por FRANCISCO MORENO CARVALHO

Médico e historiador. Milita no Movimento PAZ Agora de Israel.

 

 

 

O colapso do movimento nacional palestino

 

A vitória do Hamas, movimento fundamentalista islâmico, nas eleições palestinas, deve ser um motivo de tristeza para todos aqueles que defendem os legítimos direitos nacionais palestinos à autodeterminação e independência, numa coexistência pacífica com seus vizinhos, em especial com o Estado de Israel.

O Hamas representa a quintessência de tudo aquilo que nega o movimento nacional palestino.

Em primeiro lugar, enquanto movimento religioso fundamentalista, conceitua o universo político não como baseado num Estado nacional moderno, com suas estruturas políticas, suas mediações e estruturas sociais, econômicas e culturais. Antes disto, defende o conceito da Uma, a comunidade de fiéis, neste caso muçulmanos, como sendo o modelo norteador da organização social. Estamos portanto diante de um regressismo político, de um dar a volta na roda da história, que não pretende a criação de uma nova síntese que porventura transcenda o modelo de organização estatal moderno mas sim como uma volta aos tempos do califado medieval. A história só se repete como farsa ou como tragédia, e é esta última que espreita o futuro do povo palestino.

O Hamas mostra-se inoperante em trilhar qualquer caminho de compromisso que escape ao seu maximalismo: um Estado islâmico na Palestina, do mar ao Jordão. Sua bravata de “varrer Israel do mapa” continua sendo o mote de seu discurso, mais sintoma de sua própria inoperância do que reflexo de qualquer solução viável. Homens-bomba causam vítimas, dor , indignação e medo. Mas não será isto que forçará Israel a qualquer forma de rendição, termo que aliás nem se coloca no horizonte histórico dada sua força política econômica e militar.

Por fim, o Hamas não trilhou nenhum caminho de viabilização econômica e educacional do povo palestino. Muito pelo contrário. Boa parte de sua vitória deve-se à rede de assistencialismo que montou. Mas assistencialismo não sustenta nenhuma sociedade. Produção econômica própria, educação para ciência e tecnologia, e não para recitar versículos religiosos ou para educar moças nas “boas maneiras” religiosas, não foram implementadas por este movimento. Isto torna os palestinos reféns da caridade estrangeira e do obscurantismo.

Criticar o oprimido não costuma ser atitude bem vista. De fato, a ocupação israelense e a opressão dela oriunda afetou e afeta a sociedade palestina como um todo e é em parte responsável pela vitória do regressismo. Mas também atribuir todas as mazelas que se abatem sobre os palestinos como conseqüência tão só da “opressão sionista” é uma explicação cômoda e cínica. Ela não explica os milhões de dólares na conta de Suha Arafat (viúva de Yasser Arafat), nem a corrupção deslavada da Al-Fatah, fator também responsável pelo resultado das eleições, a proliferação de “polícias palestinas” corruptas e violadoras dos direitos humanos; enfim, toda a inoperância e incompetência política e administrativa que caracteriza o governo da Autoridade Palestina desde os acordos de Oslo.

Há que se lembrar que os palestinos não são o único povo oprimido no planeta neste instante, tampouco ao longo da história da humanidade. A Índia foi depredada pelos ingleses, mas Gandhi soube leva-la à independência e hoje constitui-se num país complexo, cheio de problemas e conflitos mas com importantes conquistas. A China, vilipendiada por quase todas as potências européias ao longo do século XIX e detentora então de altos índices de famintos e miseráveis, encontrou seu caminho em direção à independência e o desenvolvimento, ainda que sob uma ditadura e oprimido o povo tibetano.. Na África do Sul Mandela conduziu seu povo à liberdade e dignidade.

O movimento nacional palestino possui elementos surpreendentes de semelhança com seu opositor, o sionismo. Na Carta Nacional palestina é reconhecido o “direito ao retorno” dos palestinos a sua terra ancestral, da mesma maneira que na Lei do Retorno israelense. A definição de quem é palestino nesta mesma Carta segue um inesperado paralelismo com a legislação israelense, diferenciado apenas pela linha patrilinear no caso palestino e matrilinear no caso israelense. Os mapas que se ensinam às crianças nas escolas são os mesmos: uma faixa de terra entre o mar e o Jordão com Jerusalém como centro.

Contudo, os paralelismos não se seguem no plano político.

