Por MOISÉS STORCH

Coordenador dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA - PAZ AGORA/BR

 

A historiadora Esther Kuperman colaborou na elaboração deste texto.

 

 

Após o Terremoto Verde

(especial para a Revista Espaço Acadêmico)
 

Não temos nem o desejo e nem o tempo para esperar outros 25 anos, até que Israel e o Hamas descubram novamente as verdades básicas de que a Terra de Israel precisa ser dividida em duas Nações-Estado, e que isto não pode ser feito sem conversações.

Tom Segev -30/01/2006 [> ref.1]

 

Se as recentes eleições legislativas na Autoridade Palestina representam em si um avanço enorme da democracia na região, seu resultado imediato é um retrocesso ainda maior nas perspectivas de uma retomada do processo de paz.

Mas será que o estrondoso resultado do Hamas nas urnas significa uma opção do povo palestino pelo terrorismo e por ''varrer Israel do mapa''?

Consistentes pesquisas de opinião têm indicado que (ainda) não.

Segundo pesquisa realizada nesta semana, 84% dos palestinos defendem um acordo de paz com o Estado judeu, e nada menos de 73% deles acham que o ''Hamas deve mudar sua posição com relação à eliminação do Estado de Israel". Mais ainda, 77% dos que votaram no Hamas são favoráveis a um acordo. [> ref.2] 

Paradoxos no Espelho

Voltando alguns anos atrás, encontramos paradoxo igual no outro lado: a esmagadora maioria do povo israelense era favorável à criação de um Estado Palestino, mas elegeu um governo ultra-nacionalista que não reconhecia nem a existência do povo palestino e, muito menos, o seu direito à soberania.

O que há em comum nestes dois aparentes paradoxos é que ambos os eleitorados, mais do que para uma plataforma de confrontação, votaram movidos pela desesperança e a insatisfação com uma realidade insuportável.

De Oslo à Intifada

Sharon foi eleito no anticlímax do processo de Oslo, quando tudo indicava que suas negociações iriam desembocar numa paz justa e definitiva. Naquele momento, a partir das concessões inéditas que Ehud Barak propunha – incluindo a renúncia a parte de Jerusalém, até então um tabu – parecia que a paz estava à distância de um aperto de mão.

As expectativas do povo israelense, que até então se alinhava em massa ao campo pacifista, foram frustradas pela falta de reciprocidade de Arafat. Seu rechaço às propostas de Barak que, se não eram irrecusáveis, ofereciam uma base avançada e realista para negociar um acordo definitivo, foi acompanhado por uma onda sem precedentes de terrorismo e violência. Uma bofetada no campo da paz israelense, então majoritário.

Os israelenses, esvaziados repentinamente da confiança na possibilidade de negociações, votaram na figura carismática que lhes prometia segurança através da força. A longa revolta armada palestina, baseada em atentados terroristas, semeou a insegurança em cada lar israelense. As respostas do aparato militar de Israel castigaram indiscriminadamente todo o povo palestino.

Primavera com Poucas Rosas

Se do lado israelense houve uma grande frustração com a ruptura do processo de Oslo e o recrudescimento da violência e do terror, esta frustração não foi menor no lado palestino.

À euforia inicial, quando, pela primeira vez, em 1993, eles viam orgulhosamente a bandeira palestina, tremular na Esplanada das Mesquitas de Jerusalém – símbolo de sua luta pela emancipação nacional –, seguiu-se uma promissora primavera de construção de suas instituições. Vicejavam iniciativas de cooperação entre israelenses e palestinos em áreas artísticas, educacionais, tecnológicas e culturais.

Com a criação da Autoridade Palestina, embrião de um futuro Estado, afinal, ambos os povos tiveram a oportunidade de se enxergar e respeitar como seres humanos, com direito às suas próprias identidades.

Mas nem tudo eram rosas. Os anos se passavam, e as condições da massa da população palestina pioravam.

As instituições criadas pela Autoridade Palestina, e os volumosos recursos financeiros que esta recebia de doadores internacionais, eram manipuladas por um sistema político despótico, centralizado pelo rais Yasser Arafat.

Os recursos públicos não chegavam ao seu destino. Ficavam retidos nas malhas de uma burocracia corrupta, constituída basicamente pela ''velha guarda'' da Fatah – que, após o Acordo de Oslo, voltou do exílio de Túnis junto com Arafat.

O resultado foi uma acentuada degradação das condições sociais e econômicas de ambos os lados, e um ciclo vicioso mortal de violência, ódio e empobrecimento, com a perda da vida de milhares de pessoas.

