Por
que o Hamas venceu?
É
difícil imaginar algo pior para os governos de Israel e dos
Estados Unidos do que o pronunciamento democrático da população
palestina, nas eleições de 25 de janeiro, que conferiu 74
deputados para o Hamas e apenas 45 para o Fatah de Abu Abbas, num
parlamento de 132 cadeiras. Para não falar da terceira colocação
da Frente Popular para a Libertação da Palestina, intransigente
defensora da luta contra a ocupação, de origem marxista.
O
explosivo resultado eleitoral, que desmentiu igualmente as já
habituais manipulações dos ibopes da vida [anunciou-se a
vitória do Fatah por uns cinco pontos de diferença],
desorganizou implacavelmente toda a política de aniquilamento da
resistência palestina empreendida, nos últimos anos, com
indiscutível sucesso, pela administração Bush, em estreita
colaboração com o governo israelense e a União Européia.
Após
o trauma causado ao mundo árabe e à Palestina pela invasão
anglo-estadunidense do Iraque, celebrada precipitadamente por Bush
em primeiro de maio de 2003, a morte de Yasser Arafat, em 11 de
novembro de 2004, certamente por envenenamento, constituiu o
primeiro grande movimento da ambiciosa operação. Como assinalou
a mídia ocidental, quase festejando, a eliminação do velho
lutador abria caminho para a entronização no Fatah e na OLP de
direção flexível que permitisse a imposição da paz israelo-estadunidense
na região.
Candidato
do imperialismo
O
segundo passo da ambiciosa operação foi a eleição de Abu Abbas,
de 69 anos, antigo guerrilheiro ganho à colaboração, primeiro
como dirigente do Fatah e, em 9 de janeiro de 2005, como
presidente da Autoridade Nacional Palestina – ANP –, o
arremedo de governo permitido pelos israelenses aos palestinos sob
ocupação. Primeiro ministro em inícios de 2003, Abu Abbas
renunciou por opor-se a Arafat. Com pouco prestígio entre os
palestinos, foi um duro crítico da segunda “Intifada” e
defensor do fim dos ataques a Israel.
A
eleição de Abu Abbas foi facilitada pelo seqüestro, em 2002, e
condenação à prisão perpétua, a seguir, pelo Estado de
Israel, do popular, carismático e combativo Marwan Barghuti,
dirigente do Fatah na Cisjordânia. Hoje com 46 anos, Barghuti foi
um dos principais organizadores, em 1987-93, da primeira “Intifada”,
a guerra dos Davids armados de pedras contra os Golias encerrados
em blindados, e tem sido igualmente crítico implacável da corrupção
e dos excessos da ANP.
A
terceira e última etapa política do ambicioso plano do
imperialismo constituía a vitória eleitoral total, nas últimas
eleições parlamentares de 25 de janeiro, dos seguidores da Fatah
de Abu Abbas. Para tal, manipulou-se vergonhosamente as listas de
candidatos daquele movimento, marginalizando os nomes
comprometidos com a resistência e privilegiando aqueles que se
esbaldavam na colaboração e no usufruto privado das escassas
verbas cedidas pelos USA e pela União Européia para financiar a
ANP.
Reivindicações
históricas
Previa-se
que, com o apoio do imperialismo e de Israel, senhor inconteste da
ANP, o novo governo implementaria a repressão daqueles que se
opusessem a uma paz emasculada e ao abandono das reivindicações
históricas palestinas: liberdade dos milhares de prisioneiros políticos;
devolução dos territórios ocupados na guerra de 1967; direito
de retorno das populações expulsas pelas armas; independência
do setor oriental de Jerusalém; constituição de Estado
palestino soberano.
Em
nome da paz, o governo palestino liderado por Abu Abbas
aceitaria a constituição de um Estado fantoche e desmilingüido,
formado pela faixa de Gaza, recém-desocupada; por alguns enclaves
territoriais na Cisjordânia, cercados por possessões
israelenses, à semelhança dos bantustãos do finado regime
racista sul-africano. Em vez de uma nação palestina
independente, um protetorado israelense, sem capital, sem unidade
territorial, sem autonomia econômica, sem autoridade sobre suas
políticas, fronteiras, finanças, exército.
Esperava-se
que a repressão implacável das forças que se opunham dentro e
fora da OLP à rendição vergasse a disposição de resistência
da população, criando as condições para uma reorganização
geral da sociedade e da economia palestina, sob o rígido controle
de Israel. A nova realidade criaria base social palestina mínima
para o sepultamento da luta histórica por territórios e Estado
independentes.
