O
colapso do movimento nacional palestino
A
vitória do Hamas, movimento fundamentalista islâmico, nas eleições
palestinas, deve ser um motivo de tristeza para todos aqueles que
defendem os legítimos direitos nacionais palestinos à
autodeterminação e independência, numa coexistência pacífica
com seus vizinhos, em especial com o Estado de Israel.
O
Hamas representa a quintessência de tudo aquilo que nega o
movimento nacional palestino.
Em
primeiro lugar, enquanto movimento religioso fundamentalista,
conceitua o universo político não como baseado num Estado
nacional moderno, com suas estruturas políticas, suas mediações
e estruturas sociais, econômicas e culturais. Antes disto,
defende o conceito da Uma, a comunidade de fiéis, neste
caso muçulmanos, como sendo o modelo norteador da organização
social. Estamos portanto diante de um regressismo político, de um
dar a volta na roda da história, que não pretende a criação de
uma nova síntese que porventura transcenda o modelo de organização
estatal moderno mas sim como uma volta aos tempos do califado
medieval. A história só se repete como farsa ou como tragédia,
e é esta última que espreita o futuro do povo palestino.
O
Hamas mostra-se inoperante em trilhar qualquer caminho de
compromisso que escape ao seu maximalismo: um Estado islâmico na
Palestina, do mar ao Jordão. Sua bravata de “varrer Israel do
mapa” continua sendo o mote de seu discurso, mais sintoma de sua
própria inoperância do que reflexo de qualquer solução viável.
Homens-bomba causam vítimas, dor , indignação e medo. Mas não
será isto que forçará Israel a qualquer forma de rendição,
termo que aliás nem se coloca no horizonte histórico dada sua
força política econômica e militar.
Por
fim, o Hamas não trilhou nenhum caminho de viabilização econômica
e educacional do povo palestino. Muito pelo contrário. Boa parte
de sua vitória deve-se à rede de assistencialismo que montou.
Mas assistencialismo não sustenta nenhuma sociedade. Produção
econômica própria, educação para ciência e tecnologia, e não
para recitar versículos religiosos ou para educar moças nas
“boas maneiras” religiosas, não foram implementadas por este
movimento. Isto torna os palestinos reféns da caridade
estrangeira e do obscurantismo.
Criticar
o oprimido não costuma ser atitude bem vista. De fato, a ocupação
israelense e a opressão dela oriunda afetou e afeta a sociedade
palestina como um todo e é em parte responsável pela vitória do
regressismo. Mas também atribuir todas as mazelas que se abatem
sobre os palestinos como conseqüência tão só da “opressão
sionista” é uma explicação cômoda e cínica. Ela não
explica os milhões de dólares na conta de Suha Arafat (viúva de
Yasser Arafat), nem a corrupção deslavada da Al-Fatah, fator
também responsável pelo resultado das eleições, a proliferação
de “polícias palestinas” corruptas e violadoras dos direitos
humanos; enfim, toda a inoperância e incompetência política e
administrativa que caracteriza o governo da Autoridade Palestina
desde os acordos de Oslo.
Há
que se lembrar que os palestinos não são o único povo oprimido
no planeta neste instante, tampouco ao longo da história da
humanidade. A Índia foi depredada pelos ingleses, mas Gandhi
soube leva-la à independência e hoje constitui-se num país
complexo, cheio de problemas e conflitos mas com importantes
conquistas. A China, vilipendiada por quase todas as potências
européias ao longo do século XIX e detentora então de altos índices
de famintos e miseráveis, encontrou seu caminho em direção à
independência e o desenvolvimento, ainda que sob uma ditadura e
oprimido o povo tibetano.. Na África do Sul Mandela conduziu seu
povo à liberdade e dignidade.
O
movimento nacional palestino possui elementos surpreendentes de
semelhança com seu opositor, o sionismo. Na Carta Nacional
palestina é reconhecido o “direito ao retorno” dos palestinos
a sua terra ancestral, da mesma maneira que na Lei do Retorno
israelense. A definição de quem é palestino nesta mesma Carta
segue um inesperado paralelismo com a legislação israelense,
diferenciado apenas pela linha patrilinear no caso palestino e
matrilinear no caso israelense. Os mapas que se ensinam às crianças
nas escolas são os mesmos: uma faixa de terra entre o mar e o
Jordão com Jerusalém como centro.
Contudo,
os paralelismos não se seguem no plano político.
Desde
sua origem como movimento político o sionismo, pelo menos sua
linha central, pautou-se pelo realismo político e por tecer alianças
e compromissos que facilitassem seus objetivos.
