Gestão
da subjetividade e novas formas de trabalho: velhos dilemas e novos
desafios
Resumo
Este
texto tem por objetivo realizar uma reflexão sobre velhos
dilemas e novos desafios do mundo do trabalho. Pretende
estudar a gestão da subjetividade nas empresas e em
especial na indústria metal-mecânica. A constante rejeição
da classe operária ao trabalho intenso e repetitivo
(absenteísmo, boicotes e “greves selvagens”) tem gerado
na história do capitalismo novas estratégias de gestão
que buscam, permanentemente, a construção de um coletivo
operário disciplinado e dócil. Com a crise do
taylorismo-fordismo emerge, na metade do século XX, uma
nova forma de administrar os “recursos humanos” que,
aliada ao crescimento da superpopulação relativa e da
precarização do trabalho, contribui para o engajamento
estimulado e o controle da conduta da classe operária. Essa
forma de gerenciamento (o engajamento estimulado e a
flexploração) transcende a fábrica e “invade” várias
organizações: prefeituras, escolas e universidades.
Palavras-chave:
gestão, subjetividade, terceirização, toyotismo, exército
de reserva.
SILVA,
F.L.G. Subjectivity and nee forms of work: old dilemmas and
new challenges.
Abstract.
The objective of this study is to perform a reflection on
old dilemmas and new challenges of the work world. It has
been intended to study the subjective management in
companies in general and specially in the metal-mechanical
industry. The constant rejection of the working class to
intense and repetitive labor (absenteeism, boycotts and
“wild strikes”) have
generated new management strategies in the history of
capitalism that search for the construction of an orderly
and obedient working class. In the middle of the XX century,
whit the crisis of the Taylorism-fordism, a new way to
manage “human resources” emerges that along with the
growth of the relative overpopulation and the labor
precariousness, has contributed for the stimulated
engagement and for control of the workin class behavior.
This way of management goes beyond the factory and spreads
over several organizations: city halls, schools and
universities. |
A
repugnância dos operários ao trabalho esmigalhado e repetitivo
Este
texto tem por objetivo tornar evidente alguns aspectos fundamentais
que são inerentes ao trabalho repetitivo
realizado na indústria metal-mecânica, em especial na
automobilística.Como é sabido, esta última, principalmente após
a introdução da esteira transportadora, enfrenta a repugnância
dos operários ao trabalho alienado, fragmentado e intenso.
Como
demonstra a história do capitalismo, a tentativa de engajar a força
de trabalho por meio dos incentivos salariais não eliminou a repugnância
dos operários aos métodos tayloristas e fordistas de controle do
processo de trabalho. No ano de 1914, para manter 14.000 operários
trabalhando na fábrica, H. Ford precisava admitir 53.000 por ano,
somente após a introdução do estímulo salarial (The
Five Dollar-Day) conseguiu que a rotação de pessoal declinasse
para 6.508. Os conflitos entre o capital e a classe operária passam
a moldar, no decorrer das lutas de resistência, novas formas de
gestão da subjetividade que buscam a adesão dos trabalhadores ao
processo de produção de mercadorias.
O
absenteísmo, o turnover,
o trabalho mal feito e até a sabotagem tornaram-se as chagas
da indústria automobilística americana: é Fortune, revista
mensal da elite empresarial, que descreve com certo requinte de
pormenores essas manifestações da resistência operária a métodos
organizacionais e de dominação que não mudaram desde o início do
taylorismo.(...) O turnover, isto é, a mobilidade voluntária dos trabalhadores que
mudam de emprego em busca de condições de trabalho mais favoráveis,
é um tormento para os capitalistas. A
taxa média na Ford, em 1969, foi de 25%, representados
essencialmente pelos operários mais jovens... Alguns desses operários
deixam seus cargos, estranha um chefe de oficina, no meio dia, sem
ir buscar o pagamento.(...) As
baixas de produtividade exprimem a resistência dos trabalhadores à
exploração. Essa resistência, que se manifesta pela quebra
dos ritmos, pela sabotagem dissimulada, pelo aumento de peças
falhadas, é crítica para o patronato (PIGNON e QUERZOLA, 1980,
p.94-5, grifos nossos).
A
filósofa e educadora Simone Weil (1975), em uma conferência
realizada para um auditório operário, no ano de 1937, já havia
revelado a especificidade dos denominados métodos de racionalização
(coerção) do trabalho. A gênese da resistência da classe operária
ao método taylorista de racionalização do trabalho explica-se, em
parte, pela pretensão do capital em empregar a “ciência” na
matéria viva, isto é,
nos seres humanos.
