Formação
do império americano — Da guerra contra a Espanha à guerra no
Iraque, de Luiz Alberto Moniz Bandeira. Editora Civilização
Brasileira, 851 pgs. R$88,90

Nas
Entranhas da Grande Potência
Obra
revela os mecanismos da hegemonia dos Estados Unidos
O
império nu. A radiografia feita pelo professor Luiz Alberto Moniz
Bandeira em “Formação do império americano — da guerra contra
a Espanha à guerra no Iraque” mostra mais do que a força, o
passado e o desenvolvimento dos Estados Unidos: revela as
engrenagens e os mecanismos, muitos deles pouco conhecidos, que
fazem daquele país a maior superpotência da História. Mas não
pense que se trata de uma obra pró-americana. Pelo contrário. Sua
visão de futuro nada otimista aponta para uma nação em decadência,
contraditória e que não consegue administrar de forma inteligente
seu próprio poder.
Um
país que vive em expansão contínua
Moniz
Bandeira é de um rigor histórico invejável e esse é um dos
pontos mais fortes do livro. A precisão com que relaciona a História
dos Estados Unidos com os acontecimentos internacionais mais
importantes só não é melhor do que a precisa análise crítica
desses acontecimentos. É nas entrelinhas do passado que ele
identifica os elementos que fizeram dos EUA o que são hoje.
A
análise é ampla, abrange praticamente um século, mas em nada é
superficial. Com mais de 800 páginas (o que exige um fôlego extra
do leitor), começa em 1898, com a guerra hispano-americana e vai até
o governo do presidente George W. Bush e a invasão do Iraque. Se
concentra em um período decisivo para que a nação ganhe o status
de superpotência, mas sem esquecer seu passado. Moniz Bandeira
sabe, e deixa claro, que a vocação de liderança messiânica dos
Estados Unidos está presente desde 1783, quando terminou a guerra
de independência contra a Inglaterra. O país vive em expansão
contínua. Cresceu primeiro internamente, contra os índios e
mexicanos, e depois externamente, como potência imperial.
Os
Estados Unidos do século XX souberam como ninguém se aproveitar
dos grandes conflitos, especialmente a primeira e a segunda guerras
mundiais, em benefício próprio. Sua vitória gerou o que Moniz
Bandeira chama de ultra-imperialismo, uma espécie de cartel entre
as grandes potências, lideradas por Washington, e as grandes
empresas transnacionais, responsável pela atual ordem mundial e sua
estabilidade. Esse fato, segundo ele, derruba a idéia de Lênin de
que o imperialismo representava “o prelúdio de uma revolução
social do proletariado”, e confirma as idéias de Karl Kautsky,
que em 1914 pregava que o antigo imperialismo colonial seria
substituído por uma nova forma de atuação das potências.
Para
Moniz Bandeira, muitos conflitos da história americana foram
deflagrados por conta de pretextos. A disputa com a União Soviética
e o bloco comunista também foram supervalorizados, numa tentativa
bem-sucedida de incrementar a corrida armamentista. Os Estados
Unidos, na visão do autor, precisam de uma guerra perpétua, de um
inimigo que sirva como o motivo de políticas externas agressivas
visando sempre a hegemonia.
Mas
a precisão histórica e as excelentes análises estão também
acompanhadas de pesadas críticas e do excesso de adjetivos. Nada
contra a exposição das opiniões do autor, que não desmerecem o
rigor da pesquisa, pelo contrário. No entanto, expressões como
“o desprezo dos Estados Unidos pela soberania dos outros povos”
e “os Estados Unidos não reconhecem os direitos de qualquer país”
são freqüentes e abrem espaço para que cabeças divergentes de
suas idéias tenham mais poder de fogo contra suas análises.
Na
invasão do Iraque, o petróleo falou mais alto
A
parte final traz uma importante análise dos Estados Unidos de
George W. Bush. Moniz Bandeira não tem pudores em deixar claro que
o império está em decadência nas mãos do atual presidente. Chama
de degradante a atual administração e diz que a intervenção no
Iraque é ilegal. Procura comprovar ainda, com dados e números,
numa pesquisa documental impressionante, como foi a geopolítica do
petróleo, e não as armas de destruição em massa, o fator
decisivo para a invasão do país. O livro defende a idéia de que
se Saddam Hussein realmente tivesse armas proibidas a guerra não
teria acontecido. O fracasso da ocupação, no entanto, contribui
mais para a corrosão da hegemonia que os americanos ainda
sustentam.
O
rico texto é sucedido por uma excelente bibliografia, repleta de títulos
clássicos e muitos outros praticamente desconhecidos no Brasil,
todos de grande valor para pesquisadores (desde os antiamericanos
mais ferrenhos aos defensores das políticas de Tio Sam ) e também
para o público leigo.