Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

 

Abordagem sistêmica, interdisciplinaridade e desenvolvimento sustentável

 

Nota sobre o pensamento sistêmico

A abordagem sistêmica postula que todos os elementos influenciam e são influenciados reciprocamente. Assim, a condição ética constitui o critério para um equilíbrio operacional e capacidade de resistência à ruptura do sistema – ou seja, visa o que for melhor para todos ou, ao menos para a maioria da população.

Por outro lado, práticas contrárias aos princípios éticos serão eliminadas, por causa do desequilíbrio que produzem no sistema, resultando em tensões e conflitos. Os atores sociais que incorrem em práticas antiéticas, contrárias aos interesses e ao bem-estar públicos, causando danos ou prejuízos, não conseguirão sobreviver em um ambiente holístico imposto por sistemas crescentemente conectados e comunicantes de uma sociedade mundial.

Para entender as tendências da globalização requer-se uma abordagem holístico-sistêmica. O aumento das taxas de juros no Brasil, a fim de defender a moeda nacional contra os efeitos desestabilizadores de fuga de capitais e da especulação na bolsa de valores, embora aparentemente bem sucedido, resultou em recessão econômica e elevação das taxas de desemprego, transferindo assim os custos de manutenção de um precário equilíbrio para os segmentos mais pobres e politicamente mais fracos – a maioria da sociedade. A globalização cria condições favoráveis para estabelecer vínculos entre subsistemas dentro da sociedade e reforça as tendências em direção à integração, abrindo oportunidades para a construção de relações sociais mais estáveis e equilibradas dentro e entre sistemas.

Para ilustrar nosso entendimento sobre análise sistêmica interdisciplinar, enfocamos o problema de crescente mortalidade infantil na região de plantação de bananas, em Limon, Costa Rica, local de um seminário de treinamento de LEAD International, em setembro de 1997.

Diagnósticos convencionais baseados em raciocínio cartesiano, apontavam alternadamente, para subnutrição, falta de saneamento básico e de acesso a cuidados médicos como prováveis causas das altas taxas de mortalidade infantil.

A abordagem sistêmica iniciará sua análise com a descrição do contexto histórico e espacial que reflete as intrincadas relações e dinâmicas econômicas, sociais, culturais, ambientais e políticas da região.

Assim, o local onde ocorre o problema – a região de Limon – porto principal para exportação de bananas na Costa Rica, revela uma relação muito mais complexa do que a hipótese linear sobre subnutrição e mortalidade infantil.

Pesquisas da trajetória de vida das crianças e de suas famílias revelam suas origens e a migração da área rural onde estiveram ocupadas na agricultura familiar ou na pesca.

A perda de produtividade e a concentração de terras pelas grandes empresas de plantação de bananas causaram a expulsão de famílias e comunidades inteiras das áreas rurais, enquanto a poluição dos rios, lagos e da costa marítima por fertilizantes químicos e pesticidas utilizados nas mesmas plantações, destruíram os recursos naturais, base de sobrevivência das populações de pescadores.

Essas observações nos levam a investigar sobre políticas econômicas que criam condições favoráveis – subsídios, incentivos, isenção de impostos – a aumentos da área de plantação, apesar dos impactos negativos na qualidade de vida da população e na degradação do meio ambiente. A razão principal, conforme revelada na pesquisa sistêmica, foi o elevado retorno sobre o investimento em plantação de bananas – US$ 11,000.00 por hectar. Com a receita mais alta em divisas estrangeiras, via exportação, o governo esperava poder pagar as altas taxas de juros sobre suas dívidas interna e externa e, assim, manter em nível razoável seu déficit fiscal. Altas taxas de juros tendem a exercer pressões recessionistas, causando o fechamento de pequenas e médias empresas e o conseqüente aumento de desemprego em todos os setores da economia. Menos recursos para investimentos produtivos nas mãos do governo significam corte de despesas públicas em educação, saúde, habitação e transporte público, além da redução na remuneração do trabalho.