Para
Braverman (1981), a “racionalidade” da organização do trabalho
taylorista-fordista caracteriza-se pelo desejo do capital em
transformar os homens em perfeitas máquinas. Enquanto a esteira
mecânica, “relíquia bárbara”, transporta peças e
componentes, os proletários, em postos fixos, realizam movimentos
intensos e repetitivos, a degradação do trabalho no século XX é
levada ao extremo.
Portanto,
a crise da linha de montagem fordista é inerente à sua natureza;
mesmo com a introdução da esteira mecânica, o trabalho humano
continua sendo o elemento dominante, isto é, a qualidade e a
produtividade continuam dependendo, em parte, da vontade do
trabalhador coletivo. Esta estreita relação entre os aspectos
subjetivos do processo de trabalho (motivação) e a produtividade
material, além de revelar a
especificidade dos sistemas produtivos organizados nos moldes
fordistas, evidencia também as
origens de sua permanente crise, latente ou manifesta.
Desta
forma, estamos diante de um caso muito especial de administração
de “recursos” humanos, isto porque, em face da constante rejeição
da classe operária ao trabalho degradado, desqualificado,
repetitivo e intenso, surgem continuamente, para além das táticas
dos incentivos salariais, “novos” estratagemas gerenciais
que buscam a construção da
adesão do comportamento humano ao processo de produção
fordista: o condicionamento e a docilidade humana.
A
docilidade dos operários será facilitada com a introdução das
políticas neoliberais, a mundialização do capital, o crescimento
da superpopulação relativa e o desemprego. Afirma Loïc Wacquant:
A
regulação da classe operária pelo que Pierre Bourdieu chama de a
“mão esquerda” do Estado, simbolizada pelos sistemas públicos
de educação, saúde, seguridade e habitação, foi substituída
– nos Estados Unidos – ou suplementada – na Europa ocidental
– por regulações a partir de sua “mão direita”, ou seja, a
polícia, as cortes e o sistema prisional, que estão se tornando
cada vez mais ativos e intrusivos nas zonas inferiores do espaço
social (2003, p. 73).
O
desenvolvimento do capitalismo ocorre em espaços historicamente
constituídos, os sistemas produtivos convivem com uma grande
heterogeneidade de formas organizacionais, várias maneiras de
organizar e de precarizar o trabalho. A forma toyotista de exploração
do trabalho flexível, por exemplo, que não elimina a tarefa
fragmentada e repetitiva, convive com avançados processos de produção
automatizados e a extração da mais-valia absoluta.
O
suplício da execução de um trabalho esmigalhado, o simulacro de
vida: o que mudou?
É
possível perceber, em significativas expressões de linguagem, a
raiz da permanente crise
do processo de trabalho taylorista-fordista. Diz, por exemplo, um
operário que trabalha na linha de montagem: “a execução de um
trabalho esmigalhado torna-se um suplício”
(FRIEDMANN, 1981).
Para
muitos trabalhadores, somente o refúgio do hábito - construído
pela regularidade dos gestos manuais repetitivos - possibilita
“algum alívio” para o sofrimento humano. Na defesa de um certo
nível de “bem-estar”, é preciso que o trabalhador execute as
tarefas numa cadência que não demande muita assiduidade da atenção;
felizmente, poder trabalhar pensando em outra coisa (“espírito à
deriva”) evita que a racionalização (coerção) do processo de
produção seja total, perfeita.
Esse
sistema produziu a monotonia do trabalho. Dubreilh e Ford dizem que
o trabalho monótono não é penoso para a classe operária.(...) Se
realmente acontece que com esse sistema a
monotonia seja suportável para os operários, é talvez o pior
que se possa dizer de um tal sistema.
Certo é que a
monotonia do trabalho começa sempre por ser um sofrimento; se chega
ao hábito, é à custa de uma diminuição moral. Na verdade, ninguém
se acostuma a isso, a menos que se possa trabalhar
pensando em outra coisa. Mas, então, é preciso trabalhar num
ritmo que não exija muita assiduidade da atenção de que a cadência
do trabalho precisa. (WEIL,
apud BOSI, 1979, p. 124, grifos nossos).
Mas
a “ciência da administração” avança e não dá tréguas,
persegue, sem descanso, novas “teorias” (ideologias) que
permitam ao chefe da oficina tudo conhecer; é preciso integrar o
“espírito” do trabalhador ao processo de produção, isto é,
alcançar o controle total do ser humano. A busca de uma perfeita
racionalização/servidão -
que evite o desenvolvimento de práticas defensivas (o devaneio,
“espírito à deriva”, os boicotes, as greves “selvagens”) -
será, para o infortúnio dos seres humanos, o privilegiado tema de
pesquisa das ciências comportamentais estadunidenses e, em
especial, da psicologia aplicada à administração. A tentativa de
capturar a subjetividade humana, via estímulos salariais,
incentivos psicológicos, falsa participação, propagandas mercadológicas
não é de hoje.
