Uma
Política Externa feita de Efeitos Especiais
Elogio
em boca própria é...
O
governo do presidente Lula, que não se perde pela capacidade de
auto-elogio, não cessa de gabar sua política externa, a qual
enaltece constantemente, num total descompromisso com a realidade
dos fatos. Mais um esforço de propaganda foi conduzido em uma
revista especial (Revista
Brasil,
ano III, nº 5, divulgada em 5 de outubro de 2005), a título de
“prestação de contas”
dos 30 meses de governo.
A
parte de política externa vem recheada de erros clamorosos de redação,
ademais de equívocos factuais que comprometem gravemente a
credibilidade geral dessa peça de propaganda. O documento afirma,
por exemplo, que “Em Davos, na Suíça,
na reunião do grupo G-8, o Brasil foi a voz dos excluídos,
propondo um fundo mundial contra a fome, com adesão imediata de 60
chefes de Estado e apoio de outros 140”.
Isso
é simplesmente inacreditável, pois nunca houve uma reunião do G-8
em Davos, o Brasil nunca foi, em qualquer dos encontros realizados
entre 2003 e 2005 pelo G-8, escolhido para ser o “porta-voz dos
excluídos”, nem nunca foi constituído qualquer “fundo mundial
contra a fome” que tivesse tido a adesão de, pelo menos, dez
chefes de Estado. Trata-se de um conjunto de erros factuais
grosseiros e uma “apropriação indébita” de reuniões
efetuadas por motivos diversos: aqui o ministério da propaganda
petista faz um amálgama de diferentes reuniões, em diferentes
lugares, com resultados variados. Vejamos a realidade.
Lula
tinha estado uma primeira vez no World Economic Forum de Davos, ao
início de 2003, quando levou sua mensagem de combate à fome.
Depois foi convidado pelo presidente francês Jacques Chirac a um
encontro paralelo às reuniões anuais do G-8, realizada em junho
daquele ano em Evian, na França, quando fez a mesma proposta. Em
ambas ocasiões foi ouvido polidamente, mas nada de muito concreto
resultou desses encontros. O presidente George Bush, que acolheu o
G-8 de 2004, sequer cogitou de convidá-lo, mas a diplomacia
brasileira se empenhou sofregamente na organização de um grande
encontro de chefes de estado por ocasião da abertura da Assembléia
Geral da ONU, em setembro de 2004, em Nova York: na ocasião
compareceram efetivamente mais de meia centena de chefes de Estado,
que aderiram a uma tão mal definida quanto vaga “iniciativa
mundial contra a fome e a miséria” (o que está longe de
constituir um “fundo”, como pretende a diplomacia petista).
Finalmente, a convite de Tony Blair, Lula compareceu ao encontro do
G-8 de 2005, realizado em junho, em Gleneagles, na Escócia, tendo
uma vez mais falado sobre a fome, sob o olhar complacente dos
presentes.
A
megalomania petista vai um pouco mais longe, ao pretender que o
Brasil atuou “em negociações destinadas a estabelecer soluções políticas pacíficas
e de consenso entre vizinhos como Venezuela, Bolívia, Equador e Colômbia”,
o que representa, mais uma vez um amálgama entre diferentes situações
de crises políticas internas e algumas rusgas bilaterais
provocadas, aliás, por alguns velhos amigos do PT, como a guerrilha
de narcotraficantes das FARC (da Colômbia). Essa sofreguidão por
interferir nos negócios internos dos vizinhos tem contribuído, por
sinal, para criar um certo desconforto na região em relação ao
ativismo pouco discreto de uma diplomacia que, até 2003, tinha
conseguido criar uma marca de respeitabilidade e seriedade.
Em
sua “prestação de contas”, a diplomacia petista só faz
enaltecer, em tom grandiloqüente, as supostas realizações
grandiosas do governo no plano internacional. Para que os leitores
menos versados em política internacional tenham uma idéia mais
precisa da distância entre a propaganda governamental e a realidade
dos fatos, pretendo destacar cada um dos temas selecionados para
esse balanço de 30 meses de política externa, acrescentando, para
cada um deles, comentários sobre o significado de cada uma das
iniciativas listadas e seu impacto verdadeiro para o Brasil e sua
diplomacia.
