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Por
ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
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Reduzir
impostos para gerar empregos?
A
crise mundial do neoliberalismo comprova a ineficácia do
capitalismo para a solução dos agravantes problemas sociais e ecológicos
da humanidade. O mito do livre mercado, proposto pelos governos dos
países ricos e seus organismos internacionais como solução ao
dilema do subdesenvolvimento dos países pobres, começa a ser,
gradativamente, desmascarado pelo aumento da desigualdade entre os
países, pelas catástrofes ambientais e pela exclusão social de
significativas parcelas da população mundial do acesso a condições
mínimas de “sobrevivência e reprodução”. Mesmo nos países
altamente industrializados, fenômenos sociais típicos dos países
pobres começam a se generalizar e a intensificação dos conflitos
entre excluídos e incluídos é um claro sinal da insegurança
social, que se afirma a passos largos. As saídas propostas,
entretanto, parecem ignorar o contexto e as causas da exclusão e da
desigualdade social. Frases de efeito como “diminuir impostos para
aumentar empregos”, “política social é a que gera empregos”
e até mesmo “a geração de empregos é a maior prioridade de um
governo” começam a ser usadas de forma generalizada em campanhas
eleitorais na Europa. Mas, será que o Estado tem condições de
gerar empregos? A diminuição de impostos a grandes empresas
contribui para a redução do desemprego?
Diante
do desemprego estrutural intensificado pelo progresso tecnológico
nas empresas e o gradativo desmonte social nas políticas públicas,
vários governos do assim chamado “Primeiro Mundo” elegeram a
exclusão de trabalhadores do mercado de trabalho formal como o
maior problema social e político contemporâneo. As pesquisas de
opinião pública confirmam a gravidade política do desemprego mas,
a expectativa de que governos possam contribuir para a solução do
problema é muito baixa, o que confirma o reduzido comparecimento de
eleitores nas últimas eleições e o crescimento da desilusão e do
descrédito da maioria da população com relação à política. O
problema foi identificado como real e a emergência na procura de
soluções está diretamente relacionada à preocupação de
governos com a governabilidade (a estabilidade social necessária na
sociedade para o funcionamento dos negócios capitalistas), com a
acomodação da maioria da população à lógica dominante,
centrada na produção e no consumo de mercadorias.
É
esse o diagnóstico da maioria dos governos e que começa a ser
expresso em forma de discursos, contando com a passividade e o senso
comum dominante na sociedade. Os excluídos tendem a ser ignorados
se estes não oferecerem risco à governabilidade. Somente nesta
perspectiva é que o desemprego passa a ser tematizado pelos
governos neoliberais, difundindo a ilusão de que “se as empresas
vão bem, os trabalhadores também vão bem”, na esperança de que
os poucos empregos gerados em função da política de benefício
fiscal sirvam de motivação a uma maioria de excluídos, cuja existência
não ameaça a lógica dominante e apenas precisa ser
“administrada pelo Estado”.
É
claro que o Estado não tem condições de solucionar o desemprego
estrutural no capitalismo. As propostas de solução apresentadas,
entretanto, estão centradas no agravamento da desigualdade social,
em alternativas de caráter liberal com o propósito de estimular um
maior crescimento da economia e, com isso, estabilizar o contexto
social, altamente explosivo. Nesta concepção, se parte da falsa
expectativa de que uma maior geração de riqueza venha a diminuir a
pobreza, ignorando o problema da distribuição num contexto de
aprofundamento da concentração de renda na sociedade. A idéia
central das propostas neoliberais de crescimento econômico se
baseia na redução de impostos às grandes empresas, como fórmula
para “atrair investimentos” e, conseqüentemente, gerar novos
empregos. Diante de uma prevista diminuição na arrecadação de
impostos, o Estado, de acordo com os neoliberais, precisa ser
“enxugado”, implicando no drástico corte nos gastos públicos,
o que tende a agravar os problemas sociais. O problema do déficit
fiscal, porém, é visto como temporário, tendo em conta que o
esperado efeito do crescimento na taxa de empregos aumentaria o número
de contribuintes, gerando uma maior arrecadação futura. A formulação
lógica linear baseada em menos impostos > mais
investimentos >
mais crescimento econômico > mais empregos, parece
convincente e há uma ampla maioria social que continua acreditando
em sua eficácia. O dilema é que a experiência de várias décadas
dos governos que a vem aplicando, tem conduzido a resultados opostos
aos enunciados e isso numa lógica circular agravante, ou seja,
menos impostos > mais lucro > mais desigualdade social
> mais desemprego > menos impostos > mais lucro
> mais desigualdade social...