Desde
a conhecida “Experiência de
Hawthorne”, realizada na Western Electric
em Chicago, na América do Norte, nos anos de 1927 a 1932, em
uma linha de montagem de peças de telefones, que a teoria da
administração ressalta a importância da motivação psicológica
para a construção da lealdade dos trabalhadores para com a
empresa. O “movimento de relações humanas na indústria” é
pioneiro na defesa da utilização dos incentivos simbólicos como
forma de estimulação e de condicionamento da conduta operária. Por exemplo, a Sala de
Terapia de Tensões Industriais, constituída por uma equipe de psicólogos/conselheiros,
tinha como função primordial assegurar uma organização que
operasse sem atritos (smooth-working)
e com o máximo de rendimento (FRIEDMANN, 1981).
Na
realidade, ao pretender que os operários acreditem que são responsáveis
pelas chamadas “tensões industriais”, o papel da psicologia tem
sido o de negar as origens sociais, políticas e econômicas dos
conflitos de classe. Desejam os gestores que os operários
sejam transformados em perfeitas máquinas, isto é, que a adaptação
psicofísica se realize sem resistências e imperfeições.
A
adaptação psicofísica ao intenso ritmo da produção prejudica o
corpo e a mente dos operários e das operárias. Exige,
constantemente, um particular dispêndio de energia nervosa que
provoca um novo tipo de fadiga humana (GRAMSCI, 1978).
Em
relação a esse novo tipo de fadiga, as falas dos operários e das
operárias que reproduzem gestos estereotipados são ricas em revelação.
A sensação do corpo anestesiado
e do entorpecimento físico
rompe com a noção de tempo; a vida humana não passa de um
simples arremedo, um simulacro.
É
como um longo deslizar glauco, do qual se desprende, depois de um
certo tempo, uma espécie de sonolência
ritmada por sons, choques, clarões, ciclicamente repetidos,
regulares. A música informe da linha de montagem, o deslizar das
carcaças cinzentas de chapas brutas, a
rotina dos gestos: sinto-me progressivamente anestesiado. O tempo
pára.(...) É como
uma anestesia progressiva: poderíamos contentarmo-nos com o torpor
do nada e ver passar meses – talvez anos, por que não?(...) O
verdadeiro perigo começa quando se suporta o choque inicial, o
entorpecimento. Daí é esquecer
até mesmo a razão da própria presença
na fábrica e satisfazer-se com o milagre de sobreviver.
Habituar-se. Habituar-mo-nos a tudo, ao que parece. Evitar choques
proteger-se contra tudo que incomoda. Negociar com o cansaço.
Refugiar-se num simulacro de
vida (LINHART, 1986, p.12; 43, grifos nossos).
O
longo trecho anteriormente citado é um claro testemunho do
sofrimento humano que tem como causa inconteste o trabalho alienado
e degradado. Recentemente, como resultado de suas pesquisas científicas,
Dejours (1987) revela que o sofrimento, a ansiedade e o medo dos
trabalhadores na linha de montagem fordista derivam de um ritmo
imposto pela gerência que exige uma “elevada carga
psicossenssorial motora”. Assim
ele se expressa:
A
ansiedade responde então aos ritmos de trabalho, de produção, à
velocidade e, através destes aspectos, ao salário, prêmios, às
bonificações. A situação de trabalho por produção é
completamente impregnada pelo risco de não acompanhar o ritmo
imposto e de “perder o trem” (DEJOURS, 1987, p.73).
A
constante rejeição da classe operária ao trabalho degradado e a
acirrada competição mundial impulsionam a crise (crise aberta) do
sistema de produção taylorista-fordista, locus
privilegiado do trabalho desqualificado e repugnante. Esses
assalariados reivindicam com as “greves selvagens” mudanças
fundamentais na forma de organização do trabalho. Segundo C.
Dejours (1987), as expressões “abaixo as cadências infernais”
e “abaixo a separação do trabalho intelectual e manual”
representam nitidamente uma total recusa dos proletários à
insuportável degradação física e mental provocada pela
intensificação do ritmo de produção.
São lutas realizadas no interior da indústria automobilística
que apontam para a autonomia e emancipação da classe operária,
para a autogestão do
processo produtivo.
Essas
greves “selvagens” confirmam a escolha de 1968 como referência
histórica. “Greves selvagens” e greves de operários não
qualificados eclodem espontaneamente, muitas
vezes à margem das iniciativas sindicais. Elas rompem a tradição
reivindicativa e marcam a eclosão
de temas novos: “mudar a vida”, palavra de ordem fundamentalmente original,
dificilmente redutível, que mergulha o patronato e o Estado numa
verdadeira confusão, pelo menos até a atual crise econômica, que
tende a atenuar as reivindicações qualitativas (...) Palavras de
ordem como “abaixo as cadências infernais”,
“abaixo a separação do trabalho intelectual e manual”, “mudar a
vida” atacam diretamente a organização do trabalho (DEJOURS, 1987, p.24-5, grifos nossos).