1) “POR UM MUNDO MAIS
JUSTO, COM PAZ E SEGURANÇA”
O
título é pretensioso, como aliás quase tudo que este governo
proclama fazer, pelo menos em intenção. Não contente em tentar
simplesmente defender os interesses nacionais em um mundo complexo e
mutável, a diplomacia lulista pretende transformar o mundo, como
muitas vezes reiterado em promessas grandiloqüentes sobre a mudança
nas “relações de força internacionais” ou a alteração
radical da “geografia comercial” atual. Admitindo-se, porém,
que o “mais justo” implica, por analogia, que este mundo é
relativamente justo, bastando melhorá-lo um pouco mais, chega-se à
conclusão que o PT e o seu governo pretendem tão somente
contribuir para introduzir aperfeiçoamentos num sistema que é
aceito tacitamente como positivo.
Como
este mundo é, sem qualquer sombra de dúvida, dominado pela
globalização capitalista, e que esta foi muitas vezes
caracterizada pelos seus amigos da Attac e do Foro Social Mundial
como “assimétrica e excludente”, produtora de “miséria, de
desemprego e de concentração de renda”, o que se pode concluir
é que o PT, finalmente, abandonou aquelas idéias esquizofrênicas
de que “um outro mundo é possível”. Só podemos então
dizer-lhe: “Seja bem-vindo à realidade”
2)
“O
Presidente Lula já
recebeu a visita de 75 Chefes de Estado, em 2 anos e meio.”
Não
só isso: o presidente Lula já visitou, praticamente, igual número
de chefes de Estado e de governo em seus muitos périplos pelo mundo
afora. Para quem criticava a diplomacia presidencial de seu
predecessor, com comentários acerbos sobre o número de vezes que
FHC se ausentava do país, Lula está certamente empenhado em
quebrar todos os recordes de viagens e visitas de alto nível. Tal
ativismo poderia ser conferido também no plano interno, mas não
vem ao caso no momento, bastando esperar que o balanço – que
deveria compreender, igualmente, os custos e benefícios dessas
viagens e visitas – possa ser algo mais do que marginal, em termos
de aumento da inserção do Brasil nos fluxos mais dinâmicos das
trocas internacionais.
3)
“Em Davos,
no G-8 e nas Nações Unidas o
Brasil foi a voz dos excluídos propondo um fundo mundial contra a
fome, com adesão imediata de 60 chefes de Estado e apoio de outros
140.”
“Adesão
imediata” é um evidente exagero, pois se trata, exatamente, do número
de chefes de Estado que estiveram, protocolarmente, na reunião das
Nações Unidas, em setembro de 2004 em Nova York, para assistir a
mais uma série de discursos sobre a necessidade de se acabar com a
fome no mundo. Esse fundo jamais foi constituído e o que se está
buscando desesperadamente, agora, é simplesmente recolher alguns
tostões das milionárias transações financeiras internacionais
– provavelmente sob a forma de mais uma taxa compulsória, sobre
as passagens de avião em vôos internacionais – para canalizá-los,
com a eficiência que se conhece na burocracia onusiana, para
programas que existem ou serão criados para fazer aquilo que vem
sendo feito incessantemente desde a criação da ONU: tentar acabar
com a fome e a miséria no mundo.
Quanto
a ser “a voz dos excluídos”, trata-se de outro exagero retórico,
pois não consta que estes tenham delegado ao Brasil o papel de
representá-los nos foros mundiais ou nas novas iniciativas em matéria
de combate à pobreza. É uma missão auto-atribuída, que encontra
paralelo regional na pretensão de ser líder na América do Sul.
Alguém já verificou a solidez dessa liderança?
