por GABRIEL BOLAFFI

Sociólogo, Professor aposentado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Seu próximo livro,  "O Legado de Renata",  vai ser publicado  em breve pela Editora Perspectiva.

 

 

 

O Hammas e a Questão Palestina

 

O Estado de Israel é hoje uma realidade indiscutível e qualquer pretensão do Hammas em querer negá-lo, não passa de pura retórica de quem está na oposição. Logo mais, o grande vencedor das eleições Palestinas, cairá  na real e adotará posições conseqüentes. Aliás, como é sabido por todos os que vem acompanhando os eventos no Oriente Médio de perto, o surgimento do Hammas foi fortemente estimulado pelos Israelenses, nos anos 1980, como um meio de minar a autoridade de Yasser Arafat e da sua OLP.

Não obstante todas as barbaridades que os sionistas cometeram no passado e aquelas que cometem no presente, o Estado de Israel, foi legitimado pelo esforço colonizatório dos pioneiros que para lá se dirigiram desde o início do Século passado, foi legitimado pelo holocausto judeu, por uma decisão das Nações Unidas, em 1947, e principalmente, pela força das armas. A construção e a criação do estado de Israel, foi uma verdadeira epopéia épica, mas infelizmente transformou-se em tragédia.

Ainda que desde sempre tivesse havido judeus na Palestina, algumas centenas, concentrados em Jerusalém, Safed e Tiberíades, a primeira imigração moderna, data de 1882, quando um grupo pré-sionista conhecido por BILÚ, para lá se dirigiu. Antes dessa data, além da pequena minoria judia, viviam lá uma grande maioria árabe e literalmente dezenas de outras minorias, gregos, turcos, drusos, armênios, cristãos, alemães, russo-ortodoxos e outras. Todas elas conviviam em solidária antipatia, mas ainda assim, pacificamente. Mas isso ocorria quando o território estava submetido ao Império Turco Otomano e, principalmente, quando "A Questão Nacional" ainda não estava posta para qualquer das minorias que habitava a região.

A esmagadora maioria da população do território era composta árabes (mais de 98% do total). Por sua vez, a maior parte dos árabes eram  fellahs, camponeses quase servos da gleba. Os fellahs viviam subjugados por cerca de uma centena de effendis, latifundiários absenteístas, que viviam em Jerusalém, Yaffo, Haifa, Cairo ou em Damasco.

No início do Século 20, começaria a imigração sionista organizada inspirada num misto de romantismo utópico e de um nacionalismo forjado à luz da "Primavera das Nacionalidades", Européia. Esse utopismo também seria inspirado pela gravidade do "Problema Judeu" na Europa Central. Os sionistas, desde logo muito bem organizados e bem financiados pelos judeus da Europa Ocidental, logo trataram de comprar terras, legalmente, dos latifundiários árabes. Como à época, naquelas condições feudais, a terra ainda não havia assumido a mesma forma de valor de troca, já desenvolvida na Europa, o preço que os sionistas ofereciam aos effendis, lhes era surprendentemente alto.

Restavam os fellahs, os servos, que uma vez concluida a transação, completamente ignorantes que eram da vida e do mundo, se viam expulsos do seu milenar meio de produção, desempregados e na rua da amargura. Foi aí e por causa disso que por voltas de 1920 teria início o conflito aberto Palestino-Sionista (Cf. Laqueur, Zeev, W. " A History of Zionism", Schocken Books, New York, 1989, pg. 209 e sgtes.). Não vou enumerar todos os levantes Palestinos que ocorreram entre 1920 e 1939, ainda assim, foi ao longo deles que os sionistas assumiram o terrível jus belli que continuam a manter até o presente. Esse apêgo à manu militari irrestrita cristalizou-se no episódio a que os israelenses chamam de "cerca e torre", ocorrido no final dos anos 30, quando os mandatários inglêses proibiram a instalação de novas colônias agrícolas sionistas.

Valendo-se de obsoletas leis Turco-Otomanas ainda em vigor (e da complacência inglesa, sempre variável ao sabor dos ventos que sopravam no parlamento de Britânico), os sionistas ocupavam as terras durante a noite, desenrolavam e montavam a cerca de arame farpado e construiam a torre (ninho de fuzis e metralhadoras). Também montavam algumas casa pré-fabricadas, de madeira. Nascido o sol, nem os soldados britânicos podiam desalojar os invasores, pois as leis em vigor coibiam o desmonte de uma casa com cerca e telhado. Foi desse epísódio que Arthur Koestler tomaria o título do seu livro: "Ladrões nas Trevas". E assim, mais milhares de Palestinos na desgraça!