O
caráter ideológico e mistificador da fórmula neoliberal de geração
de empregos, comprovada na experiência prática dos governos que a
vem aplicando, fica evidente na tentativa de justificação da
desigualdade social aos excluídos, tensionados a aceitar os benefícios
fiscais do Estado às grandes empresas, cujo resultado é a
concretização do interesse maior de qualquer investidor
capitalista, ou seja, o aumento da taxa de lucros. O caso da
Alemanha é bem ilustrativo neste aspecto: os sete anos de governo
do "social democrata" Gerhard Schröder podem ser
caracterizados como um dos períodos de maior isenção de impostos
a grandes empresas da história do país quando, concomitantemente,
o desemprego cresceu a tal ponto que, hoje, há oficialmente 5 milhões
de desempregados. A maioria das grandes empresas alemãs, ao invés
de pagar impostos, passa a receber dinheiro do Estado para ficar no
país e a arrecadação pública do governo alemão está
majoritariamente centrada no imposto de renda, uma vez que os
impostos sobre as riquezas, heranças e o lucro são,
gradativamente, abolidas. Assim, sequer causa surpresa ao governo a
constatação escandalosa de que o montante dos impostos pagos pelos
alemães pelo direito de terem um cachorro supera o total das
arrecadações fiscais das empresas.
O
paradoxo é que os governos, responsáveis pelo endividamento do
Estado, diante da ineficácia comprovada da política neoliberal,
continuam apostando na redução de impostos com vistas à geração
de empregos, agora sob a alegação de que a taxação tributária
de grandes empresas estimularia sua migração para outros países.
A culpa, portanto, passa a ser colocada na “globalização”, no
“livre mercado”, na “concorrência”, como se as condições
que permitiram a mundialização do capital e a intensificação da
concorrência não fossem frutos de decisões políticas tomadas por
estes mesmos governos. Mais que isso: governos vêm utilizando o
argumento de uma suposta “irreversibilidade” da globalização
neoliberal como manto ideológico para justificar a implementação
de suas políticas impopulares, a serviço dos interesses do
capital.
A
proposta da oposição conservadora a Schröder era o aprofundamento
da política neoliberal, ou, em outras palavras: “abrir de vez a
janela, cuja vidraça já fôra arrombada”. O resultado das eleições,
no entanto, conduziu a uma coalizão entre a antiga oposição e o
antigo governo, com o objetivo de continuar e aprofundar as
“reformas necessárias” de caráter neoliberal (ver artigo “Centro-direita
governa e esquerda cresce na Alemanha”).
O que os liberais aparentam não querer entender é que a sua fórmula
de gerar empregos estimulando as grandes empresas não funciona. A
premissa de que os investidores capitalistas venham a investir os
lucros das suas empresas prioritariamente na expansão da produção
está comprovadamente equivocada em tempos de hegemonia e mundialização
do capital financeiro. Embora existam, de fato, empresários
interessados na manutenção e geração de empregos, estes
constituem uma absoluta minoria na atualidade e não se encontram
entre os grandes investidores, os maiores beneficiados com o fim dos
impostos sobre o lucro, as riquezas e as heranças. O que se
comprova é a generalização da lógica capitalista de maximização
da apropriação privada dos lucros, especialmente através da
especulação financeira.
Na
Alemanha, as grandes empresas estão acumulando lucros recordes e os
empregos vêm diminuindo na mesma proporção. As 30 maiores
empresas no país fecharam o ano de 2005 acumulando 17,5 bilhões de
euros em dividendos, 17% a mais do que no ano anterior e exatamente
as que mais lucraram e estão sendo isentas de impostos, são as que
mais vêm demitindo trabalhadores. Somente para termos um
comparativo, o montante de lucros das maiores empresas alemãs
corresponde ao total dos investimentos dos governos municipais no país
em 2005, os mais atingidos pelos cortes de recursos e o aumento do
endividamento. Além de constituir a fonte do enriquecimento privado
dos acionistas das empresas (comprovado pelo aumento do número de
milionários e bilionários e da crescente desigualdade entre ricos
e pobres), os lucros vêm sendo crescentemente investidos no mercado
financeiro, onde não geram empregos e acabam contribuindo para o
aumento da especulação e do desemprego em setores produtivos da
economia. Os especuladores financeiros, por sua vez, comemoram o
desemprego, pois a cada demissão massiva de trabalhadores por parte
das grandes empresas, a bolsa de valores reage positivamente,
aumentando o valor de suas ações.
A
tematização do desemprego como problema social carece do
desmascaramento de sua lógica e da explicitação dos interesses
que nele estão implícitos (ver artigo “Aumentar
a exploração para garantir empregos?”).
Ao tomarmos o contexto apresentado
como referência para a análise, podemos concluir que a aparente
preocupação dos liberais com a geração de empregos não passa de
um artifício para isentar empresários de impostos sobre os lucros
das grandes empresas, as quais, em última instância, são responsáveis
pelo financiamento das suas campanhas eleitorais, seus institutos de
pesquisa e marketing. A estreita aliança de governos com os
interesses do capital na consecução da política neoliberal tende
a agravar os conflitos sociais e o Estado procura agir com políticas
compensatórias, reduzindo sua ação ao seu papel original na
sociedade capitalista: convencer os excluídos da sua própria
exclusão e reprimir possíveis rebeliões por parte dos “ainda não
acomodados”, que tendem a aumentar progressivamente. Assim,
contando com o apoio da classe dominante e a hegemonia ideológica
nos principais meios de comunicação social, a governabilidade
parece estar relativamente assegurada, enquanto o mito neoliberal
ainda continua tendo adeptos. |
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