A
disputa tucana
1.
Bicudos de alta plumagem
As
últimas pesquisas de opinião divulgadas neste ano de 2005
revelam uma queda acentuada da intenção de votos em Lula. Sua
reeleição estaria comprometida, perdendo para José Serra, ainda
no primeiro turno das eleições presidenciais de 2006. Mais
importante é que segmentos importantes de sua base eleitoral
(como nordeste, sul do país e eleitores de baixa renda) também
parecem abandonar seu barco. Muitos petistas acreditam que este
fenômeno se deve ao choque das denúncias de corrupção no
interior do governo federal que teria atingido primeira os
formadores de opinião e, agora, atinge os segmentos menos
abastados. Esta hipótese estaria fundamentada na melhoria dos
indicadores de Lula nos segmentos com maior nível de escolaridade
e renda. Uma hipótese a ser confirmada. Contudo, o que as
pesquisas despertaram, de fato, foi o acirramento da disputa
interna entre tucanos de alta plumagem, em especial, no tucanato
paulista.
José
Serra e Geraldo Alckmin perceberam os ventos de 2006 e anteciparam
a disputa presidencial. Em entrevista à televisão, o governador
paulista lançou sua candidatura e afirmou que José Serra não
será candidato porque teria prometido cumprir, até o final, seu
mandato de prefeito. Uma tática pouco sábia, que mais provocou a
ira de seu colega de partido.
O
PSDB sempre foi um partido com base sólida no Estado de São
Paulo. Teve, ainda, seu período de nordeste, com vitórias
sucessivas no Ceará. Com a posse dos atuais governadores, Minas
Gerais, que até então estava nas mãos da raivosa oposição de
Itamar Franco, passou a despontar como um terceiro vértice do
poder tucano, a partir da jovem liderança de Aécio Neves. Aécio,
desde sempre, procurou explorar esta imagem jovial. Uma espécie
do avesso do avesso de Collor. Além da herança de Tancredo Neves
e da boa repercussão de sua gestão à frente da Câmara de
Deputados, Aécio desmontou o cenário político mineiro, alijando
Eduardo Azeredo e Pimenta da Veiga, tucanos de peso,
desarticulando a oposição petista e peemedebista. No caso
petista, aproximou-se de Fernando Pimentel, José Dirceu e Lula.
Montou, ainda, um triunvirato de comando de sua gestão tendo, de
um lado, o homem técnico e competente (Antônio Augusto Anastasia)
e, de outro, o articulador e negociador político (Danilo de
Castro), rapidamente suplantado pela sua irmã (Andréia Neves).
Andréia Neves passou a ocupar o lugar de eminência parda do
governo, negociando na penumbra, inibindo a grande imprensa,
articulando verbas e recursos oriundos do exterior. O problema de
Aécio, entretanto, foi a montagem de uma estratégia de composição
de bases políticas regionais, no interior de Minas Gerais. Armou
um arco de forças a partir das compensações que poderia
angariar no interior da Assembléia Legislativa e não buscou
ocupar efetivamente espaços regionais. As eleições municipais
de 2004 feriram sua liderança ascendente. Uma ferida que afetou a
mudança na composição interna das forças tucanas, levando
consigo algumas das lideranças nordestinas emergentes.
2.
Bicadas entre tucanos paulistas
Na
política existem duas máximas: não existe espaço vazio e a
falta de pluralismo aumenta a tensão no interior do grupo
dominante. Na mesma medida em que os tucanos paulistas conseguiram
debilitar as forças tucanas não paulistas, a tensão no interior
do PSDB de São Paulo entrou em ebulição.
O
PSDB paulista venceu na capital do Estado (derrotando a candidata
petista, Marta Suplicy, um dos símbolos do poderio petista
paulista) e em municípios importantes do interior (Sorocaba,
Ribeirão Preto e Piracicaba são alguns exemplos).
