Hamas,
Democracia e Paz
O
Hamas foi eleito e a Paz, que já tinha subido no Telhado,
prosseguiu sua triste sina de ser ignorada...
Um
acontecimento que vem causando preocupação e ceticismo para o
mundo tem marcado o Oriente Médio nos últimos dias. O partido
islamista Hamas obteve a maioria no Parlamento palestino, em eleições,
que derrubaram parte importante da liderança do movimento
nacionalista secular palestino Fatah. Em meio a tantos sinais de
esperança de um acordo de paz com os palestinos, por parte da
opinião pública israelense, uma surpresa aconteceu. Mas que
surpresa é esta?
Na
verdade, a Fatah já estava derrotada. E quem a derrotou?
Certamente, não foi somente o Hamas. A maioria dos palestinos não
apoiaria, a priori, um
movimento religioso que se volta para um discurso radical e sectário.
Este tipo de movimento só cresce em momentos de crise. Então a
primeira a derrotar a Fatah foi... exatamente, ela mesma, a Fatah,
e sua deplorável rede de corrupção, que desviava verbas que
teriam sido essenciais para o desenvolvimento político e econômico
da população palestina, mesmo antes da criação de seu Estado.
Em contraste, o Hamas se legitimou perante os palestinos por ser
conhecida como uma organização limpa e que fornecia serviços
sociais que a Fatah, em seus governos, era simplesmente incapaz de
prover.
Depois,
foi Israel que a derrotou, quando, sob o governo de Ariel Sharon,
foram realizadas operações militares de desmonte da Autoridade
Palestina, com a justificativa de “desmantelar a infra-estrutura
do terror”. Essas operações não estavam voltadas para esse
tal desmantelamento, mas sim para o esvaziamento da autoridade de
Yasser Arafat, líder histórico da Fatah e da OLP, visto como
“irrelevante” para o governo israelense e “comprometido com
o terror” para os EUA. Arafat nunca foi um exemplo de liderança
virtuosa, bem pelo contrário. Se existem razões para que a
Autoridade Palestina tivesse criado toda uma rede de corrupção,
basta identificar na liderança centralizadora e ditatorial de
Arafat algo que também encobria as outras lideranças da Fatah.
Por outro lado, era inegável sua legitimidade junto à população
palestina, como o histórico líder de uma causa, perante décadas
de abandono nos campos de refugiados e de sofrimento perante a
ocupação de Israel da Cisjordânia e de Gaza e pela pouca (às
vezes, nenhuma) solidariedade dos governos árabes, que tem sido
apenas aparente, na forma de posicionamentos retóricos. Arafat,
com todos os problemas da Fatah e de suas arbitrariedades, era
identificado pelos palestinos como algo que os dignificava, os
honrava. Enfim, o movimento secular palestino estava concentrado
em torno do carisma de um só homem, enquanto os islamistas tinham
muito maior presença.
Para
Israel, Arafat representava um grande incômodo, por conta de sua
ação pouco coerente. De um lado, apresentava-se como um líder
internacionalmente reconhecido e comprometido com o processo de
paz que levasse ao Estado palestino. De outro, era o líder de uma
população desorientada e ressentida por décadas de agressões,
que estava sendo facilmente influenciada por movimentos religiosos
e de burocratas corruptos, que de repente o fizeram refém em sua
própria administração. Sua situação era a de um líder que
firmava uma espécie de compromisso em termos internacionais, e
outro dentro de um consenso nacional. Qualquer passo em falso, e
sua liderança seria dinamitada. Era o seu carisma que sustentava
o movimento nacional secular palestino.
Não
podendo dar passos, nem para um lado, nem para outro, Arafat
voltava suas energias em direção ao governo ocupante de Israel.
Mas sem uma estratégia eficaz, de resistência pacífica contra a
colonização de israelenses nos Territórios Ocupados. Tratava-se
de uma liderança vazia, prisioneira de uma propaganda histórica
do nacionalismo árabe, que não se atualizara e não era democrática.
Em cima disso, não foi difícil para o governo israelense apontar
ao seu eleitorado de que “não existe um parceiro com quem
dialogar”.
Sob
o governo Sharon, Israel não se importou com as possibilidades de
contatos políticos. Usou de sua força e eliminou o que ainda
restava de forte no movimento secular palestino. A eleição de
Mahmoud Abbas para presidente da Autoridade Palestina, em 2005,
foi algo enganoso. Havia apenas ele e o líder da esquerda
moderada, Mustafá Bargouthi, concorrendo. O Hamas boicotara
aquelas eleições. E mesmo assim, Abbas conseguiu 70 % dos votos.