Mudar esse cenário e assim, reduzir a mortalidade infantil, exige mudanças significativas nas políticas públicas através da conscientização política e pressão da sociedade civil organizada, nem sempre devidamente informada pela mídia e, menos ainda, pelos partidos políticos no poder, associados às elites. O discurso oficial apoiado pela burguesia, industriais, exportadores e instituições financeiras multilaterais (FMI, BIRD, BID etc.) induz a população a acreditar que essas políticas, embora responsáveis pela escassez de alimentos, habitação, educação e serviços de saúde, são inevitáveis e irreversíveis e, mesmo assim, ultimamente, serão benéficas para o desenvolvimento e bem estar do país...

Interdisciplinaridade – notas introdutórias

A interdisciplinaridade não existe “a priori” – é preciso construí-la. Ela se apresenta como uma opção para articular os conhecimentos científicos e não-científicos que se debruçam sobre os problemas sócio-ambientais. Se a análise causal e linear do método cartesiano foram instrumentos apropriados no contexto dos séculos XVIII e XIX – em que as concepções de mundo postulavam a realidade como algo mecânico e previsível – a realidade complexa em que vivemos e com a qual nos defrontamos hoje exige uma postura metodológica e técnicas de pesquisa diferentes, sem contudo rejeitar a abordagem disciplinar convencional.

As atividades predatórias dos seres humanos geram uma crise em diversas áreas de conhecimento, o que exige a formulação de projetos de reconstrução e métodos de análise e interpretação diferentes e inovadores.

Os pressupostos dessa abordagem abrangem:

a crítica das formas convencionais dos saberes disciplinares que encaram os problemas de forma parcial, segmentada e estanque;

a incorporação da complexidade dos conhecimentos científicos com os saberes tradicionais, não-científicos;

a primazia das indagações de natureza ética, estética e sócio-ambiental, do tipo: ”para quê e para quem”?

a integração nos procedimentos interdisciplinares de pesquisa, ensino e extensão dos saberes e práticas dos atores sociais com aqueles dos pesquisadores e estudiosos.

A interdisciplinaridade nos remete à colaboração entre diversas áreas do saber e do conhecimento em projetos que envolvam tanto as diferentes disciplinas acadêmicas quanto as práticas não-científicas que incluem atores e instituições diversos.

A percepção da necessidade de abordagem interdisciplinar (ou, multidisciplinar) surgiu a partir das décadas de 1960 e 1970 à luz da emergência das problemáticas social, ambiental e política nas diversas partes do mundo. Esse movimento refletiu uma verdadeira crise do pensamento civilizatório tradicional, quando começou a ficar claro que seria impossível “consertar” o planeta através das fórmulas convencionais da economia e tecnologia. Diante dos limites da “externalização” dos custos ambientais e sociais, passou–se a postular sua “internalização” pelas empresas e a educação e prática da proteção ambiental, mediante o enfoque interdisciplinar e o diálogo dos saberes, para enfrentar o fracionamento e a superespecialização do conhecimento.

A crise civilizatória manifesta-se também como crise de conhecimento, da estratégia epistemológica e da apropriação dos saberes. O discurso oficial afirma que na onda da globalização e da revolução científica e tecnológica, estaríamos entrando numa nova fase. Entretanto, nunca antes na história da humanidade, houve tanta exploração de recursos e degradação dos ecossistemas, alienação e marginalização da força de trabalho, apesar da tecnificação do estilo de vida; donde se infere que ciência e tecnologia, embora poderosas forças produtivas, configuram também os elementos destrutivos do convívio humano.

A tão aclamada sociedade do conhecimento revela também sua face de desconhecimento, de alienação, do desencantamento do mundo (Max Weber). Com o aumento da pobreza, da ignorância, dos desempregados e desenraizados, cresce o número dos excluídos do processo de decisões que conferem sentido à condição existencial. A desarticulação das culturas tradicionais e a perda de identidade projetam um mundo de incertezas, riscos e descontrole, apesar dos avanços da pesquisa científica e tecnológica. O mundo torna-se cada vez menos habitável, à medida que se aproxima da era do Paraíso prometido:

..."A isso se chama desenvolvimento e cada país quer adiantar-se mais ao outro, superando-se. Para isso conseguir, as liberdades vão, uma a uma, sendo suspensas, postergadas, eliminadas. Seremos, logo, bilhões de homens feitos de aço, comendo cimento armado, com vísceras de náilon, tendo televisores por olhos e telefones por ouvidos, de sistema nervoso eletrônico. Estaremos superdesenvolvidos e perfeitamente animalizados.”[1]