As péssimas condições dos palestinos, logicamente, eram atribuídas exclusivamente a Israel, através de propaganda sistemática nos meios de comunicação e currículos escolares, igualmente centralizados.

Verde Florescente

Enquanto isto, os serviços sociais, educacionais e hospitalares, que não eram supridos pelas instituições oficiais da Autoridade Palestina, foram sendo crescentemente fornecidos por um complexo sistema paralelo dirigido pelo movimento integrista islâmico Hamas.

Boa parte da responsabilidade pela ascensão do extremismo islamista cabe aos próprios líderes da Fatah, que uma vez no poder não reverteram os meios materiais de que dispunham em benefício da própria população e tampouco contiveram os bandos armados que foram conquistando o controle de fato das suas ruas.

Com o patrocínio econômico e o apoio logístico de regimes ditatoriais visceralmente antagônicos a Israel, como Arábia Saudita, Síria, o Irã e o Iraque de Sadam Hussein, o Hamas foi ganhando popularidade por seus serviços assistenciais, embalados na ideologia de destruir o ‘’inimigo sionista’’ (Israel).

Junto a alimentos e remédios, disseminou a cultura da Jihad (guerra santa islâmica) e dos shahids (apologia do ’’martírio’’ dos homens-bomba suicidas) por todo o tecido social.

Paralelamente, os territórios da Cisjordânia e Gaza, que pelo Acordo de Oslo dariam lugar à criação do Estado Palestino, continuavam sendo palco da multiplicação de assentamentos judeus. Os assentamentos afrontavam (e o continuam fazendo) as populações vizinhas como ilhas de prosperidade e abundância, ocupando terras que muitas vezes haviam sido por gerações de propriedade de famílias árabes, que se viam privadas de seus meios de subsistência pelo colono invasor.

Nesse cenário geral, tornou-se inevitável o crescimento explosivo da insatisfação popular, que culminou com a Intifada de al-Aqsa. A partir daí, o quadro só piorou.

Muro pela Culatra [> ref.3]

A escalada da violência levou ao alto a bandeira verde do Hamas. A cada um de seus atentados terroristas, seguiam-se enérgicas e indiscriminadas represálias militares de Israel, que ao invés de debelar o terror, alimentavam a fila de candidatos a homens-bomba.

Do lado israelense, foi crescendo a pressão popular pela construção de uma barreira física ao longo da fronteira com a Cisjordânia, para impedir a infiltração de terroristas. Após muita oposição por parte da direita israelense em implementar tal plano, pois este traria implícito o reconhecimento de que do outro lado da barreira seria estabelecido um Estado Palestino, deu-se o início da construção da chamada ''cerca de segurança'' (ou “muro”).

A proposta inicial era de uma cerca ao longo da Linha Verde (fronteira anterior a 1967), ponto de partida em todas as negociações já havidas entre as partes, para os limites do novo Estado Palestino.

Tal opção alimentaria nos palestinos a esperança de ter um país viável, e, ao mesmo tempo em que garantiria a segurança dos israelenses, geraria uma perspectiva positiva para a retomada do processo de paz.

Qualquer pessoa tem o direito de defender sua família. Nós, brasileiros, conhecemos como ninguém a prática de, nas grandes cidades, proteger-nos com dispositivos eletrônicos, vigias e cercas, horríveis mas necessárias.

Se isto é válido para indivíduos, torna-se uma obrigação para um país vítima de atentados suicidas de grupos que juraram destruí-lo, e que têm como principal estratégia a morte indiscriminada de civis.

O muro é totalmente legítimo.

Mas desde que seja construído no próprio terreno e não dentro da casa do vizinho.

Não foi este o caso. Parte importante do traçado da cerca de Sharon não foi projetada para preservar a segurança de Israel, mas para literalmente roubar terras alheias. Em vários trechos, a barreira penetra profundamente na Cisjordânia, contornando assentamentos ilegais e cortando ao meio ou isolando comunidades palestinas. Centenas de milhares de pessoas, sem nenhuma justificativa de segurança, são privadas do livre acesso a comunidades vizinhas, escolas e hospitais, e muitas vezes até às suas próprias plantações.

Se a ocupação já era aviltante, o muro leva a vida dos palestinos à raia do insuportável. Ao contrário de seus defensores, que diziam que, além de bloquear o terror, “reduziria o nível de atrito entre populações hostis”, o que se construiu é uma fábrica de ressentimento, ódio, e... terrorismo.

