Submissão
e Autonomia
Apontamentos
sobre a gênese, formação e crise do Estado nacional no Brasil
[parte
final]
V.
A Contra-Revolução Neo-Liberal – Estado, Nação e Globalização
Não
temos ainda estudos sobre o processo de flexão da revolução
mundial diante da contra-revolução, empreendida, em sua última
fase, através da cruzada neoliberal de Thatcher, Reagan e Wojtyla.
Certamente desempenharam papel essencial nesse processo as derrotas
da Revolução Chilena, em setembro de 1973, da Revolução
Portuguesa, em 1976, e o impasse da Revolução Afegã, em 1979. Em
fins de 1980, isoladas, as revoluções nicaragüense e salvadorenha
depuseram as armas, apesar de política e militarmente vitoriosas.
O
esgotamento do dinamismo das tendências progressistas ensejadas
pela expropriação da propriedade nas nações de economia
planificada; o confronto sino-soviético; o esforço militar exigido
pela corrida armamentista imposta pelo imperialismo foram alguns
fatores determinantes na restauração capitalista. Esses fenômenos
materializaram-se devido à incapacidade das classes trabalhadoras
nos países de economia nacionalizada de sobreporem-se à ordem política
burocrática. A maior expansão da acumulação capitalista, devido
ao desenvolvimento tecnológico e à super-exploração do mundo do
trabalho, permitiu que a maré conservadora se sobrepusesse ao avanço
revolucionário e os países operários.
Em
dezembro de 1989, o Muro de Berlim caiu sob a pressão e a atração
do capitalismo triunfante e não sob a mobilização
anti-capitalista, dos trabalhadores do Oeste, e anti-burocrática,
das populações do Leste europeu. Soldava-se, assim, a fratura
aberta, em 1917, e ampliada, após a Segunda Guerra, pelo trabalho,
no mundo do capital, com a construção dos primeiros espaços geográficos
tendencialmente livres da acumulação capitalista.
Com
a vitória da contra-revolução, a irracionalidade sobrepôs-se
crescentemente à proposta de reorganização social baseada na
solidariedade e na racionalidade. Deprimiu-se o prestígio do
marxismo e do racionalismo como meios de explicação do mundo. O
lucro tornou-se a pedra de toque social. Multidões de intelectuais
de esquerda desenvolveram operações revisionistas, acomodando-se
à nova ordem, saltaram para o outro lado da trincheira. As
propostas de reforma social foram apontadas como macabros mitos
ideológicos. Os sindicatos enfraqueceram-se. Partidos operários e
socialistas dissolveram-se ou assumiram orientação social-liberal.
Maré
conservadora
Através
do mundo, o desaparecimento dos Estados operários e a maré
conservadora corroeram conquistas sociais históricas e ensejaram
privatizações dos bens estatais e cortes dos investimentos públicos
e sociais. Sob a égide de organismos internacionais – FMI, Banco
Mundial, OMC, OCDE, etc. – impuseram-se medidas fiscais e monetárias
para a transferência de riquezas através do pagamento do capital
financeiro.
Tendo
como prova suas derrotas, decretou-se o caráter
ontologicamente reformista da classe trabalhadora, a morte do
socialismo, a impertinência do marxismo. Propôs-se nova fase da
História onde o progresso e a felicidade seriam garantidos pelo
desenvolvimento incessante da economia de mercado, livre de qualquer
estatismo [Fim da História]. Doravante, o mundo seria mero
desenvolvimento ininterrupto e pacífico da organização social
capitalista e de mercado.
A
dissolução do chamado Bloco Socialista promoveu forte aceleração
e reorientação do processo de globalização e internacionalização
da produção capitalista. A bipolarização e o equilíbrio
relativo entre os dois blocos e as duas potências hegemônicas, que
refletia, ainda que em forma distorcida, o confronto entre o mundo
do trabalho e do capital, foram substituídos pela dominância do
grande capital e do bloco capitalista, sob a hegemonia político-militar
estadunidense.
No
novo contexto, o grande capital aprofundou o processo de reorganização
tendencial do mundo segundo suas necessidades. Movimento que se
concretizou, se reorientou, se adaptou, etc. segundo a maior ou
menor resistência do mundo do trabalho e das nações envolvidas.