Questiona-se a racionalidade de um sistema que gera tantos e complexos problemas humanos e ambientais. A interdisciplinaridade surge como um processo produtor de novos conhecimentos, através do entrelaçamento de diversas disciplinas que procurem redefinir o objeto de conhecimento. Não se trata apenas da integração sociedade-natureza, mas da abertura de um diálogo e da hibridização entre ciência, tecnologia e saberes para a produção de novos paradigmas e sua articulação para transformar a natureza e a sociedade.

O que está em jogo nas estratégias de poder em torno da proteção e conservação do meio ambiente e do próprio processo de desenvolvimento sustentável? Por um lado, verifica-se a apropriação do conhecimento e sua valorização mercantil. Por outro, temos os diversos significados culturais que constituem a condição necessária para a participação dos atores locais, das comunidades rurais e indígenas, com seus saberes, culturas e identidades.

A interdisciplinaridade é a busca da “retotalização” do conhecimento fracionado pela corrida insana pelo controle sobre homens e natureza que elimina os saberes não científicos e não ajustáveis às normas da ciência moderna.

A complexidade do mundo que nos rodeia exige a participação de pesquisadores especialistas nas áreas social, econômica, de saúde e do meio ambiente que trazem pontos de vista diferentes e complementares sobre determinado problema ou realidade. Isso não representa um simples somatório, mas a recriação e reconstrução do saber, além dos departamentos estanques da estrutura universitária, envolvendo pesquisadores de diversas áreas de conhecimento.

Esse é um dos caminhos para superar os diversos reducionismos, sejam eles da ecologia, do funcionalismo evolucionista ou do economicismo, que ignoram os valores, os sentidos da cultura e a importância da interação social como fatores centrais na construção do capital social.

A emergência de modernas sociedades democráticas levou ao rompimento da teia homogênea das sociedades tradicionais para produzir diferenciação e heterogeneidade das estruturas baseadas em lógicas contraditórias – hedonismo, eficácia e igualdade – e a articulação das ordens econômica, política e cultural, com sua racionalidade e temporalidade diferenciadas, seguindo a tipologia proposta por Émile Durkheim (De la Division du Travail Social) que aponta para os laços de solidariedade mecânica e orgânica.

O saber interdisciplinar se forja no encontro e no enfrentamento de saberes diferenciados e na busca de sentido da vida pelos seres humanos que procuram apreender e compreender os processos através dos quais encontram sua identidade e superam suas angústias existenciais.

A insuficiência do conhecimento fragmentado para tratar da complexidade existencial requer procedimentos cognitivos sistêmicos, dialéticos, seletivos e abertos. Os paradigmas científicos modelam o pensamento e a ação social e recebem efeitos retroalimentadores da dinâmica cultural. A preocupação crescente com a totalidade do planeta, neste limiar de século, retoma a visão dos filósofos gregos da Antigüidade, pensando-se o “holos” em lugar do mundo fracionado.

O mal-estar da civilização não encontra respostas satisfatórias na teoria e na prática da globalização, cujos efeitos têm sido devastadores para as culturas e economias de todas as sociedades. A visão alternativa baseada na interdisciplinaridade propõe uma reformulação dos saberes e uma síntese em direção à reorganização do “oikos” – do mundo. Neste sentido, além de um novo paradigma científico, a interdisciplinaridade representa uma nova filosofia de trabalho, de organização e ação inter-institucional.

O cartesianismo newtoniano produziu a fragmentação do conhecimento em inúmeras disciplinas que geram mais perplexidade e incertezas. Essa tendência foi reforçada na era industrial, apesar de estudos críticos de Piaget na educação, de Von Bertalanffy sobre a teoria de sistemas e a análise da dinâmica global, primeiramente apontada no Relatório ao Clube de Roma – “Os limites de Crescimento” (D. Meadows et al, Perspectiva, S. Paulo, 1972).

A pesquisa disciplinar corresponde às demandas da organização social, melhor refletida no Taylorismo e na cronometragem do tempo e dos movimentos que levou à atomização das tarefas e da própria existência.