Não Tem Conversa

Enquanto isto, o governo Sharon insistia na força como único instrumento para debelar a intifada, adotando como dogma absoluto o mote deixado pelo seu antecessor, Ehud Barak, após o fracasso das negociações com Arafat: “Não existe parceiro palestino para negociações”. E não negociou mesmo, nem quando Arafat, falecido, foi substituído por Mahmoud Abbas, líder que possuía qualidades bem diversas do antecessor, e que havia sido um dos primeiros líderes palestinos a condenar a luta armada.

O plano de desligamento de Gaza poderia ter sido uma excelente oportunidade para fortalecer Abbas e as novas lideranças moderadas palestinas. Caso, em vez de seu caráter estritamente unilateral, a saída de Gaza tivesse sido negociada com as autoridades palestinas, dando maior atenção para as necessidades da população do território evacuado, o plano teria representando um amplo trunfo para os setores políticos palestinos que defendem o entendimento.

Mas a rígida posição de Sharon e sua insistência em não negociar permitiram, ao contrário, que a saída de Gaza fosse capitalizada pelos setores extremistas. Enquanto o Hamas difundiu com sucesso a tese de que a retirada foi uma vitória da resistência armada, as lideranças da AP ficaram com a responsabilidade de colocar em ordem uma casa devastada com um milhão de desempregados.

Assim como a ascensão de Sharon ao poder teve como seu principal eleitor o terrorismo palestino, somado ao boicote de Arafat às negociações em Camp David, o Hamas deve agradecer pelo seu rápido crescimento nos últimos anos à insensata política israelense de ocupação e à total indisposição de seu governo para negociar.

Alerta Verde

A retumbante vitória eleitoral do Hamas, da mesma forma que a ascensão de Sharon há alguns anos, não significa o fim da esperança numa paz duradoura entre israelenses e palestinos. Nenhum destes fenômenos foi produto do desejo majoritário de “destruir o adversário”, mas sim resultante da desesperança e frustração.

A maioria de cada um dos povos aceita a soberania do outro, e sabe que esse “outro” tem também direito a parte daquela pequena terra, pois não tem outro lugar para onde ir.

Ambos os lados estão cansados da guerra. Décadas de sacrifícios imensos e derramamento inútil de sangue, ensinaram israelenses e palestinos que não existe opção senão dividir a mesma pequena casa que chamam de Terra de Israel ou de Palestina em dois Estados que convivam lado-a-lado. Pois não existe força no mundo que os tire de lá.

A vontade popular levou Sharon a mudar, e mesmo tendo declarado que o processo de paz estava sepultado, acabou reconhecendo o absurdo da política de ocupação, e promoveu o desligamento de Gaza. O Hamas, para conseguir a expressiva votação que obteve neste 25/1, alterou significativamente seu discurso. Na campanha eleitoral não lançou os habituais slogans que incitavam à destruição da “entidade sionista” (Israel), nem instigou a jogar os judeus no mar Mediterrâneo. De maneira diversa, concentrou suas palavras de ordem no combate à corrupção e ao caos da Autoridade Palestina.

Esta mudança de foco não significa necessariamente que o Hamas mudou na essência. Mas no mínimo mostra que seus líderes perceberam que seus antigos slogans terroristas não são mais tão sedutores, e que a maior preocupação do povo palestino é ter uma vida decente e normal, em seu próprio país.

Democracia e Terror

Não se deve desprezar a importância destas eleições parlamentares como prática democrática. O sistema eleitoral representativo, que a AP foi capaz de colocar em prática apesar de todas as limitações e desafios, é um indicador importantíssimo do amadurecimento da sociedade palestina. As novas instituições políticas palestinas, assim como os mecanismos de democratização que lá se estão desenvolvendo apontam para um modelo de cidadania sem paralelo em qualquer país do mundo árabe.

O “alerta verde”, entretanto, não pode ser subestimado. Para que as virulentas idéias explicitadas na carta de princípios do Hamas não proliferem, agora que o movimento adquiriu expressiva representatividade política, é necessário, mais do que nunca, reviver a esperança deste povo sofrido.

Isto irá depender, em muito, das atitudes do novo governo de Israel, que ainda detém o controle dos principais acessos da Faixa de Gaza evacuada, e prossegue com iniciativas insanas e provocativas de ocupação na Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Israel precisará tomar medidas que respeitem o direito dos palestinos a uma vida decente, e abandonar decididamente a política de ocupação e as práticas que implicam em punição coletiva e indiscriminada a populações inocentes.

