Corpo,
Imagem Corporal, Educação e Sociedade: Tramas Conceituais
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Resumo
Nas
duas pesquisas por nós desenvolvidas nos três últimos
anos junto à Universidade do Estado de Santa Catarina
constituíram-se objeto de estudo a Identidade Feminina e a
Moda, e o Significado das Imagens Formadoras na Trajetória
de Professores de Artes Visuais.No material analisado, uma
questão esteve presente de modo intenso: o corpo e suas
interações com a imagem corporal, com a consciência de
si, com a sociedade, que valoriza um modelo de corpo magro e
jovem.Importa o espelho físico que reflete somente a aparência,
onde não há espaço para a obesidade e para as marcas do
tempo.São negligenciados processos humanos relacionados com
o bem estar.Este artigo tem como proposta a abordagem teórica
dessas questões
e de suas interações com a educação e o ensino,
particularmente nas áreas da Moda e das Artes Visuais.
Palavras
Chave: Imagem corporal – corpo – ensino -
Artes Visuais - Moda |
A
sociedade escópica típica de nosso tempo parece ter optado pelo
reducionismo da imagem, do ser visto, pela indução ao tenha seu
minuto de fama. Os avanços tecnológicos atuais permitem a fabricação
de múltiplos aparelhos reprodutores de visões não apenas para que
o ser humano possa se ver, mas principalmente para ser visto. O
mesmo olhar que retorna
como um mandamento de
prazer: veja! Diz: mostre-me! Mesmo sem vê-lo o olhar está
presente: sorria! Você está sendo filmado!Mas, o que está
sendo filmado? Múltiplas imagens, corpos esguios, aparências.Trata-se
de imagens que chegam como imperativos de ideais a serem seguidos,
que se transformam em
modelos de identificação, constituintes da identidade fabricada
pela propaganda, pelo esporte, onde o corpo equivale ao espetáculo
(Porto, 2002).
Questiona-se
então: o corpo é somente uma imagem que remete ao espetáculo e
que deve corresponder a modelos impostos pela sociedade e pelo
consumo?
Cada
ser humano é sem sombra de dúvida, muito mais do que isso. Possui
identidade, auto-estima vinculadas à consciência corporal. Não se
nega a importância do corpo.Teorias que tratam do desenvolvimento
humano valorizam o corpo.Como exemplo, pode-se referir
a Psicanálise de Freud (1905) para quem o ego é acima de
tudo corporal; os estágios do desenvolvimento de Wallon (1966); o
desenvolvimento e a individuação de Erikson (1950), os estágios
propostos por Piaget (1964), dentre outros.Para
as teorias do desenvolvimento humano, o corpo é ponto de
partida e ponto de chegada, presente desde o nascimento até a morte
de cada ser humano.O corpo é belo, o corpo cresce, mas também
adoece e pode deformar-se, ficar obeso, adoecer e
morrer.
A
imagem corporal não se reduz a um conjunto de sensações, nem a
uma produção da imaginação.Existe uma apercepção do corpo, que
não é apenas percepção
ou representação. Schilder (1980) refere que a imagem corporal é
tridimensional, sendo influenciada por fatores intrapessoais,
interpessoais e sócio-temporais.Não se tem consciência do corpo
como se tem de um objeto percebido. A consciência não é consciência
de, já que o objeto não surge em carne e osso diante do sujeito.
Ao contrário. A consciência do corpo é a impregnação da consciência
pelo corpo.
Não
se define aqui a consciência do corpo à maneira da fenomenologia,
mas como uma instância de recepção de forças do mundo; uma instância
do devir das formas e sentidos do mundo (Birman 1988).
A
clássica concepção de tomada de consciência do objeto
diferenciado do sujeito é uma referência a que não há tomada de
consciência se esse sujeito não desposar o objeto em questão.
Desposar equivale-se aqui a uma metáfora que recobre processos
precisos de cognição e de contágio, dentre os quais pode-se citar
a captação das formas e das forças que animam o objeto. Ao longo
do desenvolvimento, cada ser humano apropria-se das formas e das forças
dos objetos, impregnando-se a consciência pelo corpo que,
imediatamente entra em conexão com a realidade exterior. Existe uma
coincidência do eu com as forças do objeto, e esse processo
integra a formação da imagem corporal, do auto-conceito e da
identidade.