A
resistência – absenteísmo, boicotes, greves “selvagens”, espírito
à deriva – e a acirrada competição pelos mercados nacionais e
internacionais justificam os altos dispêndios com os estratagemas
gerenciais que buscam, para além da adaptação psicofísica do
operário ao ritmo da esteira, o envolvimento “espiritual e
mental” (engajamento estimulado) dos proletários com o trabalho
alienado e fragmentado.
Os
trabalhadores precisam ser participativos, leais e motivados, ou
seja, escravos contentes. Após pesquisas realizadas em programas de
engajamento estimulado revela Alves:
A
General Motors chegou a pagar três mil dólares por hora
para um grande psicólogo desenvolver a programação dos cursos
de treinamento para o trabalho participativo e para elaborar o
material didático a ser usado. O importante aqui é enfatizar que
os cursos visam, como prioridade, mudar
a identidade do trabalhador para que ele passe a ver a empresa
com novos olhos. Ao invés de ficar sempre vendo conflitos entre a
classe trabalhadora e os patrões, são levados a pensar que é possível
ter um relacionamento amigável, de “família”, e chegar a
acordos consensuais (1987 p.42 , grifos nossos).
Nos
Estados Unidos a burocracia sindical aceita o programa participativo
conhecido como UAW-Ford
Employe Involvement, mas as greves “selvagens” questionam e
lutam contra o acordo de cúpula. Segundo Bernardo (2000), a
característica fundamental dessas lutas operárias, as greves
“selvagens”, era a sua inovação em termos de combate e de
propostas organizativas. Essas lutas, com suas estratégias de
recusa à exploração do trabalho, datam de 1950 (mais cedo em
alguns países da URSS) e até o início de 1980. Os operários as
conduziam, fora da burocracia sindical, as assembléias e as comissões
de trabalhadores decidiam o encaminhamento. Ao exercitarem o
controle direto sobre os combates
- movimento autônomo
–, colocaram em pauta, durante a década de 1960 e 1970, não
a mera propriedade formal dos meios de produção. A questão
central para os proletários era a estrutura organizacional, isto é,
puseram em pauta o poder burocrático e a heterogestão das fábricas.
Um
artigo publicado no New York
Times em 23 de agosto de 1973 denuncia claramente a crise dos
processos de trabalho organizados nos moldes taylorista-fordistas.
Por exemplo, a empresa Fiat Motor Company, em Roma, teve nada menos
de 21.000 funcionários ausentes em uma segunda-feira e o absenteísmo
médio era de 14.000 trabalhadores por dia. Desta forma, avança a
constante necessidade de “motivar” os operários para o trabalho
fragmentado e intenso, a ideologia gerencial cria novas formas de
engajar e administrar (controlar) a recusa operária.
Novamente
a intensificação do trabalho repetitivo e o engajamento estimulado
Como
resposta à crise aberta do taylorismo-fordismo, surge, na segunda
metade do século XX, no Japão, o sistema de produção em massa
flexível (Just in time/Kanban/CCQ/Kaizen/Multi-skill).
Sistema este que desenvolve uma nova maneira de gerenciar a força
de trabalho, que leva à intensificação do ritmo de produção a
padrões extremos (management
by stress), uma vez que adiciona,
ao gesto repetitivo dos operários, o engajamento total.
A
socióloga Danièle Linhart revela que a estratégia da empresa flexível
consiste em dominar a consciência dos trabalhadores, induzindo la mentalité des
pompiers (“mentalidade dos bombeiros”): sempre prontos e em
alerta para realizarem tarefas repetitivas com a qualidade e a
produtividade requeridas pelo capital(Apud SANTON,1999). Segundo C.
Dejours:
O
“autocontrole” à japonesa constitui um acréscimo de trabalho e
um sistema diabólico de dominação auto-administrado, o qual
supera em muito os desempenhos disciplinares que se podiam obter
pelos antigos meios convencionais de controle (DEJOURS, 1999, p.49).
Na
New United Motor Manufacturing Inc. (Califórnia-EUA)
os ciclos de trabalho são muito curtos, o início e o término de
uma tarefa multifuncional dura 60 segundos (WOMACK, JONES, ROOS,
1992). Na empresa Suzuki, em Kosai (Japão), o operário desenvolve
uma seqüência de movimentos físicos em um ritmo que é cadenciado
pelo som de música sintética; ele monta, em um estado mental quase
hipnótico, um automóvel de porte médio a cada 58 segundos
(OCADA, 2002).