4)
“Fortalecimento das relações de cooperação e solidariedade com
a África Austral e os países de língua
portuguesa.”
Sem
dúvida: esse tipo de ação tem sido impulsionado, em nome de uma
mal identificada “dívida histórica” que o Brasil teria com os
“irmãos africanos”. Além do anacronismo histórico de
pretender atribuir a brasileiros contemporâneos, muitos deles
descendentes de emigrantes europeus, asiáticos ou levantinos, que
chegaram ao Brasil décadas depois da abolição do tráfico e da
escravidão, alguma responsabilidade pela tragédia social que se
abateu sobre o continente africano durante vários séculos desde
antes da era moderna – e para a qual colaboraram ativamente
mercadores islâmicos e os próprios chefes africanos --, existe
aqui uma pretensão que se choca com os meios evidentemente modestos
à disposição das instituições brasileiras de cooperação técnica
internacional, sem mencionar o fato de que o Brasil carrega, dentro
do seu território, muitas Áfricas, vários Haitis e diversos bolsões
próprios de miséria genuinamente nacional, cujos habitantes
ficariam encantados de ver tanto desvelo e atenção, como eles vêem
sendo praticada e que é dedicada em direção desses povos
africanos.
5)
“Consolidação do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS),
três
das principais democracias em desenvolvimento com fortes afinidades
políticas e econômicas, com o objetivo de intensificar a coordenação
política, fortalecer a participação conjunta nos foros
internacionais e revigorar a cooperação Sul-Sul.”
Tratou-se
de uma escolha feita a priori
pelo partido do governo, que não resultou de nenhum estudo técnico
e político conduzido em bases realistas pelos planejadores
governamentais ou pela diplomacia profissional. Em outros termos,
antes de se avaliar se os resultados dessa cooperação entre
entidades nacionais e parceiros externos previamente selecionados em
função de uma suposta afinidade de interesses compensariam os
investimentos que estão sendo feitos na cooperação trilateral –
em termos de reuniões de burocratas nacionais e tudo o que se segue
–, a diplomacia partidária do presidente Lula engajou recursos,
homens-hora e dedicação diplomática em um formato que não
emergiu naturalmente do fluxo de nossas relações diplomáticas,
mas que corresponde a certas obsessões políticas de líderes
partidários com a “união de países do Sul”, com vistas a
coordenar não se sabe bem quais interesses comuns em foros
internacionais, cuja agenda de trabalho tampouco foi examinada de
forma objetiva e séria.
Em
suma: fez-se um rótulo, ou definiu-se um formato de maneira apriorística,
com base em supostas afinidades mais proclamadas do que provadas, e
saiu-se em seguida em busca de algum conteúdo ou “recheio” para
completar a arquitetura grandiosa. Mais uma vez, se coloca o carro
na frente dos bois e se decide gastar dinheiro com iniciativas não
avaliadas de maneira adequada pelos profissionais do ramo. O
amadorismo diplomático é uma das marcas registradas do governo
Lula.
6)
“Atuação em negociações destinadas a estabelecer soluções
políticas pacíficas e de consenso, em vizinhos como a Venezuela, Bolívia, Equador e Colômbia.”
Não
se sabe bem que “negociações” foram conduzidas e com quais
interlocutores exatamente. O que é certo é que os três primeiros
países vivenciaram crises políticas internas bastante traumáticas,
nos últimos dois ou três anos, e que a diplomacia lulista saiu,
mais uma vez, como bombeiro autoproclamado, provocando outras tantas
rusgas diplomáticas, dentro e fora desses países, e alguns
constrangimentos no plano interno, afetando possivelmente a
capacidade de diálogo dos representantes diplomáticos do Brasil
com todos os atores políticos, sem mencionar as fissuras no
sacrossanto princípio – tradicionalmente defendido pelo Brasil
– da não-intervenção nos assuntos internos de países
soberanos.