Desde sua origem como movimento político o sionismo, pelo menos sua linha central, pautou-se pelo realismo político e por tecer alianças e compromissos que facilitassem seus objetivos.

Soube combater o colonialismo britânico e angariar frutos deste. Violava as restrições à imigração judaica do “Livro Branco” ao mesmo tempo que mandava uma brigada de combatentes junto às forças britânicas que lutavam na Itália, participando assim da luta contra o nazi-fascismo e adquirindo valiosa experiência militar. Logrou usufruir do apoio norte-americano e soviético de forma concomitante (as primeiras armas que chegaram a Israel em 1948 vieram da Tchecoslováquia socialista). Forjou uma base econômica não baseada no assistencialismo. Inaugurou uma universidade e centros de pesquisa acadêmicos antes que se tornasse Estado. Criou uma Central Sindical anda nos anos 20, com sistema de saúde e previdenciário próprios.

Mais importante do que tudo isto, soube fazer concessões políticas importantes e tomar decisões difíceis. Abriu mão do maximalismo do “Estado judeu em toda a Palestina” e aceitou o Plano de Partilha de 1947. E já como Estado recém-estabelecido soube impor o uso exclusivo da força, unificando todas as forças combatentes num único exército mesmo que para isso Ben Gurion tenha tido que afundar um navio, o Altalena, com seus ocupantes e suas armas destinadas aos seus rivais políticos do sionismo revisionista, de direita.

Já o movimento nacional palestino primou pelo desacerto político. Seu líder máximo até os anos 50, o Grão-Mufti de Jerusalém Hadj Amin al Hussein, foi procurar aliança política com o nazismo, chegando a arregimentar soldados SS muçulmanos na Bósnia, o que lhe valeu a categoria de criminoso de guerra procurado na antiga Iugoslávia de Tito. Por ocasião da partilha de 1947 continuou com seu maximalismo tacanho. Não soube colocar o tema palestino na agenda dos Estados árabes da região que terminaram por perder a guerra e,m 48 e levar os palestinos à desgraça.

Mesmo nos anos 50 e 60 o movimento nacional palestino continuou um apêndice dos interesses de governos árabes distintos. Nenhuma revolta contra a ocupação egípcia em Gaza ou jordaniana na Cisjordânia. O caminho do terrorismo, do ataque indiscriminado à população civil israelense só isolou mais ainda o movimento.

De 1967 a 1987 a ocupação israelense foi das mais confortáveis que se tem notícia. Terras palestinas foram confiscadas, colônias judaicas estabelecidas e nenhuma oposição efetiva foi implementada. Os que mais barraram estas ações foram justamente as forças políticas da esquerda israelense que propunham a saída israelense dos Territórios e a criação de um Estado palestino, enquanto a direção da OLP ainda sonhava em “jogar os judeus ao mar”. Só com a eclosão da primeira Intifada, que pegou a liderança palestina exilada em Túnis completamente desprevenida e atônita, é que a ocupação tirou o sono de muita gente em Israel.

Arrastados pelos acontecimentos, depois de apoiarem publicamente Sadam Hussein por ocasião da I Guerra do Golfo, é que, levados por Bush pai à mesa de negociações com o governo de direita israelense de Shamir, abriram-se as perspectivas para os acordos de Oslo.

Estabelecida a Autoridade Palestina, vicejou o mau governo, a corrupção e a perda histórica das negociações de Taba que poderiam ter de fato implementado uma mudança radical no status quo e no avanço em direção a um estado palestino independente.

Olhando-se em perspectiva, o movimento nacional palestino parecia apresentar promessas de progresso e liberdade, pese algumas práticas condenáveis como o terrorismo. Até mesmo agrupações marxistas, A FPLP e a FDLP (orientação soviética e maoísta, respectivamente) existiam em seu interior. Uma intelectualidade palestina laica e cosmopolita parecia vicejar. Alguns viam numa futura aliança israelense-palestina um futuro viável para um Oriente Médio que precisa sair de seu arcaísmo.

Mas a eleição do Hamas demonstra que havia muita esperança e pouca substância. A liderança palestina laica fracassou de forma retumbante. Alguns, no mundo árabe e em Israel, podem estar felizes com esta situação que joga os palestinos à condição de possíveis integrantes do tal “eixo do mal” do Bush filho. Mas para aqueles que sinceramente anseiam pela paz na região e por um povo palestino livre e próspero, só resta uma lágrima.

 

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