O Futuro
das Cidades:
A
Insustentabilidade da Cidade Desigual
Como
conquistar a cidade humanizada se é o capital que determina a
organização social e espacial da sociedade?
Há
uma grande interrogação sobre o futuro das cidades. O processo de
urbanização crescente, desordenado e defeituoso ao atendimento
direto à população, principalmente em áreas mais carentes de
equipamentos públicos, deixa muitas dúvidas sobre como o poder público,
através de políticas publicas, aproximará os cidadãos ao direito
à cidade.
Por
isso, a tarefa de encontrar soluções mediatas e imediatas para o
mal-estar urbano não deve estar localizada apenas nas mãos de
planejadores e do estado, mas sim corrigido com a participação e
fiscalização de amplos setores e sujeitos envolvidos no processo
de construção social do espaço urbano. Dessa forma, reunir amplos
e complexos setores da sociedade com interesses opostos exigirá
esgrimar com interesses gerais e particulares, assanhando os múltiplos
aspectos das relações sociais entre as duas principais classes,
trabalhadores e burgueses, e outros setores sociais emanados por
conflitos de interesses particulares.
Está
em voga, atualmente, debater, discursar e apresentar como título de
teses e seminários a palavra sustentabilidade. É um atrativo, uma
fórmula para a cura dos males sociais, econômico e ambiental através
de um pretenso consenso social, ou nos dias atuais, idealizar um
novo “contrato social” com base no interesse comum. Razão pela
qual, defende-se o meio ambiente, afastando a política, instável
na sua essência, da malha decisória do planejamento do espaço
urbano, encobrindo de forma indisfarçável o conflito social.
A
sustentabilidade social e ambiental está travada em uma concepção
mais geral de organização de sociedade, sem sustentação, o que
nos leva a crer que a industrialização, promovida pelo sistema
capitalista, não teve como desiderato preocupar-se com ordenamentos
igualitário, territorialmente e economicamente, de todos nas
cidades. Incluídos e excluídos permanecem divididos economicamente
e socialmente. A palavra sustentável, dessa forma, pode não estar
acima de “modelos” totalizantes que determinam a face do sistema
político e social.
Para
as elites econômicas, as habitações necessitam ser
auto-suficientes, precisam estar fora do mundo que a industrialização
criou. A “segurança” é pensada para que o “mundo marginal”
não penetre no seu espaço; portanto, no seu mundo.
A
arquitetura, aos olhares do senso comum apenas concreto e beleza plástica
ou feiúra estética, o modelo e as construções, as ruas como estão
alinhadas, as moradias onde estão localizadas e quem nelas habita,
muito mais do que a aparência pode revelar, serve a um propósito
que afirma o sistema político que a cidade e seus habitantes
acolhem.
Concretamente,
a ocupação urbana desordenada, a industrialização, as novas
introduções tecnológicas, fruto da radicalização do capitalismo
(reestruturação produtiva do capital), visando ao lucro e não ao
bem-estar do homem, destroem relações culturais e sociais solidárias.
Aqui
vale um comentário a respeito do entendimento de Henri Lefebvre
sobre a diferenciação das cidades para a “sociedade urbana”
(aspas do autor). Os modos de produção nas diferentes realidades
históricas das sociedades forçaram diferenças da organização do
ponto de vista da absorção de espaços, onde as relações sociais
objetivas e subjetivas se entrelaçam. A “sociedade urbana” é,
então, uma hipótese de interseção entre a cidade industrial e a
zona critica. A
“sociedade urbana” nasce da industrialização que domina e
absorve a produção agrícola e ao mesmo tempo se distancia do
mundo rural. Essa particularidade, assinalada, pode melhor ser
identificada quando estamos diante de uma região como São Paulo,
ou outra grande metrópole, que passou por um processo de
industrialização, afastou-se do rural, vive na zona crítica, ou
seja, da “implosão-explosão”; “a concentração urbana, o êxodo
rural, subordinação completa do agrário ao urbano” (Henri
Lefebvre1999). Desta feita, caminhamos inexoravelmente rumo à
“sociedade urbana”.
O
processo se daria da ausência de urbanização até o urbano,
ilustrado por Lefebvre da seguinte forma: Partimos da cidade política:
Grega e oriental; transitamos pela cidade comercial que sofre a
interseção da inflexão do agrário para o urbano tendo como base
à cidade industrial e “finalmente” estaríamos passando pela
zona crítica. Para Lefebvre o eixo traçado:
(...)