Os principais axiomas dessa reorganização mundial foram a
desregulamentação das relações sócio-econômicas; a mundialização
do mercado de trabalho, produção e consumo; a mercantilização
das práticas sociais; o capital, a concorrência e o mercado como
formas de harmonização social; a retração do papel do Estado.
Estágio
senil
A
solução mesmo transitória das contradições estruturais do
processo de acumulação de capitais em seu estágio senil pressupõe
novas formas de organização e de dominação, sociais e nacionais.
A antiga organização do mundo em Estados nacionais tende a ser
superada, reapresentando-se, sob conteúdo patológico, a proposta
dos trabalhadores de um mundo sem fronteiras. Esse projeto tem
primeira concretização tendencial nos grandes blocos
supranacionais – União Européia, Nafta, Mercosul – que tendem
a determinar crescentemente as decisões sociais e econômicas
essenciais, subalternizando as instâncias de decisão nacionais.
As
vantagens para o grande capital da formação da União Européia é
bom exemplo desse processo. Com a unificação monetário-financeira,
desaparece a pluricentenária conversão e especulação monetária;
se estabelece a transparência de preços, salários, taxas e
impostos, etc. São também claros os sentidos políticos da
iniciativa. O processo de unificação iniciou-se em 1948, quando da
Guerra Fria, para criar aliança supranacional que se opusesse, no
Continente, à URSS, como segunda potência mundial, após a derrota e divisão da Alemanha. A unificação monetário-financeira
européia conheceu salto de qualidade em cenário distinto, sob a
crescente hegemonia alemã e com a nova Rússia capitalista
mergulhada em crise sistêmica, tornando-se o euro moeda internacional
de refúgio, sobretudo em relação ao dólar imperial.
A
unificação européia tem-se efetuado na esfera da circulação das
mercadorias, da mão-de-obra, dos capitais, da desregulamentação
das relações de trabalho, etc. e muito pouco no que se refere à
unificação, uniformização e generalização da legislação
social e trabalhista. Nesse sentido, a União Européia e a moeda única
facilitaram a migração das indústrias para as regiões de legislação
mais atrasada, agravando a degradação social e ambiental e
ensejando super-lucros para os capitais atuantes nesse novo
espaço de 25 nações.
Com
sede em Strasbourg, na França, e em Bruxelas, na Bélgica, o
Parlamento Europeu cumpre função sobretudo simbólica, já que detém
escassos poderes reais. O poder real concentra-se no novo Banco
Central Europeu, com sede em Frankfurt, na Alemanha, responsável
pela política monetária geral, e em outros organismos burocrático-administrativos
comunitários, o que permite que o grande capital dialogue através
dos euroburocratas, dispensando as mediações dos políticos
nacionais.
A
gestão das decisões estratégicas pelos órgãos supranacionais e
a naturalização das alternativas sociais e econômicas
tornam a democracia representativa encenação crescentemente
formal. Nesse sentido, a rejeição da população francesa e
holandesa, quando do plebiscito para a ratificação da Constituição
européia, expressou a crescente resistência da população do
Velho Mundo à constituição do espaço europeu como pátria do
grande capital, em geral, e europeu, em especial, através da
destruição da autonomia e das conquistas sociais nacionais.
Formações
supranacionais
A
internacionalização e a globalização em curso sugeririam a
superação dos Estados nacionais, por formações supranacionais,
e, a seguir, um processo de mundialização das relações humanas.
O domínio dos grandes blocos internacionais por potências
nacionais, expressões do grande capital imperialista, assinala o
caráter fantasmagórico da dissolução dos Estados nacionais, no
que se refere às nações hegemônicas que, ao contrário de
flexibilizarem suas fronteiras, reforçaram sua unidade nacional –
USA, Alemanha, Inglaterra, França, etc.
Sob
essas novas determinações, expressam-se fortes tendências
neo-separatistas de regiões enriquecidas que almejam romper laços
com territórios nacionais marginais ou periféricos. No passado
recente, as regiões hegemônicas e ricas dos Estados nacionais
defenderam ferreamente a unidade territorial, questionada pelas regiões
periféricas, objeto de semi-colonialismo interno –
Inglaterra-Irlanda-Escócia; Norte-Sul dos USA; Castela-Catalunha-País-Basco;
Norte-Sul da Itália; Sudeste-Sul e Nordeste do Brasil; Buenos
Aires- provinciais.