Nas eleições anteriores, Arafat conquistou 90 % dos votos dos
palestinos, com um comparecimento maior por parte dos eleitores.
Uma liderança fraca, sem legitimidade interna para justificar
suas ações, fora eleita, diante de um governo israelense apenas
disposto a utilizar soluções unilaterais. Abbas, um novo líder
que teria a chance de se legitimar diante dos palestinos pela
formalização de acordos de paz com Israel, ficou à margem. Qual
foi a influência da Autoridade Palestina na retirada de Gaza?
Nenhuma. Foi uma decisão feita pelo governo de Israel, aprovada
pelo Parlamento israelense. Isto apenas reforçou a impressão,
por parte dos palestinos, de que a retirada foi o resultado de um
desgaste do exército ocupante, diante da luta armada de grupos
como o Hamas.
Seria
diferente a reação dos palestinos, diante dos anos em que o Exército
de Israel lançou a operação “Muro de Proteção”, em 2002?
Depois de duramente torpedeada a liderança de Yasser Arafat, qual
verdadeira liderança poderia surgir dentro dos movimentos
nacionais palestinos, que não o Hamas? Talvez Marwan Bargouthi, líder
da milícia Tanzim, durante a Segunda Intifada, que cumpre pena de
prisão perpétua em Israel. Mas trata-se de uma liderança
incerta, dada a sua impossibilidade de atuar. Certamente, ele
conta com bem mais apoio, nesse momento, que o próprio Abbas.
Marwan Bargouthi é identificado com as facções mais jovens da
Fatah, que lutou nas duas Intifadas, junto à população
palestina. Abbas está ligado à velha guarda da Fatah, que na época
da Intifada, vivia em um confortável exílio em Tunis, e que
depois dos acordos de Oslo passou a compor administrações
marcadas pela corrupção e pela ineficiência.
Quem
é o Hamas?
O
Hamas (abreviação em árabe de “Movimento de Resistência Islâmica”)
é um desmembramento da Irmandade Muçulmana Egípcia, na Faixa de
Gaza, que se expandiu também na Cisjordânia. Sua proposta política
é a da criação de um Estado baseado em leis islâmicas, em todo
o território onde hoje está Israel e os Territórios Ocupados da
Cisjordânia e Gaza, destinados à Palestina. Esta organização
acompanha tendências dentro de todo o mundo árabe-muçulmano de
expansão de movimentos religiosos islamistas, em oposição a repúblicas
e monarquias pró-ocidentais.
Na
verdade, o Hamas e os demais movimentos religiosos sunitas foram
criados com a bênção destes governos, a fim de combater um
outro inimigo, a crescente facção à esquerda de movimentos
nacionalistas árabes, que foi hegemônica, especialmente quando
Gamal Abdel Nasser governou o Egito. Depois que Sadat mudou a
orientação do nacionalismo árabe, se alinhando mais próximo
aos EUA, houve neste movimento uma dissidência. De um lado,
nacionalistas pan-árabes e as células de partidos
marxistas-leninistas. De outro, um governo conservador. Para
combater estes grupos, fora admitida pelo governo Sadat a formação
de partidos e movimentos religiosos islâmicos. Este acontecimento
no Egito mudou o panorama político em todo o Oriente Médio. Com
o Acordo de Paz com Israel, Sadat provou de seu próprio veneno.
Tinha derrotado os adversários dentro de seu campo secular, mas
acabara assassinado por novos inimigos, os islamistas.
No
caso palestino, o Hamas foi tolerado por Israel, durante a
primeira Intifada, a fim de combater a não-esquerdista OLP, e
dividir o movimento palestino. Israel, como os países árabes pró-ocidentais,
e os EUA deram um tiro que saiu pela culatra. Esses movimentos de
caráter conservador, muito úteis no combate aos partidos pan-árabes
alinhados com a URSS, nos tempos da Guerra Fria, eram tão ou mais
hostis a Israel, ao Ocidente e aos governos árabes do que seus
antigos antecessores. Bin Laden, figura-chave no recrutamento de
jovens islamistas do Mundo Árabe na Guerra do Afeganistão contra
o Exército Soviético, foi o mesmo que depois formou a Al-Qaeda,
responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova
Iorque e Washington.
O
Hamas e outras organizações islamistas cresceram, não apenas
por apoio ocidental contra regimes e organizações à esquerda,
mas também por conta de que eram os movimentos religiosos islâmicos
que estavam mais próximos da população do Mundo Árabe. São as
mesquitas e as fundações religiosas administradas por esses
movimentos, e não os governos seculares e monarquistas, que
atendem esta população. Estes governos, na verdade, têm sido
identificados como uma elite de governantes corruptos e
ineficientes, aliada ao Ocidente, tido como idólatra, permissivo,
difusor de liberdades que para a cultura muçulmana são vistas
como libertinagem e perversão.