Segundo
a experiência de um jornalista brasileiro que trabalhou como arubaito
(trabalho temporário e precário) na Kubota, no Japão – fábrica
de tratores e de implementos agrícolas –, as tarefas são pesadas
e repetitivas. Ele executava quatro tarefas
diferentes (cargo enriquecido) e recebia remuneração de 12
reais por hora; mas não tinha carteira assinada, não ganhava 13º
salário e tão pouco fundo de garantia. Assim ele se expressa:
Eu
apertava parafusos, empurrava máquinas para a linha de produção,
buscava peças, levava caixas vazias para o depósito. Quanto mais
trabalhava, mais ouvia hayaku (mais depressa). Fiz uma coisa imperdoável
nas relações trabalhistas locais: reclamei do abuso e sugeri mudanças.
O sistema japonês detesta queixas e abomina mudanças
(HIGOBASSI, p.109, 1998).
Mesmo
diante dessas evidências empíricas, alguns pesquisadores, tais
como WOMACK et al. (1992) e HIRATA (1998), defendem a tese de que a
tarefa polivalente desempenhada pelos operários japoneses supera a
cisão entre o trabalho manual e intelectual, isto é, requalifica o
processo de trabalho.
Na
verdade, o exercício da “multifuncionalidade” (multi-skill) tem gerado um trabalhador pluriparcelar, engajado, flexível e proativo, ou seja,
extremamente explorado. Com a introdução dos círculos de
trabalho, da redução dos estoques amortecedores e do princípio da
melhoria contínua (kaizen),
aprofunda-se, na realidade, o processo de alienação do trabalho: a
apropriação pelo capital do saber tácito da classe operária.
De
acordo com Nonaka (1991), com a introdução do Sistema JIT/Kanban e
dos círculos de trabalho, determinados conhecimentos deixam de ser
monopólio de alguns poucos operários e são incorporados à
organização pela gestão da empresa, isto é, ao total domínio do
capital.
Dessa
forma, emerge daí uma nova configuração organizacional que,
aliada ao enfraquecimento dos direitos trabalhistas e à coerção
direta do mercado sobre a subjetividade humana, permite uma
(re)definição da forma de exploração da força de trabalho.
Para
Pierre Bourdieu (1998), a precariedade das relações de trabalho
gera uma nova forma de opressão: a gestão racional dos
“recursos” humanos por intermédio da insegurança e do medo,
a “flexploração”. Essa coerção é denominada de
“regime hegemônico despótico” por Burawoy (1990) ou de “new
regime of subordination” por Garrahan et al. (1994). Alguns
dos resultados da aplicação dessas novas técnicas gerenciais são
as doenças e as mortes provocadas pela overdose
de trabalho (CARVALHO, 1995; DEJOURS, 1987).
No
Japão, interessante estudo do Dr. Tetsuro Kato demonstra que a força
humana empregada tem vivenciado um fenômeno denominado karoshi, ou seja, morte por excesso de trabalho. Tecnicamente,
aplica-se esse termo sócio - médico para descrever doenças, em
geral cardiovasculares, ocasionadas pelo dispêndio desumano de
horas e energia física e psíquica nas atividades produtivas. Esse
estilo de consumo da força de trabalho está sendo denominado de
“sete às onze”, porque os empregados saem de casa às sete da
manhã e somente retornam ao lar às onze horas (CARVALHO,
1995,p.22).
É
importante ressaltar que o discurso gerencial da qualidade,
produtividade e multifuncionalidade transcende o mundo fabril e
“contamina” todos os espaços sociais, em especial as instituições
educacionais e universitárias, terceirizando, assim, tarefas e funções
públicas.
A
opressão da classe operária no local do trabalho traduz-se em
sofrimentos prolongados; na luta pela transição social e superação
do modo de produção capitalista não basta coletivizar as fábricas
é necessária uma luta diária pela construção de uma nova forma
de organização e gestão, ou seja, pela apropriação real das forças
produtivas (BIHR, 1998).
Simone
Weil havia percebido que a superação da exploração do trabalho
pode conviver com a opressão do operário se a organização da
produção não for democratizada, assim, é preciso superar o
trabalho esmigalhado e repugnante.
Se
amanhã os patrões forem expulsos, se as fábricas forem
coletivizadas, nada vai mudar quanto a este problema fundamental: o
que é preciso para extrair o maior número possível de produtos, não
é necessariamente o que pode satisfazer aos homens que trabalham na
fábrica (Apud BOSI, 1975, p.12).
O
trabalho fragmentado e intenso não é privilégio dos operários
fabris que operam na indústria automobilística sob o regime
toyotista. Nas empresas de computação, a produção-padrão
definida para os digitadores e digitadoras exige, em média, 18 mil
toques por hora, isto é, operário de escritório deve dar cinco
toques no teclado a cada segundo, speed
as skill (SOARES, 1988).