A multidisciplinaridade se refere a aspectos quantitativos sem que haja os vínculos necessários entre as abordagens que se debruçam sobre o mesmo objeto, sem diálogo entre os diferentes atores, uma situação freqüente nas universidades e na administração pública.

Na prática da interdisciplinaridade, duas ou mais disciplinas estabelecem intencionalmente conexões para alcançar um conhecimento mais abrangente e profundo, embora cada disciplina mantenha sua identidade, conserve sua metodologia e observe os limites de sua área. Mas, há um intercâmbio de hipóteses e a elaboração de conclusões que possam induzir a uma ação comum e concertada.

Contextualizando a problemática

Para situar a problemática da Interdisciplinaridade no contexto do Desenvolvimento Sustentável, é conveniente iniciar a análise com as tendências contraditórias e, freqüentemente, paradoxais de nossa sociedade contemporânea. É comum encontrar pronunciamentos sobre a crise econômica, política, moral, etc., mas, sabemos que uma época de crise é também, além de transformação de normas e padrões tradicionais, uma oportunidade de renovação e superação de barreiras.

As alterações da natureza em conseqüência de atividades humanas são socialmente produzidas e se propagam sob forma de catástrofes sociais da natureza, com efeitos praticamente irreversíveis.

Os nexos ecológicos são ignorados sistematicamente pelos grupos de poder, o que exige uma reformulação das relações entre a dinâmica socioeconômica e os fenômenos naturais.

A sociedade está em processo permanente de metabolismo com a natureza. Os homens transformam a natureza através de suas atividades. Portanto, para que não ocorram catástrofes, precisamos de uma organização racional da sociedade que seja capaz de evitar a exploração dos recursos naturais até sua exaustão. Contudo, não basta racionalizar o metabolismo entre os homens e a natureza. Concomitantemente, é preciso estabelecer relações sociais que atendam às necessidades básicas e eliminem as carências gritantes que afligem a maioria das sociedades contemporâneas. Porque, em última análise, a dominação irracional sobre a natureza reflete atitudes e comportamentos irracionais dos homens sobre os homens.

Nas sociedades agrárias pré-capitalistas também se praticava a destruição dos recursos naturais, mas com impactos localizados e limitados. É a modernidade que suscita catástrofes sociais da natureza, em profundidade e escala planetárias.

A destruição do meio ambiente em grande escala é o resultado de determinada forma de organização social que está na origem do processo de metabolismo destrutivo entre a natureza e as relações sociais.

A irracionalidade dessas relações está refletida tanto no plano macro do sistema econômico e social, quanto no plano micro da economia industrial das empresas. No plano macro, a corrida incansável atrás da valorização do capital e da competitividade leva a formas e conteúdos de produção e consumo insustentáveis, ou seja, leva a um estilo de vida incompatível com as carências sociais e o requisito de conservar os recursos naturais.

Em nível micro das empresas, a concorrência e a corrida por mais lucros, mediante a redução de custos e aumentos de produtividade – independentemente da qualidade dos produtos ou da adequação de tecnologias – resultam invariavelmente em efeitos destrutivos na natureza e na sociedade.

Os custos não são efetivamente reduzidos, mas transferidos para a sociedade sob forma de desemprego, pobreza e marginalidade no ambiente social e sob forma de poluição do ar, das águas e a erosão do solo no meio ambiente natural.  Em última análise, essas transformações destrutivas afetam também as condições climáticas e põe em risco a sobrevivência da espécie humana e da própria vida no planeta.

Uma retrospectiva dos últimos dois séculos mostra que o ritmo e a intensidade das catástrofes naturais sofreram aceleração acompanhando a expansão da industrialização, particularmente nas últimas décadas do século XX. Secas, enchentes, vazamentos de grandes quantidades de petróleo no mar e acidentes em centrais termo-nucleares evidenciam os limites ecológicos do sistema, enquanto o alastramento da fome, do desemprego e da pobreza em escala global assinalam seus limites sociais e econômicos.