Quanto
à Colômbia, o que se sabe é que o seu governo recusou prontamente
uma pretensa “intermediação” brasileira em uma guerra civil
interna, que aliás mobiliza um movimento guerrilheiro que já foi
definido como “terrorista” por diversos países e que certamente
se encaixa no perfil pouco recomendável de grupo narcotraficante.
7)
“Abertura do Escritório do Brasil em Ramalá, capital da Autoridade Nacional Palestina, para contribuir à defesa da
paz no Oriente Médio.”
O
objetivo é literalmente grandioso, mas de toda forma exagerado.
Segundo o governo, a instalação de uma representação brasileira
em território palestino visa, nada mais, nada menos, do que
“contribuir à defesa da paz no Oriente Médio”. Americanos,
britânicos, russos, franceses, abram espaço. O Brasil vai empregar
sua tradicional bonomia e propensão ao diálogo, sua proverbial
plasticidade étnica e universalidade religiosa para impulsionar, de
modo decisivo, a construção definitiva da paz, não apenas entre
israelenses e palestinos, mas em toda a região. Se não fosse
simplesmente risível, seria sem dúvida curioso ver tanto ativismo
tupiniquim numa região explosiva e conturbada. O Itamaraty está
começando a seleção de pacificadores experimentados para mandar
para o escritório em Ramalá.
8)
“Apoio à estabilização político-institucional e
à recomposição social e econômica do Haiti, mediante participação
e comando da MINUSTAH - Missão de Paz da ONU no Haiti
-
e intensificação da cooperação em áreas de impacto positivo
direto sobre as condições de vida da população.”
Mais
um projeto grandioso para o “super-Lula”: resolver, com algumas
partidas de futebol e um batalhão de soldados dedicados, problemas
seculares e estruturais de construção de um Estado, de um governo
e de condições materiais para uma existência normal no mais
“africano” dos países latino-americanos. Na verdade, a operação
foi concebida como uma espécie de bilhete de entrada para uma
cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas os
planejadores diplomáticos e os conselheiros presidenciais não
avaliaram adequadamente a extensão do problema e a limitação de
meios à disposição das tropas brasileiras. É muito provável que
a missão se encerre após a decretação de algum tipo de
“normalidade democrática” pós-eleitoral, mas o Haiti continuará
dependendo da assistência pública internacional por vários anos
ainda, ou quiçá por décadas.
9)
“Candidatura a assento permanente no Conselho de Segurança da ONU,
defendida no contexto de reforma apoiada pelo G-4 (Brasil, Alemanha,
Índia e Japão).”
Trata-se
da mais notória obsessão do chefe de Estado e de seu chanceler,
este um experimentado diplomata que deveria saber que esse tipo de
mobilização ostensiva e insistente pode revelar-se
contraproducente e mesmo objetivamente prejudicial à causa que se
pretende. Ela vem despertando ciúmes, inveja ou mesmo animosidade,
que em nada contribuem para um tratamento adequado – isto é,
diplomático, no sentido tradicional da palavra – dessa complexa
questão.
Abstraindo-se
o importante elemento da vontade nacional – sim: em que momento a
sociedade foi consultada sobre esse grandioso projeto do atual
governo? --, pergunta-se quais os meios e recursos de que dispõe o
Brasil, objetivamente, para pretender assumir novas
responsabilidades em termos de paz, segurança e cooperação técnica
e financeira ao desenvolvimento, no plano internacional, quando
sequer possui esses requisitos essenciais da vida civilizada no
plano interno? O sonho de grandeza não foi neste caso confrontado
aos requerimentos objetivos do empreendimento ou sequer aferido em
função das prioridades políticas nacionais, internas e externas.
10)
“Inserção Soberana”
“Soberania
nacional” é o que este governo mais pretende defender no plano
externo – em contraposição à suposta submissão aos interesses
estrangeiros que teria sido praticada no governo anterior – e, no
entanto, nunca se viram tantos e tão repetidos exemplos de cessão
de soberania, tantas cenas explícitas (e implícitas) de renúncia
ao mais apreciado valor do petismo diplomático.
