por FÁBIO METZGER* & MARCOS TOYANSK**

* Cientista social, jornalista e mestrando em História Social na Universidade de São Paulo (USP).

** Mestrando em Geografia Humana na Universidade de São Paulo (USP).

 

 

Hamas, Democracia e Paz

O Hamas foi eleito e a Paz, que já tinha subido no Telhado, prosseguiu sua triste sina de ser ignorada...  

 

Um acontecimento que vem causando preocupação e ceticismo para o mundo tem marcado o Oriente Médio nos últimos dias. O partido islamista Hamas obteve a maioria no Parlamento palestino, em eleições, que derrubaram parte importante da liderança do movimento nacionalista secular palestino Fatah. Em meio a tantos sinais de esperança de um acordo de paz com os palestinos, por parte da opinião pública israelense, uma surpresa aconteceu. Mas que surpresa é esta?

Na verdade, a Fatah já estava derrotada. E quem a derrotou? Certamente, não foi somente o Hamas. A maioria dos palestinos não apoiaria, a priori, um movimento religioso que se volta para um discurso radical e sectário. Este tipo de movimento só cresce em momentos de crise. Então a primeira a derrotar a Fatah foi... exatamente, ela mesma, a Fatah, e sua deplorável rede de corrupção, que desviava verbas que teriam sido essenciais para o desenvolvimento político e econômico da população palestina, mesmo antes da criação de seu Estado. Em contraste, o Hamas se legitimou perante os palestinos por ser conhecida como uma organização limpa e que fornecia serviços sociais que a Fatah, em seus governos, era simplesmente incapaz de prover.

Depois, foi Israel que a derrotou, quando, sob o governo de Ariel Sharon, foram realizadas operações militares de desmonte da Autoridade Palestina, com a justificativa de “desmantelar a infra-estrutura do terror”. Essas operações não estavam voltadas para esse tal desmantelamento, mas sim para o esvaziamento da autoridade de Yasser Arafat, líder histórico da Fatah e da OLP, visto como “irrelevante” para o governo israelense e “comprometido com o terror” para os EUA. Arafat nunca foi um exemplo de liderança virtuosa, bem pelo contrário. Se existem razões para que a Autoridade Palestina tivesse criado toda uma rede de corrupção, basta identificar na liderança centralizadora e ditatorial de Arafat algo que também encobria as outras lideranças da Fatah. Por outro lado, era inegável sua legitimidade junto à população palestina, como o histórico líder de uma causa, perante décadas de abandono nos campos de refugiados e de sofrimento perante a ocupação de Israel da Cisjordânia e de Gaza e pela pouca (às vezes, nenhuma) solidariedade dos governos árabes, que tem sido apenas aparente, na forma de posicionamentos retóricos. Arafat, com todos os problemas da Fatah e de suas arbitrariedades, era identificado pelos palestinos como algo que os dignificava, os honrava. Enfim, o movimento secular palestino estava concentrado em torno do carisma de um só homem, enquanto os islamistas tinham muito maior presença.

Para Israel, Arafat representava um grande incômodo, por conta de sua ação pouco coerente. De um lado, apresentava-se como um líder internacionalmente reconhecido e comprometido com o processo de paz que levasse ao Estado palestino. De outro, era o líder de uma população desorientada e ressentida por décadas de agressões, que estava sendo facilmente influenciada por movimentos religiosos e de burocratas corruptos, que de repente o fizeram refém em sua própria administração. Sua situação era a de um líder que firmava uma espécie de compromisso em termos internacionais, e outro dentro de um consenso nacional. Qualquer passo em falso, e sua liderança seria dinamitada. Era o seu carisma que sustentava o movimento nacional secular palestino.

Não podendo dar passos, nem para um lado, nem para outro, Arafat voltava suas energias em direção ao governo ocupante de Israel. Mas sem uma estratégia eficaz, de resistência pacífica contra a colonização de israelenses nos Territórios Ocupados. Tratava-se de uma liderança vazia, prisioneira de uma propaganda histórica do nacionalismo árabe, que não se atualizara e não era democrática. Em cima disso, não foi difícil para o governo israelense apontar ao seu eleitorado de que “não existe um parceiro com quem dialogar”.

