Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

 

Epifania e Carnaval: a tradição na França!

 

No início do ano, temos duas comemorações interessantes na França que, apesar de as conhecermos no Brasil, apresentam-se de maneira diferente: a festa de Reis e o Carnaval.

Do dia de Natal até o dia 06 de janeiro, dia dos santos Reis, podemos nos deparar, em alguns pontos do território brasileiro, com a “Folia de Reis”, um grupo de homens fantasiados e mascarados que saem, de casa em casa, tocando e cantando músicas, normalmente, religiosas para arrecadarem “prendas”. Simbolizam, assim, os três Reis Magos que peregrinaram, levando presentes, até o local do nascimento de Jesus Cristo. A Folia de Reis é uma festa religiosa de origem portuguesa, com a principal finalidade de divertir o povo, que chegou ao Brasil no século XVIII.

Na França, pela época da Epifania, é costume as pessoas se reunirem para comerem a “gallette” de Reis, espécie de torta de massa folheada que é confeccionada somente nessa época do ano e que contém, escondido em seu interior, uma estatueta, geralmente, de porcelana; a pessoa que a encontra é coroado o rei ou rainha da festa. A lenda conta que a idéia dessa estatueta nasceu por causa do anel escondido dentro do bolo, no conto Pele de Asno, de Charles Perrault.

Tal tradição, de origens pagãs e romana era, inicialmente, conhecida como “saturnais”[1], onde o costume era de oferecer um bolo aos amigos. Somente no século XII, tornou-se a festa de reis porque o bolo era oferecido ao seu senhor. No século XVI, a Igreja Católica condenou-a, bem como Luís XIV, que a via como uma festa de crime contra a majestade. Entretanto, em 1801 a prática foi aceita e restabelecida pela Concordata, sendo o dia 06 de janeiro estipulado para a Epifania. A partir de então, o sentido passou a ser a comemoração da visita dos três Reis Magos ao menino Jesus.

Quanto ao carnaval, pode ser um pouco difícil, para os sul-americanos, imaginar a festa no inverno, mas ela acontece na França, sem feriado para todos, mas com duas semanas de repouso para as escolas.

Apesar de ser uma festa pagã está ligada ao calendário cristão, onde o ponto culminante é a “terça-feira gorda”, pois as pessoas, antecedendo ao período da quaresma dedicavam-se aos excessos que lhes seriam proibidos em seguida, pelo período de quarenta dias. Nesse dia, a tradição pede para que se queime o rei momo, ou seja, o rei do carnaval.

Ao contrário dos brasileiros, os franceses festejam com muita roupa, evidentemente! As fantasias são as mais variadas, contando com máscaras ou pinturas nas faces. As crianças nas escolas gostam desse divertimento e, quase todas as escolas primárias, dedicam um dia para a folia. Há concursos de fantasias e algumas cidades têm características diferentes das outras.

Os três carnavais mais famosos do país são o de Dunkerque, no norte, o de Limoux e o de Nice, no sul. O de Dunkerque começou por volta dos anos 1550 e tem como mito a figura de Reuze, um gigante que seria, originariamente, a representação de Allowyn, chefe militar originário da Escandinávia. Ninguém pode confirmar essa teoria. Entretanto, a partir de 1750, começaram a aparecer documentos dizendo que esse gigante, era casado e tinha filhos. E, até hoje, enormes bonecos desfilam durante o carnaval pelas principais ruas da cidade.

Em Limoux, os fantasiados interagem com os espectadores, numa comédia improvisada, comumente em língua occitana. É considerado um carnaval de excessos, de transgressões, com vinho, obscenidades, sátiras, pierrôs multicolores em estilo veneziano; o encontro de Dionísio com Gargantua, do mundo greco-romano com o gaulês. Essa festa dura duas semanas.

A arte da atualidade e da sátira é o que caracteriza o carnaval de Nice. Sua Majestade, o Carnaval, é levado até a praça de Masséna, na “Velha Nice”, por estudantes da cidade, que o queimam na última noite, em uma fogueira instalada no mar, ou na praia. Há uma batalha de flores vista como uma versão sublimada da desordem carnavalesca. As flores, as fontes econômicas locais e os produtos emblemáticos são a singularidade desse carnaval, tornando-o célebre.

Já ouvi muitos brasileiros dizerem que os carnavais em França não têm graça. Eu diria que eles são “diferentes” dos nossos, e o diferente nem sempre agrada de imediato. Não podemos pensar em encontrar num lugar, exatamente igual, o que temos em outro, distante. Se assim fosse, não haveria a diversidade cultural, o que é ficção.

Quanto à comemoração da Epifania, normalmente, agrada, se é possível esquecer o regime. Contudo, o que deve interessar, perante essas comemorações, é o lado tradicional, onde é importante estimular a aceitação das diferenças, a integração cultural e a visão cosmopolita. Não nos deixemos levar por meras aparências, mas busquemos nos aprofundar no que, realmente, tem valor em cada ato.

 

Fonte:

www.brasilfolclore.hpg.ig.com.br

www.doctissimo.fr

www.vivat.be

www.bpi.fr

http://lesamisdureuze.free.fr

 

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[1] Festa realizada pelos romanos em honra a Saturno.

 

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