Em relação aos votos válidos, o PSDB paulista conquistou 31% do
total (enquanto o PSDB mineiro angariou apenas 14% do total).
A
paternidade da vitória eleitoral paulista, desde o início, foi
motivo de disputa surda entre tucanos de alta plumagem. Três
deles estiveram nos principais órgãos da imprensa estadual e
nacional: o eleito José Serra, o governador Geraldo Alckmin e o
ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Os três possuem
identidades diferenciadas.
José
Serra é considerado o mais progressista dos três, acalentando um
projeto desenvolvimentista para o país. Contudo, possui um perfil
pouco afável e é temido por seus assessores por sua ânsia na
busca de resultados e agressividade gerencial. É técnico e
enfrenta dificuldades em se projetar a partir de um discurso mais
popular.
Geraldo
Alckmin é um governador com perfil de secretário de governo. Não
é agressivo, mas comanda o maior orçamento estadual do país e o
segundo orçamento nacional (perdendo apenas para o orçamento
federal). O saneamento financeiro realizado pelo ex-governador Mário
Covas gerou um fôlego de ações muito significativo. É por este
motivo que ocupa o cenário nacional e não por sua habilidade política
ou inovação gerencial.
Fernando
Henrique Cardoso joga como uma espécie de tercius.
Aprendeu a ser hábil e cauteloso a partir de seus dois mandatos
como Presidente da República. Procura consolidar a imagem de
“reserva moral” da política nacional. Assim, joga sem grandes
riscos, mas sabe ser agressivo e, neste quesito, se aproxima em
muito do estilo de José Serra. Mas possui maior simpatia junto ao
empresariado paulista. Neste final de ano, FHC vem sendo disputado
pelos outros dois tucanos. A possibilidade mais concreta,
portanto, é manter sua influência sobre um possível tucano
vitorioso nas eleições de 2006. Mesmo assim, permanece jogando,
não impedindo nenhum prognóstico sobre seu futuro político.
Aparentemente,
os tucanos paulistas precipitaram a disputa interna pela
candidatura à Presidência da República. Possivelmente, por
auto-suficiência ou para definir o campo de disputa no PSDB. Um
lance muito arriscado, porque pode dividir toda base partidária
em São Paulo. Uma ilustração foi o cortejo que perseguiu o time
de futebol do São Paulo, logo após sua chegada ao Brasil como
campeão mundial da copa interclubes. O cortejo foi obrigado a
passar pela sede da Prefeitura e pelo Palácio do Governo de São
Paulo, onde os dois candidatos tucanos á Presidência da República
aguardavam os holofotes da imprensa. Uma segunda ilustração foi
a inauguração da nova sede do PSDB paulistana. Serra e Alckmin
desdobraram-se em elogios à Fernando Henrique Cardoso, presente
no evento, o que rendeu manchetes de vários jornais da grande
imprensa que traduziram a situação como disputa pelo apoio do
ex-Presidente da República.
3.
Descaminhos dos tucanos mineiros
O
governador Aécio Neves recolocou Minas Gerais no cenário
nacional pelo que a política mineira tem de mais positivo.
Articulou politicamente, atacou sem agredir, agiu sem grande
alarde. É evidente que Minas voltou a ter respeito nacional. Mas,
em determinado momento, perdeu o fôlego. Há, na política, uma
diferença entre prudência e timidez, que nem sempre é fácil de
distinguir. E aqui, Aécio Neves foi errático.
Comecemos
pela articulação política. O grande obstáculo para o jovem político
Aécio Neves é, como já afirmamos anteriormente, o tucanato
paulista. Lula nunca escondeu sua admiração pelo governador
mineiro, o que elimina uma área de atrito em sua trajetória.
