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Por HENRIQUE RATTNER
Professor
da FEA (USP), IPT e membro da Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)
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Abordagem
sistêmica, interdisciplinaridade e desenvolvimento sustentável
Nota
sobre o pensamento sistêmico
A
abordagem sistêmica postula que todos os elementos influenciam e
são influenciados reciprocamente. Assim, a condição ética
constitui o critério para um equilíbrio operacional e capacidade
de resistência à ruptura do sistema – ou seja, visa o que for
melhor para todos ou, ao menos para a maioria da população.
Por
outro lado, práticas contrárias aos princípios éticos serão
eliminadas, por causa do desequilíbrio que produzem no sistema,
resultando em tensões e conflitos. Os atores sociais que incorrem
em práticas antiéticas, contrárias aos interesses e ao
bem-estar públicos, causando danos ou prejuízos, não conseguirão
sobreviver em um ambiente holístico imposto por sistemas
crescentemente conectados e comunicantes de uma sociedade mundial.
Para
entender as tendências da globalização requer-se uma abordagem
holístico-sistêmica. O aumento das taxas de juros no Brasil, a
fim de defender a moeda nacional contra os efeitos
desestabilizadores de fuga de capitais e da especulação na bolsa
de valores, embora aparentemente bem sucedido, resultou em recessão
econômica e elevação das taxas de desemprego, transferindo
assim os custos de manutenção de um precário equilíbrio para
os segmentos mais pobres e politicamente mais fracos – a maioria
da sociedade. A globalização cria condições favoráveis para
estabelecer vínculos entre subsistemas dentro da sociedade e
reforça as tendências em direção à integração, abrindo
oportunidades para a construção de relações sociais mais estáveis
e equilibradas dentro e entre sistemas.
Para
ilustrar nosso entendimento sobre análise sistêmica
interdisciplinar, enfocamos o problema de crescente mortalidade
infantil na região de plantação de bananas, em Limon, Costa
Rica, local de um seminário de treinamento de LEAD International,
em setembro de 1997.
Diagnósticos
convencionais baseados em raciocínio cartesiano, apontavam
alternadamente, para subnutrição, falta de saneamento básico e
de acesso a cuidados médicos como prováveis causas das altas
taxas de mortalidade infantil.
A
abordagem sistêmica iniciará sua análise com a descrição do
contexto histórico e espacial que reflete as intrincadas relações
e dinâmicas econômicas, sociais, culturais, ambientais e políticas
da região.
Assim,
o local onde ocorre o problema – a região de Limon – porto
principal para exportação de bananas na Costa Rica, revela uma
relação muito mais complexa do que a hipótese linear sobre
subnutrição e mortalidade infantil.
Pesquisas
da trajetória de vida das crianças e de suas famílias revelam
suas origens e a migração da área rural onde estiveram ocupadas
na agricultura familiar ou na pesca.
A
perda de produtividade e a concentração de terras pelas grandes
empresas de plantação de bananas causaram a expulsão de famílias
e comunidades inteiras das áreas rurais, enquanto a poluição
dos rios, lagos e da costa marítima por fertilizantes químicos e
pesticidas utilizados nas mesmas plantações, destruíram os
recursos naturais, base de sobrevivência das populações de
pescadores.
Essas
observações nos levam a investigar sobre políticas econômicas
que criam condições favoráveis – subsídios, incentivos, isenção
de impostos – a aumentos da área de plantação, apesar dos
impactos negativos na qualidade de vida da população e na
degradação do meio ambiente. A razão principal, conforme
revelada na pesquisa sistêmica, foi o elevado retorno sobre o
investimento em plantação de bananas – US$ 11,000.00 por
hectar. Com a receita mais alta em divisas estrangeiras, via
exportação, o governo esperava poder pagar as altas taxas de
juros sobre suas dívidas interna e externa e, assim, manter em nível
razoável seu déficit fiscal. Altas taxas de juros tendem a
exercer pressões recessionistas, causando o fechamento de
pequenas e médias empresas e o conseqüente aumento de desemprego
em todos os setores da economia. Menos recursos para investimentos
produtivos nas mãos do governo significam corte de despesas públicas
em educação, saúde, habitação e transporte público, além da
redução na remuneração do trabalho.
