Mozart
em Beer-Sheva e a
Vitoria do Hamas
Era
o outono de 1948. Mal proclamado o Estado de Israel, o exercito
popular da Hagana conseguiu repelir os invasores egípcios que
chegaram até as vizinhanças de Tel Aviv. Leonard Bernstein
chegou para tocar com a Orquestra Filarmônica da Palestina, recém
renominada Filarmônica de Israel, e quis tocar para os soldados
no deserto de Neguev. Um comboio de carros blindados levou a
orquestra até o lugarejo de Bir Saba, o bíblico Beer-Sheva onde
Abrão visitou o carvalho de Mamre. Tinha no lugar somente uma dúzia
de casas de pau-a-pique. Bernstein, portanto, tocou o concerto de
piano em si bemol de Mozart num sítio arqueológico, entre as
pedras e rochas. Centenas de soldados, rapazes e meninas, vestidos
de kaki empoeirado, ouviram em silencio, com os fuzis ao lado. A
retirada de Beer-Sheva programada para aquele dia, seguindo um
cessar fogo decretado pela ONU, foi adiada até o fim do concerto.
58
anos depois, o dia de aniversário do nascimento do Mozart,
festejado pelo mundo inteiro, em 27 Janeiro deste ano, coincidiu
com o dia em que foram publicados os resultados das eleições na
Palestina, anunciando a vitória esmagadora do Hamas.
Confesso
que o meu "multiculturalismo" respeita o que é bom nas
outras culturas, mas dá prioridade á cultura que produz um
Mozart. Assim pensam também os inúmeros grandes interpretes
japoneses, coreanos e chineses. Admiro também o pianista árabe-israelense
Abu Ashqar quando toca o concerto de Mozart.
O
que me assusta na vitória eletoral do Hamas não e o fato de que
eles querem a aniquilação de Israel. O Arafat do Fatakh também
quis no fundo a mesma coisa. A duplicidade política do Fatakh se
juntava naturalmente à demagogia
barata e à corrupção indecente desta liderança.
O
Hamas que foi eleito como alternativa, pelo voto de um povo
escandalizado com o Fatakh, vai ter que gerar o bem-estar geral tão
esperado. Com a eletricidade, o combustivel, a água, a rede telefônica
vindo de Israel, com todos os portos de acesso ao território
"inimigo", um governo Hamas vai ter que chegar a um modus
vivendi com o "pequeno satanás".
O
processo de paz e o "mapa de estrada" do Bush receberam
um sinal vermelho pela onda verde do Hamas. De qualquer maneira,
poucos ainda acreditam em Israel nesta previsão otimista. Mesmo
com Sharon cerebralmente morto a política sharonista é mais viva
do que nunca: a meta é completar a cerca, definir unilateralmente
as fronteiras de separação entre as duas entidades políticas
dos dois povos, e transformar as velhas barreiras em postos de
fronteira. É preciso combater a ameaça demográfica que tomou o
lugar das ameaças militares e terroristas. Esta línha pragmática
e sem ilusões vai vencer sem dúvida nas eleições israelenses
de março próximo, marginalizando os ideais da direita e de
esquerda.
O
problema porém, é muito mais grave e de repercussões muito mais
amplas. Eleições livres não garantem a democracia, por serem
somente um primeiro ato num processo comprido. No seu tempo,
Hitler aproveitou das eleições democraticas para pegar o poder.
Mais recentemente, na Argélia, foi o exército que anulou a vitória
eleitoral dos fundamentalistas muçulmanos. Também na Turquia de
hoje, o exército impede os excessos do partido islâmico
livremente eleito. Apesar das esperanças americanas, poucos
acreditam que o Iraque pós-eleições se torne um país democrático.
A
vitória eleitoral do Hamas vai repercutir antes de mais nada na
vida civil da Palestina, numa sociedade considerada como a mais
progressista do mundo árabe. Já sabemos que a "sharia",
a legislação religiosa islâmica vai ser introduzida no lugar do
direito civil moderno. A sharia não conhece nenhum princípio
democrático básico. As mulheres serão segregadas e os cristãos
e os intelectuais serão submetidos à perseguição da suma
autoridade dos sábios religiosos. A educação e a mídia serão
rigidamente controlados pelo
regime teocrático. Ouvir música "ocidental" é
proibido pela lei da sharia, Mozart incluído.
Pela
primeira vez, depois de quase cem anos, um regime islamista, um
"Hamastan" será instaurado não somente a poucos quilômetros
de Tel Aviv, mas nas portas mesmo da Europa. Até agora, a sharia
regia longe daqui: em partes da África, no país do Taliban ou no
Irã. Não levou nem ao bem-estar nem à felicidade dos seus súditos,
e certamente os interditou a mudarem de idéias e a derrubarem as
ditaduras nas urnas. Na Europa vivem hoje dezenas de milhões de
muçulmanos. Se a filosofía "electocrática" fosse
aplicada lá também, vários Hamas nacionais iríam surgir. Num
futuro continente unificado o partido muçulmano viraria uma força
política cada vez mais crescente. Pequenos Hamastans endêmicos já
existem na Europa, e até na longínqua Austrália. As mulheres muçulmanas
escravizadas, pobres máquinas de reprodução, têm a função de
providenciar o crescimento geométrico deste novo eleitorado.
A
civilização que produziu um Mozart, forneceu também a medicina,
o sistema econômico e financeiro e as maravilhas da tecnologia
modernas. Os países fundamentalistas estão usufruindo de tudo
isso só para promover os seus próprios projetos, rejeitando no
mesmo tempo a educação liberal e a criatividade individual que
geraram estas realizações. Diferente da alta Idade Média, o
mundo islâmico não produz desta vez nem um holofote cultural de
âmbito mundial. Nem sequer existe lá uma orquestra sinfònica.
Aonde conseguiu, logrou-se um retrocesso cultural, um
igualitarismo na escravidão espiritual e na miséria material.
Como
no mundo civilizado inteiro, a orquestra sinfónica de Beer-Sheva
tocou hoje um concerto nas festividades dos 250 anos de Mozart. A
cidade, hoje com mais de duzentos mil habitantes, tem, entre
outras instituições de cultura, também uma prestigiosa
universidade. O Instituto de Pesquisas do Deserto desta
universidade, é um líder mundial na pesquisa da ecologia e da
agricultura em zonas áridas. O Instituto contribui ao esforço
cientifico que fez de Israel o "Silicon Valley" das
tecnologias do manejo dos mananciais de água doce, que é o mais
importante problema do mundo moderno. Alunos árabes-beduínos do
deserto de Neguev estão estudando nesta universidade, e as
inovadoras tecnologias de água estão chegando ás dezenas de países
do desértico mundo árabe.
Ninguém
vislumbrava dez anos atrás, o perigo desta anti-cultura islâmica
fundamentalista.
O
caminho para resolver esta crise mundial passa, primeiro, pela
avaliação objetiva dela. É preciso depois achar o caminho para
salvaguardar que Mozart, com sua música exuberante e tão humana,
seja tocado também no seu tricentenário em Beer-Sheva, assim
como no mundo inteiro.