Nos
canaviais da região de Ribeirão Preto os trabalhadores são
obrigados, para uma produção 10 toneladas de cana, a repetirem
9.700 golpes de podão. Segundo notícias recentes publicadas nos
jornais, no período de um ano faleceram 10 trabalhadores por exaustão,
o karoshi do canavial.
Para
a socióloga Maria Aparecida de Moraes e Silva, os trabalhadores
rurais, por causa do desemprego, aceitam qualquer proposta de
trabalho. No caso dos migrantes, eles chegam devendo a viagem para
os “gatos” e não conseguem sair desse círculo vicioso.(Folha
de São Paulo, 2005).
Superpopulação
relativa, desemprego, velhos dilemas e novos desafios
Como
observamos, o regime mundializado de acumulação de capital
predominantemente financeiro tem exigido dos países
industrializados, assim como dos “periféricos e dependentes”,
uma (Contra)-reforma do Estado que impõe uma revisão dos direitos
sociais conquistados pela classe trabalhadora. Com a perda desses
direitos e com o crescimento da superpopulação relativa, a classe
operária encontra-se diante do aumento da exploração precarizada
e flexível do trabalho, trabalho-excessivo, trabalho-parcial etc. (BOURDIEU, 1998).
Mas,
como sabemos, o desemprego, trabalho excessivo, parcial/precário e
viver de caridade alheia não são novidades no capitalismo. O século
XIX é pródigo na produção de ações filantrópicas e
caritativas como resposta ao pauperismo, às “seqüelas”
produzidas pelo capital. Há todo um arsenal de práticas produzidas
pelos que temem que uma “faísca elétrica” acenda a multidão.
São criadas as workhouses
para os desempregados, a Lei dos Pobres para os “vagabundos”,
projetos de “renda mínima” e de substituição de máquinas por
indigentes, etc. (BRESCIANI, 2004).
(...)
se uma população trabalhadora excedente é produto
necessário da acumulação ou do desenvolvimento da riqueza no
sistema capitalista, ela se torna por sua vez a alavanca
da acumulação capitalista, e mesmo condição
de existência do modo de produção capitalista.Toda a forma do
movimento da indústria moderna nasce, portanto, da transformação
constante de uma parte da população trabalhadora em desempregados
ou parcialmente empregados.
Encontramos violentos protestos contra o trabalho excessivo, até mesmo na crise algodoeira de 1863, num
panfleto dos fiandeiros de algodão de Blackburn
(...) Muitos, em virtude da falta de ocupação, ficam constrangidos
a viver da caridade alheia
(MARX, 1980, p. 733-735, grifos nossos).
Muito
do que hoje se denomina “terceiro setor”, “responsabilidade
social das empresas éticas e cidadãs”, cooperativas
“autogestionárias” e várias outras atividades desenvolvidas no
“mercado solidário” e competitivo são, na realidade, reações
às novas expressões do pauperismo, uma “questão social” não
resolvida. O Estado Social – “mão esquerda do Estado” -
desobriga-se de suas funções públicas e, como se o pauperismo
fosse fruto da escassez de recursos e/ou uma questão de reforma
moral, o “terceiro setor”, “as empresas éticas e cidadãs”
submetem a política à lógica do mercado. A solidariedade sistêmica,
uma vez substituída pelas boas ações voluntárias, refilantropiza
e despolitiza as lutas contra as “seqüelas sociais” produzidas
pelo processo de acumulação do capital. Os combates contra o
pauperismo e o desemprego são pulverizados e as lutas contra as políticas
neoliberais transformam-se em possíveis ações pragmáticas e
imediatistas, avançam a resignação e a “cultura do possibilismo”.
O
dito “terceiro setor”, instrumento
da estratégia neoliberal, assume a função de transformar o
padrão de respostas a seqüelas da “questão social”,
constitutivo de direito universal, sob a responsabilidade prioritária
do Estado, em atividades localizadas
e de auto-responsabilidade dos sujeitos portadores das carências;
atividades desenvolvidas por voluntários ou implementadas em
organizações sem garantia de permanência, sem direito.
Transforma-se, como vimos, o sistema de solidariedade universal em
solidariedade individual (MONTÃNO, 2002, p.62, grifos nossos).
Demonstra
Márcio Magera (2005), em sua pesquisa, como a indústria se apodera
do trabalho das denominadas “Cooperativas de Reciclagem de Lixo”
e estabelece preços extremamente baixos para a mercadoria,
“sucatas de vários tipos”. Essa população, integrada ao
circuito do capital, vive do trabalho precário e flexível no
limite da subsistência fisiológica, ou seja, abaixo da linha de pobreza. Praticam um sistema de “autogestão” funcional ao regime de
acumulação neoliberal com apoio da prefeitura local.