Mudar
esse cenário e assim, reduzir a mortalidade infantil, exige mudanças
significativas nas políticas públicas através da conscientização
política e pressão da sociedade civil organizada, nem sempre
devidamente informada pela mídia e, menos ainda, pelos partidos
políticos no poder, associados às elites. O discurso oficial
apoiado pela burguesia, industriais, exportadores e instituições
financeiras multilaterais (FMI, BIRD, BID etc.) induz a população
a acreditar que essas políticas, embora responsáveis pela
escassez de alimentos, habitação, educação e serviços de saúde,
são inevitáveis e irreversíveis e, mesmo assim, ultimamente,
serão benéficas para o desenvolvimento e bem estar do país...
Interdisciplinaridade
– notas introdutórias
A
interdisciplinaridade não existe “a priori” – é preciso
construí-la. Ela se apresenta como uma opção para articular os
conhecimentos científicos e não-científicos que se debruçam
sobre os problemas sócio-ambientais. Se a análise causal e
linear do método cartesiano foram instrumentos apropriados no
contexto dos séculos XVIII e XIX – em que as concepções de
mundo postulavam a realidade como algo mecânico e previsível –
a realidade complexa em que vivemos e com a qual nos defrontamos
hoje exige uma postura metodológica e técnicas de pesquisa
diferentes, sem contudo rejeitar a abordagem disciplinar
convencional.
As
atividades predatórias dos seres humanos geram uma crise em
diversas áreas de conhecimento, o que exige a formulação de
projetos de reconstrução e métodos de análise e interpretação
diferentes e inovadores.
Os
pressupostos dessa abordagem abrangem:
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a
crítica das formas convencionais dos saberes disciplinares
que encaram os problemas de forma parcial, segmentada e
estanque;
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a
incorporação da complexidade dos conhecimentos científicos
com os saberes tradicionais, não-científicos;
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a
primazia das indagações de natureza ética, estética e sócio-ambiental,
do tipo: ”para quê e para quem”?
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a
integração nos procedimentos interdisciplinares de pesquisa,
ensino e extensão dos saberes e práticas dos atores sociais
com aqueles dos pesquisadores e estudiosos.
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A
interdisciplinaridade nos remete à colaboração entre diversas
áreas do saber e do conhecimento em projetos que envolvam tanto
as diferentes disciplinas acadêmicas quanto as práticas não-científicas
que incluem atores e instituições diversos.
A
percepção da necessidade de abordagem interdisciplinar (ou,
multidisciplinar) surgiu a partir das décadas de 1960 e 1970 à
luz da emergência das problemáticas social, ambiental e política
nas diversas partes do mundo. Esse movimento refletiu uma
verdadeira crise do pensamento civilizatório tradicional, quando
começou a ficar claro que seria impossível “consertar” o
planeta através das fórmulas convencionais da economia e
tecnologia. Diante dos limites da “externalização” dos
custos ambientais e sociais, passou–se a postular sua
“internalização” pelas empresas e a educação e prática da
proteção ambiental, mediante o enfoque interdisciplinar e o diálogo
dos saberes, para enfrentar o fracionamento e a superespecialização
do conhecimento.
A
crise civilizatória manifesta-se também como crise de
conhecimento, da estratégia epistemológica e da apropriação
dos saberes. O discurso oficial afirma que na onda da globalização
e da revolução científica e tecnológica, estaríamos entrando
numa nova fase. Entretanto, nunca antes na história da
humanidade, houve tanta exploração de recursos e degradação
dos ecossistemas, alienação e marginalização da força de
trabalho, apesar da tecnificação do estilo de vida; donde se
infere que ciência e tecnologia, embora poderosas forças
produtivas, configuram também os elementos destrutivos do convívio
humano.
A
tão aclamada sociedade do conhecimento revela também sua face de
desconhecimento, de alienação, do desencantamento do mundo (Max
Weber). Com o aumento da pobreza, da ignorância, dos
desempregados e desenraizados, cresce o número dos excluídos do
processo de decisões que conferem sentido à condição
existencial. A desarticulação das culturas tradicionais e a
perda de identidade projetam um mundo de incertezas, riscos e
descontrole, apesar dos avanços da pesquisa científica e tecnológica.
O mundo torna-se cada vez menos habitável, à medida que se
aproxima da era do Paraíso prometido:
..."A
isso se chama desenvolvimento e cada país quer adiantar-se mais
ao outro, superando-se. Para isso conseguir, as liberdades vão,
uma a uma, sendo suspensas, postergadas, eliminadas. Seremos,
logo, bilhões de homens feitos de aço, comendo cimento armado,
com vísceras de náilon, tendo televisores por olhos e telefones
por ouvidos, de sistema nervoso eletrônico. Estaremos
superdesenvolvidos e perfeitamente animalizados.”