Muitas vezes, o Presidente da República citou seu nome como se
fosse petista e, nos bastidores da política, é repetida a versão
que Lula deseja um grande futuro na sua trajetória. Ambos
procuraram articular uma alternativa no interior do PSDB. Mas o
governador mineiro titubeou. Começou bem e parecia articular com
precisão o nordeste. Contava com o apoio de bastidor de Ciro
Gomes e dos ministros mineiros. Mas, na primeira adversidade, que
começa com a perda das eleições municipais e o início do
inferno astral de José Dirceu (um dos mais entusiasmados
apoiadores de Aécio Neves no governo federal), recuou
excessivamente. O espaço que abriu na disputa interna deu nas
projeções eleitorais do final de ano: o crescimento constante
dos tucanos paulistas nas intenções de voto. José Serra e
Alckmin criaram fatos políticos. Aécio se recolheu à reeleição.
A preocupação excessiva com o domínio de seu Estado diminuiu a
liderança que era estampada nos jornais a cada reunião de
governadores do país.
É
fato que acordos regionais, no interior de Minas, poderiam ser
estabelecidos, a partir das cidades-pólo. Contudo, o estilo
excessivamente prudente, de um lado, e a estrutura de sustentação
de apoio partidário montada pela cúpula do governo estadual, de
outro, ataram a possibilidade do vôo maior. Minas Gerais é o
Estado onde um acordo entre lideranças petistas e o governo
tucano parece mais evidente e provável. Entrevista recente do
prefeito Fernando Pimentel à Folha de S.Paulo indica claramente o
grau de aproximação entre essas lideranças. Aécio poderia sair
deste seu mandato como o maior tucano não paulista do país. Como
uma alternativa real de consolidação de uma aliança inovadora
na política nacional. Poderia ter sido mais ousado.
Um
segundo aspecto a considerar sobre o governo Aécio Neves é sua
performance na área social. Esta é uma avenida política não
ocupada no país. Não é segredo que grande parte das suas ações
na área depende dos recursos de programas federais: do combate à
pobreza rural, passando pelos programas de alfabetização e
tantos outros. A área educacional, historicamente uma referência
mineira e destaque no cenário nacional, é seu Calcanhar de
Aquiles. As Superintendências Regionais de Ensino estão
paralisadas e foram ocupadas, em grande parte, por apoiadores políticos
regionais. A conseqüência foi óbvia: essas estruturas, ao invés
de liderar e articular a educação estadual, adotaram ações
paroquiais. Na educação, Minas perdeu a histórica capacidade
inovadora e voltou algumas décadas com a adoção das
escolas-referência. Divulgar a distribuição de livros didáticos
como um grande feito é, no mínimo, ter pouco a dizer. Para
piorar, retornou a política de contratação de consultores
distantes do cotidiano escolar para formulação de estratégias
gerais que raramente se transformam em práticas concretas.
Na
área rural, a maior e única inovação foi o ressurgimento da
EMATER. A criação do Minas Sem Fome, a ação decidida na
regionalização da sua organização e o investimento numa nova
forma de formação técnica dos extensionistas constituem uma
agenda que levou o presidente da EMATER mineira à liderança
nacional (se elegendo Presidente da Associação Brasileira das
Empresas de Extensão Rural).
Poderia
ter avançado na área cultural. Não apenas como atração ao
turista, mas como promoção social e fortalecimento do
reconhecido talento dos mineiros nas artes. Quantos mineiros sabem
de novos talentos na literatura, no cinema, nas artes plásticas,
na música, onde Minas sempre foi um respeitado celeiro? O
desempenho na área social, com exceção da educação, não é
desprezível, mas está aquém do potencial do governador. Aqui,
também faltou criatividade e ousadia.
Uma
hipótese provável é que o grande problema foi a capitulação
à financeirização e ao “choque de gestão” das políticas públicas,
eufemismo para adoção do estilo empresarial de gestão da coisa
pública. É um viés equivocado, que adota princípios
empresariais para uma área absolutamente distinta. O Reino Unido
já provou a insuficiência desta orientação na ação
governamental.