Cabe aos pacifistas palestinos, agora na oposição, assumir pública e veementemente a defesa de suas posições, de forma a conquistar as ruas e casas palestinas com uma cultura de paz. Para isto, porém, eles precisam ter algo de concreto para mostrar ao povo como resultado do diálogo.

O ressentimento palestino continua sendo alimentado pela miséria e pelo abandono em que se encontram. Fortalecer efetivamente a nascente democracia palestina, para impedir o seu seqüestro por uma teocracia terrorista, depende de uma forte ajuda internacional para reconstruir a infra-estrutura nos territórios, suas instituições civis e sua segurança.

Condicionar de forma absoluta a ajuda financeira internacional à alteração nominal dos princípios terroristas e racistas do Hamas, pode provocar um impasse e o aprofundamento da miséria para níveis insuportáveis. Isto causará um perigoso efeito bumerangue, com a explosão de uma violência incontrolável e o aumento do poder dos setores mais extremistas.

Além disto, recursos financeiros alternativos podem ser alternativamente captados pelo Hamas, em fontes como a Síria ou Irã, regimes que sempre alimentaram o terror contra Israel. Alguns milhões de petrodólares não fariam falta ao país cujo presidente se propõe a “varrer Israel do mapa”.

O Hamas não tem experiência de governo, mas é altamente especializado na fabricação do terrorismo.

Acuado, e com este patrocínio ''seleto'', terá como matéria-prima milhões de desamparados, e toda a estrutura da AP para a sua linha de produção de homens-bomba.

A ajuda humanitária deve continuar e mesmo aumentar, mas deverá ser feita através de órgãos, ONG's e instituições da sociedade civil, desvinculados da administração do Hamas. O povo palestino perceberá não estar privado da solidariedade internacional. Poderá também enxergar que a ajuda recebida será em função do apoio à sua justa luta pela emancipação, e não como prêmio e reconhecimento a uma organização que prega o crime e o genocídio.

Paralelamente, seria negociado o envio de forças internacionais de paz, para ajudar a na ordem interna e na segurança dos territórios, com o recolhimento das armas dos grupos radicais como condicionante para a retomada do apoio financeiro à Autoridade Palestina.

Os enormes recursos despendidos pela AP com seus vários e concorrentes organismos de segurança (que pouca segurança têm trazido à população) poderiam ser direcionados para suprir as carências de infra-estrutura, gerar empregos e desenvolvimento.

Seja isto tudo viável ou não, a lógica e o bom senso apontam para um Hamas relativamente moderado, o prolongamento tácito do cessar-fogo, e seu afastamento, mesmo que não declarado, das práticas terroristas e negacionistas.

Retrocesso Perigoso

Até a semana passada e desde os Acordos de Oslo, enquanto os israelenses e palestinos eram representados por lideranças que reconheciam reciprocamente o outro povo e seu direito à soberania, repetíamos que "A Paz é Necessária e Possível".

Após o povo palestino ter elegido para representá-lo um grupo extremista, que nega por princípio a existência do Estado de Israel, a retomada do processo de paz inaugurado em Oslo torna-se muito mais difícil. Mas ainda mais urgente.

Para evitar que o futuro da região seja novamente engolfado pela violência e o terror, é urgente que as forças políticas moderadas de Israel e da Autoridade Palestina se reorganizem e se reforcem mutuamente, corrigindo seus erros de percurso, propagando a cultura de paz e pressionando seus governantes a retomar o diálogo.

Os palestinos sabem que dificilmente Israel irá negociar com uma entidade que prega oficialmente a sua destruição. Assim, à luz do previsto predomínio do Hamas no próximo governo palestino, a comunidade internacional (incluindo o Brasil) deve fazer um esforço concertado para apoiar o campo moderado palestino, pressionar o Hamas a reconhecer o Estado de Israel, cessar a violência contra seus cidadãos, e renunciar definitivamente às práticas terroristas.

Buscar Nova Chance

Infelizmente, da mesma forma como Arafat desperdiçou uma oportunidade ímpar de dar ao seu povo um Estado, Israel jogou fora – ao insistir na estratégia unilateral e esquizofrênica de ignorar seus interlocutores – uma chance singular de negociar uma paz justa e definitiva com uma liderança moderada e sensata.

Agora o diálogo não será feito com parceiros, mas com inimigos declarados, caso estes se disponham a sentar-se numa mesma mesa, ou ser buscado entre os que detém apenas parcela do poder político.

