios
conforme cada faixa etária promovem instâncias de normalidades e
anormalidades a partir de categorias de aprendizagem e
desenvolvimento produzidas em consonância com diferentes saberes
pedagógicos.
Podemos
perceber a constituição destes saberes quando, ao nos depararmos
com uma proposta pedagógica curricular, como é o caso dos Ciclos
de Formação,
onde as crianças são divididas e enturmadas conforme suas idades,
sendo que para cada faixa etária há categorias de desenvolvimento
previstas e esperadas que dão fundamento aos métodos e técnicas
utilizados para a organização da aprendizagem. Cada aluno/a terá,
naturalmente, aprendizagens a serem construídas na faixa etária em
que se encontra, e, na insuficiência destas aprendizagens, os
sujeitos passam, então, a serem compreendidos enquanto portadores
de “problemas de aprendizagem”.
A
seqüenciação, a segmentação, a organização em séries
distribuem o tempo de forma mais controlada e compõem a prática
pedagógica. Atividades graduadas, classificação dos indivíduos
conforme os resultados das “provas” que lhes são submetidas,
categorização dos/as alunos/as conforme a série que freqüentam,
tudo isso promove uma escola com o tempo disciplinar progressivo. A
instituição escolar, dentre outras instituições, assume um tempo
“evolutivo”, tempo este relacionado ao tempo social que ao
perceber a sociedade como em constante evolução, vê no indivíduo
e na sua “boa educação” o meio pelo qual será possível
conquistar o progresso da sociedade.
Sobre
o Espaço
O
espaço, assim como o tempo não é um a priori histórico,
mas uma construção cultural que é aprendida e experimentada desde
muito cedo pelos indivíduos. Os espaços são planejados de acordo
com as “necessidades” de utilização dos mesmos (geralmente)
sendo diferenciados de acordo com seus propósitos. No plano
escolar, é possível perceber, por exemplo, que o espaço da sala
de aula de uma turma de Educação Infantil (em muitos casos) tem
banheiros, possui mobiliários diferenciados, e é maior do que o de
uma sala de aula de ensino fundamental. Pode-se perguntar por quê?
A resposta de muitos/as pedagogos/as é de que as crianças na Educação
Infantil precisam de mais espaço para movimentarem-se, de que se
realiza uma variedade maior de atividades que envolvem movimento, de
que devido a idade das crianças elas precisam ter uma banheiro próximo
para realização de suas necessidades fisiológicas, dentre outras
considerações. Porém, é preciso pensar que os espaços escolares
(assim como outros pelos quais circulamos) não são neutros, mas
produzidos através de investimentos movidos pelo caráter
disciplinar e ordenador das instituições escolares. Prosseguindo
com a análise do exemplo, é possível dizer que a arquitetura
escolar pode ser considerada como elemento ordenador do currículo,
pois “além de ser um programa invisível e silencioso que cumpre
determinadas funções culturais e pedagógicas, se constitui como
um referente pragmático que é utilizado como realizado ou como símbolo
em diversos aspectos do desenvolvimento curricular” (VIÑAO-FRAGO,
2001: p.47). A
contribuição do autor possibilita ressaltar que os espaços
delimitam as atividades propostas na escola, pois são pensados de
modo a permitirem (ou não) a operacionalização e o
desenvolvimento de algumas funções. A sala de aula, seja de Educação
Infantil ou do Ensino Fundamental, é um local constituído,
historicamente, com diferentes disposições, tanto das pessoas
quanto do mobiliário, destinado à aprendizagem, não apenas de
conteúdos, mas também de comportamentos, habilidades e regras
sociais. Narodowski
(2001) nos apresenta como os diferentes métodos de ensino foram, ao
longo do tempo, em suas continuidades e descontinuidades,
constituindo formas de organização dos diferentes ambientes onde a
aprendizagem se dava no interior da escola. O espaço escolar
cuidadosamente organizado para a distribuição dos indivíduos que
dele fazem parte constituem uma rede de significados que, ao agir
sobre estes indivíduos (sejam professores/as, alunos/as ou funcionário/as),
conformam corpos, inscrevendo nos mesmos marcas identitárias.
Na
escola, a organização espacial se dá numa distribuição de indivíduos
onde cada um é determinado para certo lugar, conforme aquilo que
apresenta em relação a sua aprendizagem e desenvolvimento. As práticas
escolares fazem parte de um complexo disciplinar, composto de
diferentes técnicas, que Foucault (2002) especifica, entre outras,
como o estabelecimento de um espaço analítico,
ou seja, um espaço elaborado detalhadamente para a vigilância e o
controle contínuo. Controle que permite como e onde encontrar cada
um dos indivíduos, estabelecer as relações necessárias, ausências
e presenças, definir capacidades e incapacidades, méritos e
insucessos. Este espaço analítico implica, segundo o mesmo autor,
a criação de regras de localizações funcionais que se empenham
em construir um espaço útil e produtivo, definindo cada indivíduo
pela posição que ocupa.
Espaço
e tempo entendidos desta maneira nos possibilitam compreender que
aquilo que fazemos e o quê somos não está definitivamente
constituído. Não estamos condenados/as a continuarmos a ser e a
fazer o quê fazemos e em nossas vidas e espaços de trabalho. Na
escola, nos planejamentos curriculares, no cotidiano de convivência
enquanto professores/as apesar daquilo que consideramos necessário
para a organização de nosso trabalho, cabe compreender que podemos
inventar uma outra forma, um outro jeito de ser aluno/a e
professor/a.
|
|

|