Questiona-se
a racionalidade de um sistema que gera tantos e complexos
problemas humanos e ambientais. A interdisciplinaridade surge como
um processo produtor de novos conhecimentos, através do entrelaçamento
de diversas disciplinas que procurem redefinir o objeto de
conhecimento. Não se trata apenas da integração
sociedade-natureza, mas da abertura de um diálogo e da hibridização
entre ciência, tecnologia e saberes para a produção de novos
paradigmas e sua articulação para transformar a natureza e a
sociedade.
O
que está em jogo nas estratégias de poder em torno da proteção
e conservação do meio ambiente e do próprio processo de
desenvolvimento sustentável? Por um lado, verifica-se a apropriação
do conhecimento e sua valorização mercantil. Por outro, temos os
diversos significados culturais que constituem a condição necessária
para a participação dos atores locais, das comunidades rurais e
indígenas, com seus saberes, culturas e identidades.
A
interdisciplinaridade é a busca da “retotalização” do
conhecimento fracionado pela corrida insana pelo controle sobre
homens e natureza que elimina os saberes não científicos e não
ajustáveis às normas da ciência moderna.
A
complexidade do mundo que nos rodeia exige a participação de
pesquisadores especialistas nas áreas social, econômica, de saúde
e do meio ambiente que trazem pontos de vista diferentes e
complementares sobre determinado problema ou realidade. Isso não
representa um simples somatório, mas a recriação e reconstrução
do saber, além dos departamentos estanques da estrutura universitária,
envolvendo pesquisadores de diversas áreas de conhecimento.
Esse
é um dos caminhos para superar os diversos reducionismos, sejam
eles da ecologia, do funcionalismo evolucionista ou do
economicismo, que ignoram os valores, os sentidos da cultura e a
importância da interação social como fatores centrais na
construção do capital social.
A
emergência de modernas sociedades democráticas levou ao
rompimento da teia homogênea das sociedades tradicionais para
produzir diferenciação e heterogeneidade das estruturas baseadas
em lógicas contraditórias – hedonismo, eficácia e igualdade
– e a articulação das ordens econômica, política e cultural,
com sua racionalidade e temporalidade diferenciadas, seguindo a
tipologia proposta por Émile Durkheim (De la Division du Travail
Social) que aponta para os laços de solidariedade mecânica e orgânica.
O
saber interdisciplinar se forja no encontro e no enfrentamento de
saberes diferenciados e na busca de sentido da vida pelos seres
humanos que procuram apreender e compreender os processos através
dos quais encontram sua identidade e superam suas angústias
existenciais.
A
insuficiência do conhecimento fragmentado para tratar da
complexidade existencial requer procedimentos cognitivos sistêmicos,
dialéticos, seletivos e abertos. Os paradigmas científicos
modelam o pensamento e a ação social e recebem efeitos
retroalimentadores da dinâmica cultural. A preocupação
crescente com a totalidade do planeta, neste limiar de século,
retoma a visão dos filósofos gregos da Antigüidade, pensando-se
o “holos” em lugar do mundo fracionado.
O
mal-estar da civilização não encontra respostas satisfatórias
na teoria e na prática da globalização, cujos efeitos têm sido
devastadores para as culturas e economias de todas as sociedades. A
visão alternativa baseada na interdisciplinaridade propõe uma
reformulação dos saberes e uma síntese em direção à
reorganização do “oikos” – do mundo. Neste sentido, além
de um novo paradigma científico, a interdisciplinaridade
representa uma nova filosofia de trabalho, de organização e ação
inter-institucional.
O
cartesianismo newtoniano produziu a fragmentação do
conhecimento em inúmeras disciplinas que geram mais perplexidade
e incertezas. Essa tendência foi reforçada na era industrial,
apesar de estudos críticos de Piaget na educação, de Von
Bertalanffy sobre a teoria de sistemas e a análise da dinâmica
global, primeiramente apontada no Relatório ao Clube de Roma –
“Os limites de Crescimento” (D. Meadows et al, Perspectiva, S.
Paulo, 1972).
A
pesquisa disciplinar corresponde às demandas da organização
social, melhor refletida no Taylorismo e na cronometragem do tempo
e dos movimentos que levou à atomização das tarefas e da própria
existência.
