Significados e Representações da Irrigação no Nordeste Brasileiro
A
região Nordeste, historicamente objeto de debates nacionais, haja
vista a amplitude que ganhou a problemática das secas, esteve
submetida a políticas especiais do Estado brasileiro desde o início
do período republicano. Esse contexto apresenta-se como
interessante possibilidade para o debate, permitindo convergir um
amplo temário que congrega discussões já tornadas clássicas na
literatura sobre o Nordeste brasileiro. Nesse sentido, destacam-se
os estudos sobre a estrutura política conservadora, o papel do
Estado e do planejamento regional, a problemática das secas, as
desigualdades regionais, a modernização conservadora dentre outras
questões.
Dentre
as diversas modalidades de intervenção pública dirigidas ao
Nordeste, a política de implantação da agricultura irrigada
oferece exemplo ilustrativo para essa discussão, constituindo-se em
matéria-prima para subsidiar a reflexão sobre a ação do Estado
enquanto agente central na elaboração e execução de políticas
territoriais. No âmbito das análises acerca da irrigação pública,
desenvolvida no Nordeste brasileiro, as diferentes interpretações
podem ser agrupadas em alguns eixos discursivos que contribuem para
abrir o debate sobre o tema. Os diversos eixos de discussão
empreendidos sobre o assunto no âmbito político-institucional,
acadêmico, midiático e nos fóruns sociais, informam as características
e interpretações predominantes sobre o intervencionismo estatal.
Os
discursos e entendimentos predominantes representam recortes
interpretativos, constituindo-se em elementos relevantes para
compreensão da realidade nordestina. Os conteúdos assumem
posicionamentos que se opõem, às vezes se complementam, ou mesmo
se reforçam, demonstrando por um lado a riqueza e a diversidade das
análises, mas por outro, exprimindo os interesses e o
posicionamento ideológico. Esse conjunto de idéias sintetiza também
as representações sociais produzidas e disseminadas no tecido
regional.
A
compreensão sobre o caráter do Estado brasileiro, autoritário,
paternalista e clientelista, concorrendo para a apropriação dos
instrumentos de política adotados e sua utilização no
favorecimento de interesses privados em detrimento do benefício da
coletividade regional indica uma possibilidade de leitura (BURZTYN,
1987). Nessa perspectiva, a irrigação pública, colocada em curso
no Nordeste é interpretada como um conjunto de políticas estatais,
orientadas para a legitimação recíproca dos poderes central e
local, sem apresentar resultados efetivos para a transformação da
estrutura política e social arcaica e superação do atraso
regional, manifestado através dos indicadores sócio-econômicos e
estruturais, a exemplo da elevada concentração fundiária e da
renda, que dificulta o acesso à terra e reproduz relações de
trabalho exploratórias, além das condições precárias de
trabalho e de vida da população rural e dos elevados níveis de
analfabetismo e desemprego.
A
concepção do Estado como aparelho a serviço da acumulação
capitalista permite pensar na orientação das medidas de política
no sentido de viabilizar os objetivos de acumulação de capital
(CARVALHO, 1987; GONÇALVES NETO, 1996). Nesse sentido, a irrigação
pode ser compreendida como um processo de patrocínio da modernização
capitalista do espaço agrário brasileiro, cujas ações operam um
processo de instrumentalização do território, construindo objetos
técnicos e normas que favorecem a ação do capital, mas pouco
contribui para a efetivação do desenvolvimento social que
considere uma distribuição equânime da riqueza produzida.
A
implantação de projetos públicos de irrigação pode ser
identificada, também, como alternativa para o desenvolvimento
regional, propiciando o enfrentamento das adversidades físicas e
dos desníveis sócio-econômicos que constituem fator de entrave ao
desenvolvimento da região. Esse discurso mostra-se prevalecente no
âmbito do Estado e dos diversos agentes
privados ligados à atividade - consultores, empresários e
financiadores - podendo ser identificado nos diversos
documentos produzidos pelos órgãos governamentais.
Os
horizontes, abertos pelo advento da agricultura irrigada, permitem
inclusive, segundo Castro (2000), a reinvenção do histórico
discurso da seca. Predominante na Primeira República, o discurso da
seca constituía-se, sinteticamente, na construção de uma imagem
de atraso e pobreza sobre o Nordeste, para sustentar a reivindicação
de recursos públicos federais que, em última instância, garantiam
a continuidade do atraso e a manutenção da estrutura social.