é ao mesmo tempo espacial e temporal: espacial porque o processo se
estende no espaço que ele modifica; temporal, uma vez que se
desenvolve no tempo, aspecto de início menor, depois predominante,
da prática e da história (...) No caminho percorrido pelo “fenômeno
urbano” (numa palavra: o urbano), coloquemos algumas balizas. No
inicio o que há? Populações destacadas pela etnologia, pela
antropologia. Em torno desse zero inicial, os primeiros grupos
humanos (coletores, pescadores, caçadores, talvez pastores)
marcaram e nomearam o espaço; eles o exploraram balizando.
Indicaram os lugares nomeados, as topias fundamentais. (...) O que
importa é saber que muitos lugares no mundo, e sem dúvida em todos
os lugares onde a história aparece, a cidade acompanhou ou seguiu
de perto a aldeia” (Henri Lefebvre 1999).
O
Brasil no caminho da Zona Crítica
O
Brasil atravessou o século XX sem resolver os seus cruciais
problemas urbanos. O violento crescimento urbano descolou das
cidades rurais uma parcela significativa das populações para as
cidades urbanizadas, são 52% de almas no mundo vivendo em precárias
condições nos grandes centros urbanos. Pelas estimativas da ONU, o
mundo chegará em 2020 com 60% da população mundial já morando
nas cidades urbanas. No Brasil o censo demográfico de 2000 mostra
que 81,2% da população vivem em zonas urbanas distribuídas da
seguinte forma: Região Sudeste (90,5%); Centro Oeste (86,7%); as
Regiões Norte e Nordeste são as que têm o maior índice da população
morando nas cidades rurais, 30,3% e 31,0% respectivamente. O estado
do Pará tem uma população urbana de cerca de 66,5%.
Diga-se de passagem, até mesmo os países “desenvolvidos” se
debatem com crescentes problemas de ordem sócio-ambiental na vida
urbana. Mesmo porque o princípio gerador da crise urbana está no
sistema macro econômico, ou seja, a relação e o modo de produção
capitalista eivado de desigualdades de toda ordem, desagrega os
cidadãos da sociedade em: aos que têm direitos à cidade e aos
expropriados de direitos.
As
medidas imediatistas, sem planejamento global, para solução da
crise urbana moderna e “pós-moderna”, impedem medidas de caráter
permanente e dissimulam a luta de classes. Pretende-se resolver, de
forma absoluta, problemas estruturais com medidas conjunturais de
caráter generalizante. É a tentativa de criar modelos, ou
simplesmente copiá-los a partir de experiências completamente
avessas a nossa realidade. Como exemplifica Ermínia Maricato,
citando Celso Furtado:
A
participação indireta e direta que durante quinze anos tive na
formulação de políticas (...) convenceu-me de que nossa
debilidade maior está na pobreza das idéias operacionais. A esse
vazio se deve que a atividade política tenda a organizar-se em
torno de esquemas importados, os mais disparatados (Celso Furtado,
1983: p. 40).
Para
tentar acalmar as inquietações, os movimentos da sociedade civil
organizados, legisladores e executores de políticas públicas
passam a criar um emaranhado de Leis que, em última ordem, não
conseguem dar cabo positivamente dos problemas de saneamento, educação,
meio ambiente, livre movimentação dos cidadãos nas cidades, o
habitat digno. Tenta-se explicar a exclusão social urbana pela
simples falta de leis; o fosso é mais em baixo onde uma larga
maioria da população está fora do mercado, ou sem outras
alternativas socialmente seguras (Ermínia Maricato, 2002:143).
Se
a cada exigência imediata da sociedade rende um sem número a mais
de necessidades, é crível afirmar que, se devemos resolver os
problemas do presente, sempre é plausível estarmos de olhos
voltados para o futuro. Dito isso, pode-se elaborar a seguinte
pergunta: em um sistema político de desigualdades sociais, todos
terão de fato direito à cidade? Sim e não, seria de imediato
respondido à questão.
Com
as mudanças de rumo no país, as organizações políticas partidárias
e a sociedade civil poderão vislumbrar melhores condições de
debate e uma interação maior com as leis constitucionais e
instrumentos como o Estatuto da Cidade, Conferência das Cidades e o
Conselho das Cidades. Assim sendo, a forma de colocar em prática os
planejamentos urbanos pensados e elaborados de forma democrática
entre governos, a sociedade organizada e os técnicos pode ser posta
claramente.