Há
momentos de estranheza, nos quais
pode criar-se uma zona de nebulosidade
entre o corpo e o objeto. Nesse caso, o corpo transfere
certos traços ao objeto, e reciprocamente certas propriedades do
objeto se transmitem ao corpo. Assim, por exemplo, este se
torna peixe, cubo ou pedra .Como refere Gil (1997) muitas
vezes não existe diferença entre a percepção do objeto e a
percepção artística. Ocorre uma osmose com a obra de arte: para bem pintar um peixe é
preciso aprender a tornar-se peixe. Existe assim uma impregnação
da consciência do corpo e uma consciência do corpo. Trata-se de
uma complexa trama conceitual e vivencial nessa trajetória da formação
da imagem corporal e da identidade, típica dos seres humanos, que
possuem funções psicológicas superiores, como: imaginação,
criatividade, representações mentais, capacidade simbólica,
dentre outras.
O
corpo consciente pode captar sensações advindas do inconsciente e
do mundo externo.Há duas demandas distintas, e essas são responsáveis
pelo auto-conceito: uma provém do inconsciente, gera contradições
e conflitos, e traduz a insatisfação consigo mesmo. Outra provém
do meio, dos objetos externos, dos apelos sociais e que, em nosso
tempo pode conduzir ao consumo desenfreado, a prejuízos na imagem
corporal, na consciência do corpo, ao lugar do corpo e dos objetos
no mundo.
O
ser humano, em confronto com as demandas internas e externas pode
entrar em conflito consigo mesmo e com a realidade. Diz-se nesse
caso, que não existe um lugar seguro para pousar
a cabeça; não há pontos privilegiados do olhar. Olhar é,
então desviar o olhar.Desviar o olhar pode ser o equivalente da
negação.Não existe o enfrentamento das demandas psíquicas, nem
dos apelos sociais, e o
sofrimento se instala. Uma fuga pode ser a adesão compulsiva aos
alimentos, gerando a obesidade, ou adesão a dietas acarretando a
anorexia e a bulimia.São problemas diretamente relacionados com a
imagem corporal e com a consciência de si. Outra fuga
pode ser o consumo exacerbado de bens e produtos de moda.
Trata-se
de inquietações presentes na educação, na psicologia, na moda,
nas artes visuais, no marketing, dentre outras áreas do
conhecimento.A valorização exagerada da imagem pode conduzir ao
narcisismo do corpo que cada um visualiza no espelho físico. Variáveis
humanas vinculadas ao bem estar, à aceitação incondicional das
diferenças entre as pessoas, desde a aparência externa até as
características de personalidade são relegadas a um plano secundário.
São questões
que permeiam o ensino, principalmente em áreas nas quais o
apelo ao corpo e ao consumo possui grandes afinidades com os cursos
e formação profissional. Ainda
jovens, os estudantes são
estimulados a consumir, a buscar o corpo perfeito, a seguir dietas
rigorosas, com uso de medicamentos e correções cirúrgicas.
A auto-estima e a solidariedade social ficam relegadas a um
plano secundário.Na verdade, corpos obesos são rejeitados e vistos
como algo que causa espanto, porque não coincide com a norma, com
os modelos ditados pelo
meio externo .
Questões
sociais são fortes também no cotidiano dos artistas plásticos, e
refletem discussões permanentes no ensino de Artes Visuais.O corpo
também está presente nas obras de arte, na pessoa do artista, nos
cursos de Artes Visuais, no cotidiano dos professores da área.
Questões vinculadas à estética vigente na sociedade permeiam
tanto a produção, quanto o ensino de Artes Visuais .A tradição
modernista impôs uma modalidade de estética ocidental, produto de
uma elite artística e intelectual, como sendo a única
possibilidade no ensino de Artes Visuais. Essa postura está sendo
questionada, porque não atende às demandas da sociedade atual,
caracterizada pela informação globalizada e interdependente. Redes
interconectadas pelos sistemas de informação estimulam a
pluralidade, o diálogo e a reconstrução social, que conduzem a
uma nova concepção no ensino da arte, que inclui
o contexto e a vida em sociedade (Efland, 1998).
Considerações
Finais
Talvez
um dos grandes desafios de nossos tempos seja o de compreender qual
é o lugar do corpo para o sujeito e para a sociedade.O corpo é mutável
desde o nascimento até o envelhecimento. A sociedade de consumo não
suporta as marcas e as cicatrizes
do tempo no corpo. É difícil encontrar quem aprecie obras
de arte com corpos obesos, nem
retratos do envelhecimento.
