Medida
Provisória n. 251 e a Formação Integrada
A
Medida Provisória n.251 aprovada, recentemente, no Congresso
Nacional regulamenta o programa do governo Lula sob o título: A
Escola de Fábrica. O objetivo do programa é “a formação profissional de jovens de baixa renda que estejam
matriculados na educação básica regular e passam a freqüentar
cursos profissionais em escolas instaladas em galpões ou salas de fábricas
seja no meio urbano ou no rural”.Ainda, ele visa “a inclusão de jovens de baixa renda no mercado de trabalho uma vez
que o mesmo fez o curso em unidades formadores no próprio ambiente
das empresas e conseqüentemente ele irá ser aproveitado no espaço
da fábrica, o que implicará na geração de renda e da inclusão
social”.
Os
cursos profissionais oferecidos pelo programa deverão conter aulas
de 5 hs por dia com duração mínima de 6 meses e no máximo 12
meses. O programa dos cursos contempla três módulos estruturante:
o primeiro se refere ao reforço do ensino básico, este contém 120
hs., o segundo à temas
transversais visando a formação do jovem para a cidadania também
com 120 hs e o terceiro à formação profissional propriamente dita
com 360 hs. Os gestores dos cursos serão as Organizações Não-Governamentais
(ONGs) e Sindicatos em parceria com o Ministério da Educação e
Cultura. Outro aspecto importante trata-se da idade do aprendiz. Ela
foi ampliada de 18 para 24 anos, o que significa que o jovem entrará
mais tarde no mercado de trabalho, para tanto houve a necessidade de
uma alteração do artigo 428 da Consolidação das Leis do trabalho
que previa a entrada mais cedo do jovem no mercado de trabalho. A “tout court’ pode-se afirma que o programa Escola de Fábrica do
governo federal é um tipo de escola profissional.
O
que chama mais atenção é que a Medida Provisória deixa clara a
desvinculação da Escola de Fábrica com o processo de
aprendizagem. A desvinculação se materializa pela preservação da
cota de aprendizes e pelo afastamento das atividades da Escola de Fábrica
do espaço produtivo. O que significa isto? Como refletir sobre esta
questão?
O
ponto de partida da reflexão do governo é o da mudança tecnológica
ocorrida no interior do sistema produtivo e da sociedade como sendo
o grande responsável pelas mudanças que deverão ocorrer na educação.
Nesse
sentido, a qualificação profissional será a forma encontrada
suficiente para que os jovens possam concorrer e competir num
mercado de trabalho altamente exigente e, por isso, a necessidade de
recuperar o “tempo perdido” dos jovens. Assim, a tecnologia
aparece como sendo o pressuposto fundante da crise da educação e
da empregabilidade dos jovens, deixando de ser o resultado das forças
sociais atuantes de uma sociedade e, por conseguinte a educação
deixa de ser o elemento impulsionador da tecnologia.
No
entendimento do governo, a educação por si só “não garante a
inserção do jovem no mercado de trabalho” porque ela não
oferece os instrumento que permitem ao jovem inserir no mercado: capacidade,
competência e eficiência. A educação é a culpada pelo
fracasso do jovem e não o sistema capitalista como tal. Para tanto,
da incapacidade da educação formal de preparar os jovens para
enfrentar as novas mudanças tecnológicas será preciso, então
qualificá-los através de cursos profissionalizantes. Então,
qualificação aparece como se fosse o único elemento da formação
do jovem capaz de integrá-lo à sociedade.
