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Por EVA PAULINO BUENO Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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Por
uma cultura de retribuição
Em
1994, quando comecei meu primeiro emprego como professora assistente
nos Estados Unidos, e portanto comecei a ter um salário que me dava
um pouco mais de folga, eu resolvi fazer uma doação à
universidade onde fiz o curso de bacharelado: a UEM. Eu tinha
passado o ano anterior em Maringá, e tinha ido à biblioteca da
universidade muitas vezes. Algumas coisas tinham melhorado desde o
ano em que me formei, outras continuavam precisando de reparos.
O
prédio, logicamente, é melhor que o que tínhamos em 1975, ano da
minha formatura. Agora já temos muitos edifícios feitos de tijolo
e cimento, se bem que ainda existem as mesmas salas de aula nos
pavilhões pré-fabricados. Mas isto não importa: quem vê cara não
vê coração. Tive aulas maravilhosas naqueles pavilhões durante
meus cursos na Faculdade de Letras da UEM, e sempre me lembro com
carinho dos professores e dos colegas. Nós transcendíamos o lugar,
e voávamos alto nas asas da literatura, mesmo quando em seguida tínhamos
que sair correndo de uma sala e ir escorregando no barro até chegar
a outro pavilhão. Não era raro algum aluno, ou professor, acabar
caindo no barro. Mas nós todos sabíamos que valia a pena. De 1975
para 1993, quando passei um ano em Maringá, muitas coisas já
tinham melhorado.
Mas
me dava muita pena toda vez que eu chegava à biblioteca e via a
fila de gente esperando a vez pra fazer xerox. Também me dava muita
tristeza ver que a quantidade de livros da área de literatura
inglesa e norte-americana era muito pequena. Naquele ano, não pude
fazer nada. Mas, na primeira oportunidade que tive, quis fazer uma
doação. Primeiro, pensei em entrar em contacto com o pessoal que
se formou comigo em 75, e sugerir que, juntos, doássemos uma máquina
de xerox para a biblioteca, ou alguma coisa — computador, máquinas,
ou mesmo papel — para nosso antigo departamento. Mas meus únicos
contactos com antigas colegas se mostraram frágeis. Ninguém queria
fazer nenhuma doação. “Faltam livros na biblioteca? Isto é
problema do governo,” um colega me disse, taxativamente, por
email.
Eu
gostaria de ter entrado em contacto com mais colegas. Mas como? De
longe, tudo fica muito mais difícil. Então, resolvi eu mesma
oferecer livros de literatura à biblioteca. Excelente idéia! Pelo
menos em teoria. Na prática, foi um pouco mais complicado, porque
eu tive que explicar várias vezes que eu não tinha nenhum
interesse outro além de enviar os livros. Eu concluí que foi
preciso esclarecer tudo, porque ficou claro que quem estava
recebendo os livros não tinha tido tal experiência, e a minha
oferta pode ter parecido, no mínimo, suspeita. Mas, por fim, com a
ajuda do professor Thomas Bonnici, que então lecionava no
Departamento de Letras, consegui enviar umas três caixas de livros,
que, se não se desintegraram, ainda continuam servindo aos
estudantes que necessitem deles.
Apesar
do final feliz da minha tentativa de fazer uma doação, daquela
ocasião para cá penso no assunto de vez em quando. O fato de eu
morar quase todo o tempo nos Estados Unidos me fornece um exemplo diário
de um modelo cultural e econômico que nós brasileiros poderíamos
muito bem observar e, por que não, já que imitamos outras coisas,
imitar esta que é boa.
Cada
pessoa que viaje pelos Estados Unidos de carro, vai ver que em todas
as cidadezinhas existe pelo menos uma biblioteca pública. Vai ver
também que muito poucas delas levam o nome de figurões da história.
Em geral, especialmente bibliotecas, mas também outros
estabelecimento de atendimento ao público, têm o nome de pessoas
comuns, gente que não participou em nenhum “fato histórico”.
Na cidadezinha em que eu morei, na Pennsylvania, por exemplo, a
biblioteca pública tem o nome de uma mulher que jamais esteve lá.
Depois de sua morte, dois de seus filhos, durante uma viagem,
passaram pela cidadezinha e viram que ela não tinha biblioteca. Os
dois se apresentaram ao prefeito, e se ofereceram para fazer uma doação
para a construção e o estoque inicial da biblioteca, em nome da mãe.
Assim, se construiu o prédio, e nasceu a biblioteca. A cidade só
tem que pagar os funcionários e as despesas de manutenção.
Logicamente,
muitas pessoas não têm dinheiro para fazer uma doação desta
magnitude. Então, doam o que podem doar. Por exemplo, é comum
ver-se que o coreto da praça tem uma placa dizendo que foi construído
com a doação de parentes e amigos de alguma pessoa querida da
comunidade, em sua memória. Há ainda os mais pobres que doam
bancos. Ou outras coisas para que a cidadezinha — a comunidade
toda — tenha acesso a um bem público, que todos possam desfrutar.
Assim, o nome e a memória do homenageado vão adiante.