A
perda de soberania se manifestou, por exemplo, na leniência e
passividade em face das medidas abusivas adotadas pela Argentina
contra nossos legítimos interesses comerciais e diplomáticos,
trazendo ademais prejuízos concretos a muitos dos nossos
industriais e exportadores competitivos. Ela também se traduziu, na
prática, na definição arbitrária – posto que prévia e não
negociada – de uma “parceria estratégica” com a China, que
aproveitou para arrancar todo tipo de concessão do Brasil, sem
qualquer ganho apreciável para os nossos interesses nacionais. A
renúncia de soberania foi ainda mais vergonhosa na aceitação da
“escolha” feita, por critérios exclusivamente políticos, pelo
presidente Hugo Chávez, do local de instalação de uma nova
refinaria de petróleo a ser construída em regime de investimento
conjunto pela Petrobrás e pela PDVSA, independentemente de estudos
técnicos que poderiam ter recomendado um outro local, que não
Pernambuco, para essa instalação.
Pode-se
mencionar ainda certas votações sobre questões de direitos
humanos que beneficiaram países notoriamente contraventores como
Cuba e a própria China, no âmbito das Nações Unidas, mas esses
poucos exemplos podem bastar para ver como a “soberania” do
petismo diplomático é na verdade o contrário do que pretende ser.
11)
“Fortalecimento do Mercosul:
criação do Fundo Estrutural, de 100 milhões de dólares, para
projetos de desenvolvimento nas regiões menos favorecidas.”
O
Brasil é, dentro do Mercosul, o país que mais apresenta regiões e
populações desfavorecidas pela sorte e não assistidas pelo
governo central, carentes de meios e de oportunidades de
desenvolvimento. Nossas disparidades sociais internas são, de
longe, muito mais importantes do que os diferenciais de renda e
riqueza dos países do Mercosul entre si, e seriam essas populações
e regiões que deveriam receber o grosso desses recursos que serão
fornecidos, à razão de 70%, pelo Brasil.
De
resto, a própria noção de fundos para a correção de
“assimetrias estruturais” soa arbitrária, uma vez que regiões
desfavorecidas contam, precisamente, com certas “vantagens
comparativas naturais” – mão-de-obra mais barata, por exemplo
– que permitem atrair investimentos produtivos no processo de
integração. O comércio se sustenta, justamente, nas
“assimetrias estruturais”, que são paulatinamente reduzidas,
com base nos desequilíbrios dinâmicos entre economias desiguais (e
por isso mesmo mutuamente complementares).
12)
“Criação da Comunidade Sul-Americana de Nações em
Cuzco, Peru, em 8 de dezembro de 2004, como foro político
privilegiado para a construção da unidade sul-americana.”
A
visão desse foro privilegiado não parece ser a mesma entre os vários
integrantes do processo, razão pela qual não se chegou ainda a uma
arquitetura definida ou a um programa de trabalho coincidente. Cada
país – o que é normal – vai procurar “extrair” da
Comunidade os recursos que imagina poder obter com o sócio
industrialmente mais avançado e economicamente mais poderoso, que
é o Brasil, aliás dotado, por vontade própria, de uma orientação
natural para a “diplomacia da generosidade”., como já
proclamaram várias vezes seus dirigentes. Em outros termos, o
Brasil está sendo chamado a “pagar a conta” desse
empreendimento, o que parece ser natural, uma vez que é ele que
mais se empenha pelo seu sucesso.
Pode-se
apenas questionar se a unidade sul-americana é um fim em si mesmo,
ou se ela tem pretensões a objetivos mais concretos e pragmáticos,
sob a forma de bem estar acrescido e maiores taxas de crescimento
econômico. Se for esse o caso, melhor seria partir de escolhas
nacionais que propiciem o crescimento interno, o que fatalmente
impulsionaria o externo também, em lugar de “pagar” para o
desenvolvimento dos outros países. A melhor caridade é aquela que
começa consigo mesmo.