Para
Paul Singer, esses “trabalhadores ambientais” não conquistaram
uma condição melhor de vida (autonomia diante da exploração do
capital) porque o “modelo ideal de cooperativa” não foi
implantado (MAGERA, 2005).
As
cooperativas instaladas no Nordeste do Brasil funcionam como uma
forma de terceirização e flexibilização do trabalho, a
“autogestão” é, de fato, funcional ao capital e ao
neoliberalismo. Diante dessa realidade, o sindicato dos têxteis de
Paulista, em Pernambuco, por exemplo, assiste à redução anual da
sua base de afiliados. Uma cooperativa, instalada no Ceará, está
sendo investigada pela procuradoria por denúncias de trabalho
assalariado disfarçado. Em verdade, essas organizações aproveitam
o denominado “custo chinês” da força de trabalho nordestina
(LIMA, 1997). Portanto, o que encontramos de concreto, no sertão do
Nordeste, é a presença do trabalho ultra “flexplorado”, o
ideal de uma classe proletária emancipada pelo cooperativismo
“autogestionário” não passa de um conto de fadas. A competição
mundial entre os capitais intensifica a exploração do trabalho:
(...)
no plano econômico, a réplica capitalista à luta do proletariado
contra sua exploração tem sido sempre de aumentar
a intensidade e mais ainda a produtividade do trabalho,
desenvolvendo os meios de produção com o objetivo de aumentar a
mais-valia relativa. E é pelo mesmo caminho que o conduz a concorrência
entre os capitais particulares, única possibilidade, para
determinado capital, de realizar uma taxa de lucro superior à taxa
média, que é em última análise de aumentar, ainda neste caso, a
produtividade do trabalho (BIHR,1998, p.127, grifos nossos).
Com
o novo trato dado à “questão social” - “terceiro setor”,
cooperativas “autogestionárias”, empresas cidadãs -, a
superexploração do trabalho avança em várias frentes. Recente
artigo revela como empresas, diante da possibilidade dos baixos
custos salariais, têm transferido para presídios suas linhas de
montagens. Afirmam essas empresas que é uma excelente oportunidade
de praticar uma ação social responsável,
ou seja, a recuperação dos presos. A Bognar Metais, empresa
cidadã, que montou uma metalúrgica no Presídio Adriano Marrey
(Guarulhos), emprega 37 detentos que recebem R$ 300,00 por mês; na
fábrica o piso salarial mínimo é de R$ 580,00. Uma das grandes
vantagens para essas indústrias que abraçam essa “causa
social”, além dos baixos custos, é o envolvimento dos operários-presos
com a produção, a grande motivação deriva da possibilidade da
redução da pena, três dias trabalhados poderão significar um dia
a menos no presídio (Estado de S.Paulo, B 5,11/09/05).
A
construção de cooperativas verdadeiramente autogestionárias deverá
ser obra da própria classe trabalhadora. A possibilidade da construção
de uma nova forma de sociabilidade humana não mediada pelo capital
está inscrita nas contradições do real, no processo de luta
social historicamente situado. A importação de outros contextos e
tempos históricos, de “doutrinas ossificadas” (modelos sem
vida), dificilmente contribuirá para a autonomia da classe
trabalhadora (RIOS, 1987).
Para
que esse processo de transformação aconteça – autogestão e
superação da alienação do trabalho –, torna-se necessária a presença
do sujeito; sem sua participação não há história. É o
sujeito que rompe com a estrutura de opressão/exploração e não o
sistema que, obediente a determinadas leis férreas, rompe-se
“naturalmente”; o progresso técnico, condição necessária, não
é suficiente, a luta por novas formas de organizar a produção é
indispensável, a burocracia fabril heterogestionária com sua
hierarquia de cargos e salários é necessariamente despótica (BIHR,
1998).
A
reflexão crítica sobre a organização burocrática do trabalho e
suas correspondentes ideologias gerenciais não pode esperar a
promessa do mundo novo, ou seja, o seu questionamento deve fazer
parte das preocupações teóricas e políticas do conjunto da
classe trabalhadora, dos intelectuais, dos técnicos e dos operários.
Durante
as lutas da Comuna de Paris (1871), os trabalhadores defendiam várias
medidas relacionadas a reformas culturais, à solidariedade social
imediata, à organização do trabalho e à superação da
propriedade privada. Para João Bernardo (2000), o insucesso da
Comuna de Paris foi o fracasso da primeira tentativa do proletariado
em instaurar o socialismo no Ocidente.
As
fábricas e oficinas abandonadas pelos proprietários em razão da
guerra seriam administradas
pelos sindicatos do ramo respectivo, até que se decidisse
quanto às indenizações correspondentes.