Soube
combater o colonialismo britânico e angariar frutos deste.
Violava as restrições à imigração judaica do “Livro
Branco” ao mesmo tempo que mandava uma brigada de combatentes
junto às forças britânicas que lutavam na Itália, participando
assim da luta contra o nazi-fascismo e adquirindo valiosa experiência
militar. Logrou usufruir do apoio norte-americano e soviético de
forma concomitante (as primeiras armas que chegaram a Israel em
1948 vieram da Tchecoslováquia socialista). Forjou uma base econômica
não baseada no assistencialismo. Inaugurou uma universidade e
centros de pesquisa acadêmicos antes que se tornasse Estado.
Criou uma Central Sindical anda nos anos 20, com sistema de saúde
e previdenciário próprios.
Mais
importante do que tudo isto, soube fazer concessões políticas
importantes e tomar decisões difíceis. Abriu mão do maximalismo
do “Estado judeu em toda a Palestina” e aceitou o Plano de
Partilha de 1947. E já como Estado recém-estabelecido soube
impor o uso exclusivo da força, unificando todas as forças
combatentes num único exército mesmo que para isso Ben Gurion
tenha tido que afundar um navio, o Altalena, com seus ocupantes e
suas armas destinadas aos seus rivais políticos do sionismo
revisionista, de direita.
Já
o movimento nacional palestino primou pelo desacerto político.
Seu líder máximo até os anos 50, o Grão-Mufti de Jerusalém
Hadj Amin al Hussein, foi procurar aliança política com o
nazismo, chegando a arregimentar soldados SS muçulmanos na Bósnia,
o que lhe valeu a categoria de criminoso de guerra procurado na
antiga Iugoslávia de Tito. Por ocasião da partilha de 1947
continuou com seu maximalismo tacanho. Não soube colocar o tema
palestino na agenda dos Estados árabes da região que terminaram
por perder a guerra e,m 48 e levar os palestinos à desgraça.
Mesmo
nos anos 50 e 60 o movimento nacional palestino continuou um apêndice
dos interesses de governos árabes distintos. Nenhuma revolta
contra a ocupação egípcia em Gaza ou jordaniana na Cisjordânia.
O caminho do terrorismo, do ataque indiscriminado à população
civil israelense só isolou mais ainda o movimento.
De
1967 a 1987 a ocupação israelense foi das mais confortáveis que
se tem notícia. Terras palestinas foram confiscadas, colônias
judaicas estabelecidas e nenhuma oposição efetiva foi
implementada. Os que mais barraram estas ações foram justamente
as forças políticas da esquerda israelense que propunham a saída
israelense dos Territórios e a criação de um Estado palestino,
enquanto a direção da OLP ainda sonhava em “jogar os judeus ao
mar”. Só com a eclosão da primeira Intifada, que pegou a
liderança palestina exilada em Túnis completamente desprevenida
e atônita, é que a ocupação tirou o sono de muita gente em
Israel.
Arrastados
pelos acontecimentos, depois de apoiarem publicamente Sadam
Hussein por ocasião da I Guerra do Golfo, é que, levados por
Bush pai à mesa de negociações com o governo de direita
israelense de Shamir, abriram-se as perspectivas para os acordos
de Oslo.
Estabelecida
a Autoridade Palestina, vicejou o mau governo, a corrupção e a
perda histórica das negociações de Taba que poderiam ter de
fato implementado uma mudança radical no status quo e no avanço
em direção a um estado palestino independente.
Olhando-se
em perspectiva, o movimento nacional palestino parecia apresentar
promessas de progresso e liberdade, pese algumas práticas condenáveis
como o terrorismo. Até mesmo agrupações marxistas, A FPLP e a
FDLP (orientação soviética e maoísta, respectivamente)
existiam em seu interior. Uma intelectualidade palestina laica e
cosmopolita parecia vicejar. Alguns viam numa futura aliança
israelense-palestina um futuro viável para um Oriente Médio que
precisa sair de seu arcaísmo.
Mas
a eleição do Hamas demonstra que havia muita esperança e pouca
substância. A liderança palestina laica fracassou de forma
retumbante. Alguns, no mundo árabe e em Israel, podem estar
felizes com esta situação que joga os palestinos à condição
de possíveis integrantes do tal “eixo do mal” do Bush filho.
Mas para aqueles que sinceramente anseiam pela paz na região e
por um povo palestino livre e próspero, só resta uma lágrima.