A
escola como espaço de reflexão: Guerra e a Paz na imprensa escrita
É
possível afirmar que as manifestações pacifistas são mais freqüentes
em períodos que antecedem as guerras. Elas também existem durante
os conflitos bélicos, mas raramente ocorrem após o final das
guerras. A recente Guerra do Iraque parece ser um típico exemplo
dessa situação.
Várias
manifestações pacifistas ocorreram antes do início do conflito no
Iraque. Mais de 500 cidades fizeram protestos contra a provável
guerra, ainda em fevereiro de 2003. Diversos grupos de pacifistas
foram até Bagdá para servirem de “escudo humano”. Os
militantes de países como Canadá, Grã-Bretanha, Espanha, Itália
e Turquia foram à capital iraquiana para figurarem como alvos
potenciais, numa desesperada tentativa de evitar os ataques. Mas
essas manifestações não evitaram o início dos conflitos. O início
da guerra motivou uma onda global de manifestações pacifistas. Os
protestos iniciaram pouco tempo após as primeiras bombas atingirem
a cidade de Bagdá. Centenas de milhares
de pessoas marcharam em dezenas de países da Europa, Ásia, Oceania
e do Oriente Médio. Em um ritmo intenso, as manifestações
adentraram o mês de abril. Nos meses seguintes, elas foram ficando
mais escassas.
O
fim da guerra também levou ao fim das manifestações pela paz
mundial ou, pelo menos, ao fim da divulgação dos movimentos de caráter
pacifista pela mídia. A primeira hipótese demonstra, no mínimo,
que a população só se preocupa com a paz na iminência do
acontecimento ou nos momentos de desenvolvimento das guerras. Já a
segunda evidência que a mídia preocupa-se com a paz antes e
durante os conflitos bélicos. Cabe observar que os meios de
comunicação de massa, por interesses mercadológicos ou políticos,
praticamente ignoram os movimentos e as iniciativas pacifistas. Além
disso, costumam documentar as guerras de maneira sensacionalista,
enfocando fatos e cenas que acabam promovendo a banalização da
violência. O processo de banalização da violência tem relação,
é claro, com as duas guerras mundiais, tal como demonstrou o
historiador Eric Hobsbawm (1995). A banalização da violência também
tem relação com a atuação dos meios de comunicação de massa
nas últimas décadas, sobretudo em função da divulgação das
cenas que apresentam as operações militares que, quase sempre,
levam a morte de civis. O problema é que a divulgação dessas
cenas ocorre sem qualquer tipo de reflexão. Entender as duas
guerras mundiais e o papel dos meios de comunicação de massa na
divulgação dos conflitos bélicos parece ser um caminho para
compreender a banalização da violência na sociedade contemporânea.
No entanto, outros aspectos também precisam ser considerados para
entender a banalização da violência na nossa sociedade, uma
tarefa que não pode ser realizada neste pequeno texto.
As
hipóteses levantadas acima demonstram algumas dificuldades que
devem ser enfrentadas em qualquer tentativa de construção da paz
mundial. Uma mudança exige um intenso trabalho de reflexão. Essa
reflexão pode ter início em diversos espaços de discussão,
sobretudo no meio acadêmico.
A
guerra e a paz são temas que despertam profundo interesse no meio
acadêmico. Há pouco tempo foi realizado um Congresso de História
na cidade paranaense de Londrina. O XXIII Congresso Nacional de História
foi marcado por apresentações de trabalhos relacionados à guerra
e a paz. As discussões abordaram as guerras antigas e as guerras
modernas, a pax romana e a
tentativa norte-americana de “impor a paz por meio do combate ao
terrorismo”. Também foram debatidos temas como violência nas
cidades e o desencadeamento de revoltas sociais.
