por EDVALDO CORREA SOTANA

Mestre em História pela UNESP de Assis e Professor da Faculdade de Presidente Prudente (SP) - UNIESP

 

 

A escola como espaço de reflexão: Guerra e a Paz na imprensa escrita

 

É possível afirmar que as manifestações pacifistas são mais freqüentes em períodos que antecedem as guerras. Elas também existem durante os conflitos bélicos, mas raramente ocorrem após o final das guerras. A recente Guerra do Iraque parece ser um típico exemplo dessa situação.

Várias manifestações pacifistas ocorreram antes do início do conflito no Iraque. Mais de 500 cidades fizeram protestos contra a provável guerra, ainda em fevereiro de 2003. Diversos grupos de pacifistas foram até Bagdá para servirem de “escudo humano”. Os militantes de países como Canadá, Grã-Bretanha, Espanha, Itália e Turquia foram à capital iraquiana para figurarem como alvos potenciais, numa desesperada tentativa de evitar os ataques. Mas essas manifestações não evitaram o início dos conflitos. O início da guerra motivou uma onda global de manifestações pacifistas. Os protestos iniciaram pouco tempo após as primeiras bombas atingirem a cidade de Bagdá. Centenas de milhares de pessoas marcharam em dezenas de países da Europa, Ásia, Oceania e do Oriente Médio. Em um ritmo intenso, as manifestações adentraram o mês de abril. Nos meses seguintes, elas foram ficando mais escassas.

O fim da guerra também levou ao fim das manifestações pela paz mundial ou, pelo menos, ao fim da divulgação dos movimentos de caráter pacifista pela mídia. A primeira hipótese demonstra, no mínimo, que a população só se preocupa com a paz na iminência do acontecimento ou nos momentos de desenvolvimento das guerras. Já a segunda evidência que a mídia preocupa-se com a paz antes e durante os conflitos bélicos. Cabe observar que os meios de comunicação de massa, por interesses mercadológicos ou políticos, praticamente ignoram os movimentos e as iniciativas pacifistas. Além disso, costumam documentar as guerras de maneira sensacionalista, enfocando fatos e cenas que acabam promovendo a banalização da violência. O processo de banalização da violência tem relação, é claro, com as duas guerras mundiais, tal como demonstrou o historiador Eric Hobsbawm (1995). A banalização da violência também tem relação com a atuação dos meios de comunicação de massa nas últimas décadas, sobretudo em função da divulgação das cenas que apresentam as operações militares que, quase sempre, levam a morte de civis. O problema é que a divulgação dessas cenas ocorre sem qualquer tipo de reflexão. Entender as duas guerras mundiais e o papel dos meios de comunicação de massa na divulgação dos conflitos bélicos parece ser um caminho para compreender a banalização da violência na sociedade contemporânea. No entanto, outros aspectos também precisam ser considerados para entender a banalização da violência na nossa sociedade, uma tarefa que não pode ser realizada neste pequeno texto.

As hipóteses levantadas acima demonstram algumas dificuldades que devem ser enfrentadas em qualquer tentativa de construção da paz mundial. Uma mudança exige um intenso trabalho de reflexão. Essa reflexão pode ter início em diversos espaços de discussão, sobretudo no meio acadêmico.

A guerra e a paz são temas que despertam profundo interesse no meio acadêmico. Há pouco tempo foi realizado um Congresso de História na cidade paranaense de Londrina. O XXIII Congresso Nacional de História foi marcado por apresentações de trabalhos relacionados à guerra e a paz. As discussões abordaram as guerras antigas e as guerras modernas, a pax romana e a tentativa norte-americana de “impor a paz por meio do combate ao terrorismo”. Também foram debatidos temas como violência nas cidades e o desencadeamento de revoltas sociais.