É verdade que a maioria dos assim chamados pioneiros sionistas, eram também esquerdistas de uma variedade de tendências, desde stalinistas até social democratas de matizes mais variadas ainda. Tudo herança da ebulição intelectual dos judeus da Mittel-Europa. Aproveito para lembrar aqui, que no início dos anos 1920 esses judeus cometeram a proeza, até simpática, se não fosse ridícula, de fundar a "Internacional Socialista Segunda e Meia". Bem no meio dessa Babel de partidos houve um, o Hashomer Hatzair, o "Segurança Jovem", que defendia a criação de um estado bi-nacional, em nome do Internacionalismo Proletário. Infelizmente, mesmo para o referido partido, isso nunca representou nada mais do que mero discurso ideológico. Toda ação nesse sentido, consistiu no aluguel de uma casa em Haifa, franqueada a alguns árabes amigos, para que jogassem gamão e lessem jornais (Cf. Laqueur, Opus Cit. pag. 297 e  segtes). Embora o ponto programático do estado bi-nacional tenha sido mantido pelo partido até os anos 1950, jamais mereceu qualquer ação prática.


Em 1947, a ONU votou a "Partilha da Palestina", uma idéia que ja vinha se arrastando desde o final dos anos 1930 mas que passou a ter aceitação mundial em virtude do holocausto judeu. O traçado da divisão tentou obedecer a critérios de distribuição demográfica, mas isso, por melhor que fosse feito, jamais poderia levar a lugar algum. A disparidade populacional no território como um todo era enorme: pouco mais de 600.000 judeus para mais de 1.200.000 palestinos, até então chamados simplesmente de árabes. A guerra era inevitável, não pela atitude dos próprios Palestinos, mas principalmente por aquela dos regimes vizinhos, o decadente rei Faruk no Egito, o rei Abdulla, na Jordania, o ditador Sírio e os pobres e inermes Libaneses. Há fortes evidências de que os ingleses teriam estimulado esses regimes a intervir, afinal a Legião Árabe da Jordânia era comandada pelo General Glubb, um súdito de S.M. Britânica, o Exercito Egípcio também possuía vários conselheiros ingleses e assim por diante. Há indícios de que a Inglaterra estava interessada em provocar uma regressão para planos de partilha anteriores, que previam uma divisão em 3 partes, da qual a terceira  permaneceria um protetorado Inglês (Veja o Palestine Royal Commision Plan,  de 1937).

Quanto aos próprios árabes Palestinos, ainda que alguns poucos chegassem a pegar em ármas, a grande maioria ficou imobilizada atônita, para em seguida ser expulsa. É que ao longo das primeiras 4 décadas do século 20, por mais que tivessem sido frequentes os conflitos árabe-sionistas, eles jamais envolveram o grosso das duas populações. Pelo contrário, a maioria dos contatos foram amistosos. Em primeiro lugar porque os árabes, que até então não se reconheciam como Palestinos e, como já disse acima, ainda não haviam adquirido nenhuma consciência grupal que não fosse a da família ou do clã. É verdade que os árabes se referiam aos Judeus como Yahud Hakalb, Judeu Cachorro, mas quase com certeza possuíam outros pejorativos para todos os demais. Em segundo lugar, porque entre todos os grupos, foram os Judeus que mais os beneficiavam. Afinal, davam-lhes empregos que provavelmente pagavam melhor do que os demais e até alguma assistência à saude e à educação. Há quem diga que o padrão de vida árabe na Palestina, aumentou tanto em virtude dos investimentos sionistas, que isso teria provocado uma considerável migração dos territórios vizinhos para lá. Mas pouco importa, pois se houve imigrantes estes rapidamente assimilaram-se aos demais Palestinos.

De todo modo logo após a aprovação da Partilha pela ONU e a retirada dos mandatários Inglêses, o Estado de Israel foi proclamado e, ato imediato, invadido. A luta foi dura, mas Israel acabou vencendo. E provavelmente, foi nessa vitória que Israel pôs tudo a perder. Invéz de se retirar para as linhas demarcadas pela ONU, Israel mais uma vez fez valer o jus belli. E fez isso com a complacência da ONU e do Mundo. Pela primeira vez, mas não pela última, o terrivel holocausto sofrido pelos judeus sob o jugo do nazismo, passaria a valer como carta de lívre trânsito para mais uma longa série de maldades.