O clamor por tecnologias mais apropriadas e formas de “produção mais limpa” não tem induzido mudanças nos padrões de consumo da população, nem no comportamento das empresas que contam com a conivência ou omissão dos governos. Tanto Estados quanto empresas parecem ignorar a natureza “perversa” do sistema de produção capitalista que, em sua corrida atrás de competitividade e lucros, parece incapaz de internalizar em sua contabilidade os custos da destruição do meio ambiente e, menos ainda, os custos incalculáveis da desagregação social em conseqüência do alastramento da pobreza e da marginalidade.

Neste contexto, a preocupação com o clima e a proteção da natureza são consideradas um “luxo”, enquanto os problemas da pobreza e da marginalidade são transferidos, na melhor das hipóteses, às organizações filantrópicas e de caridade.

O discurso oficial promete soluções por meio de progresso técnico. Mas, ciência e tecnologia não são politicamente neutras. Ao contrário, máquinas, equipamentos, os próprios processos de trabalho e sua organização são inextricavelmente ligados às relações sociais de produção. Em cada contexto histórico e social, as formas concretas da tecnologia representam uma combinação dos diferentes níveis de poder econômico e político que se centralizam nas mãos do capital e enfrentam as aspirações dos trabalhadores por mais autonomia e autogestão. Em conseqüência, as práticas tecnológicas refletem essas contradições e estabelecem os limites de ciência e tecnologia como instrumentos de mudança social. Tanto o desenvolvimento tecnológico quanto sua incorporação ao sistema produtivo obedecem aos critérios da chamada racionalidade econômica. Postular mudanças nas relações de poder a fim de conquistar mais equidade e justiça social com base em políticas e diretrizes convencionais soa ingênuo ou beira a mistificação deliberada.

O produto mundial (PMB) passou de trinta trilhões de dólares – um volume de bens e serviços nunca antes alcançado na História. Mas, o número de pessoas que vivem abaixo de nível de pobreza alcançou um quinto da humanidade. Neste século, os conhecimentos científicos avançaram em progressão contínua mas, também aumentou o número de analfabetos. As inovações tecnológicas permitiram pousar na lua e desvendar os segredos do átomo e do DNA mas, não foram capazes de evitar as epidemias e de reduzir as altas taxas de mortalidade infantil. Enquanto assistimos a movimentos e negociações visando a internacionalização e globalização, verificamos, também, a fragmentação de espaços políticos e ressurgimento de tensões e conflitos étnicos, religiosos e nacionais.

Desempregados, famintos e desabrigados são encontrados em números crescentes, nos países desenvolvidos e nos “emergentes”. Mas, mesmo aqueles afortunados que conseguem manter-se empregados, interrogam-se sobre seu futuro profissional e o “significado” daquilo que estão fazendo. Constituem agravantes e conseqüências da crise a escassez crescente de recursos naturais e a degradação progressiva do meio ambiente.

A crise econômica e os conflitos étnicos e religiosos levam milhões de pessoas a fugir ou emigrar de sua terra nativa, em busca de condições de sobrevivência. Em todas as sociedades, as pessoas se tornam inquietas, ansiosas, frustradas ou revoltadas, diante da falta de perspectivas e da incapacidade dos governos de atender suas expectativas de bem-estar. Por outro lado, em muitas sociedades, o Estado perdeu o monopólio de poder coercitivo para grupos armados envolvidos no tráfico de drogas, armas ou de jogos ilegais. Entre os efeitos sociais mais marcantes desses processos desestruturadores destaca-se a percepção de uma situação de caos, de insegurança, de perda de identidade e com esta, o enfraquecimento da solidariedade social.

Os economistas continuam a insistir no uso de modelos e indicadores macroeconômicos, como orientação para o crescimento econômico, apesar das amargas evidências sobre sua inadequação e, freqüentemente, mistificação com relação à distribuição de renda efetiva. As análises que se concentram nas propostas de inovação tecnológica como alavanca do crescimento, tendem a ignorar que as tecnologias são controladas por organizações poderosas, buscando maximizar o retorno sobre seu investimento. Por outro lado, mesmo havendo um aumento de produtividade ou a transferência de “know-how” não significa, necessariamente, uma distribuição mais eqüitativa do produto gerado.