È lícito observar, no entanto, que esses debates não podem ficar restritos ao meio acadêmico. Eles devem chegar até a sociedade. Um caminho para isso ocorrer pode ser a escola. Assim sendo, a escola pode se constituir num importante espaço para promover debates e reflexões sobre a guerra e a paz no mundo atual. Conseqüentemente, pode atingir seu objetivo de formar o cidadão. Cabe lembrar que a formação do cidadão é um objetivo que aparece na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996. A Lei 9394/96 estabelece que a educação abrange os processos formativos que também se desenvolvem nos “movimentos sociais e organizações da sociedade civil” (Brasil, 1996). Dessa forma, refletir, procurar se organizar e lutar pela paz pode ajudar na formação do cidadão. O passo inicial pode ser dado a partir de um freqüente trabalho de reflexão nas salas de aula.

O material publicado pela imprensa escrita pode ser uma importante fonte de reflexão sobre o referido assunto. Esse tipo de material não é o único, mas parece ser o de mais fácil acesso. Os textos sobre as guerras ou sobre as manifestações pacifistas podem ser trabalhados nas aulas de História, Geografia e Língua Portuguesa. Convém salientar que as guerras são extremamente noticiadas pela imprensa escrita. Já as campanhas pacifistas têm pouquíssimo espaço nos jornais brasileiros. Por isso, o professor poderá utilizar com mais freqüência os textos sobre as guerras.

O trabalho com os textos publicados nos jornais não deve ser pautado por uma leitura aleatória. Ele pode ter como norte alguns eixos de reflexão. Como exemplo, sob a orientação do professor, os alunos poderão refletir a partir dos seguintes nortes:

1) As motivações e os interesses daqueles que se envolvem numa guerra;

2) A dinâmica da guerra;

3) A violência dos combates;

4) A utilização da tecnologia para destruir;

5) o envolvimento dos civis;

6) A desorganização da vida social;

No entanto, o professor precisa tomar alguns cuidados na realização desse trabalho. Precisa lembrar ao aluno que o discurso jornalístico organiza e ordena cotidianamente os acontecimentos exercendo “uma determinação de sentidos” sobre eles (Mariani, 1998, 63). Assim, o trabalho do professor também deve atentar para o local de publicação de cada texto no interior de um jornal (Braga, 2002, p.323) e para as estratégias utilizadas pelo jornal para enfatizar determinados aspectos da informação transmitida.

Convém ressaltar ainda que, antes de iniciar um trabalho, é fundamental escolher o material para tratar do assunto. Dificilmente o professor encontrará o material em arquivos escolares, pois os jornais são lidos e, em seguida, são jogados pelos funcionários das escolas. A melhor saída seria o professor procurar em arquivos históricos, algo nem sempre possível em função da escassez deles no Brasil. Basta lembrar que os arquivos estão localizados nos grandes centros urbanos e que a maioria das cidades brasileiras nem possuem arquivos. Por isso, a Internet pode fornecer algumas matérias que foram publicadas nos jornais. Assim, o material para o trabalho do professor pode ser encontrado em sites da Internet. O Centro de Referência em Educação Mário Covas mantém um sugestivo espaço na Internet que, de certo modo, pode subsidiar o trabalho do professor nas discussões relativas à guerra e a paz.  O professor pode acessar a Internet e logo se deparar com a sugestiva indicação: “EUA e Iraque: acompanhe as noticias e discuta em sala de aula”.Nesse espaço, o professor encontrará diversas matérias jornalísticas para subsidiar o seu trabalho na sala de aula. Em linhas gerais, é possível verificar que as matérias tratam dos conflitos no Iraque e dos problemas do Oriente Médio. Tratam também de questões teóricas referentes aos conflitos bélicos. È possível encontrar, igualmente, algumas matérias sobre a Segunda Guerra Mundial e algumas entrevistas sobre o quadro de tensões no mundo atual.

O leitor pode ter um prévio conhecimento do assunto antes mesmo de entrar no conteúdo das matérias selecionadas, pois esse site disponibiliza uma lista com pequenos resumos dos textos e das entrevistas que estão disponíveis. O leitor poderá encontrar, por exemplo, informações sobre o texto em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu que a nova ordem internacional pode ser prejudicada pelos reflexos do pós-guerra no Iraque, principalmente pelo caráter unilateral do conflito liderado pelos Estados Unidos. Também pode encontrar textos como aquele em que o escritor José Saramago afirma que a Guerra só interessa aos Estados Unidos. Em resumo, o site oferece um apanhado de informações que outrora foram veiculadas pela imprensa escrita brasileira.