No
século 17 e 18, a unidade nacional surgiu da necessidade da produção
industrial nascente de mercados cativos. Em forma geral, interesses
econômicos regionais promoveram, por diversos caminhos e com
diversas justificativas, a gênese de Estados nacionais que
originaram Estados-nações. Em meados do século 19, extravasando a capacidade de consumo
nacional, a produção capitalista européia ensejou a partição
imperialista do mundo. No século 20, a doutrina da autodeterminação
nacional foi apoiada pelo capitalismo estadunidense interessado no
fim dos exclusivismos e na internacionalização da circulação das
matérias-primas, mercadorias e capitais.
Hoje, vive-se inversão da orientação de incorporação dos
territórios pobres pelos ricos, com os territórios nacionais
desenvolvidos procurando separar-se dos atrasados.
Novas
realidades econômicas hegemônicas exigem novas formas de organização
sócio-espacial. A globalização do capital exige novas formas de
reorganização nacional. A grande produção industrial necessita
que regiões do mundo conheçam formas reduzidas-inexistentes de
independência nacional, para que a circulação livre de capitais,
força de trabalho, mercadorias, matérias-primas e tecnologias
desenvolva-se segundo as suas necessidades. O grande capital almeja
reorganização territorial das riquezas e das populações.
Estado
neoliberal
Territórios
de Estados-nações, que funcionaram no passado como reserva de
mercado e fornecedores de matérias-primas e de mão-de-obra, tendem
a ser crescentemente descartados por regiões
industrializadas ou ricas em recursos, que realizam suas produções,
mais e mais internacionalizadas, no mercado mundial. A formação de
micro-nações, providas de Estados formais, separadas de territórios
densamente povoados, enseja a exploração intensiva das matérias-primas,
segundo as necessidades do capital, em contexto de autonomia apenas
formal. Há décadas, tal receita é utilizada nos
‘protetorados’ petrolíferos do Oriente Médio.
Na
Europa, essas orientações já se materializam, como realidade ou
tendência. Na Itália, as ligas nortistas tentam dominar
politicamente o norte da península e propõem o rompimento dos laços
nacionais com o Sul atrasado, monopolizando as riquezas regionais
drenadas, em boa parte, dessa região, durante décadas de
verdadeira ditadura unitarista. A unificação européia facilita
enormemente esse processo de autonomia regional.
A
violenta balcanização da Iugoslávia, sob a ação política e
militar da OTAN, querida e incentivada sobretudo pelos Estados alemão,
italiano e pontifical, concretizou e sintetizou essas tendências. A
independência da Eslovênia, que iniciou a guerra fratricida, pariu
micro-Estado de dois milhões de habitantes que se incorporou à
Europa, como semi-protetorado da Alemanha. O Kosovo tem pouco mais
de um milhão e duzentos mil habitantes.
A
própria dissolução da ex-URSS, apoiada pelos USA e pela OTAN, foi
animada, internamente, pela miragem de crescimento nacional russo
baseado no fim da anterior solidariedade entre as regiões européias
e asiáticas, menos desenvolvidas, nascida da revolução de 1917.
No Iraque, a política de separação das regiões ricas das amplas
populações nacionais não foi implementada plenamente pelos
anglo-estadunidenses apenas devido ao veto turco a Estado curdo e ao
perigo da unificação do sul xiita ao Irã.
VI.
Globalização e Hegemonia do Capital Financeiro no Brasil
No
Brasil, o caráter nefasto da maré neo-liberal foi aprofundado pela
derrota nas eleições de 1989 e, sobretudo, pelos longos anos de
depressão e estagnação econômica, interrompidos apenas por
breves e limitados surtos expansionistas. No novo contexto, impôs-se
também no Brasil as exigências do capital imperialista. Expressões
da hegemonia do imperialismo e do capital financeiro, os governos
Collor de Mello e FHC inauguraram a privatização dos bens públicos
e aprofundaram a liberalização da economia; a desregulamentação
do trabalho; o corte dos investimentos; a abertura dos mercados; o
arrocho salarial; a depressão do mercado interno; o financiamento
social das exportações, etc., tudo para prosseguir o pagamento
incondicional da dívida. Desde os anos 1970, FHC defendera a subjunção
do Brasil ao capital mundial. De 1991 a 2000, a taxa média anual de
expansão do PIB por habitante foi de 1,1%. Iniciadas por Collor de
Mello e consolidadas por FHC, as privatizações das grandes
empresas públicas federais e estaduais – exigidas pelo
imperialismo e pelo capital financeiro – foram implementadas com o
apoio e a complacência dos grandes grupos industriais brasileiros
interessados em participar, ainda que marginalmente, da expropriação
depreciada dos bens construídos com recursos públicos durante os
períodos nacional-desenvolvimentistas.