13)
“Consolidação do grupo
de países G-20,
na defesa dos interesses agrícolas dos países em desenvolvimento,
como interlocutor indispensável no conjunto da Rodada Doha de
negociações comerciais multilaterais na Organização Mundial do
Comércio (OMC).”
O
G-20 não foi concebido para o “conjunto da Rodada Doha de negociações
comerciais multilaterais” da OMC, e sim apenas e tão somente para
as negociações do dossiê agrícola, e ainda assim com base num
conjunto heteróclito de países que possuem interesses diversos
nesse mesmo dossiê agrícola, para nada dizer dos demais aspectos
das negociações comerciais. A tentativa de se estabelecer um mínimo
denominador comum para esses países pode dar-se em detrimento de
interesses concretos do Brasil, no dossiê agrícola ou em outros
capítulos.
14)
“Aprofundamento da parceria
estratégica com a China,
terceiro mais importante parceiro comercial, para aumentar as
exportações de produtos brasileiros, e assegurar investimentos
chineses no Brasil.”
Trata-se
do melhor presente que a China poderia esperar do Brasil: uma oferta
gratuita, decidida a priori
– isto é, não negociada e não condicionada – e que nos engaja
com a China, sem que esta tenha jamais decidido que pretendia ser,
reciprocamente, nosso “aliado estratégico”. Além de ser mais
uma renúncia explícita de soberania, trata-se de uma grande
estupidez diplomática, jamais vista nos anais de nossa política
externa ou na de qualquer outro país que cogite de defender seus
interesses nacionais: como é possível conceber uma definição
principista, proclamada de forma voluntária, de que tal país
merece ser designado como “parceiro estratégico”, de maneira
absolutamente unilateral? Em matéria de diplomacia, trata-se de
fato historicamente inédito.
15)
“Novas perspectivas de cooperação com os países
árabes,
a partir da realização da Cúpula América do Sul-Países Árabes,
em Brasília, com agenda positiva e resultados promissores no campo
político, na promoção do comércio e dos investimentos.”
A
“agenda positiva” e os “resultados promissores” são
proclamados de forma subjetiva, sem qualquer validação empírica
ou teste de realidade. Como diplomacia para resultados, trata-se de
um cenário patético, no qual o Brasil se esforça para aparentar
algo que não se sabe se corresponde, ou não, ao desejo desses
parceiros aleatoriamente designados como outros “aliados” no cenário
da diplomacia “meridional”. Será que esses países dispõem de
capitais, tecnologia, mercados e outros atrativos econômicos de que
necessitamos na interdependência global? Pode até ser, mas
certamente não em maior volume e qualidade do que os tradicionais
parceiros da Europa, da América do Norte e da franja asiática. Uma
“geografia de viseiras” é o pior método para selecionar
parceiros para o esforço de inserção econômica internacional.
16)
“Vitória do Brasil na OMC,
contra os subsídios concedidos pelos países desenvolvidos à produção
de algodão e de açúcar, considerados ilegais e que deverão ser
retirados.”
Certamente
uma vitória de procedimento, aliás em processos iniciados no
governo anterior. Quanto à vitória substantiva, sob a forma da
eliminação dos subsídios, o jogo ainda não parece completo para
proclamações triunfalistas. Cabe continuar com esse tipo de
ofensiva aberturista, sem acreditar, porém, de que eles representam
a redenção de nossos problemas de desenvolvimento econômico ou
social. Eles representam um pequeno tijolo na construção do
multilateralismo econômico, mas o esforço principal deve mesmo ser
feito dentro de casa, sob a forma de produtos competitivos nos
mercados mais dinâmicos do comércio internacional.
Em
síntese: a diplomacia partidária do governo petista possui forte
componente de retórica e um registro pífio de resultados efetivos.
Recomenda-se que os conselheiros presidenciais estudem com mais
afinco os dossiês diplomáticos e conheçam de verdade o sistema
internacional, em toda a sua crueza de Realpolitik, para não ficar repetindo proclamações de vitória a
cada momento.