A
financeirização das políticas públicas não se trata de uma opção
do governador, apenas. Trata-se de uma moda na política nacional.
É um canto de sereia que teve início nos anos 90 e que custa a
passar. Entrou pela porta da Universidade e se sustenta, hoje,
pelos consultores de plantão e algumas fundações de nítido viés
empresarial. Alguns elementos do discurso da década passada já não
existem mais, como a famigerada reengenharia. Mas o princípio se
mantém: a máquina pública deve ser saneada e zerar seu déficit,
à qualquer custo social. Esta é uma leitura funcionalista, ou
seja, que coloca a instituição no centro das preocupações públicas.
Mas o Estado existe para gerar promoção e equidade social. Na prática,
significa investimento onde o setor privado não ousa investir,
justamente porque pode gerar déficit. Este é o famoso caso da
telefonia em áreas rurais, com custo muito mais elevado que em áreas
urbanas. Se o Estado não investe, os agricultores nunca terão
acesso às redes de computador e às informações gerenciais. É
um gasto social que gera déficit público. O Reino Unido, anos
atrás, adotou este viés empresarial: implantou os
“paramercados” (agências híbridas, meio públicas e meio
privadas) e “profissionalizou” os gerentes de todos órgãos públicos,
que ficaram sabendo menos da sua área de atuação e mais de
administração. Em suma, as atividades meio começaram a se
sobrepor às atividades fim. A máquina pública ficou mais
enxuta, mas perdeu sua característica pública. Explodiram as
contratações com consultores e os técnicos de carreira tiveram
seus salários e poderes diminuídos. Não se trata do Estado Mínimo,
mas do Estado Fraco. Daí a queda da capacidade inovadora na gestão
pública, e a multiplicação de cursos de atendimento ao cliente
(cidadão é reduzido à cliente). E a política vai para os
bastidores, para os gerentes dos acordos entre lideranças, para
os recados não públicos. A política passa a se subordinar ao
financeiro e ao déficit zero. É uma aposta equivocada, de
diminuição do papel da negociação pública, da primazia da tática
sobre a estratégia política. Este é o aspecto que, entendo, é
o ponto mais fraco do governo mineiro. É um Dilema de Sísifo
ainda não percebido pelo governo, mas que pode barrar sua projeção
na história política do país.
4.
Dois tucanos não se bicam
Estamos
nos aproximando rapidamente do processo eleitoral de 2006. É possível
sugerir que 2006 já começou, pelas mãos dos tucanos, em
especial. E chegou sem grandes promessas. A leitura apressada da
crise que se instalou no governo federal e atingiu duramente o PT
fez emergir, sem nenhum prurido, uma disputa acirrada entre
tucanos.
O
PFL parece assistir à distância, mas deverá se alimentar dos
efeitos colaterais desta disputa intestina. Em suma, PSDB parece
repetir o que já ocorreu tantas vezes com o PT. Disputa
internamente, antes mesmo de garantir a vitória externa. É um
sinal que, mesmo com a atual crise, a política nacional não está
nas mãos dos cidadãos, mas dos caciques partidários. A luta
eleitoral brasileira parece se repetir constantemente, com
roupagem nova, as formações de agrupamentos elitistas e de baixa
empatia popular e capacidade de formulação de projeto para o país.
Nada muito além do que Caio Prado Júnior – para citar um clássico
da sociologia brasileira – já havia analisado quase meio século
atrás.
Maquiavel
dizia que, ao contrário dos romanos, acreditava que Fortuna
deveria ser conquistada pelo Príncipe. Os romanos acreditavam que
a conquista seria pela demonstração de virilidade. Mas Maquiavel
sugeria menos força e mais astúcia. Sugeria esta qualidade no
longínquo século XVI. Cinco séculos depois, os políticos
brasileiros ainda não conseguiram entender os conselhos que
ofereceu aos Médici.