As iniciativas da sociedade civil com relação à Educação para Paz também podem fornecer fontes informativas para a realização do trabalho do professor, sobretudo a partir dos sites encontrados no endereço eletrônico www.redepaz.org, um espaço organizado pela Rede Global de Educação para a Paz (REDEPAZ).

É certo que os sites fornecem fontes de informação, mas não apresentam orientações sobre os caminhos a seguir na realização do trabalho. Por isso, o professor deverá procurar outras fontes de orientação para subsidiar o desenvolvimento de um trabalho sobre a guerra e a paz.

Um bom recurso parece ser a discussão acadêmica em que Marcelo Rezende Guimarães (2003) procurou pensar a questão da paz do ponto de vista filosófico, enfocando, principalmente, as novas possibilidades de educação para a paz.  Guimarães estruturou a tese A educação para a paz na crise da metafísica: sentidos, tensões e dilemas em duas partes. A primeira parte - Confrontos entre a educação para a paz e a crise da metafísica - englobou os momentos hermenêuticos da recuperação da tradição e da fusão dos horizontes, compondo-se de dois capítulos e um interlúdio, intitulados, respectivamente, As muitas tradições da educação para a paz, As tantas tradições de paz e A educação para a paz sob os golpes do martelo. A segunda parte - Referenciais para uma educação para a paz pós-metafísica - foi dedicada ao momento da aplicação da teoria, sendo desenvolvida em dois capítulos: A educação para a paz como inserção em uma comunidade pacifista e A educação para a paz como exercício da ação comunicativa. Cabe lembrar que Marcelo Rezende Guimarães não faz a teoria sem esquecer da prática, pois dirige uma ONG intitulada Educadores pela Paz. Um visita ao site www.educapaz.org.br também pode ser importante para a realização do trabalho em sala de aula.

É certo que o tema é extremamente abrangente. A educação para a paz não está ligada apenas ao processo de educação formal, mas também ao processo de educação não formal Por isso, qualquer discussão superficial como essa deve evitar reducionismos e generalizações. Cabe, então, apenas reforçar a necessidade de empreender uma educação que saliente a necessidade de estabelecer um estado de paz e de não violência, tanto nas relações entre as pessoas como nas relações entre os Estados. O caminho sugerido passa pelo entendimento das guerras. Ao compreender a violência dos conflitos, os interesses dos envolvidos, a participação dos civis e a destruição da vida social dos envolvidos poderemos visualizar e trabalhar para o estabelecimento de uma paz duradoura e universal como único caminho para o pleno desenvolvimento da humanidade. Convém lembrar, por fim, que a sala de aula parece ser um bom espaço para a obtenção desse entendimento e que a imprensa escrita pode ser um eficiente recurso para o desenvolvimento do trabalho do professor.

 

Bibliografia

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA. História: Guerra e Paz. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História. CD – ROM. Londrina, 2005.

BRAGA, José Luiz. Questões metodológicas na leitura de um jornal. In.: PORTO, Sérgio Dayrell (org.). O jornal: da forma ao sentido. 2 ed. Brasília: Editora da UnB, 2002.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Diretrizes e Bases da Educação. 9394/96.

CENTRO DE REFERËNCIA EM EDUÇACÃO MARIO COVAS. EUA E IRAQUE: Acompanhe as notícias e discuta em sala de aula. Disponível em <http://www.crmariocovas.sp.gov.br>. Acesso em 09 nov 2005.

GUIMARÃES, Marcelo Rezende. A educação para a paz na crise da metafísica: sentidos, tensões e dilemas. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Brasil, 2003.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

MARIANI, Bethânia. O PCB e a imprensa. Rio de Janeiro/ Campinas: Renavan/ Unicamp, 1998.

 

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