A
idéia é que qualquer um pode participar, doar, fazer uma diferença
na vida de todos, através de uma contribuição a alguma coisa. O
último exemplo de tal atitude foi de um ex-aluno da minha
universidade que doou 25 milhões de dólares para a escola de negócios,
na qual se formou em contadoria em 1960. Este ex-aluno, que
conseguiu os meios para estudar em St. Mary’s somente porque o
decano da escola o ajudou a preencher papéis e conseguir ajuda
financeira através do sistema do governo, fez a primeira doação
à universidade no ano seguinte à sua formatura. A quantia da sua
primeira doação: 4 dólares. Mas de 1960 para cá ele, assim todo
todos os demais ex-alunos da universidade que se formaram antes e
depois, sabem que são parte integrante da vida da universidade. A
cada ano, existe o que se chama de “homecoming” — “a volta
para casa” — em que os ex-alunos de todas as universidades
voltam ao campus, fazem muitas festas, visitam os departamentos, os
professores, e participam de atividades para angariar fundos. E para
que são estes fundos? Para qualquer coisa que a universidade
necessite. Em abril de todos os anos, por exemplo, os ex-alunos de
St. Mary’s promovem o “Festival da Ostra Assada”, em que
angariam em geral por volta de 300 mil dólares que são usados para
fornecer bolsas de estudos para os alunos carentes.
E
no Brasil, existe tal coisa? Exceto pelo exemplo de alguns ex-alunos
da Unicamp que doam para a universidade todos os anos, eu não sei
de nenhum outro caso no Brasil. Espero que esteja errada, e que
hajam muitos outros.
E
por quê esta diferença? Eu acho que as razões são várias,
algumas simplesmente fiscais, e outras históricas.
A
menos interessante é a razão fiscal: não existe no Brasil
incentivo fiscal para estas doações. Quer dizer: quem quiser doar,
pode fazê-lo. Mas o governo não tem nada com isto. Comparando-se:
aqui nos Estados Unidos as doações a universidades e a outros
estabelecimentos de interesse público resultam em crédito para o
doador quando chega a hora do imposto de renda. Assim, as pessoas
podem doar para instituições de caridade, escolas, bibliotecas,
etc, e recebem este crédito. Por isto, é muito comum que as
pessoas ou empresas cujos negócios tiveram grande sucesso em um
determinado ano façam uma ou várias doações no final de
dezembro, dentro do ano fiscal.
A
outra razão, eu acho, é aquela mesma famosa história: os
puritanos ingleses vieram à América para escapar da perseguição
na Inglaterra. Vieram pra construir cidades na colina, em busca de
um lugar para construir seu ideal religioso e político. Vieram pra
ficar. (Deixo de lado aqui as considerações do que fizeram com os
nativos e com a natureza para obter este ideal.) Os portugueses, por
sua vez, vieram ao Brasil pra “fazer a América”: enriquecer o
mais rápido possível e voltar “à corte.” Neste afã, a
“coisa pública” não poderia ter o mesmo valor, porque, por sua
colocação dentro dos planos do colonizador, era coisa passageira,
sem importância, porque iria “ficar pra trás”, nas mãos dos
índios, dos negros, dos mestiços. Inicialmente, como sabemos, dos
brancos que chegavam, só degredados vinham pra ficar. (Também aqui
deixarei de lado as considerações do que os portugueses fizeram
com os nativos e com a natureza para conseguir o ouro que
financiaria sua vida na corte.)
Esta
ideologia de “desmazelo público” que eu vejo no Brasil sempre
me entristece, como eu sei que entristece a muitos outros
brasileiros. Este desmazelo se divide em “macro desmazelo” e
“micro desmazelo”. No macro está a ausência do interesse em
fortalecer as instituições que beneficiam a todos brasileiros —
brancos, negros, mulatos, asiáticos, pobres, ricos, homens,
mulheres, crianças, velhos — sem diferenciações. No micro
desmazelo está o descaramento de alguns que jogam lixo na rua,
destroem sinais, abandonam cachorros nas ruas, urinam nas calçadas,
destroem as praias no último dia de férias. Ou como aquele
prefeito mentecapto cujo legado cultural foi a retirada do prédio
da ferroviária de Maringá sem consultar o povo e sem pensar em seu
valor histórico e cultural para a cidade e para a região.
Ele deixou sua marca, não resta dúvida. A cada vez que vou
a Maringá (pelo menos até a última vez em que estive lá), o espaço
vazio onde existia a estação é um testemunho à sua imbecilidade
e falta de cuidado com a coisa pública.
Mas
o problema da ideologia, como nos ensinaram muitos teóricos, é que
a pessoa não reconhece aquelas que carrega e com as quais monta
seus quadrinhos de viver. E, o que é pior, elas só mudam muito
vagarosamente. Mas elas mudam. Mudam.
Eu
gostaria de lançar aqui um desafio aos ex-alunos da Universidade de
Maringá, de todas as áreas, que se formaram no ano de 1975, para
que formemos uma associação para assistir nossa alma mater. Se não
temos incentivo fiscal, devemos fazê-lo de qualquer maneira, porque
o nosso diploma, obtido na UEM, nos deu o passo inicial na nossa
vida profissional. Se não existe ainda uma associação de
ex-alunos da UEM, vamos formar uma. Quantos somos? Muitos, com
certeza. Ninguém vai precisar fazer sacrifícios desmesurados.
Vamos somente ver quantos e quem somos, e vamos formar um grupo de
estudos, para identificar as áreas em que podemos contribuir com
nosso conhecimento, e, talvez, até nossa contribuição financeira?
Quem
estiver interessado, entre em contacto comigo. Em seguida veremos
como conduzir esta iniciativa. A escolha é nossa. Entre fazer
fabulosos túmulos no nosso nome, ou dar uma contribuição em prol
da educação de jovens estudantes que vão trilhar os mesmos
caminhos que nós trilhamos no passado, qual representa melhor o que
somos e o que acreditamos?
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