A
multidisciplinaridade se refere a aspectos quantitativos sem que
haja os vínculos necessários entre as abordagens que se debruçam
sobre o mesmo objeto, sem diálogo entre os diferentes atores, uma
situação freqüente nas universidades e na administração pública.
Na
prática da interdisciplinaridade, duas ou mais disciplinas
estabelecem intencionalmente conexões para alcançar um
conhecimento mais abrangente e profundo, embora cada disciplina
mantenha sua identidade, conserve sua metodologia e observe os
limites de sua área. Mas, há um intercâmbio de hipóteses e a
elaboração de conclusões que possam induzir a uma ação comum
e concertada.
Contextualizando
a problemática
Para
situar a problemática da Interdisciplinaridade no contexto do
Desenvolvimento Sustentável, é conveniente iniciar a análise
com as tendências contraditórias e, freqüentemente, paradoxais
de nossa sociedade contemporânea. É comum encontrar
pronunciamentos sobre a crise econômica, política, moral, etc.,
mas, sabemos que uma época de crise é também, além de
transformação de normas e padrões tradicionais, uma
oportunidade de renovação e superação de barreiras.
As
alterações da natureza em conseqüência de atividades humanas são
socialmente produzidas e se propagam sob forma de catástrofes
sociais da natureza, com efeitos praticamente irreversíveis.
Os
nexos ecológicos são ignorados sistematicamente pelos grupos de
poder, o que exige uma reformulação das relações entre a dinâmica
socioeconômica e os fenômenos naturais.
A
sociedade está em processo permanente de metabolismo com a
natureza. Os homens transformam a natureza através de suas
atividades. Portanto, para que não ocorram catástrofes,
precisamos de uma organização racional da sociedade que seja
capaz de evitar a exploração dos recursos naturais até sua
exaustão. Contudo, não basta racionalizar o metabolismo entre os
homens e a natureza. Concomitantemente, é preciso estabelecer
relações sociais que atendam às necessidades básicas e
eliminem as carências gritantes que afligem a maioria das
sociedades contemporâneas. Porque, em última análise, a dominação
irracional sobre a natureza reflete atitudes e comportamentos
irracionais dos homens sobre os homens.
Nas
sociedades agrárias pré-capitalistas também se praticava a
destruição dos recursos naturais, mas com impactos localizados e
limitados. É a modernidade que suscita catástrofes sociais da
natureza, em profundidade e escala planetárias.
A
destruição do meio ambiente em grande escala é o resultado de
determinada forma de organização social que está na origem do
processo de metabolismo destrutivo entre a natureza e as relações
sociais.
A
irracionalidade dessas relações está refletida tanto no plano
macro do sistema econômico e social, quanto no plano micro da
economia industrial das empresas. No plano macro, a corrida incansável
atrás da valorização do capital e da competitividade leva a
formas e conteúdos de produção e consumo insustentáveis, ou
seja, leva a um estilo de vida incompatível com as carências
sociais e o requisito de conservar os recursos naturais.
Em
nível micro das empresas, a concorrência e a corrida por mais
lucros, mediante a redução de custos e aumentos de produtividade
– independentemente da qualidade dos produtos ou da adequação
de tecnologias – resultam invariavelmente em efeitos destrutivos
na natureza e na sociedade.
Os
custos não são efetivamente reduzidos, mas transferidos para a
sociedade sob forma de desemprego, pobreza e marginalidade no
ambiente social e sob forma de poluição do ar, das águas e a
erosão do solo no meio ambiente natural.
Em última análise, essas transformações destrutivas
afetam também as condições climáticas e põe em risco a
sobrevivência da espécie humana e da própria vida no planeta.
Uma retrospectiva dos últimos
dois séculos mostra que o ritmo e a intensidade das catástrofes
naturais sofreram aceleração acompanhando a expansão da
industrialização, particularmente nas últimas décadas do século
XX. Secas, enchentes, vazamentos de grandes quantidades de petróleo
no mar e acidentes em centrais termo-nucleares evidenciam os
limites ecológicos do sistema, enquanto o alastramento da fome,
do desemprego e da pobreza em escala global assinalam seus limites
sociais e econômicos.