Raio
em céu sereno
A
vitória do Hamas desorganizou sem piedade a trama urdida pela
administração Bush. Ela não foi, porém, em nenhum caso, raio
riscando inesperadamente um céu sereno, como proposto pela grande
mídia mundial. Nas semanas anteriores às eleições, prevendo a
derrota, Abu Abbas procurou se servir das dificuldades impostas
pelos israelenses às eleições para retardá-las e obter mais
tempo para impor seus candidatos. Dias antes do pleito, assustado
com o avanço eleitoral do Hamas, o governo de Israel permitiu que
Barghuti, candidato da lista eleitoral do Fatah, fosse
entrevistado na prisão, para que desviasse votos do Hamas.
Apesar
de todos os sinais, a administração Bush exigiu o cumprimento
dos prazos eleitorais, esperando conquistar, na Palestina, alguns
dos muitos pontos que perdeu junto à opinião publica mundial e
estadunidense, devido ao Iraque. A vitória de Abu Abbas e a
repressão da resistência palestina por forças palestinas
mostrariam a correção da política de construção, através de
eleições de cartas marcadas, de governos enfeudados ao
imperialismo, como tem ocorrido, com mais ou menos sucesso, no
Afeganistão, no Iraque e ocorrerá, proximamente, no Haiti, com o
apoio do governo brasileiro de Lula da Silva.
A
população palestina desarmou inexoravelmente a trama
ardilosamente tecida deslocando simplesmente grande parte do apoio
que concedera ao Fatah, de Yasser Arafat, para o Hamas, de Ismail
Haniya. Retirou, assim, sem complacência, o apoio dado à Abu
Abbas, há um ano, devido a sua rendição ao imperialismo e ao
sionismo. Isolou e enfraqueceu profundamente o presidente
palestino e seus aliados, ao colocar no coração do próximo
governo organização execrada como terrorista pelo governo
estadunidense, ao igual que o IRA, as FARC, o Hesbolah, etc.
É
ledo engano definir os resultados eleitorais de 25 de janeiro como
um simples deslocamento do apoio eleitoral da população, de uma
administração do Fatah, corrupta e incapaz, para um Hamas visto
como íntegro e competente. A população palestina é uma das
mais politizadas do Oriente Médio. A corrupção, antiga
realidade nas filas do Fatah, foi realidade minimizada pela população,
enquanto segmentos do Fatah prosseguiam na luta e o velho
combatente resistia, aos 75 anos, com as mãos já trêmulas,
entrincheirado nos escombros de ex-palácio presidencial de
Ramallah, cercado por tropas israelenses, como bandeira
viva dos sofrimentos e da firmeza dos palestinos.
Pátria
para todos
A
vitória também não foi uma surpresa para o Hamas. Desde sua
recente fundação, em 1987, no início da primeira Intifada, esse
movimento integralista islâmico vem ampliando seu prestígio
entre a população, sobretudo devido à associação de luta sem
quartel e, não raro, sem limites, ao Estado de Israel e à
construção de uma vasta rede de assistência social.
O
Hamas promoveu sem pejo o terrorismo individual, como resposta ao
terrorismo do Estado israelense. Mahmoud al-Zahar, dirigente do
Hamas, chegou a propor: "A morte de civis tem que ser punida
com a morte de civis". Em retaliação a assassinatos
israelenses, em fevereiro-março de 1996, o Hamas lançou
atentados suicidas que ceifaram a vida de mais de meia centena de
israelenses. Essas ações puseram fim ao mito de uma guerra em
que só morriam palestinos; conquistaram apoio entre uma população
ferida e humilhada; debilitaram o frágil movimento pacifista
israelense e fortaleceram a direita, facilitando a eleição de
Binyamin Netanyahu.
O
apoio ao Hamas cresceu igualmente devido a sua rede
assistencialista de escolas, refeitórios, ambulatórios, etc.,
que assumiu singular importância após a eliminação implacável
das lideranças, das associações, das instituições, etc. da
Autoridade Nacional Palestina pelo governo israelense comandado
por Ariel Sharon. Como assinalado, essa política almejava cortar
os profundos laços do Fatah de Yasser Arafat com a população,
permitindo a ascensão de direção desvinculada com as reivindicações
nacionais palestinas.
O
desenvolvimento do integralismo islâmico no mundo árabe, através
de escolas alcorânistas e rede assistencialista, é uma antiga
política dos anglo-britânicos, implementada após o fim da
Segunda Guerra, para fazer frente ao crescimento do movimento
nacionalista e socialista pan-árabe que se expressou na
nacionalização do canal de Suez, por Nasser; do petróleo, no
Iraque, pela Revolução de 1958; na derrocada da monarquia, no
Afeganistão, etc. Essa política foi e é tradicionalmente
financiada pela Arábia Saudita e pelos emirados títeres islâmicos.