Sob o governo Sharon, Israel não se importou com as possibilidades de contatos políticos. Usou de sua força e eliminou o que ainda restava de forte no movimento secular palestino. A eleição de Mahmoud Abbas para presidente da Autoridade Palestina, em 2005, foi algo enganoso. Havia apenas ele e o líder da esquerda moderada, Mustafá Bargouthi, concorrendo. O Hamas boicotara aquelas eleições. E mesmo assim, Abbas conseguiu 70 % dos votos. Nas eleições anteriores, Arafat conquistou 90 % dos votos dos palestinos, com um comparecimento maior por parte dos eleitores. Uma liderança fraca, sem legitimidade interna para justificar suas ações, fora eleita, diante de um governo israelense apenas disposto a utilizar soluções unilaterais. Abbas, um novo líder que teria a chance de se legitimar diante dos palestinos pela formalização de acordos de paz com Israel, ficou à margem. Qual foi a influência da Autoridade Palestina na retirada de Gaza? Nenhuma. Foi uma decisão feita pelo governo de Israel, aprovada pelo Parlamento israelense. Isto apenas reforçou a impressão, por parte dos palestinos, de que a retirada foi o resultado de um desgaste do exército ocupante, diante da luta armada de grupos como o Hamas.

Seria diferente a reação dos palestinos, diante dos anos em que o Exército de Israel lançou a operação “Muro de Proteção”, em 2002? Depois de duramente torpedeada a liderança de Yasser Arafat, qual verdadeira liderança poderia surgir dentro dos movimentos nacionais palestinos, que não o Hamas? Talvez Marwan Bargouthi, líder da milícia Tanzim, durante a Segunda Intifada, que cumpre pena de prisão perpétua em Israel. Mas trata-se de uma liderança incerta, dada a sua impossibilidade de atuar. Certamente, ele conta com bem mais apoio, nesse momento, que o próprio Abbas. Marwan Bargouthi é identificado com as facções mais jovens da Fatah, que lutou nas duas Intifadas, junto à população palestina. Abbas está ligado à velha guarda da Fatah, que na época da Intifada, vivia em um confortável exílio em Tunis, e que depois dos acordos de Oslo passou a compor administrações marcadas pela corrupção e pela ineficiência.

Quem é o Hamas?

O Hamas (abreviação em árabe de “Movimento de Resistência Islâmica”) é um desmembramento da Irmandade Muçulmana Egípcia, na Faixa de Gaza, que se expandiu também na Cisjordânia. Sua proposta política é a da criação de um Estado baseado em leis islâmicas, em todo o território onde hoje está Israel e os Territórios Ocupados da Cisjordânia e Gaza, destinados à Palestina. Esta organização acompanha tendências dentro de todo o mundo árabe-muçulmano de expansão de movimentos religiosos islamistas, em oposição a repúblicas e monarquias pró-ocidentais.

Na verdade, o Hamas e os demais movimentos religiosos sunitas foram criados com a bênção destes governos, a fim de combater um outro inimigo, a crescente facção à esquerda de movimentos nacionalistas árabes, que foi hegemônica, especialmente quando Gamal Abdel Nasser governou o Egito. Depois que Sadat mudou a orientação do nacionalismo árabe, se alinhando mais próximo aos EUA, houve neste movimento uma dissidência. De um lado, nacionalistas pan-árabes e as células de partidos marxistas-leninistas. De outro, um governo conservador. Para combater estes grupos, fora admitida pelo governo Sadat a formação de partidos e movimentos religiosos islâmicos. Este acontecimento no Egito mudou o panorama político em todo o Oriente Médio. Com o Acordo de Paz com Israel, Sadat provou de seu próprio veneno. Tinha derrotado os adversários dentro de seu campo secular, mas acabara assassinado por novos inimigos, os islamistas.

No caso palestino, o Hamas foi tolerado por Israel, durante a primeira Intifada, a fim de combater a não-esquerdista OLP, e dividir o movimento palestino. Israel, como os países árabes pró-ocidentais, e os EUA deram um tiro que saiu pela culatra. Esses movimentos de caráter conservador, muito úteis no combate aos partidos pan-árabes alinhados com a URSS, nos tempos da Guerra Fria, eram tão ou mais hostis a Israel, ao Ocidente e aos governos árabes do que seus antigos antecessores. Bin Laden, figura-chave no recrutamento de jovens islamistas do Mundo Árabe na Guerra do Afeganistão contra o Exército Soviético, foi o mesmo que depois formou a Al-Qaeda, responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque e Washington.