Gramsci
analisando a reforma da escola italiana por Gentile, durante o período
fascista (1923), faz uma observação importante sobre as escolas
profissionalizantes: “na escola atual, em função da crise
profunda da tradição cultural e da concepção da vida e do homem,
verifica-se um processo de progressiva degenerescência: as escolas
de tipos profissionais, isto é, preocupadas em satisfazer os
interesses práticos imediatos, predominam sobre as escolas
formativas, imediatamente desinteressadas. O aspecto mais paradoxal
reside em que este tipo de escola aparece e é louvado como democrática,
quando na realidade, não só é destinada a perpetuar as diferenças
sociais, como ainda a cristalizá-las em formas chinesas” (Q., 12,
1547). Certamente, trata-se de uma questão específica do tempo de
Gramsci, que não poderá ser analisada isoladamente do pensamento
deste autor, mas que poderá colocar alguma luz sobre a questão:
Escola de Fábrica.
A
criação da “Escola de Fábrica” por um lado, aprofunda a
parcelarização das tarefas entre o saber fazer, desenvolvido por
um conhecimento do senso comum e o saber pensar, sem qualquer teoria
que lhes dê suporte para um conhecimento crítico-científico. E,
por outro o governo está fortalecendo o problema de fundo do
sistema escolar, aquele que é que, cada grupo social tem um tipo de
formação. A formação para o emprego profissional para aqueles
grupos sociais menos favorecidos, e, com isso desvinculando-os da
formação básica integral. Dessa forma, a formação poderá ser
feita por empresas, uma vez que a escola mostra-se incompetente para
formar o jovem para o emprego.
Duas
questões parecem ser importantes; que sentido tem uma formação
profissional para esse jovem trabalhador desempregado, mas que mesmo
formado profissionalmente não tem emprego? E, como o Estado pode
assegurar uma educação igual para todos se os meios para isso lhes
são negados? Com relação à primeira questão, será preciso
reafirmar que a lógica capitalista aponta para o princípio da
flexibilidade do jovem trabalhador, isto é, lhe interessa o consumo
flexível da força de trabalho deste jovem, uma vez formado ele
fica no aguarde ao ingresso do mercado de trabalho, esperando quem
sabe, por um longo tempo ou até imigrando para outros lugares. A
segunda questão implica em recursos financeiros, dos quais, cada
vez menos o Estado vem investindo, sobretudo na formação
integrada. Esta requer uma experiência profunda da democracia
escolar participativa, que por sua vez, ela poderá romper e superar
o dualismo de classes da sociedade capitalista. E, por incrível que
possa parecer, o grande paradoxo do Estado é que antes de construir
um processo igualitário ele aponta no fortalecimento do dualismo,
entre o saber fazer e o saber pensar.
O
que significa isso para a democracia? A resposta está em Gramsci.
Pensar que a educação integral é para poucos, ou seja, educa-se
poucos a se tornarem dirigentes do futuro e a grande maioria a se
tornarem trabalhadores eficientes e produtivos, significa negar a
educação integral. A Escola de Fábrica pode ser entendida como
Gramsci entendeu as escolas profissionais de seu tempo. E, com relação
a escola profissional Gramsci afirma que ela “tende a eternizar as
diferenças tradicionais, mas dado que tende, nestas diferenças, a
criar estratificações internas, faz nascer a impressão de ter uma
tendência democrática ... Mas a tendência democrática,
intrinsecamente não pode significar apenas que um operário manual
se torne qualificado, mas que cada “cidadão” possa tornar
“governante” e que a sociedade o ponha, ainda que abstratamente
nas condições gerais de poder fazê-lo” (idem, ibidem). Ora, se
ela tende a eternizar as diferenças sociais e criar estratificações
internas, o sonho da democracia ainda está muito distante.
Assim,
a Escola de Fábrica é uma tentativa, mas que não avança na direção
da ruptura do saber dual, para a constituição de uma escola unitária.
Resta muito ainda a fazer e a pensar para elaborar o moderno tipo de
sistema educativo que uma democracia merece e do qual tem
necessidade.
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Referências
bibliográficas
GRAMSCI,
A., Quaderni del Carcere. Edizioni critica dell"Istituto
Gramsci di Roma. (a cura di) Gerratana., V., Einaudi
Editore.Torino.1975