Da mesma forma, o clamor e a militância das organizações não-governamentais pela proteção do meio ambiente e a prevenção de incidentes e desastres ecológicos não tem ultrapassado, com poucas exceções, o limiar de reivindicações ecológicas no sentido estrito, não conseguindo, por isso, uma mobilização efetiva da população em busca de condições e qualidade de vida mais sustentáveis para a sociedade.

As análises convencionais que encontramos nos documentos e pronunciamentos oficiais referentes ao desenvolvimento sustentável, evitam explicitamente aspectos fundamentais do contexto e das tendências da sociedade contemporânea: a globalização da economia cujos impactos permeiam todas as esferas da vida social e cultural, e a distribuição assimétrica crescente de poder, informação e bens materiais e simbólicos, entre e dentre os países.

Em suma, o sistema sócio-econômico em que vivemos e os paradigmas de desenvolvimento que engendra se mostram insustentáveis pelos seguintes motivos:

o processo de crescimento econômico induzido se mostra estéril por não gerar empregos. Ao contrário, ocorre uma eliminação de postos de trabalho de modo praticamente ininterrupto;

as relações sociais continuam sendo de natureza autoritária vedando voz e vez às populações carentes. Em muitos lugares ocorre um retrocesso em termos de acesso aos direitos de cidadania e da extensão dos direitos sociais a todos.

O sistema parece implacável em sua dinâmica: os ganhos só beneficiam aos ricos, enquanto aos pobres, na melhor das hipóteses, são proporcionados favores clientelistas por políticos paternalistas;

Os efeitos sociais e culturais de seu funcionamento são desestruturadores, posto que a corrida atrás de ganhos econômicos sufoca os valores de cooperação e solidariedade, enquanto reprime as manifestações de identidade nacional;

O sistema é auto-destruivo. Seu avanço está baseado na depredação ambiental, minando a própria existência e sobrevivência da população, ignorando ou desprezando os direitos das gerações futuras.

A Pesquisa Interdisciplinar

Para estudar e compreender os fenômenos complexos da vida humana, é necessário elaborar um esquema conceitual e metodológico que contemple e destaque as interações entre variáveis derivadas de diferentes áreas de conhecimento (como por exemplo, o meio ambiente físico, a produção industrial e agrícola, a estrutura sócio-política).

Para conseguir efetivamente estudar esses fenômenos interrelacionados, é preciso criar relações e condições para a interação entre os pesquisadores que visem definir como trabalhar de forma interdisciplinar e como integrar os estudos de gabinete com os trabalhos de campo.

Este tipo de abordagem é marcadamente diferente da pesquisa mecanicista e neopositivista, que investiga os “fatos”, a partir dos “dados” e, as relações isoladas e específicas entre diversos fenômenos, produzindo conclusões parciais para problemas parciais.

Costumamos encarar os problemas de desenvolvimento sob o enfoque de “piecemeal” – crescimento demográfico, poluição industrial, segregação social, crianças abandonadas... Não conseguimos como também, evitamos enxergar o conjunto, o todo que é complexo e caótico demais e desafia nossos conhecimentos e crenças convencionais.

A crise “ambiental” levou ao questionamento do paradigma desenvolvimentista dominante, por seus impactos destrutivos sobre os recursos naturais e a degradação da população mundial, explorada, oprimida e marginalizada dos benefícios da civilização urbano-industrial.

O fracasso das doutrinas econômicas e dos instrumentos de intervenção na sociedade por elas preconizados, ampliaram os impactos da crise para a esfera de legitimidade das políticas oficiais, dos partidos tradicionais e da organização burocrática do Estado e de seus aparelhos ideológicos. Assim, a problemática do meio ambiente não pode ser restringida ás questões ecológicas apenas, procurando soluções, somente através da internalização dos custos ambientais pelas empresas.

Questiona-se toda uma racionalidade social baseada no cálculo econômico que exacerba as contradições internas e externas às sociedades. Para maximizar o retorno sobre o investimento, estimula-se e incentiva-se a concorrência ilimitada, a busca de aumentos da produtividade e competitividade, sem consideração pelos efeitos poluidores do meio ambiente ecológico, devastadores da estrutura social e, alienantes do ser humano – desempregado e vítima da concorrência desenfreada.

