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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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A sua
revista tem Qualis?
A
primeira vez que me fizeram esta pergunta, a minha reação foi de
perplexidade (e, ironicamente, me veio à mente o nome de
uma marca de margarina). Respondi de maneira educada e sincera
ao meu inquiridor: desconhecia o “qualis”. Admito, no
entanto, que este tipo de pergunta me causa certa irritabilidade,
imediatamente controlada através do exercício da tolerância acadêmica.
Mas como ficar insensível diante dos modismos, mecanismos de
controle e das manias classificatórias criadas pela “comunidade
acadêmica”, as quais se fundamentam em critérios quantitativos
pretensamente objetivos? Como não se irritar quando percebemos que
determinados indivíduos se preocupam mais com os meios do que com
os fins?
De
qualquer forma, logo esqueci a tal pergunta – e o meu interlocutor
pareceu satisfeito com a resposta. Recentemente, o “qualis”
ressurgiu do recôndito da minha memória, provocada por um diálogo numa dessas reuniões acadêmicas que ocupam boa parte da
nossa vida. Fui informado, então, de que a Revista Espaço Acadêmico
(sim, essa mesma, caros leitores!), tem o “qualis”. Que
alegria, que satisfação! Quase que dava um efusivo abraço no
amigo que me concedia a graça da boa nova. Agora tinha a resposta
esperada pelo meu antigo inquiridor e aos que porventura venham a
questionar se a revista tem o “qualis” (pelo menos, é
claro, até a próxima avaliação das “autoridades
competentes”).
Como
editor, devo admitir que é de fundamental importância o
conceito que tenham sobre a Revista Espaço Acadêmico - e não
meço esforços para quem seja sempre o melhor. Mas uma coisa é a REA, outra é o seu editor
enquanto indivíduo. As minhas posturas e idéias não são
necessariamente as mesmas do coletivo que a compõe, nem as
expressas nos artigos publicados. De
um ponto de vista estritamente pessoal, penso que o verdadeiro “qualis”,
que atesta ou não a qualidade da REA e mesmo a sua existência, é
dado por seu corpo editorial, conselho de
consultores, os autores
colaboradores e, especialmente, seus leitores (afinal é para estes
que a revista existe). Longe de mim desmerecer o abnegado trabalho
dos doutos que compõem a “autoridade científica” que define e
aplica os critérios classificatórios; afirmo apenas o óbvio: o
que dá vida a um periódico é o grupo que o compõe e os
resultados que alcança ao angariar o apoio, a colaboração e o
respeito dos seus leitores.
A
Revista Espaço Acadêmico tem conselho editorial e de
consultores qualificados e amplos, para além das fronteiras regionais
e mesmo nacional. Sua abrangência também rompe os limites
regionais e nacionais, até mesmo por efeito das características
inerentes ao meio eletrônico (a Internet). Seus leitores são
milhares (média de 13 mil visitas mensais no período recente) e, sem utilizar a famigerada prática de Spam, a revista é
enviada mensalmente a cerca de 6.5 mil leitores cadastrados (muitos
dos quais a reenviam aos seus colegas e amigos, ampliando a sua
difusão). A REA está em seu quinto ano de existência e, neste período,
publicou artigos de cerca de 480
autores, das diferentes regiões do país e do exterior.
São
números que apenas expressam um lado do que poderia ser uma avaliação
do significado e alcance da REA. Há outro lado, talvez mais
importante que a quantificação, para uma possível identificação
da qualidade da publicação. A REA, por exemplo, é
fonte de pesquisa para acadêmicos em todos os níveis. Também
contribui com o processo de ensino-aprendizagem, na medida em que
docentes e discentes reproduzem seus textos e os utilizam em
atividades acadêmicas. A REA colabora ainda para a divulgação de
autores e artigos para além dos grandes “centros de excelência
acadêmica”, dos olimpos, simultaneamente amados e odiados. A REA dissemina
idéias sem as amarras dos “ismos”, ela é democrática
tanto no que diz respeito aos temas quanto às referências teóricas
e ideológicas dos seus autores. Neste sentido, ela contribui para uma cultura de maior
tolerância. A REA, na
medida em que recusa o “academicismo”, representa uma
referência para os que não se vinculam ao “campo acadêmico”, os
militantes e simpatizantes de partidos e movimentos sociais que a
acessam.
Mas
como mensurar tudo isto? Será possível traduzir em números ou
conceitos que expressem sua qualidade? A “comunidade acadêmica”
objetiva traduzir em conceitos o que seria a “qualidade”, o “qualis”,
de cada revista. O ilustre inquiridor e
outros leitores ciosos de saber se a REA, ou outro periódico
qualquer, tem “qualis”, podem acessar http://qualis.capes.gov.br/.