É
nesse sentido que Israel, um Estado de modelo ocidental, e a Fatah
são identificados pela população palestina. Poderiam se unir, e
buscar soluções para um projeto político eficiente, isolando os
islamistas, com resultados políticos, econômicos e sociais práticos:
a criação de um Estado palestino, em fronteiras que o viabilizem
economicamente – se não dentro dos limites pré-1967 – e
investimentos do mundo inteiro nas áreas produtivas, educação e
saúde, com o apoio financeiro dos EUA, da União Européia e das
petromonarquias. A ausência deste projeto criou uma sensação de
desesperança por parte dos palestinos, o que fortaleceu o Hamas.
As
Incógnitas
Um
novo mapa político poderá estar surgindo no Oriente Médio. A
eleição do Hamas é um aspecto das contradições dos sistemas
políticos árabes, das políticas de Israel e do Ocidente. As
eleições em Israel estão próximas, e o resultado do lado
palestino juntamente com a ameaça iraniana poderá influenciar
decisivamente na política israelense.
Mesmo
que o Hamas e o Irã se aproximem, isto poderá ter pouca influência.
Israel cerca todas as portas de entrada e saída dos palestinos, e
talvez não hesite em cortar todos os acessos a doações
financeiras por parte do Irã e de países dos Emirados do Golfo,
com todo o apoio internacional. Desta forma, não será por meio
do Irã que o Hamas agirá. O que pode acontecer é que o Irã apóie
a Jihad Islâmica, outra organização fundamentalista xiita
atuando entre os palestinos. A Jihad Islâmica não entrou no
acordo de trégua entre a Autoridade Palestina e os grupos
combatentes, continuando a agir com atentados contra a população
civil israelense.
O
Irã, a fim de ver o circo pegar fogo, pode apoiar escaladas de
atentados da Jihad Islâmica, e dar corda para o Hezbollah. Além
disso, uma aliança pontual do Irã com o Hamas não pode ser
totalmente descartada. Se for o Hamas a comandar um governo na
Autoridade Palestina, ele terá muitos desafios internos pela
frente, como a reconstrução social e política palestina sem auxílio
financeiro do Ocidente. Sem este auxílio, uma série de funcionários
da Autoridade Palestina pode ficar sem receber, o que tornaria a
situação nos Territórios Ocupados incontrolável. Uma nova geração
de líderes do Hamas terá que lidar com essa tarefa ao mesmo
tempo em que poderá enfrentar resistência da Fatah, até provar
que pode comandar a população palestina. Neste caso, uma guerra
civil entre os dois opositores poderá ocorrer. Fica a pergunta:
é possível que funcione uma democracia entre os palestinos? A idéia
original do Estado palestino é de natureza secular, apoiado no
conceito de soberania popular. Se o grupo secular que controlava a
Autoridade Palestina, em momento algum mostrou inclinação para a
democracia, como uma organização islamista, que defende um
governo do Islã, sob a soberania de Deus, poderá agir liderando
o governo palestino?
E
qual a liderança em Israel que estaria disposta, verdadeiramente,
a fazer um acordo de paz com os palestinos, respaldado pela
maioria da população israelense? Não era Sharon, que preferia
soluções unilaterais, em desconsideração aos governantes
palestinos. Tampouco, seu sucessor, Ehud Olmert, bem menos carismático
que Sharon. E sem Sharon, as próximas eleições em Israel correm
o sério risco de eleger Benjamin Netanyahu, que recusa qualquer
acordo com os palestinos, e qualquer possibilidade de retirada
unilateral. A esperança pode residir no trabalhista Amir Peretz,
que defende negociações bilaterais para a constituição do
Estado palestino. Mesmo assim, após as eleições do Hamas, suas
possibilidades diminuíram muito.
Enquanto
isso, Israel poderá realizar novas retiradas unilaterais ou
endurecer ainda mais com os palestinos. O que parece ser menos
provável, no atual momento, é um acordo de paz negociado entre
Israel e a Autoridade Palestina, dentro das fronteiras de 1967. O
mapa político está indefinido. Os desdobramentos da política
interna palestina, o comportamento iraniano e as eleições de
Israel mostrarão novas orientações para a região. Por
enquanto, a única certeza é que os ódios permanecem. Cabe
apenas esperar os acontecimentos que se seguirão nos próximos
meses.