Certas
áreas profissionais, pelos vínculos com a aparência externa cedem
espaço para o consumo e para a superficialidade, tais com a Moda e
o Estilismo, o Marketing,dentre outras. Há pouco espaço, nesses
cursos, para refletir sobre a consciência corporal e sobre variáveis
humanas de bem estar psicossocial, pois a prioridade é a plástica
e a estética do corpo que se mostra.É comum observar no mundo fashion
como seres humanos são facilmente descartáveis no mercado de
trabalho, como objetos que não servem mais.Nesses casos, incluem-se
as pessoas obesas. A aparência pessoal ainda é um forte apelo para
ingressar e manter-se no mercado de trabalho. Quando o auto-conceito
dessas pessoas é frágil, a auto-estima oscila, e a identidade
vacila. A obesidade é um fantasma que pressiona seres humanos
homens e mulheres de nossos dias.A mídia aponta para modelos cada
vez mais magros e mais jovens no mercado de trabalho.Trata-se de uma
questão presente na moda, nas artes, no mercado em geral. Nunca as
cirurgias plásticas de embelezamento foram tão freqüentes como na
atualidade.Na área da Moda, o apelo à busca do corpo visto como
perfeito, assim como o consumo de produtos de moda constituem áreas
de ênfase. Obviamente, os cursos de Moda abordam essas temáticas
com um olhar voltado para a produção e para o mercado.Conseqüentemente,
estudantes desses cursos tendem a valorizar tais questões.
Na
área do ensino de Artes Visuais o corpo humano tem sido objeto de múltiplas
análises e os modelos de corpo perfeito sempre sofreram o impacto
da sociedade.Entretanto, trata-se de uma visão distinta da dos
cursos de Moda, sem apelos ao consumo. A construção da imagem
corporal, a evolução do corpo na sociedade são conteúdos implícitos nos cursos de graduação
em Artes Visuais. Os vínculos dessa formação com a estética são
igualmente fortes, o que interfere na auto-imagem e nas relações
professor-aluno e aluno-aluno.São múltiplos corpos, imagens,
olhares e identidades em interação.
Ao
discutir tópicos relacionados
ao corpo, à imagem corporal, à sociedade e ao ensino, obviamente
percebe-se que há diferenças nas preocupações com essas questões
por parte de profissionais e alunos de Moda e de Artes Visuais. Nas
duas pesquisas por nós realizadas a temática do corpo
manifestou-se possivelmente em torno do tema da identidade. O corpo
e a imagem corporal são processos subjacentes à formação da
identidade.Na pesquisa sobre Identidade Feminina e Moda, o corpo foi
abordado por todas as participantes da pesquisa, como fonte de
preocupação e como área de ênfase.Na pesquisa sobre os
Significados de Imagens Formadoras na Trajetória de Professores de
Artes Visuais, o corpo apareceu nos relatos de professoras
preocupadas com a própria obesidade e com questões de estética no
ensino de jovens.Para a pesquisadora, os tópicos
abordados permitiram integrar conceitos e, ao mesmo tempo
refletir sobre a complexa trama
que se estabeleceu como um desafio para novos investimentos em
estudos e investigações de pesquisa Existe no entanto, a certeza
de que professores e alunos de Artes Visuais, também de Moda
necessitam desenvolver o intelecto e a imaginação para enfrentar
forças sociais.
O
pensamento e o exercício da crítica no ensino de Artes Visuais
permitem desafiar o status quo , conduzindo a uma abordagem
pedagógica da arte e da vida social. Nessa visão, cada pessoa pode
ter acesso à condição de sujeito e de cidadão (Giroux, 1992).
Nas
complexas relações que se estabelecem entre conhecimento, poder e
sociedade não se pode ignorar que existem fortes preconceitos com
relação ao corpo no mundo atual. Há tentativas para minimizar a
exclusão social, mas não se pode negar que trata-se de uma
realidade fortemente arraigada, e que encontra no consumo um apelo
para sua manutenção.O corpo pertence ao ser humano, que é capaz
de compreender, de ser e de conviver; que possui aspirações
pessoais e condições que nem sempre coincidem com o modelo social.
Espera-se então, especialmente no âmbito do ensino nas mais
diversas áreas do conhecimento que professores e alunos, seres
humanos voltem o olhar para a construção de uma sociedade mais
justa, democrática e solidária.