Nos Ateliers
cooperativos do Louvre, encarregados de reparar e fabricar armas,
cada núcleo de trabalho escolhe seu responsável (GONZÁLEZ, 1989,
p.82, grifos nossos).
O
sucesso inicial da experiência de Robert Owen (1825), nas
cooperativas de New Harmony, não se explica pelo seu humanitarismo
paternalista de capitalista esclarecido, mas devido à vantagem que
o empreendimento industrial desfrutava no começo, a redução da
jornada do trabalho conduziu a uma intensificação da produtividade.
Com a adoção dessas práticas pelas empresas
concorrentes a experiência cooperativista de Owen foi levada à falência
(MÉSZÁROS, 2005). Embora a propriedade fosse coletiva e a remuneração
igualitária os pioneiros ficaram insatisfeitos com a gestão
autoritária, esses trabalhadores continuavam, na verdade, despossuídos
do controle do processo de trabalho (BERNARDO, 2000).
...
autogestão deve ser compreendida em sentido generalizado e que não
se pode realizar senão por uma revolução radical, que transforme
completamente a sociedade em todos os planos, dialeticamente
ligados, da economia, da política e da vida social (GUILLERM et
al., 1975, p.41).
Portanto,
as cooperativas de produção tendem, conforme a situação do
mercado, a obrigar os operários a intensificarem o ritmo de produção.
Os trabalhadores, submetidos à competição mercantil, enfrentam a
situação contraditória de “governar a si mesmos com todo
absolutismo necessário”, ou seja, passam a atuar como seus próprios
patrões capitalistas (LUXEMBURGO, 2003).
A
reflexão sobre as lutas históricas dos trabalhadores e
trabalhadoras, suas vitórias e conquistas, limites e contribuições,
devem orientar os novos combates, isso quer dizer que as experiências
não devem ser transformadas em “doutrinas ossificadas” e nem em
modelos previamente definidos. Como afirma Brito (1983), a memória
é uma arma da classe
operária. A tomada da Ford do Brasil, por exemplo, aconteceu em 23
de novembro de 1981 e teve como antecedentes históricos as greves
de 1968. Estavam na pauta dos conflitos, entre outros itens, a
destruição da hierarquia fabril e a criação de Comitês de Fábricas
autônomos.
Nas
greves de 78 a Ford esteve na vanguarda, junto com a Scania:
e quando a Ford parou, pesou decisivamente no movimento geral, dando-lhe um
peso incalculável, que o tornou vitorioso nesse ano. Nas greves de
80, na Ford não houve um único piquete; a consciência
da auto-organização foi um exemplo para a classe operária
(BRITO, 1983, p.39, grifos nossos).
Somente
para citar, surge atualmente, no sul do Brasil, um “movimento de
ocupação de fábricas” que se posiciona contra as propostas de
criação de cooperativas. Os operários e operárias que participam
desse movimento reivindicam a estatização imediata das fábricas e
a instalação de conselhos eleitos pelos trabalhadores. Em Içara,
Santa Catarina, cento e cinqüenta operários e operárias da Vectra
Revestimentos Cerâmicos acamparam nos portões da empresa contra o
seu fechamento e o desemprego (Fábricas Ocupadas, 2005).
Portanto,
podemos afirmar que, de diferentes formas, os trabalhadores e
trabalhadoras continuam resistindo e lutando contra a exploração
do capital. Os caminhos devem ser abertos nas lutas concretas e
estas, orientadas pela constante reflexão histórica, a memória é
uma arma. Precisamos aprofundar nossos estudos sobre o significado
da terceira revolução industrial.
Com
as novas forças produtivas, já não é possível empregar de forma
rentável grandes massas de força de trabalho em quantidade
suficiente. Por isso o barateamento das mercadorias destinadas ao
consumo dos produtores já não chega garantir a acumulação do
capital. A mais-valia relativa torna-se insignificante. A prova
disso é que o capital retoma a predominância da mais-valia absoluta. (...)
Simultaneamente, deve cair o “nível histórico-moral” (Marx)
atingido, dos custos de reprodução da força de trabalho, para que
os salários reais possam baixar em absoluto: bens culturais,
cuidados médicos são, pouco a pouco, “declarados inacessíveis”
ao nível médio do custo de vida (KURZ, 2005, grifos nossos).
Referências
ALVES,
M.H.M. Multinacionais e os trabalhadores nos EUA. Lua Nova,
São Paulo, v. 3, n. 3, p. 40 – 7,1987.
BERNARDO,
J. Transnacionalização do capital e fragmentação dos
trabalhadores. Ainda
há lugar para os sindicatos? São Paulo: Boitempo, 2000.
BRESCIANI,
M. S. Londres e Paris no século XIX:
O espetáculo da pobreza. São Paulo, Brasiliense, 2004.