Sobretudo
os segmentos superiores das classes médias foram conquistados para
as privatizações através da valorização do real que lhes
proporcionou elevação do poder de compra, sobretudo de mercadorias
importadas, às custas do endividamento e desindustrialização
nacional. Boa
parte da grande burocracia sindical locupletou-se igualmente com as
privatizações dos bens públicos. A manipulação ideológica da
opinião pública pela grande imprensa teve papel fundamental no
processo. Em geral, a intelectualidade brasileira vergou-se sem
maior resistência aos novos ventos. Por um lado, as privatizações
e a desregulamentação-liberalização da economia aprofundaram, em
forma radical, a internacionalização da produção industrial e do
sistema bancário e financeiro nacional e, por outro, a perda de
importância do mercado nacional para o capital produtivo, urbano e
rural, nacional e internacional, em ação no Brasil, cada vez mais
voltado para o mercado externo. As privatizações fragilizaram o
movimento operário organizado e a capacidade de intervenção do
Estado na economia e na sociedade.
A
internacionalização da decisão, a crescente importância do
mercado mundial para a realização da produção urbana e rural, o
crescimento da dívida pública, etc. promoveram a perda crescente
do poder decisório pelas classes proprietárias brasileiras, em
geral, e produtivas, em especial, em favor do domínio direto do
capital financeiro, na economia e na política e o enfraquecimento
tendencial dos laços objetivos que cimentaram a unidade nacional.
Esse processo expressou-se através da entrega da gestão econômica
a executores das receitas neoliberais e, a seguir, do Bando Central
a representante direto do capital financeiro mundial que, desde então,
passou a exigir o controle desse último instituto. A
internacionalização da economia nacional enfraqueceu
tendencialmente os laços objetivos que cimentam a unidade nacional,
construído quando do nacional-desenvolvimentismo autônomo e
associado, ao marginalizarem importantes regiões do país como
mercado da produção nacional. Em 2003, SP, RJ, MG, e os três
estados sulinos perfaziam 71,5% do PIB nacional. Em médio e largo
prazo, esse processo pode ensejar questionamento do unitarismo
nacional, pelo imperialismo, que receberá certamente o apoio de
segmentos proprietários e populacionais nacionais.
Como
resultado desse processo, um novo Estado nacional em construção
impulsiona incessantemente a internacionalização da economia e a
subjunção da sociedade brasileira às necessidades do capital
financeiro internacional e nacional. A principal essência desse
novo Estado é sua afirmação como executor de decisões
econômico-sociais e sua crescente abdicação como definidor
das mesmas. O congelamento da autonomia do Estado diante de
realidade econômico-social naturalizada através de decisões
institucionais, de tratados, de instruções legais, etc. constitui
a forma de negação da passada função do Estado de expressão dos
interesses das classes exploradoras nacionais, em prol da reiteração
incessante das necessidades do capital financeiro
internacionalizado.
A
longa metamorfose petista
A
contra-revolução liberal, a derrota eleitoral de 1989, as
privatizações, o longo processo de exploração financeira e
estagnação econômica – desemprego, queda de salários,
precarização do trabalho, etc. – enfraqueceram objetiva e
subjetivamente o movimento social brasileiro, em geral, e suas
principais organizações, em especial – PT, CUT. O processo de
evolução do PT de organização classista e anti-capitalista a
partido social-liberal deu-se através de transformações
quantitativas que ensejaram rupturas qualitativas. O fato de que,
enquanto refluía o movimento social e sindical, no mundo e no
Brasil, o PT elegia seus primeiros parlamentares e administradores
municipais, facilitou seu rompimento crescente com o movimento
social e o programa classista.
