por FRANCIS DOV POR

Francis Dov Por, nascido 1927 na Romênia. Casado com Dra. Scintila de Almeida Prado.
Desde 1960 na Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor emérito de zoologia, na área de zoologia aquática, biogeografia e evolução. Presidente Fundador da Sociedade Internacional de Zoologia.
Professor convidado da USP, Depto. de Ecologia Geral, 1981-1997.

 

 

 

Mozart em Beer-Sheva  e a Vitoria do Hamas

 

Era o outono de 1948. Mal proclamado o Estado de Israel, o exercito popular da Hagana conseguiu repelir os invasores egípcios que chegaram até as vizinhanças de Tel Aviv. Leonard Bernstein chegou para tocar com a Orquestra Filarmônica da Palestina, recém renominada Filarmônica de Israel, e quis tocar para os soldados no deserto de Neguev. Um comboio de carros blindados levou a orquestra até o lugarejo de Bir Saba, o bíblico Beer-Sheva onde Abrão visitou o carvalho de Mamre. Tinha no lugar somente uma dúzia de casas de pau-a-pique. Bernstein, portanto, tocou o concerto de piano em si bemol de Mozart num sítio arqueológico, entre as pedras e rochas. Centenas de soldados, rapazes e meninas, vestidos de kaki empoeirado, ouviram em silencio, com os fuzis ao lado. A retirada de Beer-Sheva programada para aquele dia, seguindo um cessar fogo decretado pela ONU, foi adiada até o fim do concerto.

58 anos depois, o dia de aniversário do nascimento do Mozart, festejado pelo mundo inteiro, em 27 Janeiro deste ano, coincidiu com o dia em que foram publicados os resultados das eleições na Palestina, anunciando a vitória esmagadora do Hamas.

Confesso que o meu "multiculturalismo" respeita o que é bom nas outras culturas, mas dá prioridade á cultura que produz um Mozart. Assim pensam também os inúmeros grandes interpretes japoneses, coreanos e chineses. Admiro também o pianista árabe-israelense Abu Ashqar quando toca o concerto de Mozart.

O que me assusta na vitória eletoral do Hamas não e o fato de que eles querem a aniquilação de Israel. O Arafat do Fatakh também quis no fundo a mesma coisa. A duplicidade política do Fatakh se juntava naturalmente à  demagogia barata e à corrupção indecente desta liderança.

O Hamas que foi eleito como alternativa, pelo voto de um povo escandalizado com o Fatakh, vai ter que gerar o bem-estar geral tão esperado. Com a eletricidade, o combustivel, a água, a rede telefônica vindo de Israel, com todos os portos de acesso ao território "inimigo", um governo Hamas vai ter que chegar a um modus vivendi com o "pequeno satanás".

O processo de paz e o "mapa de estrada" do Bush receberam um sinal vermelho pela onda verde do Hamas. De qualquer maneira, poucos ainda acreditam em Israel nesta previsão otimista. Mesmo com Sharon cerebralmente morto a política sharonista é mais viva do que nunca: a meta é completar a cerca, definir unilateralmente as fronteiras de separação entre as duas entidades políticas dos dois povos, e transformar as velhas barreiras em postos de fronteira. É preciso combater a ameaça demográfica que tomou o lugar das ameaças militares e terroristas. Esta línha pragmática e sem ilusões vai vencer sem dúvida nas eleições israelenses de março próximo, marginalizando os ideais da direita e de esquerda.

O problema porém, é muito mais grave e de repercussões muito mais amplas. Eleições livres não garantem a democracia, por serem somente um primeiro ato num processo comprido. No seu tempo, Hitler aproveitou das eleições democraticas para pegar o poder. Mais recentemente, na Argélia, foi o exército que anulou a vitória eleitoral dos fundamentalistas muçulmanos. Também na Turquia de hoje, o exército impede os excessos do partido islâmico livremente eleito. Apesar das esperanças americanas, poucos acreditam que o Iraque pós-eleições se torne um país democrático.

A vitória eleitoral do Hamas vai repercutir antes de mais nada na vida civil da Palestina, numa sociedade considerada como a mais progressista do mundo árabe. Já sabemos que a "sharia", a legislação religiosa islâmica vai ser introduzida no lugar do direito civil moderno. A sharia não conhece nenhum princípio democrático básico. As mulheres serão segregadas e os cristãos e os intelectuais serão submetidos à perseguição da suma autoridade dos sábios religiosos. A educação e a mídia serão rigidamente controlados  pelo regime teocrático. Ouvir música "ocidental" é proibido pela lei da sharia, Mozart incluído.

Pela primeira vez, depois de quase cem anos, um regime islamista, um "Hamastan" será instaurado não somente a poucos quilômetros de Tel Aviv, mas nas portas mesmo da Europa. Até agora, a sharia regia longe daqui: em partes da África, no país do Taliban ou no Irã. Não levou nem ao bem-estar nem à felicidade dos seus súditos, e certamente os interditou a mudarem de idéias e a derrubarem as ditaduras nas urnas. Na Europa vivem hoje dezenas de milhões de muçulmanos. Se a filosofía "electocrática" fosse aplicada lá também, vários Hamas nacionais iríam surgir. Num futuro continente unificado o partido muçulmano viraria uma força política cada vez mais crescente. Pequenos Hamastans endêmicos já existem na Europa, e até na longínqua Austrália. As mulheres muçulmanas escravizadas, pobres máquinas de reprodução, têm a função de providenciar o crescimento geométrico deste novo eleitorado.

A civilização que produziu um Mozart, forneceu também a medicina, o sistema econômico e financeiro e as maravilhas da tecnologia modernas. Os países fundamentalistas estão usufruindo de tudo isso só para promover os seus próprios projetos, rejeitando no mesmo tempo a educação liberal e a criatividade individual que geraram estas realizações. Diferente da alta Idade Média, o mundo islâmico não produz desta vez nem um holofote cultural de âmbito mundial. Nem sequer existe lá uma orquestra sinfònica. Aonde conseguiu, logrou-se um retrocesso cultural, um igualitarismo na escravidão espiritual e na miséria material.

Como no mundo civilizado inteiro, a orquestra sinfónica de Beer-Sheva tocou hoje um concerto nas festividades dos 250 anos de Mozart. A cidade, hoje com mais de duzentos mil habitantes, tem, entre outras instituições de cultura, também uma prestigiosa universidade. O Instituto de Pesquisas do Deserto desta universidade, é um líder mundial na pesquisa da ecologia e da agricultura em zonas áridas. O Instituto contribui ao esforço cientifico que fez de Israel o "Silicon Valley" das tecnologias do manejo dos mananciais de água doce, que é o mais importante problema do mundo moderno. Alunos árabes-beduínos do deserto de Neguev estão estudando nesta universidade, e as inovadoras tecnologias de água estão chegando ás dezenas de países do desértico mundo árabe.

Ninguém vislumbrava dez anos atrás, o perigo desta anti-cultura islâmica fundamentalista.

O caminho para resolver esta crise mundial passa, primeiro, pela avaliação objetiva dela. É preciso depois achar o caminho para salvaguardar que Mozart, com sua música exuberante e tão humana, seja tocado também no seu tricentenário em Beer-Sheva, assim como no mundo inteiro.

 

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