|
As eleições
palestinas
Um
“E agora?” proferido em coro ecoou em todas as esquinas, lares e
bares, corredores do poder, recintos universitários e redações de
jornais, acompanhado por manifestações de surpresa, já que as
previsões davam como certa a vitória do Fatah nas primeiras eleições
palestinas celebradas desde a morte de Arafat (2004).
As
reações, tanto no ocidente como no mundo islâmico, não se
fizeram esperar.
A
esquerda israelense, previsivelmente, responsabilizou Sharon. Tanto
pela intransigência como devido à retirada unilateral de Gaza, que
teria prestigiado o Hamas aos olhos da “rua” palestina. Este último
comentário também foi proferido pela direita, mais um paradoxo
entre tantos que a vida política israelense produz constantemente.
A
coincidência cessa quando se consideram os motivos. A esquerda
apoiou a retirada mas criticou o caráter unilateral da decisão de
Sharon, que teria fragilizado Abbas, enquanto a direita está de
pleno acordo com a afirmação de que não há interlocutores do
lado palestino, mas se opõe ao desmantelamento de assentamentos.
Para
além das imputações de responsabilidade, o governo israelense
manifestou-se oficialmente contra quaisquer negociações com o
partido triunfante (posição do primeiro-ministro em exercício
Ehud Olmert), mas simultaneamente (através de Shimon Peres, futuro
ministro do Kadima), deixa entrever que a renúncia do Hamas à violência
pode abrir caminho para o diálogo.
As
autoridades do governo palestino, como seria de se esperar, atribuíram
a derrota nas urnas a Israel, que teria negado respaldo ao Fatah.
O
mundo árabe divide-se entre o regozijo (Irã, Síria) e recomendações
para que o Hamas exiba uma postura moderada, com o intuito de evitar
reações hostis por parte do Ocidente e do próprio partido
derrotado. Analistas mais sutis sugerem que pode acontecer com o
Hamas um processo semelhante ao que levou governos de direita ou
centro direita em Israel a adotar posições flexíveis. (O exemplo
mais citado é o da devolução da Península do Sinai no âmbito de
um acordo de paz com o Egito [1979], durante o mandato de Menahem
Begin, primeiro político não trabalhista a governar o Estado
Judeu).
Parte
dos comentaristas atribui a derrocada do Fatah à corrupção, à
ineficiência e ao caos. Para alguns, esse seria o motivo principal
da vitória fundamentalista, enquanto outros consideram o voto de
protesto como uma razão secundária. Em contraposição às falhas
da administração vigente, o Hamas sempre se destacou por ter
oferecido à população palestina uma alternativa. Fundado como
entidade assistencial, o movimento ainda mantém esse caráter.
Pode-se mesmo perguntar se a sua popularidade não se deve mais à
bem organizada rede de atendimento médico, educacional e de amparo
à população carente do que à militância terrorista.
O
Movimento de Resistência Islâmica (cujas iniciais formam o acrônimo
“Hamas”, palavra que significaria “zelo” e/ou “coragem”)
descende diretamente de Al-Mujama al-Islamya (Associação Islâmica),
registrada oficialmente no final dos anos setenta de pleno acordo
com a legislação israelense. A associação fundada pelo Sheik
Ahmed Yassin dedicou-se inicialmente a preencher as graves carências
da sociedade palestina. A princípio teve o apoio de Israel (e também,
suspeita-se, o financiamento). As razões do que hoje se afigura
como um gesto inusitado são facilmente compreensíveis. Não
diferem das que levaram os Estados Unidos a respaldar a guerrilha
fundamentalista liderada por certo Osama Bin Laden contra a invasão
soviética do Afeganistão (1979).
Naqueles
que viriam a ser os últimos anos da guerra fria o ocidente entendeu
que o islamismo poderia ser um aliado de peso contra os militares
que a partir da destituição do Rei Faruk pelo coronel Nasser
(1952), e em ritmo acelerado nas décadas seguintes, substituíram a
aristocracia decadente pró-ocidental que governava as nações árabes.
O
nacionalismo foi um dos pilares da ideologia terceiro-mundista,
carta forte da estratégia soviética durante a guerra fria.
Estimuladas pelo Kremlin, no âmbito da disputa por áreas de influência
que se seguiu à segunda guerra mundial, em que o valor econômico e
estratégico do petróleo se sobrepôs ao de qualquer outra matéria
prima, as forças armadas de vários países do Crescente adotaram o
socialismo como bandeira ideológica.
Certamente
não em virtude do ideal da justiça social, mas enquanto insumo
essencial do discurso anti-colonialista e anti-ocidental. O
islamismo pareceu então às potências ocidentais o único recurso
interno das sociedades árabes capaz de contrabalançar esse
processo.