Já
em inícios dos anos 1980, a proposta de organizar o PT a partir de
militantes filiados impôs-se sobre a de partido assentado em militância
necessariamente nucleada e ligada ao movimento social. Esta última
proposta foi acusada na época de neo-leninista. Como recém-assinalado,
nesses anos, enquanto refluía o movimento social, avançava a
participação do PT na administração do Estado. Em fins de 1982,
elegiam-se os primeiro dez deputados federais e estaduais, cem
vereadores e dois prefeitos. A forma de organização como partido tradicional,
o refluxo do movimento social no mundo e no Brasil, a conquista de
postos legislativos e administrativos ensejaram o PT fosse
crescentemente dirigido por parlamentares, administradores,
fornecedores privados públicos, etc., dependentes social e
economicamente da participação no Estado e, portanto, não mais
voltados para sua transformação essencial, como proposto, ainda
que em forma geral, no manifesto de fundação do PT, em 10 de
fevereiro de 1980 – “O PT buscará conquistar a liberdade para
que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não
hajam explorados e nem exploradores.” Nas décadas seguintes,
esses setores desenvolveram-se exponencialmente, transformando-se na
espinha dorsal do partido.
A
metamorfose petista facilitou o abandono do PT das propostas
socialistas, democráticas, distributivas, etc., ainda que difusas,
pela simples defesa de gestão honesta e compassiva da
sociedade de classes. Esse
processo, comandado pelo núcleo hegemônico do partido – Lula da
Silva, José Dirceu, Aluízio Mercadante, Luiz Gushiken, Luiz Dulci,
José Genuíno, etc. –, expressou movimento pela integração-gestão
da sociedade de classes apoiado por dezenas de milhares de petistas,
nas direções superiores, médias e inferiores. Esses
setores compuseram a sólida base social da Articulação e, a
seguir, do Campo Majoritário. Os segmentos petistas mais à esquerda,
envolvidos igualmente nesse processo, serviram-se do orçamento
participativo e de referenciais formais ao socialismo,
para justificar a participação na gestão do Estado, considerada já
como campo natural da ação política.
No
Rio Grande do Sul, as administrações petistas municipais –
dezesseis anos – e estadual – quatro anos – realizadas sob a
influência e participação maciça da ala esquerda do PT,
sobretudo da Democracia Socialista, não realizaram sequer uma
modificação substancial na sociedade e no processo de acumulação
de capitais, respeitando caninamente os direitos de propriedade, em
geral, e do capital financeiro, em especial – pagamento da dívida.
Sobretudo durante a segunda, terceira e quarta gestão de Porto
Alegre, e durante o governo petista do Estado, o pequeno, médio e
grande capital privado foi financiado com recursos públicos –
FUNDOPEM, Primeiro Emprego, etc. As políticas de arrocho salarial e
de corte de investimentos para o pagamento da dívida foram
comandadas por militantes da Democracia Socialista, com o apoio do
Secretariado Unificado da IV Internacional. O plano diretor de Porto
Alegre entregou literalmente a cidade à industria da construção.
A
luta pela terra
Nascido
da luta pela terra em fins dos anos 1970, com o apoio condicional da
hierarquia da Igreja e incondicional de seus segmentos progressista
e da esquerda política e social brasileira, o MST mobilizou-se pela
reforma agrária através da distribuição individual e parcelar da
terra, nos marcos da Constituição, com indenização dos latifúndios
improdutivos expropriados. Nas últimas décadas, o MST conquistou
direta e indiretamente a terra para centenas de milhares de famílias,
minimizando o drama de multidões de pequenos agricultores que
abandonavam o campo devido à crise estrutural da produção agrícola
familiar, sob a crescente capitalização e orientação para as
exportações da produção rural no Brasil.
O
MST estabeleceu profundas raízes com o movimento social do campo,
inicialmente na Região Sul, entre colonos de descendência européia,
a seguir através de todo o país, entre população de origem
nacional, centralizando, por primeira vez na história do Brasil, a
vontade e interpretando os interesses
econômicos, sindicais, políticos e ideológicos de
importantes segmentos da população rural – camponeses sem
terras; camponeses com pouca terra; pequenos proprietários. Não
houve intervenção do MST no proletariado rural que conheceu
importante impulso com o desenvolvimento do agro-negócio no Brasil.
