O que
queremos e como lutaremos para a regulamentação profissional
do Turismólogo em 2006?
Caros
turismólogos e pensadores do turismo brasileiro não queremos
fazer uso de jargões ou frases de efeito do período de saudosa
militância estudantil, mas sim, dirigir-me a vocês como um dos
intelectuais orgânico que estudam o fenômeno do turismo no
Brasil. Demonstrando que a preocupação para com o turismo
brasileiro deve levar em conta o desenvolvimento de políticas públicas
vinculadas aos interesses das classes populares, pois 80% compõem
a estratificação social da pirâmide populacional brasileira.
Esse
é o pressuposto balizador e central do nosso discurso: A
obrigação do Estado na elaboração de Políticas
Públicas em Turismo, porque num país em que 20%
da população detêm as riquezas da nação e o restante vive
na linha da pobreza e miséria, só podemos pensar num Estado
que seja capaz de intervir em favor da elaboração de programas
para o desenvolvimento de atividades turísticas como políticas
públicas.
Nesse
sentido, evidencia-se o entendimento do Estado como formulador
de políticas públicas é a premissa fundamental do nosso
pensamento, como acadêmico e militante na luta em favor da
regulamentação do profissional. O que desmistifica a idéia
equivocada daqueles que pensam e verbalizam que a academia deve
estar afastada da militância política como se esses campos
fossem excludentes.
Existe
na verdade uma premissa na ideologia neoliberal que tenta
separar o pensamento produzido nos centros universitários da
realidade objetiva, essa tendência produz um estrago no
pensamento racional alimentando o patrulhamento ideológico
contra pessoas e grupos. A idéia de que a ciência e ideologia
são separadas é de uma ingenuidade atroz, mas é cultuada pelo
neoliberalismo e aí podemos recorrer ao filósofo Georg Lukács
que esclarece em sua obra intitulada El asalto a la razon:
Una
de las tesis fundamentales de este livro es la de que no hay
ninguna ideologia “inocente”. No
la hay em ningún sentido, pero sobre todo em relación com
nuestro problema, y muy em especial en lo que se refiere
cabalmente al sentido filosófico: la actitud favorable o
contraria a la razón decide, al mismo tempo, em cuanto a la
esencia de uma filosofia como tal filosofia, em cuanto a la misión
que está llamada a cumplir en el desarrollo social.
Os
estudos no campo das ciências humanas, referente à ideologia
demonstram que toda palavra é ideológica, ela é produto de
uma realidade histórica determinada que é expressão de uma
forma de poder. Nesse caso, a ideologia esta presente em toda e
qualquer expressão humana, por isso a discussão se algo é
ideológico ou não é indevida e irracional.
Com
isso, podemos afirmar que não há pensamentos inocentes,
neutros ou que estejam desvinculados de uma referência política
ou ainda que não possuam força material, todos expressam uma
vontade de ver e ser do mundo, isto é, uma ideologia.
Assim
a regulamentação da profissão de turismólogo, projeto lei
n.24 de 2003 que foi vetada pelo presidente Lula em 16 de
dezembro de 2005, não pode ser analisada a partir do veto do
mesmo, como se ele fosse o grande vilão da história. Culpar o
presidente pelo veto à regulamentação profissional é não
entender que é a luta de classes que
movimenta a realidade histórica.
O
pensamento neoliberal busca embotar o pensamento crítico e
racional como forma de encobrir a compreensão do concreto,
buscando identificar o culpado único desse processo. Com isso,
de forma disfarçada tenta negar a existência da luta de
classes como o motor da história.
Em
primeiro lugar, poderíamos perguntar, quem são os
“inimigos” dos turismólogos? Obviamente numa resposta
imediata, buscaria um ou alguns culpados. Aí nós estaríamos
repetindo a mesma fórmula do pensamento burguês irracionalista,
buscando individualizar a compreensão da realidade negando sua
historicidade.
Há
necessidade de entender os turismólogos dentro de todas as
dimensões que compõem o processo histórico e decifrá-lo
dentro do jogo político e econômico que governa a realidade.