Fundamentalismo
islâmico
Assim
como os talibãs, no Afeganistão; a Qaeda, no Mundo Árabe; o
Hesbolah, no Líbano; os Irmãos Muçulmanos, no Egito, etc., o
Hamas é um descendente, mais ou menos direto, da reorientação
política do fundamentalismo islâmico fomentado e apoiado
inicialmente pelo imperialismo anglo-estadunidense.
Com
a vitória histórica do capital sobre o trabalho, em fins dos
anos 1980, e a forte perda de prestígio e de atração do
marxismo, do socialista, do racionalismo, do laicismo, etc., a
oposição ao imperialismo e à exploração capitalista passou a
expressar-se, no mundo árabe, em forma confusa, através do
fundamentalismo islâmico combatente que associa a rejeição ao
imperialismo e ao capitalismo à rejeição à modernidade.
Também
consciente de seu crescente poder eleitoral, o Hamas abandonou sua
tradicional negativa à participação no jogo eleitoral,
jogando-se de corpo inteiro nas eleições parlamentares gerais de
janeiro desse ano. Para tal, manteve, por mais de um ano, trégua
com Israel, apesar da covarde execução do fundador e líder
espiritual do movimento, Ahmed Yassin, de 67 anos, cego, paraplégico,
entravado em cadeira de rodas, executado através de ataque de mísseis
de helicópteros, em 22 de março de 2004, ao sair de uma
mesquita.
Após
a vitória do Hamas, o governo dos USA, de Israel e das grandes nações
da União Européia buscaram entrincheirar-se – e, assim,
conquistar tempo e fôlego para reorganizar suas políticas –
por de trás da negativa de negociação com um governo do Hamas.
Pouco respeitadores das regras democráticas, prometeram,
igualmente, o corte dos recursos da ANP, dos quais dependem mais
de cem mil funcionários e boa parte da população, caso a
organização não “reconheça” o Estado de Israel e “não
abandone o terrorismo”.
Paz
e justiça
O
Hamas vem mantendo, há mais de um ano, como assinalado, trégua
com Israel, o que constitui, nos fatos, um reconhecimento daquele
Estado. Imediatamente após a vitória eleitoral, propôs,
explicitamente, “trégua de longo prazo”, e, implicitamente,
reconhecimento de Israel, desde que os israelenses se retirem para
as fronteiras de 1967, como exige igualmente a ONU, e liberte
todos os prisioneiros palestinos.
A
proposta do Hamas como organização terrorista e irracional,
totalmente estranha à política, é uma criação da mídia
manipulada pelo imperialismo. Em 2002, o sucessor de Ahmed Yassin,
Abdelaziz al-Rantissi, também assassinado pelos israelenses,
declarou à BBC inglesa que o "principal objetivo da Intifada”
era a “liberação da Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém,
e nada mais”. Já que não havia “força para liberar toda a
nossa terra". Reiteradas vezes, a direção do Hamas lembrou
que a derrota de Israel, que possui amplo arsenal nuclear, é
impossível.
Israel
e o imperialismo estadunidense e europeu exigem simplesmente que o
Hamas aceite a rendição palestina e abandone a luta por um
Estado soberano, nas fronteiras de 1967, com capital em Jerusalém
Oriental. Reivindicações possíveis de serem alcançadas apenas
com a unificação geral da resistência palestina, apoiada pelo
movimento pacifista israelense e antiimperialista mundial.
A
vitória eleitoral do Hamas pode favorecer a necessária unificação
da luta palestina. Sobretudo se o movimento compreende o
verdadeiro sentido do apoio eleitoral recebido e abandone o
projeto de islamização da sociedade palestina, com propostas de
leis, como as anunciadas, de separação dos estudantes de ambos
os sexos e o uso obrigatório do véu pelas mulheres.
No
longo combate contra o imperialismo e o sionismo, as eleições de
25 de janeiro, assim como a desocupação parcial da faixa de
Gaza, foram dois combates vencidos pelos palestinos, em uma guerra
talvez ainda dolorosamente longe de sua conclusão. Vitórias
parciais que se materializam, mais e mais, na Palestina, no
Iraque, no Afeganistão, na Venezuela, na Bolívia, diante dos
olhos atônitos dos poderosos que haviam anunciado exultantes o
fim da construção da história pelos povos.