As
ligações com a Igreja; o projeto de reforma agrária com indenização;
a representação de pequenos-proprietários, etc. ensejam que o MST
proponha politicamente a retomada do
nacional-desenvolvimentismo autônomo, através da associação das
classes populares com burguesia nacional progressista. Projeto
desenvolvido sobretudo no interior do PT, partido do qual o MST
constitui uma das principais bases sociais, elegendo nele deputados,
vereadores, prefeitos, indicando ccs, etc. O projeto do MST propõe
a transformação e não a refundação do Estado no Brasil.
A
própria representação sindical cria vinculação do
MST ao Estado, já que sua direção é obrigada a reivindicar,
incessantemente, dos governos municipais, estaduais e federal, recursos
para a sobrevivência, não raro física, das milhares de famílias
acampadas ou assentadas, vivendo em situação patética –
alimentos, financiamentos, saúde, educação, etc. Sobretudo após
ocupar cargos executivos estaduais pelo PT,
a concessão de recursos tendeu a ser condicionada ao apoio
do MST a ataques do partido ao movimento social urbano, o que
ensejou rompimentos de fato do bloco político implícito dos
trabalhadores urbanos e rurais – greve da rede pública no RS,
durante o governo Olívio; apoio à reforma neoliberal da Previdência;
apoio à reforma neoliberal da Educação; apoio à política de salário
mínimo; apoio ao governo quando do escândalo do Mensalão, etc.
Sem satisfazer as reivindicações do MST, o PT no governo tem
mantido a neutralidade do Estado no que se refere à mobilização
e luta pela terra.
Procurando
superar as contradições inevitáveis à representação sindical
associada à direção política, o MST construiu e impulsionou a
Consulta Popular, como seu braço político informal. A defesa pela
Consulta Popular de política frente-populista e
nacional-desenvolvimentista com os segmentos sadios do
capitalismo nacional, no contexto de opção estratégica difusa
pelo socialismo, levou a organização ao impasse político no qual
se encontra hoje, sobretudo após a vitória do PT e de Lula da
Silva, em 2002, que materializou a inconseqüência da estratégica
política proposta.
PT
– consolidação do social-liberalismo
Em
2001, quando das articulações para a campanha presidencial, o
colaboracionismo, de direita, centro e esquerda, era metamorfose
consolidada no PT, como um todo. Essa tendência expressava-se com
destaque na direção petista organizada em torno de Lula da Silva.
Nesse então, os segmentos de esquerda petista, com alguma orientação
classista, não contavam já com qualquer força efetiva no PT,
sendo tolerados sobretudo como ferrolho contra indesejável
rompimento das bases sociais mais radicalizadas que favorecesse e
facilitasse eventual recomposição política e sindical classista.
Quando
da quarta candidatura de Lula, o programa petista, discutido à
margem do partido – Instituto da Cidadania –, prometia respeito
às privatizações, ao pagamento da dívida, à propriedade
latifundiária; abandonava a proposta de expansão dos salários, da
saúde, da segurança, etc.; prometia desenvolvimento apoiado nas
exportações e em mercado interno dinamizado com medidas fiscais e
inflação aceitável. Abandonava a rejeição da dívida, a
reconstituição da área pública, a ampliação da reforma agrária,
etc. O deslize programático não conheceu questionamento dentro do
PT. Nesse então, a candidatura constituía operação burocrática
da direção petista, sem maiores esperanças de vitória, para não
perder as posições no partido e na sociedade.
Os
governos Collor e FHC não conseguiram empreender o desmonte total
das conquistas sociais trabalhistas exigidas pelo grande capital –
previdência pública, legislação trabalhista, etc. –, sobretudo
devido à resistência do movimento social, apoiada com reticências
pelo PT e pela CUT. Em
inícios de 2002, a crise social, econômica e política do governo
FHC inviabilizava a própria versão desenvolvimentista do
PSDB como proposta capaz de prosseguir, sem alto custo
social, a subjunção da sociedade brasileira sobretudo aos
interesses do capital financeiro, ensejando que o imperialismo e o
grande capital nacional discutissem soluções eleitorais
alternativas – Roseane Sarney e Ciro Gomes, sobretudo.