Castro
(1992, 1997) aponta para uma inversão deste discurso que ocorre no
âmbito do Estado e dos agentes interessados na expansão da
agricultura, consolidada com base em tecnologia moderna e com grande
inversão de capitais. O uso da irrigação no semi-árido
nordestino permite um controle diferenciado sobre as condições
naturais, promovendo um equilíbrio entre luminosidade, temperatura
e oferta de água, ingredientes que viabilizam a produção durante
todo o ano, garantindo várias colheitas. Neste sentido, a região
Nordeste assume uma nova imagem, representando uma opção de
investimentos para capitais, em face das novas vantagens
comparativas que apresenta com as disponibilidades de recursos
naturais, ou seja, a natureza outrora difundida como entrave ao
desenvolvimento, agora é um ingrediente chave na superação do
atraso. Esta perspectiva pode ser ilustrada pela citação que
segue:
O Brasil é o segundo produtor de frutas do mundo, e a
tendência é que, muito em breve venha assumir a liderança. O
maior colaborador na busca por este título é o Vale do São
Francisco, onde a natureza não
poupou esforços para oferecer um clima propício e terras com
grande potencial para o desenvolvimento da agricultura irrigada,
notadamente, para a fruticultura. Fatores como esses, somados à
participação da Codevasf na implantação de infra-estrutura para
irrigação e na viabilização de crédito para os pequenos
produtores, vêm transformando
o vale em um pomar multiplicador de negócios e oportunidades (CODEVASF,
s/d, não paginado, grifo nosso).
O
Vale do São Francisco tem se constituído no campo empírico e
experimental, no qual se verifica, de forma marcante, a adoção dos
novos pressupostos da política nacional de irrigação, cuja
especificidade decorre do estabelecimento de uma região de
planejamento governamental, da criação de uma agência federal
especialmente dedicada ao seu desenvolvimento, e do privilegiamento
à iniciativa empresarial nos projetos públicos. A experiência da
irrigação pública no Vale do São Francisco ganha expressividade
no final da década de 1960, ainda com a Superintendência do Vale
do São Francisco (SUVALE), e principalmente, com a criação da
Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF),
ocorrida em 1974, cuja atuação passou a priorizar a agricultura
irrigada. Atualmente esse espaço regional, delimitado em torno da
bacia hidrográfica do Rio São Francisco, possui 25 projetos em
operação e outros 14 nas diferentes fases de planejamento, todos
sob a responsabilidade da Companhia do Desenvolvimento dos Vales do
São Francisco e do Parnaíba
(COELHO NETO, 2004).
O
processo de discussão e elaboração do denominado “Projeto Novo
Modelo de Irrigação” ocorrido no biênio 1999-2000, produziu um
conjunto de documentos publicados pelo Banco do Nordeste em 2001.
Esses textos definem as bases estruturais, conceptuais, regulatórias,
operacionais e financeiras da nova da política nacional de irrigação.
As diretrizes estabelecidas demonstram claramente a orientação da
nova política de irrigação voltada para a viabilização do
chamado “agronegócio” e sua inserção no contexto da globalização,
cuja lógica de mercado deve reger os empreendimentos, buscando
estimular o investimento privado e orientar a produção para as
oportunidades oferecidas pelo mercado. A força e o imperativo deste
movimento apresentam repercussões no nível legal, produzindo em
março de 2000, uma minuta substitutiva para o Projeto de Lei nº
229/95, que objetiva construir as bases legais para viabilizar as
novas diretrizes políticas da agricultura irrigada.
A
implantação de estruturas de irrigação no Nordeste tem
concorrido para o fortalecimento do discurso por parte do Estado e
dos agentes interessados no agronegócio, difundindo a existência
de um processo de modernização, acompanhado de resultados que
indicam o desenvolvimento econômico regional. Esse discurso tem
ganhado força e atingindo os diversos níveis da sociedade.
Dissemina-se, principalmente, nas populações das cidades
priorizadas com a implantação dos projetos públicos, a crença de
que a irrigação contribuirá efetivamente para o desenvolvimento.
Este conteúdo se propaga no imaginário das populações, e em
particular dos irrigantes que depositam nesses projetos todas as
suas expectativas de vida.
O
fenômeno das secas assumiu durante muito tempo uma posição
explicativa inabalável sobre a realidade do atraso nordestino,
produto histórico do poder oligárquico e coronelístico das elites
regionais. A essa interpretação se junta ou contrapõe-se o
discurso das “novas” oportunidades, aliado a apologia do
desenvolvimento sinalizado pela agricultura irrigada. Essa dualidade
ou complementaridade compõe um interessante quadro de análise e de
explicação.
O
conjunto de interpretações discutidas nesse texto aponta para a
construção de um palco complexo e conflitante de idéias, que nem
sempre agem de forma esclarecedora, reclamando novas investigações
e a ampliação do debate, haja vista os novos elementos e conteúdos
colocados para discussão. Nessa perspectiva, alguns questionamentos
emergem para fomentar a investigação e o entendimento da realidade
concreta, oferecendo caminhos para a ação, pois as perguntas
originam as dúvidas e questionam as respostas apriorísticas,
exigindo esforço para elucidação dos fatos, fenômenos e
processos. Essa perspectiva nos instiga a questionar: Que espaços
estão sendo produzidos no Vale do São Francisco pelas políticas
de irrigação? Que especificidades os particularizam? Qual a lógica
que comanda seu processo de produção? Quais os significados e
representações que a irrigação adquire junto às populações
interioranas das diversas regiões que ainda são maciçamente agrárias
e que enfrentam o problema da seca? As novas interpretações, que
apontam o desenvolvimento das regiões beneficiadas com os perímetros
públicos de irrigação, refletem concretamente os resultados alcançados
com as políticas de irrigação?
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