O Hamas e outras organizações islamistas cresceram, não apenas por apoio ocidental contra regimes e organizações à esquerda, mas também por conta de que eram os movimentos religiosos islâmicos que estavam mais próximos da população do Mundo Árabe. São as mesquitas e as fundações religiosas administradas por esses movimentos, e não os governos seculares e monarquistas, que atendem esta população. Estes governos, na verdade, têm sido identificados como uma elite de governantes corruptos e ineficientes, aliada ao Ocidente, tido como idólatra, permissivo, difusor de liberdades que para a cultura muçulmana são vistas como libertinagem e perversão.

É nesse sentido que Israel, um Estado de modelo ocidental, e a Fatah são identificados pela população palestina. Poderiam se unir, e buscar soluções para um projeto político eficiente, isolando os islamistas, com resultados políticos, econômicos e sociais práticos: a criação de um Estado palestino, em fronteiras que o viabilizem economicamente – se não dentro dos limites pré-1967 – e investimentos do mundo inteiro nas áreas produtivas, educação e saúde, com o apoio financeiro dos EUA, da União Européia e das petromonarquias. A ausência deste projeto criou uma sensação de desesperança por parte dos palestinos, o que fortaleceu o Hamas.

As Incógnitas

Um novo mapa político poderá estar surgindo no Oriente Médio. A eleição do Hamas é um aspecto das contradições dos sistemas políticos árabes, das políticas de Israel e do Ocidente. As eleições em Israel estão próximas, e o resultado do lado palestino juntamente com a ameaça iraniana poderá influenciar decisivamente na política israelense.

Mesmo que o Hamas e o Irã se aproximem, isto poderá ter pouca influência. Israel cerca todas as portas de entrada e saída dos palestinos, e talvez não hesite em cortar todos os acessos a doações financeiras por parte do Irã e de países dos Emirados do Golfo, com todo o apoio internacional. Desta forma, não será por meio do Irã que o Hamas agirá. O que pode acontecer é que o Irã apóie a Jihad Islâmica, outra organização fundamentalista xiita atuando entre os palestinos. A Jihad Islâmica não entrou no acordo de trégua entre a Autoridade Palestina e os grupos combatentes, continuando a agir com atentados contra a população civil israelense.

O Irã, a fim de ver o circo pegar fogo, pode apoiar escaladas de atentados da Jihad Islâmica, e dar corda para o Hezbollah. Além disso, uma aliança pontual do Irã com o Hamas não pode ser totalmente descartada. Se for o Hamas a comandar um governo na Autoridade Palestina, ele terá muitos desafios internos pela frente, como a reconstrução social e política palestina sem auxílio financeiro do Ocidente. Sem este auxílio, uma série de funcionários da Autoridade Palestina pode ficar sem receber, o que tornaria a situação nos Territórios Ocupados incontrolável. Uma nova geração de líderes do Hamas terá que lidar com essa tarefa ao mesmo tempo em que poderá enfrentar resistência da Fatah, até provar que pode comandar a população palestina. Neste caso, uma guerra civil entre os dois opositores poderá ocorrer. Fica a pergunta: é possível que funcione uma democracia entre os palestinos? A idéia original do Estado palestino é de natureza secular, apoiado no conceito de soberania popular. Se o grupo secular que controlava a Autoridade Palestina, em momento algum mostrou inclinação para a democracia, como uma organização islamista, que defende um governo do Islã, sob a soberania de Deus, poderá agir liderando o governo palestino?

E qual a liderança em Israel que estaria disposta, verdadeiramente, a fazer um acordo de paz com os palestinos, respaldado pela maioria da população israelense? Não era Sharon, que preferia soluções unilaterais, em desconsideração aos governantes palestinos. Tampouco, seu sucessor, Ehud Olmert, bem menos carismático que Sharon. E sem Sharon, as próximas eleições em Israel correm o sério risco de eleger Benjamin Netanyahu, que recusa qualquer acordo com os palestinos, e qualquer possibilidade de retirada unilateral. A esperança pode residir no trabalhista Amir Peretz, que defende negociações bilaterais para a constituição do Estado palestino. Mesmo assim, após as eleições do Hamas, suas possibilidades diminuíram muito.

Enquanto isso, Israel poderá realizar novas retiradas unilaterais ou endurecer ainda mais com os palestinos. O que parece ser menos provável, no atual momento, é um acordo de paz negociado entre Israel e a Autoridade Palestina, dentro das fronteiras de 1967. O mapa político está indefinido. Os desdobramentos da política interna palestina, o comportamento iraniano e as eleições de Israel mostrarão novas orientações para a região. Por enquanto, a única certeza é que os ódios permanecem. Cabe apenas esperar os acontecimentos que se seguirão nos próximos meses.

 

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