Se negociações imediatas, ainda que pontuais e intermediadas por terceiros, levarem a resultados palpáveis e concretos no dia-a-dia da população, estará criado um círculo virtuoso que quebrará a espiral da violência.

O enorme entrelaçamento das economias da Autoridade Palestina e de Israel, após quase 40 anos de ocupação, torna inevitável e urgente a retomada de contatos, ainda que seja para manter canais para, por exemplo, a manutenção do fornecimento de água e energia, já que as redes de serviços públicos são quase que totalmente integradas.

O diálogo com Israel, portanto, virtualmente necessário para a subsistência dos territórios palestinos, deverá ser feito. E caso não seja possível por representantes do Hamas, o será por autoridades da própria ala moderada da Fatah, que sairão fortalecidos por seu papel importante nesta interlocução e na captação de recursos no exterior.

Poder Compartilhado

Esta realidade, que os líderes do Hamas não podem ignorar, deverá traduzir-se num peso significativo dos setores moderados na nova balança de poder da Autoridade Palestina.

Não se deve esquecer que a ala mais moderada da Fatah ainda mantém o poder executivo, com a legitimidade de um presidente eleito há apenas um ano por votação direta e que, conforme pesquisas [> ref.2], ainda é avaliado positivamente por mais de 80% da população.

A nova democracia palestina em gestação é teoricamente presidencialista, embora a divisão de poderes entre o executivo e o parlamento seja ainda nebulosa. Nessas condições, e mesmo porque o próprio Hamas não estava preparado, nem dispõe de quadros para assumir toda a máquina governamental, assistiremos a uma etapa crítica de divisão de poder, que dificilmente será monopolizado pelo Hamas, e ainda menos pela sua ala mais radical.

Apesar do Hamas – Busquemos a Paz

A conversão do Hamas, de organização criminosa terrorista para um partido político responsável, caso venha a ocorrer, não será um processo rápido. Mas já se ouviram vozes do primeiro escalão do Hamas falando da possibilidade de negociações com Israel.

A organização demonstrou notável disciplina e unidade na manutenção de um longo cessar fogo, coisa que a própria Fatah nunca conseguiu fazer com seus grupos armados dissidentes. Caso, porém, prevaleçam na nova divisão do poder político os extremistas que lhe deram o tom desde sua criação, um longo período de sofrimento aguardará os dois povos, até que surjam novas lideranças progressistas e o processo de paz seja retomado.

A cada dia em que prossegue o conflito, maior a degradação do padrão de vida de milhões de pessoas, e a perda de vidas insubstituíveis. É dever da comunidade internacional fazer o máximo para impedir que a região mergulhe novamente num banho de sangue

Já se perdeu muito tempo e vidas demais.

Parceiros para negociar sempre existiram e continuam existindo.

No lado palestino, existem grupos como o da Iniciativa de Genebra [> ref.4] (que conta com expressiva simpatia da população e mantém um diálogo permanente com o congênere israelense) e o núcleo de sustentação do presidente Abbas, que conserva grande representatividade. Há vários deputados recém-eleitos que defendem posturas pacifistas, e até parlamentares eleitos na chapa do próprio Hamas, que se mostram dispostos ao diálogo.

No lado israelense, além das numerosas instituições pacifistas que permeiam a sociedade civil, existem vários partidos políticos, como o Meretz, o partido Trabalhista que adotam plataformas que priorizam o processo de paz. E até mesmo o novo Kadima, favorito para as próximas eleições, que se rendeu à tese da criação de Dois Estados – Israel e Palestina – vivendo lado-a-lado.

O bom senso, que faltou aos líderes da região até hoje, será agora ainda mais necessário para reativar, com urgência, as negociações de forma a estancar a desesperança e a violência.

Só através do diálogo, baseado no reconhecimento mútuo, poderá ser concretizado o sonho da grande maioria dos israelenses e palestinos :

PAZ AGORA!

© PAZ AGORA/BR

Reprodução permitida com os devidos créditos ao autor,à fonte e ao PAZ AGORA/BR - www.pazagora.org

 

> links das referências >

[versões em português do PAZ AGORA/BR]

[1] - Tom Segev (30/01/2006)'Olhando para Trás, com Raiva';

[2] - Al-Jazeera (30/01/2006) - 'Palestinos Querem Mudança no Hamas';

[3] - Moisés Storch (28/10/2003) - 'Cerca ou Muro – Israel, Palestina e PAZ AGORA';

[4] – ‘Acordo de Genebra (01/12/2003) - texto completo, comentários e repercussões.

 

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