Para isso, necessitamos contar com entidades combatidas no campo
da militância organizativa da categoria e que se dediquem ao
estudo do fenômeno turístico. Pode-se perceber que esses
encaminhamentos estão longe de existir, o que aparece são
aplausos em demasia à criação ao dia dos turismólogos – 27
de setembro e ao projeto lei 11.260/2005 que institui 2006 como
ano do turismo, bem como, a criação do Empreendetur que
só serviram como referência simbólica, pois não mudou em
nada a situação dos turismólogos, da empregabilidade no
mercado.
Existe
uma quantidade razoável de empregos no ramo do turismo (na qual
o Estado trabalha constantemente junto à mídia as
oportunidades de se conseguir empregos) em comparação a outras
profissões, entretanto, se aprofundarmos essa análise daremos
conta que a lógica do mercado perceptível e sensível percebe
que a oferta é maior que a demanda e que a qualificação dessa
mão de obra que sai das faculdades deixam a desejar, portanto,
o mercado determina faixas salariais com baixíssima remuneração.
Na
verdade não faltaram ações para desviar a atenção sobre a
regulamentação enfraquecendo e confundindo a luta em torno da
organização da categoria, bem como, condenando como inimigos
todos aqueles que se mostravam incisivos em favor da regulamentação..
Entendemos
que o veto à regulamentação profissional se deve a uma
questão de luta política e não por culpa exclusiva
do presidente da república. Mas ainda, de nos que não soubemos
organizar politicamente (por uma incompetência assaz
humilhante, não fizemos aliados e não tornamos as alianças
políticas em luta e defesa do coletivo). Demos apoio a
programas de perfil tecnicista e prático insustentáveis e
inconsistente teoricamente, enganando nossos estudantes e
iludindo-os a se tornarem proprietários de seus próprios negócios.
Em uma política econômica recessiva em que os juros altos
contaminam qualquer atividade econômica, embarcamos no espírito
empreendedorista das magias
pela ilusão do capital.
Estamos
falando do Empreendetur programa que busca despertar o
tino empreendedorista em nossos alunos e que é sustentado em
palestras de auto-ajuda, fazendo a mídia do fetiche da
empregabilidade em uma economia recessiva que impõe aos indivíduos
a aventura de montar seu próprio negocio em razão da inexistência
de empregos. Essa máscara do neoliberalismo para ocultar a
crise da economia globalizada que trabalha na aparência das
causas como solução para os problemas estruturais.
Nossa
ação em 2006 será a de combater as iniciativas desviantes que
surjam para enfraquecer a regulamentação da profissão de
turismólogo, para isso há necessidade de tomarmos atitudes
mais coletivas que podem facilmente ser efetivadas, tais como:
-
O
estudante em sua instituição, quando for estruturar a
semana de turismo ou qualquer outro evento similar deve
contemplar sempre o debate sobre a regulamentação da
profissão. Entendendo que a mesma é resultado de uma luta
política e sindical que há interesses econômicos que se
opõem aos nossos interesses de classe;
-
Tornar
o dia 27 de setembro em uma data em que os estudantes
discutam a regulamentação profissional;
-
Nos
debates em que a Embratur estiver presente, questionar a
opinião dos mesmos no que se refere a nossa regulamentação.
Essas
ações podem parecer pequenas, mas se em todos os eventos de
turismo realizados pelas instituições de ensino superior
conseguirmos um espaço para o debate de nossa regulamentação,
o assunto começa a ser entendido em sua dimensão histórica. A
luta pela regulamentação do turismólogo passa por questões
epistemológicas e acadêmicas nas quais
os pensadores desse fenômeno devem ser consultados.
O
importante dessa luta é entender sua dimensão de cidadania,
por isso devemos reler os textos que escrevemos há dois anos
atrás: 27 de setembro dia do turismólogo: festejar ou
organizar “a lógica da consciência de classe”. O
embuste da certificação na luta contra a regulamentação
profissional: as falas que retardam a organização política
dos turismólogos.