Na
interpretação dos países industrializados, o êxito da
aristocracia saudita e dos emiratos do Golfo Pérsico em resistir
aos golpes militares pró-soviéticos explicava-se principalmente
pela religiosidade, vital para uma sociedade organizada em
estamentos.
As
circunstâncias mudaram abruptamente com a tomada do poder pelos
aiatolás iranianos em 1979. A grave crise desencadeada pela ocupação
da Embaixada Americana em Teerã nesse mesmo ano levou a uma
reviravolta da política norte-americana na região. Desta vez, foi
a um certo Saddam Hussein, previamente guindado ao poder com seu
beneplácito, que Washington delegou a desestabilização do
primeiro regime diretamente alicerçado no credo muçulmano. A
guerra entre Iraque e Irã, iniciada em 1980, durou oito anos,
custou um milhão de vidas e consagrou Khomeini como líder supremo
da república xiita.
O
estabelecimento do primeiro estado fundamentalista islâmico
ocasionou uma mudança crucial no conflito árabe-israelense. Uma
vez consolidado internamente, o regime dos aiatolás tornou-se o
paladino da rejeição ao ocidente, fundada em imperativos
religiosos articulados com posições políticas inflexíveis.
O
marco inicial do expansionismo iraniano foi a criação do Hezbollah
(Partido de Deus) a partir de uma pequena força enviada ao Líbano
em 1982, mesmo ano em que Israel ocupou o sul do país para impedir
bombardeios e incursões por parte de milícias palestinas. Foi esse
também o momento inicial da aliança entre Irã e Síria, marcada
por profundas desavenças, mas finalmente cimentada pelo interesse
em combater o inimigo comum.
Atribui-se
ao Hezbollah a retirada definitiva do exército israelense (2000),
embora o acordo final tenha incluído o estabelecimento de uma força
internacional de monitoramento (os capacetes azuis da ONU), que
reduziu significativamente as tensões na fronteira, apesar de
alguns incidentes graves.
O
Irã tornou-se o grande patrocinador dessa nova e mais pujante forma
de nacionalismo, o fundamentalismo islâmico, que relegou a segundo
plano os regimes militares, cujo auge coincidira com a efêmera união
entre o Egito e a Síria (República Árabe Unida, 1957-1961) e que
alcançou alguma sobrevida a partir da emergência do Baath (Partido
Árabe Socialista). O Baath chegou ao poder quase simultaneamente no
Iraque e na Síria (1963), e se mantém neste último país,
enquanto no Iraque, enquanto representativo da hegemonia sunita,
sofreu o mesmo destino de Saddam Hussein.
Coube
a um país não árabe levar até as últimas conseqüências a
aplicação dos preceitos do Corão à política.
Sob
os auspícios de Teerã, a Al Mujama al-Islamya tornou-se Hamas. Os
respectivos estatutos estipularam como objetivo a destruição do
Estado de Israel e a criação de uma república islâmica cuja
soberania deveria estender-se do Jordão ao Mediterrâneo. A
metamorfose deu-se em 1988, dez anos após a fundação da entidade
dedicada até então à ação social.
A
história do Hamas é marcada por inflexões. A sua origem remonta
à implantação da Irmandade Muçulmana na Faixa de Gaza. A
Irmandade Muçulmana fôra criada no Egito em 1928 e viria a ser
algo como a “Internacional Socialista’ do Islam, provendo os
fundamentos para a articulação entre religião e política. A
finalidade era ambiciosa: destituir a aristocracia pró-ocidental árabe
e substitui-la por governos teocráticos.
O
enraizamento da Irmandade na Faixa de Gaza deu-se em silêncio, de
1967 até 1976, data em que é fundada a Associação Islâmica (Al-Mujama
Al-Islamiya), consagrada a fins beneficientes. No final dos
anos 70, em simultaneidade com a ascensão dos aiatolás em Teerã,
a Caridade Islâmica ganha cunho político e adquire contornos
militares. Prepara-se então para a luta armada, considerada inevitável
e efetivamente concretizada em 1987, quando eclode a primeira
Intifada, que coincide com a renomeação da Associação,
consagrada doravante à Jihad (guerra santa).
Estima-se
que desde 1993, quando iniciou suas atividades terroristas,
precedidas por assassinatos de palestinos considerados colaboradores
de Israel, criminosos e transgressores religiosos, o Hamas tenha
causado a morte de cerca de 270 israelenses e ferido outros dois
mil.
***
A
pergunta pelo significado da vitória eleitoral do Hamas pode ser
respondida a partir de dois ângulos diferentes.