A amplitude e a complexidade dos problemas teóricos e práticos do analista das relações sistêmicas exigem uma abordagem que transcenda os limites estreitos das áreas de conhecimento, tais como as organizadas pelo sistema universitário. Assim, por exemplo, o estudo das transformações em curso no sistema produtivo, em nível global e nacional demandaria as contribuições de disciplinas como a economia, para o estudo do mercado, dos preços e dos termos de troca; da engenharia de produção, de processos e produtos, para analisar o ciclo de vida dos produtos, sua base tecnológica, os equipamentos e os recursos energéticos; da administração geral e sociologia das organizações e do trabalho, da antropologia e da psicodinâmica, para compreender e interpretar o comportamento individual e coletivo.

Cada uma dessas áreas de conhecimento atinentes ao problema estudado, contribuirá com mais eficácia para a elaboração e configuração de uma visão integrada e coerente, quando amparada por e referida a um quadro de referências teórico comum – exigência básica para o trabalho em equipe interdisciplinar.

O referencial teórico deve permitir a articulação e integração de diferentes áreas de conhecimento para levar também a uma prática convergente. Inevitavelmente, surgem algumas dificuldades nesta tarefa de como induzir um certo distanciamento dos especialistas de sua respectivas abordagens e problemas específicos, para capta-los e entende-los sob novo e diferente enfoque comum a todos os membros da equipe. Por outro lado, a busca de respostas comuns e integradas de problemas considerados tradicionalmente objetos de estudos de disciplinas distintas estimula a criação de novos construtos metodológicos e conceituais, através de um processo contínuo de inovação e experimentação. A tensão que se estabelece entre a visão do especialista e a busca da interdisciplinaridade pode produzir resultados altamente positivos mas, também pode gerar enunciados vagos e superficiais. Somente a integração ativa e contínua da equipe de pesquisa pode superar essa dicotomia de especialização versus generalização, procurando conciliar, em cada etapa, especialidade e universalidade, unidade e diversidade.

O distanciamento exigido de cada pesquisador, do objeto específico de estudo e da sua disciplina particular, significa uma abertura a métodos, conceitos e linguagens pouco conhecidos, na perspectiva de poder responder a incógnitas comuns às diversas áreas de conhecimento. O processo a ser adotado é o próprio do desenvolvimento cognitivo: a diferenciação dentro de uma totalidade e, posteriormente, a integração ou reintegração de uma totalidade conceitualmente enriquecida. Este procedimento, baseado em uma epistemologia construtivista, permite não somente a análise de sistemas complexos mas, também seu estudo interdisciplinar.

Os problemas dos sistemas naturais e sociais transbordam as fronteiras entre as diferentes disciplinas científicas, surgindo seus elementos indiferenciados em meio a uma totalidade vagamente definida. A pesquisa disciplinar começa, quando for possível identificar alguns elementos do sistema, próprios da mesma área de conhecimento. A visão inicial do sistema, contudo leva a uma perspectiva diferente da dinâmica da interação entre os diversos fatores ou variáveis estudados.

Outro ponto importante e que acompanha pari passu a elaboração de uma metodologia interdisciplinar, é o processo de formação da equipe de pesquisa. Para sua constituição é necessário enfrentar concomitantemente problemas conceituais e metodológicos, financeiros e institucionais, operacionais e logísticos, tão complexos e difíceis como a própria solução dos problemas – objetos de pesquisa interdisciplinar.

Para estudar as interações entre os fenômenos que são objetos da análise, torna-se imprescindível gerar e fomentar a comunicação e interação no grupo de pesquisadores, nos trabalhos de campo e de gabinete. Para não resvalar em direção a generalizações vagas, nem regressar à especialização intransigente, exige-se um esforço de diálogo permanente, em busca de respostas a desafios comuns, a partir de pesquisas disciplinares convergentes, vinculadas por um termo de referência comum. Essas respostas, todavia, serão concebidas e realizadas a partir de um processo de diferenciação de uma problemática mais ampla, que antecede, vincula e enriquece as investigações por disciplinas específicas.

 

Referências bibliográficas

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[1] Apud – Arnaldo P. d´Horta – “Corrida para o mito de desenvolvimento” em O Estado de S.Paulo

 

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