|
por
DEMÉTRIO MAGNOLI
geógrafo
e cientista social. Especialista em relações internacionais, é
diretor editorial do boletim "Mundo -Geografia e Política
Internacional" e pesquisador do Nadd (Núcleo de Apoio à
Pesquisa sobre Democratização e Desenvolvimento) da USP e
Colunista da Folha de S. Paulo. |
|
Quem
negociará a paz?
As
eleições palestinas assinalaram o encerramento de um ciclo histórico.
A direção do Fatah, o partido dirigente da OLP construído por
Iasser Arafat, sofreu uma dupla derrota. Externamente, o Hamas
emergiu como força política decisiva, contestando os fundamentos
do programa do nacionalismo palestino. Internamente, a facção de
Marwan Barghouti, o líder das intifadas preso em Israel, evidenciou
que tem o apoio popular do qual carece Abu Mazen, o presidente da
Autoridade Palestina e sucessor de Arafat.
Abu
Mazen, agora, só existe como projeção fantasmagórica das relações
entre Israel, os EUA e a Autoridade Palestina. Ele é o único
interlocutor admitido por Israel e pelos EUA, mas não representa a
vontade dos palestinos. Essa equação, aparentemente insolúvel,
condena a região à continuidade da violência e, no limite, ameaça
implodir a OLP. O fundamentalismo e o jihadismo tendem a preencher o
vácuo político.
Os
Acordos de Oslo, de 1993, foram costurados à luz do paradigma de
que a solução da questão palestina seria a chave para a
estabilização geopolítica do Oriente Médio. A paz com Israel e a
construção de um Estado palestino viável e democrático
funcionaram como antídoto contra o terror jihadista em toda a região
e estabeleceriam um novo modelo político para as sociedades árabes.
Os grupos fundamentalistas se veriam privados da bandeira de
arregimentação proporcionada pelo sofrimento palestino. As
ditaduras teocráticas, como a monarquia saudita, e os regimes
autoritários seculares, como os do Egito e da Síria, seriam
confrontados com o exemplo de uma democracia árabe.
O
paradigma sobreviveu à erosão do crônico impasse do processo de
paz, mas não resistiu ao fogo concentrado da Doutrina Bush. Depois
de 11 de setembro de 2001, os EUA promoveram uma inversão
conceitual, passando a afirmar que a estabilização do Oriente Médio
é que seria a chave para a solução da questão palestina. A invasão
do Iraque e a ofensiva destinada a derrubar o regime da Síria foram
apresentadas como elementos de um programa redentor, de difusão da
liberdade no mundo muçulmano. Em Israel, o governo de Ariel Sharon
extraiu o máximo proveito dessa estratégia, convertendo-a em
justificativa para a sua política de interrupção das negociações
de paz e definição unilateral de fronteiras.
Sob
a Doutrina Bush, o Oriente Médio conhece a crise do nacionalismo árabe
e a expansão do fundamentalismo. O Iraque oscila entre a guerra
civil e a teocracia xiita. O Irã renuncia às reformas e embarca
numa aventura nuclear. Os palestinos votam em massa no movimento islâmico
que prega a destruição de Israel. As sementes do "choque de
civilizações", regadas pela política de Washington, germinam
como árvores de ódio.
Abu
Mazen proclamou que as eleições palestinas abririam caminho para a
aplicação do princípio de "um governo, uma lei, uma
arma". Mas os EUA e Israel declararam que não sentarão para
negociar com um governo palestino integrado por ministros do Hamas.
A trágica ironia é que esse governo, se vier a se constituir, será
o fruto do único processo eleitoral relativamente democrático no
Oriente Médio árabe. Por isso, cedo ou tarde, os fatos confirmarão
as palavras de Sami Abou Zohri, porta-voz do Hamas: "Os
ocidentais não terão escolha a não ser nos aceitar". |
|

|