Em
relação ao terrorismo, e a curto prazo, dificilmente a
situação poderia tornar-se mais tensa, visto que o Fatah, com
Arafat ou Abbas, jamais coibiu as milícias terroristas quer em Gaza
quer na margem ocidental.
Talvez
as pressões internacionais obriguem o Hamas a exercer um controle
mais estrito, para contrabalançar a imagem de caos pré-existente.
A outra alternativa é que a atividade terrorista prossiga
inalterada, a pretexto de que o novo governo tampouco tem meios ou
razões suficientes para impedi-la. Provavelmente a liderança se
dividirá em relação à estratégia a ser adotada, dando lugar ao
conhecido embate entre “radicais” e “moderados”.
A
médio prazo, o Hamas pode nutrir seu arsenal e sofisticar as
armas à disposição das Brigadas Izzedin al-Din al-Qassam e/ou da
Autoridade Palestina, bem como intensificar a doutrinação das forças
de segurança, dos educadores e da mídia. O discurso monolítico
serviria para intimidar a oposição interna e, como é de praxe,
canalizar a insatisfação popular na direção do inimigo
israelense.
O
modelo já foi testado com êxito pelo Hezbollah no sul do Líbano.
Tal como o Hezbollah, o Hamas recebe suas instruções do regime de
Damasco (ainda que intermediadas pelo líder do movimento, Khaled
Meshaal). Tanto o Hezbollah xiita (financiado pelo Irã) como o
Hamas sunita (financiado pelos países produtores de petróleo do
Oriente Médio, incluindo o próprio Irã) são movimentos
religiosos, mas as circunstâncias fazem com que ambos aceitem
subordinar-se a um regime militar laico (alauita), que controla em
seu próprio interesse as ações das milícias terroristas.
Se
do ponto de vista bélico não há porque esperar mudanças
significativas, pelo menos a curto prazo, as eleições palestinas
parecem demonstrar que o palco político das nações árabes só
pode ser ocupado por dois protagonistas, um laico, cuja fonte de
poder reside nos quartéis, e outro religioso, enraizado nas
madrassas (escolas religiosas) e mesquitas. Ambos armados.
A
casta militar, em países como Síria, Egito, Iraque (sob Saddam) e
Líbia, tem oferecido atualmente a imagem de personalismo e descaso
para com os valores espirituais. Em contraposição, a realeza
saudita e os emires do Golfo governam em aliança com o clero.
A
guerra entre Irã e Iraque e a invasão do Quwait pelo Iraque não são
alheios a esse estado de coisas.
Nas
últimas eleições, a superioridade moral do Hamas parece ter sido
decisiva. Uma das peculiaridades da situação palestina reside em
que, ao contrário do que acontece habitualmente nos países árabes,
a facção vencedora terá dificuldades para perpetuar-se no poder
mediante o procedimento habitual de eliminar toda e qualquer forma
de oposição. Assim como Abbas não conseguiu adiar as eleições
para um momento mais propício, tudo leva a crer que a pressão
internacional colocará limites às prerrogativas habitualmente
concedidas aos vitoriosos.
As
cidades da margem ocidental e Gaza funcionarão como um laboratório
para estudar as relações entre os ramos laico e religioso do
nacionalismo árabe, sobretudo em relação à sua convivência política.
A relativa calma que prevaleceu durante as eleições talvez se
explique pelas pesquisas forjadas que davam por certa a vitória do
Fatah, bem como em virtude da garantia de que não haveria fraude.
Provavelmente o resultado surpreendeu a todos. Agora será posta a
prova a possibilidade de que situação e oposição se relacionem
de acordo com regras mutuamente acordadas, numa cultura política em
que ao vencedor sempre coube muito mais do que a parte do leão.
Se
isso efetivamente acontecer, as repercussões sobre as relações
com Israel serão significativas. A divisão do poder e a alternância
em seu exercício efetivamente preparariam o caminho para a aceitação
da existência do estado judeu. Por enquanto não há como deixar de
constatar que a estrutura social e política das sociedades árabe-muçulmanas
expressa uma concepção medieval segundo a qual o outro, o
diferente, quer do ponto de vista étnico ou religioso, é aquele a
ser vencido, submetido ou aniquilado.
Não
é difícil exemplificar. Basta observar a situação em que se
encontram minorias como a cristã e a judaica nas sociedades
maometanas, e mesmo a encarniçada hostilidade que opõe entre si as
diversas seitas islâmicas.
As
perspectivas de paz dependem da possibilidade da convivência entre
diferentes. Enquanto isso não se der no interior da própria
sociedade palestina, não há como esperar que venha a acontecer nas
relações com outras nações e etnias.