O
clamor por tecnologias mais apropriadas e formas de “produção
mais limpa” não tem induzido mudanças nos padrões de consumo
da população, nem no comportamento das empresas que contam com a
conivência ou omissão dos governos. Tanto Estados quanto
empresas parecem ignorar a natureza “perversa” do sistema de
produção capitalista que, em sua corrida atrás de
competitividade e lucros, parece incapaz de internalizar em sua
contabilidade os custos da destruição do meio ambiente e, menos
ainda, os custos incalculáveis da desagregação social em conseqüência
do alastramento da pobreza e da marginalidade.
Neste
contexto, a preocupação com o clima e a proteção da natureza são
consideradas um “luxo”, enquanto os problemas da pobreza e da
marginalidade são transferidos, na melhor das hipóteses, às
organizações filantrópicas e de caridade.
O
discurso oficial promete soluções por meio de progresso técnico.
Mas, ciência e tecnologia não são politicamente neutras. Ao
contrário, máquinas, equipamentos, os próprios processos de
trabalho e sua organização são inextricavelmente ligados às
relações sociais de produção. Em cada contexto histórico e
social, as formas concretas da tecnologia representam uma combinação
dos diferentes níveis de poder econômico e político que se
centralizam nas mãos do capital e enfrentam as aspirações dos
trabalhadores por mais autonomia e autogestão. Em conseqüência,
as práticas tecnológicas refletem essas contradições e
estabelecem os limites de ciência e tecnologia como instrumentos
de mudança social. Tanto o desenvolvimento tecnológico quanto
sua incorporação ao sistema produtivo obedecem aos critérios da
chamada racionalidade econômica. Postular mudanças nas relações
de poder a fim de conquistar mais equidade e justiça social com
base em políticas e diretrizes convencionais soa ingênuo ou
beira a mistificação deliberada.
O
produto mundial (PMB) passou de trinta trilhões de dólares –
um volume de bens e serviços nunca antes alcançado na História.
Mas, o número de pessoas que vivem abaixo de nível de pobreza
alcançou um quinto da humanidade. Neste século, os conhecimentos
científicos avançaram em progressão contínua mas, também
aumentou o número de analfabetos. As inovações tecnológicas
permitiram pousar na lua e desvendar os segredos do átomo e do
DNA mas, não foram capazes de evitar as epidemias e de reduzir as
altas taxas de mortalidade infantil. Enquanto assistimos a
movimentos e negociações visando a internacionalização e
globalização, verificamos, também, a fragmentação de espaços
políticos e ressurgimento de tensões e conflitos étnicos,
religiosos e nacionais.
Desempregados,
famintos e desabrigados são encontrados em números crescentes,
nos países desenvolvidos e nos “emergentes”. Mas, mesmo
aqueles afortunados que conseguem manter-se empregados,
interrogam-se sobre seu futuro profissional e o “significado”
daquilo que estão fazendo. Constituem agravantes e conseqüências
da crise a escassez crescente de recursos naturais e a degradação
progressiva do meio ambiente.
A
crise econômica e os conflitos étnicos e religiosos levam milhões
de pessoas a fugir ou emigrar de sua terra nativa, em busca de
condições de sobrevivência. Em todas as sociedades, as pessoas
se tornam inquietas, ansiosas, frustradas ou revoltadas, diante da
falta de perspectivas e da incapacidade dos governos de atender
suas expectativas de bem-estar. Por outro lado, em muitas
sociedades, o Estado perdeu o monopólio de poder coercitivo para
grupos armados envolvidos no tráfico de drogas, armas ou de jogos
ilegais. Entre os efeitos sociais mais marcantes desses processos
desestruturadores destaca-se a percepção de uma situação de
caos, de insegurança, de perda de identidade e com esta, o
enfraquecimento da solidariedade social.
Os
economistas continuam a insistir no uso de modelos e indicadores
macroeconômicos, como orientação para o crescimento econômico,
apesar das amargas evidências sobre sua inadequação e, freqüentemente,
mistificação com relação à distribuição de renda efetiva.
As análises que se concentram nas propostas de inovação tecnológica
como alavanca do crescimento, tendem a ignorar que as tecnologias
são controladas por organizações poderosas, buscando maximizar
o retorno sobre seu investimento. Por outro lado, mesmo havendo um
aumento de produtividade ou a transferência de “know-how” não
significa, necessariamente, uma distribuição mais eqüitativa do
produto gerado.