Aqui encontrarão uma exposição sobre o “qualis” e
terão acesso aos critérios definidores da classificação e
circulação por área. Estimulado pelo diálogo que tive com o meu
amigo fiz a consulta sobre a REA. Eis o resultado:
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ISSN
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Título
|
Classificação
|
Circulação
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Área
de Avaliação
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1519-6186
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Revista
Eletrônica Espaço Acadêmico
|
B
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Nacional
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ARTES
/ MÚSICA
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1519-6186
|
Revista
Eletrônica Espaço Acadêmico
|
A
|
Local
|
DIREITO
|
|
1519-6186
|
Revista
Eletrônica Espaço Acadêmico
|
C
|
Local
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SOCIOLOGIA
|
|
1519-6186
|
Revista
Eletrônica Espaço Acadêmico
|
C
|
Local
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EDUCAÇÃO
|
|
1519-6186
|
Revista
Eletrônica Espaço Acadêmico
|
C
|
Local
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HISTÓRIA
|
|
1519-6186
|
Revista
Eletrônica Espaço Acadêmico
|
C
|
Nacional
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MULTIDISCIPLINAR
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Fiquei
com dúvidas, em especial sobre o item “circulação”.
Consultei então os critérios de cada área. Para minha surpresa,
ao clicar no link da área “Multidisciplinar”, surgiu a seguinte
informação: “Critérios
não autorizados para divulgação pelo Representante de Área de
Avaliação”. Estranhei! Mas fazer o que?! Continuo sem entender...
O
interessante em tudo isto é a “servidão voluntária” que nos
atinge como uma doença inoculada por determinações e
procedimentos das instâncias "superiores". Por que, em geral,
aceitamos os ditames das “autoridades científicas” e
administrativas-burocráticas
e, quase sempre, nos adaptamos e as aplaudimos sem questionar? Por
que precisamos de um corpo especialmente instituído para nos
conceder uma espécie de ISO 9000? Diante da corrida pelo Lattes que nos foi imposta por
esta mesma “comunidade acadêmica”, muitos preferem se adaptar e
aceitar de maneira subserviente. Entre questionar os objetivos e a
validade política – e mesmo científica – de tais
procedimentos, preferem perguntar se a sua revista tem “qualis”.
Se tiver, ótimo! Se não, também não será desconsiderada
enquanto possibilidade para publicar, pois, a despeito de tudo, é
preciso “fazer o Lattes”!
A
“comunidade acadêmica” não é uma abstração isenta de
subjetividade, por mais que ainda existam os que acreditem em
neutralidade axiológica. São indivíduos de carne e osso, com
ideologias e interesses particulares, em geral travestidos por uma
racionalidade universalizante, como se o conceito “comunidade acadêmica”
englobasse indiferentemente a todos os que compõem o “campo acadêmico”.
Isto, é claro, influencia a sua ação e as avaliações, embora se
pretendam “objetivas”. A “comunidade acadêmica” é expressão
da disputa de interesses no “campo científico”. Não é natural o fato de
alguns pares serem alçados à posição de classificadores, os quais,
no final das contas, determinam o reconhecimento e a qualidade da
produção acadêmica: é o prestígio e o desprestígio que estão
em jogo. Não é pouca coisa! Aliás, nem sempre é explícito a
forma como estes são escolhidos para cumprirem tarefas nem sempre
vinculadas aos interesses dos que compõem a maioria do “campo
acadêmico”. Trata-se, na essência, da disputa por ser ungido
enquanto “autoridade científica”, da conquista da legitimação
dos seus pares.
Diante
do peso da “autoridade científica” é quase impossível não se
curvar aos procedimentos, critérios e classificações. Ela, a
“autoridade”, faz o seu trabalho; façamos o nosso. E o faremos
melhor se nossos objetivos extrapolarem os limites da adaptação e
do conformismo, sem a “servidão voluntária” que apazigua as
nossas consciências e nos torna objetos e meros expectadores
alienados em nosso próprio “campo”.
Referências
bibliográficas
BOURDIEU,
P. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato. Pierre Bourdieu:
Sociologia. São Paulo, Ática, 1983, pp.122-55.
CAPES.
Qaulis – Classificação de Periódicos, Anais, Jornais e
Revistas. Disponível em: http://qualis.capes.gov.br/
Acessado em 02.01.2006.
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