È
lícito observar, no entanto, que esses debates não podem ficar
restritos ao meio acadêmico. Eles devem chegar até a sociedade. Um
caminho para isso ocorrer pode ser a escola. Assim sendo, a escola
pode se constituir num importante espaço para promover debates e
reflexões sobre a guerra e a paz no mundo atual. Conseqüentemente,
pode atingir seu objetivo de formar o cidadão. Cabe lembrar que a
formação do cidadão é um objetivo que aparece na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996. A Lei 9394/96
estabelece que a educação abrange os processos formativos que também
se desenvolvem nos “movimentos sociais e organizações da
sociedade civil” (Brasil, 1996). Dessa forma, refletir, procurar
se organizar e lutar pela paz pode ajudar na formação do cidadão.
O passo inicial pode ser dado a partir de um freqüente trabalho de
reflexão nas salas de aula.
O
material publicado pela imprensa escrita pode ser uma importante
fonte de reflexão sobre o referido assunto. Esse tipo de material não
é o único, mas parece ser o de mais fácil acesso. Os textos sobre
as guerras ou sobre as manifestações pacifistas podem ser
trabalhados nas aulas de História, Geografia e Língua Portuguesa.
Convém salientar que as guerras são extremamente noticiadas pela
imprensa escrita. Já as campanhas pacifistas têm pouquíssimo espaço
nos jornais brasileiros. Por isso, o professor poderá utilizar com
mais freqüência os textos sobre as guerras.
O
trabalho com os textos publicados nos jornais não deve ser pautado
por uma leitura aleatória. Ele pode ter como norte alguns eixos de
reflexão. Como exemplo, sob a orientação do professor, os alunos
poderão refletir a partir dos seguintes nortes:
1)
As motivações e os interesses daqueles que se envolvem numa
guerra;
2)
A dinâmica da guerra;
3)
A violência dos combates;
4)
A utilização da tecnologia para destruir;
5)
o envolvimento dos civis;
6)
A desorganização da vida social;
No
entanto, o professor precisa tomar alguns cuidados na realização
desse trabalho. Precisa lembrar ao aluno que o discurso jornalístico
organiza e ordena cotidianamente os acontecimentos exercendo “uma
determinação de sentidos” sobre eles (Mariani, 1998, 63). Assim,
o trabalho do professor também deve atentar para o local de publicação
de cada texto no interior de um jornal (Braga, 2002, p.323) e para
as estratégias utilizadas pelo jornal para enfatizar determinados
aspectos da informação transmitida.
Convém
ressaltar ainda que, antes de iniciar um trabalho, é fundamental
escolher o material para tratar do assunto. Dificilmente o professor
encontrará o material em arquivos escolares, pois os jornais são
lidos e, em seguida, são jogados pelos funcionários das escolas. A
melhor saída seria o professor procurar em arquivos históricos,
algo nem sempre possível em função da escassez deles no Brasil.
Basta lembrar que os arquivos estão localizados nos grandes centros
urbanos e que a maioria das cidades brasileiras nem possuem
arquivos. Por isso, a Internet pode fornecer algumas matérias que
foram publicadas nos jornais. Assim, o material para o trabalho do
professor pode ser encontrado em sites
da Internet. O Centro de Referência
em Educação Mário Covas mantém um sugestivo espaço na
Internet que, de certo modo, pode subsidiar o trabalho do professor
nas discussões relativas à guerra e a paz.
O professor pode acessar a Internet e logo se deparar com a
sugestiva indicação: “EUA
e Iraque: acompanhe as noticias e discuta em sala de aula”.Nesse
espaço, o professor encontrará diversas matérias jornalísticas
para subsidiar o seu trabalho na sala de aula. Em linhas gerais, é
possível verificar que as matérias tratam dos conflitos no Iraque
e dos problemas do Oriente Médio. Tratam também de questões teóricas
referentes aos conflitos bélicos. È possível encontrar,
igualmente, algumas matérias sobre a Segunda Guerra Mundial e
algumas entrevistas sobre o quadro de tensões no mundo atual.