Mesmo antes de sua vitória definitiva, os Israelenses cometeram o crime de expulsar todos os Palestinos que podiam dos territórios que iam ocupando. Para quem não conhece esse episódio, recomendo a leitura de "Personal Whitness", de Abba Eban (Jonathan Cape Ed., London, 1992, pag. 183 e sgtes), antigo Ministro das Relações Exteriores de Israel. Nesse livro, Eban além de referir-se ao fato em geral, descreve com detalhes a expulão dos habitantes árabes da região de Lydda, a mesma onde hoje se encontra o aeroporto, agora chamado de Lod. Começa aí o genocídio a que o povo Palestino vem sendo submetido desde então, com ferocidade exponencial. A cada nova guerra que se sucederia, mais territórios seriam anexados por Israel, mais casas de civis Palestinos bombardeadas, com escopo antes estratégico do que tático, mais morte e destruição, até que Ytzhak Rabin, e Yasser Arafat, tentassem os "Acordos de Oslo". Em seguida, como se sabe, Rabin foi convenientemente assassinado, covenientemente velado e lamentado.  Mas nenhum dos sucessores, Netaniahu, Barak ou Sharon, lhe manteve a palavra!

Israel perdeu assim uma oportunidade preciosa de redimir-se da ocupação de um território alheio e aceitar a paz. Aliás, mesmo em 1967 essa oportunidade ainda estava de pé. Se o momento tivesse sido aproveitado para a criação de um Estado Palestino e seus habitantes expulsos de suas terras em Israel, tivessem sido indenizados, se Israel tivesse utilizado todo o seu "saber ocidental", o dinheiro que recebe de fora e o alto padrão de vida da sua população, para promover o desenvolvimento do Estado Palestino e a educação da sua população, os Israelenses hoje, com certeza viveriam melhor.

Mas hoje Israel, com todas as suas vitórias e sua supremacia militar (calcula-se que possua 200 bombas atômicas, Cf.: The New York Review of Books) está se deparando com um novo problema: a Demografia. Como os Israelenses de origem árabe (os que não puderam ser expulsos) e os Palestinos que vivem em acampamentos provisórios na Faixa de Gaza e no que restou da Cisjordânia ocupada, possuem índices de fertilidade muito superiores aos Israelenses, é possível prever que dentro de um par de décadas a maioria populacional em Israel será composta por Israelenses Árabes. Aí, como afirmou Tony Judd na NYRB, de duas uma: ou a democracia Israelense passará realmente a constituir um estado bi-nacional, com maioria árabe; ou deixará de ser democracia para transformar-se num apartheid, muito mais drástico daquele que existiu na África do Sul.

Agora o Hammas ganhou, pois já vinha se demonstrando há anos melhor administrador das políticas sociais, saúde, educação e comprometimento político. Sua retórica poderá ter sido mais agressiva, mas é só retórica de quem está na oposição. O Hammas é acusado de ter cometido mais de 400 atentados contra Israel e de manter a negação do Estado Sionista na sua carta de princípios, mas não foi sempre esse o comportamento OLP de Yasser Arafat, antes do inútil aperto de mãos com Rabin em Oslo? Desde então alguma coisa melhorou para as massas Palestinas? Foram necessárias duas Intifadas (Sacudidas), com a participação de toda a população Palestina, para que Sharon caísse na real e se desse conta de que a anexação de Gaza era contrária aos interesses Israelenses. Espero que o Hammas continue lutando, como fizeram seus predecessores, pelas fronteiras de 1967 e por toda Jerusalém Oriental, inclusive antigas terras Palestinas que nos últimos poucos anos vieram sendo griladas por Israel. Eles tem esse direito! Mas espero também que tenham um mínimo de realismo político para abandonar posições justas, talvez, mas inexeqüiveis, como o retorno dos refugiados aos seus lares e suas terras. Em vez de sacudir essa bandeira infelizmente impossível, que reivindiquem indenizações aos herdeiros de mansões em Jerusalém, Jaffo, Haifa e outras localidades, das terras confiscadas em toda parte. Também deverão reivindicar indenizações por todo o sofrimento que lhes foi infligido. Foi essa a voz da população, esgotada por tantas batalhas perdidas e tanto sufoco econômico, nas recentes eleições.

 

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