De
modo contundente afirmamos: não poderá ter êxito a conquista do
direito à cidade se não compreendermos a cristalização do
conflito na sociedade e de que será nesse campo de luta entre
interesses contrários que emergirão as possibilidades imediatas de
solução de problemas mínimos nas cidades. O combate à especulação
imobiliária e ao patrimonialismo, ainda fazendo parte da história
recente de nosso país, há de ser entrave que começará a ser
superado com o enfrentamento, não mais apenas de forma reivindicatória,
mas sim fundamentalmente de conteúdo propositivo.
Uma
outra face desse debate que deve ser colocada é o entendimento que
se tem de planejamento para as cidades; razão pela qual, a incógnita
permanece: como melhoraremos a vida nas cidades? Imediatamente
pensamos apenas no econômico, pura e simplesmente, ou melhor,
pensamos em modelos já em fase de superação, como a industrialização
urbana moderna que separa o homem e a natureza, sem amparo das
dimensões transversais das necessidades humanas. O homem é
natureza, compreendida a relação filosófica que a afirmação
encerra e ao mesmo tempo entendida a racionalidade que diferencia
seres vivos.
Portanto,
o “planejamento” das cidades deve levar em conta, sobremaneira,
o meio ambiente como parte inseparável do planejamento sócio-econômico-cultural
e histórico. É isso que se pretende que sejam as Conferências que
se propõem a discutir sobre as cidades: a justa medida do debate
com os conflitos sociais que emanam de um sistema social de
desigualdades.
Entretanto,
a vontade mediata é superar este sistema de planejamento urbano
geminado ao sistema, ou seja, na convivência com o sistema
capitalista de desigualdade por muito tempo, historicamente
deduzindo, acredita-se que nem todos por muito tempo terão direito
à cidade no capitalismo.
O
espaço urbano no capitalismo é privilegiado para a mercantilização
da cultura, da mão-de-obra, do social. Isso promove e provoca o
conflito gerando a instabilidade social. “O espaço urbano não é
apenas um mero cenário para as relações sociais, mas uma instância
ativa para a dominação econômica ou ideológica” (Maricato,
2002:168).
Como
a realidade econômica prende, determina e desafia as outras
realidades sociais, não se pode afirmar que teremos direito pleno
à cidade se não mudarmos a estrutura do sistema. Nesse sentido a
demanda será muito maior do que nos dias de hoje. Romper com o
estado capitalista não é como governar o mesmo.
Arrazoada,
ligeiramente, as razões que penso ser fundantes do conflito social,
político, ambiental, cultural e econômico no espaço urbano e/ou
urbanizado a ação volta-se para se propor novas relações entre o
governo e a sociedade, o que exigirá precisar o rumo que se deve
perseguir quanto ao projeto de país e cidade que os cidadãos
desejam.
A
gestão urbana deve diminuir as desigualdades através de uma maior
participação popular e melhor distribuição de renda, desse modo,
deve-se inserir no debate aqueles que sempre estiveram longe das
mesas de planejamentos e execuções das políticas públicas: o
povo e as entidades da sociedade civil organizada, através de uma
gestão legitimamente democrática.
O
conceito de gestão urbana, apreciado neste trabalho, não tem
intimidade com o mesmo conceito mercadológico da vida urbana
expressado na concepção de planejadores urbanos que trataram
prefeitos como gerentes de uma grande empresa. As cidades são
despossuídas de relação humanas, apresentadas em mostruário,
colocadas no mercado globalizado.
Inspirado
em conceitos técnicos oriundos do planejamento empresarial,
originalmente sistematizado na Harvard Business School, segundo seus
defensores, deve ser adotado pelos governos locais em razão de
estarem as cidades submetidas às mesmas condições e desafios que
as empresa (Carlos B. Vanier: 2000:76).
As
soluções não são fáceis, convivemos ainda com um estado
excessivamente centralizado, onde os municípios de quase tudo
dependem dos estados e estes do governo federal. O planejamento
global urbano para o Brasil que respeite as diversidades regionais
é o que se espera que instituições governamentais, como o Ministério
das Cidades, implementem a partir de agora.
Não
há como não reconhecer a importância do planejamento urbano para
permitir que haja uma cidade mais humana, seja numa sociedade que
preze pelas relações democráticas e iguais em direitos; ou seja,
numa sociedade de relações insustentáveis e profundamente
contraditórias. Nelas há que se reconhecer o conflito nas relações
sociais, para inicio de negociação dos riscos; e não poderá se
transigir da presença dos setores excluídos e organizados no
processo de elaboração do planejamento urbano. Essas questões que
penso poderão suscitar e aprofundar o debate sobre o futuro das
cidades.