Da
mesma forma, o clamor e a militância das organizações não-governamentais
pela proteção do meio ambiente e a prevenção de incidentes e
desastres ecológicos não tem ultrapassado, com poucas exceções,
o limiar de reivindicações ecológicas no sentido estrito, não
conseguindo, por isso, uma mobilização efetiva da população em
busca de condições e qualidade de vida mais sustentáveis para a
sociedade.
As
análises convencionais que encontramos nos documentos e
pronunciamentos oficiais referentes ao desenvolvimento sustentável,
evitam explicitamente aspectos fundamentais do contexto e das tendências
da sociedade contemporânea: a globalização da economia cujos
impactos permeiam todas as esferas da vida social e cultural, e a
distribuição assimétrica crescente de poder, informação e
bens materiais e simbólicos, entre e dentre os países.
Em
suma, o sistema sócio-econômico em que vivemos e os paradigmas
de desenvolvimento que engendra se mostram insustentáveis pelos
seguintes motivos:
 |
o
processo de crescimento econômico induzido se mostra estéril
por não gerar empregos. Ao contrário, ocorre uma eliminação
de postos de trabalho de modo praticamente ininterrupto; |
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as
relações sociais continuam sendo de natureza autoritária
vedando voz e vez às populações carentes. Em muitos lugares
ocorre um retrocesso em termos de acesso aos direitos de
cidadania e da extensão dos direitos sociais a todos.
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O
sistema parece implacável em sua dinâmica: os ganhos só
beneficiam aos ricos, enquanto aos pobres, na melhor das hipóteses,
são proporcionados favores clientelistas por políticos
paternalistas;
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Os
efeitos sociais e culturais de seu funcionamento são
desestruturadores, posto que a corrida atrás de ganhos econômicos
sufoca os valores de cooperação e solidariedade, enquanto
reprime as manifestações de identidade nacional;
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O
sistema é auto-destruivo. Seu avanço está baseado na
depredação ambiental, minando a própria existência e
sobrevivência da população, ignorando ou desprezando os
direitos das gerações futuras.
|
A
Pesquisa Interdisciplinar
Para
estudar e compreender os fenômenos complexos da vida humana, é
necessário elaborar um esquema conceitual e metodológico que
contemple e destaque as interações entre variáveis derivadas de
diferentes áreas de conhecimento (como por exemplo, o meio
ambiente físico, a produção industrial e agrícola, a estrutura
sócio-política).
Para
conseguir efetivamente estudar esses fenômenos interrelacionados,
é preciso criar relações e condições para a interação entre
os pesquisadores que visem definir como trabalhar de forma
interdisciplinar e como integrar os estudos de gabinete com os
trabalhos de campo.
Este
tipo de abordagem é marcadamente diferente da pesquisa
mecanicista e neopositivista, que investiga os “fatos”, a
partir dos “dados” e, as relações isoladas e específicas
entre diversos fenômenos, produzindo conclusões parciais para
problemas parciais.
Costumamos
encarar os problemas de desenvolvimento sob o enfoque de
“piecemeal” – crescimento demográfico, poluição
industrial, segregação social, crianças abandonadas... Não
conseguimos como também, evitamos enxergar o conjunto, o todo que
é complexo e caótico demais e desafia nossos conhecimentos e
crenças convencionais.
A
crise “ambiental” levou ao questionamento do paradigma
desenvolvimentista dominante, por seus impactos destrutivos sobre
os recursos naturais e a degradação da população mundial,
explorada, oprimida e marginalizada dos benefícios da civilização
urbano-industrial.
O
fracasso das doutrinas econômicas e dos instrumentos de intervenção
na sociedade por elas preconizados, ampliaram os impactos da crise
para a esfera de legitimidade das políticas oficiais, dos
partidos tradicionais e da organização burocrática do Estado e
de seus aparelhos ideológicos. Assim, a problemática do meio
ambiente não pode ser restringida ás questões ecológicas
apenas, procurando soluções, somente através da internalização
dos custos ambientais pelas empresas.
Questiona-se
toda uma racionalidade social baseada no cálculo econômico que
exacerba as contradições internas e externas às sociedades.
Para maximizar o retorno sobre o investimento, estimula-se e
incentiva-se a concorrência ilimitada, a busca de aumentos da
produtividade e competitividade, sem consideração pelos efeitos
poluidores do meio ambiente ecológico, devastadores da estrutura
social e, alienantes do ser humano – desempregado e vítima da
concorrência desenfreada.