Um
mínimo de realismo faz pensar que uma mudança desse porte não se
encontra no horizonte. Os setores da sociedade árabe da Cisjordânia
que têm interesse no desenvolvimento econômico e social, e
portanto num verdadeiro acordo de paz,
carecem dos meios para influenciar o Fatah e o Hamas, que
possuem seus próprios grupos armados e disputam o poder para
assegurar a hegemonia de seus patrocinadores.
A
situação do Líbano é paradigmática. O país dos cedros, que além
de Israel constituía a única democracia do Oriente Médio, perdeu
sua soberania em virtude da aliança entre as vertentes militarista
e teocrática do mundo muçulmano (Síria e Irã), que suspenderam e
quase extinguiram a vida política do país, amplamente dependente
dos árabes cristãos.
Similarmente,
os progressos econômicos derivados dos intercâmbios com Israel após
a guerra dos seis dias possibilitaram uma melhoria acentuada da
qualidade de vida da população árabe da Cisjordânia, processo
abortado pela instalação da OLP nos territórios (1993).
A
aliança tácita entre as facções laica (Fatah, Frentes de Libertação)
e fundamentalista (Hamas, Jihad) promoveu a “libanização” da
Cisjordânia e de Gaza. Assim como no Líbano, as intifadas foram
precedidas pela eliminação das lideranças emergentes que se
relacionavam com os israelenses (“intrafada”). Não surpreende
que os políticos palestinos tenham o cuidado de fazer preceder
qualquer manifestação de opinião com mantras anti-sionistas.
Não
há, portanto, entre os árabes palestinos, qualquer partido ou
grupo político que exerça um papel semelhante ao desempenhado pela
esquerda israelense.
Quando
for feita a história do conflito árabe-israelense, em futuro próximo
ou distante, muitas afirmações tidas atualmente por verdades
absolutas serão questionadas ou diretamente arquivadas no escaninho
dos mitos.
Certa
esquerda, com acesso privilegiado às salas de redação e às
colunas assinadas da grande imprensa, tem retratado Israel como um
país colonialista, dotado de um projeto expansionista em tudo e por
tudo semelhante ao das grandes potências coloniais européias que
dominaram o mundo entre os séculos XVI e XIX.
Suplementarmente,
Sharon foi vestido com a indumentária típica do ditador
sul-americano a serviço de Tio Sam.
Israel
condensou numa única imagem os dois pecados capitais dos anos
sessenta e foi incumbida pela esquerda nostálgica de ressuscitar a
década terrível e gloriosa em que a América Latina foi esmagada
por ditaduras militares cruéis patrocinadas pelos Estados Unidos,
enquanto a Ásia e a África se libertavam do jugo europeu.
A
revolução cubana (1958) havia alertado os Estados Unidos para as
aceleradas mudanças políticas que ocorriam ao sul do Rio Grande.
Na seqüência, os exércitos do continente se uniram para erradicar
o que os setores conservadores interpretaram como ameaça comunista.
Com raras exceções, a América Latina sucumbiu a tiranias cuja
primeira medida era invariavelmente a suspensão dos direitos
constitucionais, seguida pela prisão, tortura e assassinato de
opositores políticos.
As
acusações de genocídio de que Israel foi alvo parecem transposições
exatas das matanças sem julgamento perpetradas com requintes de
crueldade pelas ditaduras argentina, chilena e brasileira dos anos
70. A imagem de generais como Videla, Pinochet e Geisel, associada a
ditadores mais antigos (Stroessner, Somoza, Trujilo), foi projetada
sobre Sharon.
Nessa
perspectiva, a esquerda considerou a aliança entre Israel e Estados
Unidos como a prova cabal de que Israel repetia no Oriente Médio os
crimes do colonialismo europeu e do imperialismo norte-americano. Os
massacres nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila (Líbano),
perpetrados por Elie Hobeika, foram imediatamente atribuídos ao próprio
Sharon, que autorizara o líder cristão libanês a perseguir os
assassinos do primeiro ministro libanês Bachir Gemayel na região
controlada pelo exército israelense.
A
ideologização do conflito do Oriente Médio com base na épica
terceiro-mundista fez com que a esquerda se aliasse paradoxalmente
às ditaduras do Oriente Médio, tão sanguinárias como as que
haviam massacrado seus militantes na América Latina, na Ásia e na
África.
Mas
a caracterização de Israel como país colonialista e imperialista
não resiste a uma simples enumeração de fatos.