O
leitor pode ter um prévio conhecimento do assunto antes mesmo de
entrar no conteúdo das matérias selecionadas, pois esse site
disponibiliza uma lista com pequenos resumos dos textos e das
entrevistas que estão disponíveis. O leitor poderá encontrar, por
exemplo, informações sobre o texto em que o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso defendeu que a nova ordem internacional
pode ser prejudicada pelos reflexos do pós-guerra no Iraque,
principalmente pelo caráter unilateral do conflito liderado pelos
Estados Unidos. Também pode encontrar textos como aquele em que o
escritor José Saramago afirma que a Guerra só interessa aos
Estados Unidos. Em resumo, o site
oferece um apanhado de informações que outrora foram veiculadas
pela imprensa escrita brasileira.
As
iniciativas da sociedade civil com relação à Educação para Paz
também podem fornecer fontes informativas para a realização do
trabalho do professor, sobretudo a partir dos sites
encontrados no endereço eletrônico www.redepaz.org,
um espaço organizado pela Rede Global de Educação para a Paz (REDEPAZ).
É
certo que os sites fornecem
fontes de informação, mas não apresentam orientações sobre os
caminhos a seguir na realização do trabalho. Por isso, o professor
deverá procurar outras fontes de orientação para subsidiar o
desenvolvimento de um trabalho sobre a guerra e a paz.
Um
bom recurso parece ser a discussão acadêmica em que Marcelo
Rezende Guimarães (2003) procurou pensar a questão da paz
do ponto de vista filosófico, enfocando, principalmente, as novas
possibilidades de educação para a paz.
Guimarães estruturou a tese
A educação para a paz na crise da metafísica: sentidos, tensões
e dilemas em duas partes. A primeira parte - Confrontos entre
a educação para a paz e a crise da metafísica - englobou os
momentos hermenêuticos da recuperação da tradição e da fusão
dos horizontes, compondo-se de dois capítulos e um interlúdio,
intitulados, respectivamente, As muitas tradições da educação
para a paz, As tantas tradições de paz e A educação
para a paz sob os golpes do martelo. A segunda parte - Referenciais
para uma educação para a paz pós-metafísica - foi dedicada
ao momento da aplicação da teoria, sendo desenvolvida em dois capítulos:
A educação para a paz como inserção em uma comunidade
pacifista e A educação para a paz como exercício da ação
comunicativa. Cabe lembrar que Marcelo Rezende Guimarães não
faz a teoria sem esquecer da prática, pois dirige uma ONG
intitulada Educadores pela Paz. Um visita ao site
www.educapaz.org.br também pode ser
importante para a realização do trabalho em sala de aula.
É
certo que o tema é extremamente abrangente. A educação para a paz
não está ligada apenas ao processo de educação formal, mas também
ao processo de educação não formal Por isso, qualquer discussão
superficial como essa deve evitar reducionismos e generalizações.
Cabe, então, apenas reforçar a necessidade de empreender uma educação
que saliente a necessidade de estabelecer um estado de paz e de não
violência, tanto nas relações entre as pessoas como nas relações
entre os Estados. O caminho sugerido passa pelo entendimento das
guerras. Ao compreender a violência dos conflitos, os interesses
dos envolvidos, a participação dos civis e a destruição da vida
social dos envolvidos poderemos visualizar e trabalhar para o
estabelecimento de uma paz duradoura e universal como único caminho
para o pleno desenvolvimento da humanidade. Convém lembrar, por
fim, que a sala de aula parece ser um bom espaço para a obtenção
desse entendimento e que a imprensa escrita pode ser um eficiente
recurso para o desenvolvimento do trabalho do professor.
Bibliografia
ASSOCIAÇÃO
NACIONAL DE HISTÓRIA. História:
Guerra e Paz. Anais
do XXIII Simpósio Nacional de História. CD – ROM. Londrina,
2005.
BRAGA,
José Luiz. Questões metodológicas na leitura de um jornal. In.:
PORTO, Sérgio Dayrell (org.). O
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2002.
BRASIL.
Lei de Diretrizes e Diretrizes e Bases da Educação.
9394/96.
CENTRO
DE REFERËNCIA EM EDUÇACÃO MARIO COVAS. EUA E IRAQUE: Acompanhe
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Acesso em 09 nov 2005.
GUIMARÃES,
Marcelo Rezende. A educação
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