O
machismo das mães
Existe
uma relação direta entre machismo e violência contra a mulher?
Nas culturas em que o machismo é epidemia social haveria mais
casos de violência sobre a mulher? Parece que sim. Basta ouvir as
denúncias das vítimas, veiculadas na mídia ou expressadas por
uma ativista dos direitos humanos.
Embora
vítimas do machismo, as mães não capazes de educar os seus
filhos para serem não-machistas. Pergunto-me por que elas não os
educam, desde pequenos, para ajudar nas tarefas domésticas, como
arrumar seu quarto, lavar os pratos, aprender a fazer um arroz, um
café, ou fritar um ovo. Por que as mães de hoje tendem a se
submeterem aos filhos autoritários, ou seja, por que são
passivas diante da atitude mandona deles, por exemplo, para lhes
trazer isso ou aquilo?
Além
de obedecer passivamente, há mães que acham bonito ter um filho
“mandão”, “durão”, “fodão”. Antigamente – e até
hoje – mulheres se submetiam ao autoritarismo “normal” do
pai e, depois que casavam, tinham que submeter ao seu senhor e
marido. Algumas o chamavam “meu senhor-marido”. A cultura
patriarcalista tem o pai como a lei (a “Lei-do-Pai, segundo
Lacan); ele é a autoridade; “o pater,
designa-se originalmente uma paternidade ao mesmo tempo
política e religiosa, e não é senão por via de conseqüência
que ela concerne à família” (JULIEN, P. 1997: 43). O poder do
pai torna-se um dia o da família, o pater
famílias, cuja conseqüência é o dominus,
o senhor da casa (domus).
Hoje,
época em que o pai perdeu o seu dominus,
porque sua lei
– a Lei-do-Pai está em declínio – há um vazio de poder
paterno nos lares (domus);
as esposas-mães de nossa época são mais autônomas em relação
ao marido mas não conseguem preencher o vazio do poder do pai e
nem conseguem se livrar das
ordens e das imposições dos filhos. Quando uma mãe se cala
diante de um “eu quero” do filho, de um “vou sair”, ou da
sua falta de respeito por não fazer o que ela lhe pede, pode
tanto reforçar a imagem de submissão
feminina como valorizar indevidamente o machismo precoce do filho.
Também,
me pergunto por que algumas mães “autorizam” o filho denegrir
as meninas, chamando-as de bobas,
“chatas”, fracas, inferiores?
Por que essas mães não educam os filhos para eles serem
mais companheiros das meninas, mais respeitosos e “iguais” a
elas?
Muitas
vezes uma mãe deixa passar uma “brincadeirinha” machista do
filho, que Freud denomina de chiste. Por exemplo, “brincar” de
fazer da mãe sua “escrava” ou dizer “estou mandando”, são
sinais precoces de machismo autorizado com vistas a se transformar
em traço de caráter.
A
cultura machista tradicional ainda existente em boa parte do
planeta leva o todo da sociedade a investir mais nos meninos e
rejeitar as meninas. Meninos, nessa cultura, representam mais força
física para sustentar a economia baseada na estrutura de subsistência
familiar. Há países cujo machismo é tão cruel que faz das
mulheres serem desprezados e serem socialmente invisíveis.
No Brasil ainda há casos em que é mais valorizado o nascimento
de meninos do que de meninas; alguns não conseguem disfarçar sua
admiração mais a um filho porque é homem do que uma filha por
ser mulher.
Muitas
mães ainda educam os filhos para não demonstrarem emoções,
reprimirem o choro, o medo e a dor. Pouco a pouco eles aprendem a
silenciar seus sentimentos, emoções, desejos, falhas de
desempenho. Quando adultos, suportam carregar a “couraça
caracterológica” que o protege e também o aprisiona. Já as
meninas são autorizadas a chorar, devem ser boazinhas,
subservientes, obedientes, dependentes. Sempre. Desde cedo,
alertam as meninas para ter muito cuidado com os meninos “terríveis”.
Exortam o menino “macho” para ir à luta, ser aventureiro, ser
namorador... De modo que, quanto uma adolescente fica grávida a
responsabilidade dificilmente atinge o rapaz educado de modo
machista. A educação não-machista dos meninos faria deles
pessoas mais responsáveis na condução da sua vida e dos outros
também.
É
verdade que o pai sempre contribuiu para reforçar o traço de
machismo na personalidade do filho. O complementar do machismo é
o “marianismo” (MATARAZZO, s.d.: cap. 8). Com a mudança dos
costumes, um pai aparentemente liberal deixa passar nos chistes e
nas conversas reservadas a preferência por um filho “durão”,
mas tem dificuldades de lidar com o seu lado sensível. Por
exemplo: um pai deu um carro para o filho após terminar o “terceirão”,
mas não teve a mesma atitude generosa de reconhecimento para com
a filha, que entrou num concorridíssimo curso de uma prestigiada
universidade. Como será que ela se sentiu? Outro caso, um pai não
conseguia valorizar a escolha do filho por uma faculdade ligada às
artes, não porque ele entendia ser uma escolha “feminina”,
mas porque não tinha mercado garantido. Aqui, o mecanismo de
racionalização e aparente pragmatismo, camuflam o seu machismo.
Há
pais que não poupam carinho “de graça” para os seus
filhinhos, enquanto as filhas precisam tornar-se visíveis para
receber algum afeto positivo. O fato de as meninas serem mais
carentes não é totalmente negativo para o desenvolvimento de
suas personalidades porque essa falta essencial pode gerar nelas
um forte desejo de estudar e de se esforçar para ganhar a concorrência
profissional. As mulheres são hoje quase 60% das vagas nas
faculdades do Brasil. Elas hoje ultrapassaram os homens ocupando
vagas nas universidades e se destacando nas diversas profissões
de nível superior. Contudo,
ainda há um número significativo de mulheres que terminam
desistindo de fazer carreira profissional porque os valores
machistas assimilados exercem pesada influência nelas para terem
como única meta de vida um bom casamento, ou seja, para serem
dependentes eternas de um marido “machão”. Novelas de época,
como a atual “Alma gêmea”, demonstra tais valores sendo
predominantes.
Meu
recado para as mães é: parem
de fazer do filho um machista, porque a vítima pode ser a você,
a família, toda a sociedade e ele próprio.
Bibliografia.
BADINTER,
E. Sobre a identidade
masculina. Rio: N. Fronteira, 1993.
JULIEN,
P. A feminilidade velada:
Aliança conjugal e modernidade. Rio: Companhia de Freud,
1997.
MATARAZZO,
M. H. Nós dois: As várias
formas de amar. São Paulo: Gente: s.d.