Israel
pediu à Jordânia que não entrasse na guerra de 1967. O Rei
Hussein, porém, solidarizou-se com o Egito e a Síria e abriu uma
nova frente no oeste, obrigando o exército israelense a deslocar
tropas e armamentos do sul (Egito) e norte (Síria). Não houve um
projeto israelense de conquista de Jerusalém e da Cisjordânia, que
decorreu das circunstâncias mencionadas.
A
devolução do Sinai mostra que até governos israelenses de centro
direita estão dispostos a trocar terra por paz. A proposta de Barak
em Camp David e Taba (2000), propondo a devolução de praticamente
toda a margem ocidental (menos 3%, que seriam compensados
territorialmente) e a soberania compartilhada sobre Jerusalém, foi
recusada por Arafat a pretexto de que Israel deveria aceitar seis
milhões de refugiados palestinos em seu território.
Tanto
esse número como a caracterização de “refugiados” dada à
população que escapou à invasão militar empreendida em 1948
pelos próprios países árabes, são postos em dúvida por Israel.
Por outro lado, não há como deixar de mencionar, em relação a
essa questão, os aproximadamente 750 mil judeus que foram expulsos
das nações muçulmanas na década de 50, em represália pela criação
do Estado de Israel.
As
ondas migratórias de judeus europeus que se instalaram entre o
Mediterrâneo e o Jordão desde o final do século XIX não têm a
menor semelhança com a ocupação bélica mediante a qual se
concretizou o projeto colonialista europeu. Não houve conquista
armada nem apropriação de matérias primas valiosas ou exploração
do trabalho da população nativa. Vastas extensões de terras
improdutivas foram compradas por valores extorsivos e transformadas
em glebas férteis graças ao trabalho dos emigrantes.
Os
assentamentos da margem ocidental do Jordão, impropriamente
chamados de colônias, não são sinônimo de roubo ou apropriação
forçada. Primeiramente, porque não foram erguidos sobre
propriedades confiscadas. Em segundo lugar, porque o armistício de
1948 não definiu a soberania da região, estipulando que a mesma
deve ser objeto de negociação entre as partes. E, finalmente,
porque a presença de assentamentos judeus não é prejudicial à
população local. As negociações podem resultar na integração
dos assentamentos ao futuro estado palestino, que em nada seria
prejudicado pela minoria judaica. Essa possibilidade seria inclusive
benéfica para o entendimento entre os dois povos. (O mesmo poderia
ser dito em relação aos assentamentos de Gaza e à sua população
de 8 mil pessoas).
A
demonização de Sharon corresponde à intenção de deslegitimizar
Israel. Sharon foi eleito primeiro ministro em dois pleitos
consecutivos e se encontrava novamente à frente das pesquisas de
opinião quando sofreu o derrame que o mantém em coma. De acordo
com a tradição política israelense, enfrentou forte oposição e
precisou fazer alianças para governar. Ao contrário de Sharon,
cujo poder sempre foi limitado por outros partidos e pelo poder
judiciário, o autoritarismo e a ausência de limites são típicos
dos regimes vizinhos.
As
eleições palestinas são reveladoras acerca da dificuldade
norte-americana em entender o mundo muçulmano. As duas forças que
disputaram o poder são constituídas por agrupamentos políticos e
facções armadas. Ambas estão subordinadas a governos estrangeiros
que representam as vertentes teocrática e militarista do Islam,
absolutamente refratárias à modernização sócio-econômica e à
democratização da vida política.
Para
os regimes iraniano e sírio, cujos interesses pouco se diferenciam
dos das outras nações muçulmanas do Oriente Médio, o
desenvolvimento econômico e suas conseqüências sociais e políticas
acarretariam a perda de poder. Israel e Líbano constituem uma séria
ameaça para a estabilidade de suas sociedades rigidamente
estruturadas. Se não podem ser destruídos, é imprescindível contê-los
e isolá-los para impedir que possam exercer influência sobre os
povos árabes submetidos a ditaduras implacáveis. A história tem
suas ironias, e uma das mais notáveis é a de que no Oriente Médio
Israel e Líbano desempenham um papel semelhante ao representado por
Cuba na América Latina, entre as décadas de 60 e 80.
A
competição entre Hamas e Fatah é superficial, se comparada à
profunda afinidade que os une. Os seus líderes sempre se empenharam
em evitar que forças políticas interessadas na modificação
estrutural da sociedade árabe palestina tenham qualquer
possibilidade de comunicar-se com a população e expor os seus
projetos.
Contrariando
as expectativas ocidentais, as eleições palestinas foram vencidas
pelo Hamas. O mais decepcionante, porém, é que uma eventual vitória
do Fatah em nada tornaria mais próximas as perspectivas de paz.
|