A
amplitude e a complexidade dos problemas teóricos e práticos do
analista das relações sistêmicas exigem uma abordagem que
transcenda os limites estreitos das áreas de conhecimento, tais
como as organizadas pelo sistema universitário. Assim, por
exemplo, o estudo das transformações em curso no sistema
produtivo, em nível global e nacional demandaria as contribuições
de disciplinas como a economia, para o estudo do mercado, dos preços
e dos termos de troca; da engenharia de produção, de processos e
produtos, para analisar o ciclo de vida dos produtos, sua base
tecnológica, os equipamentos e os recursos energéticos; da
administração geral e sociologia das organizações e do
trabalho, da antropologia e da psicodinâmica, para compreender e
interpretar o comportamento individual e coletivo.
Cada
uma dessas áreas de conhecimento atinentes ao problema estudado,
contribuirá com mais eficácia para a elaboração e configuração
de uma visão integrada e coerente, quando amparada por e referida
a um quadro de referências teórico comum – exigência básica
para o trabalho em equipe interdisciplinar.
O
referencial teórico deve permitir a articulação e integração
de diferentes áreas de conhecimento para levar também a uma prática
convergente. Inevitavelmente, surgem algumas dificuldades nesta
tarefa de como induzir um certo distanciamento dos especialistas
de sua respectivas abordagens e problemas específicos, para
capta-los e entende-los sob novo e diferente enfoque comum a todos
os membros da equipe. Por outro lado, a busca de respostas comuns
e integradas de problemas considerados tradicionalmente objetos de
estudos de disciplinas distintas estimula a criação de novos
construtos metodológicos e conceituais, através de um processo
contínuo de inovação e experimentação. A tensão que se
estabelece entre a visão do especialista e a busca da
interdisciplinaridade pode produzir resultados altamente positivos
mas, também pode gerar enunciados vagos e superficiais. Somente a
integração ativa e contínua da equipe de pesquisa pode superar
essa dicotomia de especialização versus generalização,
procurando conciliar, em cada etapa, especialidade e
universalidade, unidade e diversidade.
O
distanciamento exigido de cada pesquisador, do objeto específico
de estudo e da sua disciplina particular, significa uma abertura a
métodos, conceitos e linguagens pouco conhecidos, na perspectiva
de poder responder a incógnitas comuns às diversas áreas de
conhecimento. O processo a ser adotado é o próprio do
desenvolvimento cognitivo: a diferenciação dentro de uma
totalidade e, posteriormente, a integração ou reintegração de
uma totalidade conceitualmente enriquecida. Este procedimento,
baseado em uma epistemologia construtivista, permite não somente
a análise de sistemas complexos mas, também seu estudo
interdisciplinar.
Os
problemas dos sistemas naturais e sociais transbordam as
fronteiras entre as diferentes disciplinas científicas, surgindo
seus elementos indiferenciados em meio a uma totalidade vagamente
definida. A pesquisa disciplinar começa, quando for possível
identificar alguns elementos do sistema, próprios da mesma área
de conhecimento. A visão inicial do sistema, contudo leva a uma
perspectiva diferente da dinâmica da interação entre os
diversos fatores ou variáveis estudados.
Outro
ponto importante e que acompanha pari passu a elaboração
de uma metodologia interdisciplinar, é o processo de formação
da equipe de pesquisa. Para sua constituição é necessário
enfrentar concomitantemente problemas conceituais e metodológicos,
financeiros e institucionais, operacionais e logísticos, tão
complexos e difíceis como a própria solução dos problemas –
objetos de pesquisa interdisciplinar.
Para
estudar as interações entre os fenômenos que são objetos da análise,
torna-se imprescindível gerar e fomentar a comunicação e interação
no grupo de pesquisadores, nos trabalhos de campo e de gabinete.
Para não resvalar em direção a generalizações vagas, nem
regressar à especialização intransigente, exige-se um esforço
de diálogo permanente, em busca de respostas a desafios comuns, a
partir de pesquisas disciplinares convergentes, vinculadas por um
termo de referência comum. Essas respostas, todavia, serão
concebidas e realizadas a partir de um processo de diferenciação
de uma problemática mais ampla, que antecede, vincula e enriquece
as investigações por disciplinas específicas.
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M, - Práticas interdisciplinares em grupos consolidados, in
Interdisciplinaridade em ciências ambientais, Arlindo Phillipi Jr
et al (editores) MCT/PNUMA, 2000.
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