Consciente
da nova oportunidade, a nomenclatura petista radicalizou quantitativamente
o caráter colaboracionista do programa, assumindo publicamente
[Carta ao Povo Brasileiro] o compromisso com o grande capital
nacional e internacional: respeito às privatizações; impunidade
aos corruptos e corruptores; pagamento incondicional da dívida;
superávit primário; apoio incondicional e radicalização das
exportações; arrocho salarial; defesa da autonomia do Banco
Central; Lei de Falências que privilegiasse o capital bancário;
reformas liberais da previdência pública, da legislação
sindical, da legislação trabalhista, etc.
Cumprindo
a palavra
Na
Espanha, Itália, França, Inglaterra, etc., o grande capital já
provara, com excelentes resultados, a entrega do governo a partidos
de origem operária e popular, convertidos ao social-liberalismo,
com vínculos profundos com o movimento social e, portanto, em
melhores condições de traí-lo – PSOE, ex-PCI, trabalhismo inglês,
etc. A qualificação do PT como melhor aplicador do programa
neoliberal no Brasil ensejou o apoio político e econômico do
grande capital à candidatura petista. O candidato do PSDB teve até
mesmo dificuldade para financiar o segundo turno da campanha. Apesar
da adesão explícita e implícita ao grande capital, o candidato
petista contou com o maciço apoio da esquerda e do movimento
social, no primeiro turno, e de sua quase totalidade, no segundo,
com a adesão do PSTU. Apenas o minúsculo PCO e grupos e indivíduos
sem expressão política chamaram ao voto nulo no segundo turno,
registrando a profunda crise política e ideológica que submergia a
esquerda e o movimento social.
O
governo organizou-se para cumprir as promessas: entregou os ministérios
essenciais a personalidades da confiança do grande capital: Banco
Central, Finanças, Indústria e Agricultura. Os segmentos
nacional-desenvolvimentistas receberam transitoriamente o poderoso
BNDES e ministérios despidos de significado pelos cortes orçamentários
– Ciência e Tecnologia e Comunicações. A entrega do Ministério
de Desenvolvimento Agrário a militante da DS-SU da IV Internacional
e postos diretivos do INCRA e da EMBRAPA a militantes-simpatizantes
do MST satisfizeram, momentaneamente, e neutralizaram, a seguir,
aquele movimento, que sequer pode exigir mudança de ministro, ao
ver as promessas governamentais não serem cumpridas.
A
política recessiva imposta pelo governo petista – através de política
de juros altos, restrição de empréstimos, corte nos
investimentos, etc. – foi uma das mais impiedosas conhecidas na
história do Brasil republicano, ensejando a queda dos salários,
retração do consumo e importações, desemprego galopante, depressão
da indústria voltada para o mercado interno, etc. A desvalorização
monetária, o arrocho salarial, a queda do consumo, etc., no
contexto da forte expansão do mercado mundial, motivaram forte
crescimento das exportações, único setor em crescimento durante
2003, quando o país conheceu forte recessão e crescimento zero.
O
movimento social, debilitado por fenômenos históricos próprias a
sua origem, pela dispersão geográfica, por duas décadas de recessão
e desemprego tendenciais, pela contra-revolução neoliberal
vitoriosa, desorganizado pela incorporação direta e indireta ao
governo de milhares de dirigentes políticos e sindicais, etc.
empreendeu frágil resistência ao prosseguimento e aprofundamento
das medidas neoliberais. A principal reação foi desenvolvida, em
agosto de 2003, pelos trabalhadores públicos, contra a reforma
neoliberal da Previdência, que buscava a expansão da extração do
sobre-trabalho aos trabalhadores, através do confisco de conquistas
sociais, da introdução da previdência complementar, do
fortalecimento do projeto de privatização plena do seguro social.
Um
novo partido para os trabalhadores
A
resistência ao Projeto ensejou greve de cinqüenta dias e manifestação
de cinqüenta mil trabalhadores em Brasília [6.8.2003]. Através da
tradicional responsabilização dos trabalhadores públicos pela
crise, da defecção da burocracia sindical, de apoio explícito ou
implícito à reforma de movimentos sociais, etc., o grande capital
e o governo isolaram socialmente a mobilização, impulsionando a
aprovação parlamentar da reforma, que se apoiou igualmente na
compra financeira de parlamentares, como mais tarde comprovado – Mensalão.
Apesar de seu refluxo posterior, a mobilização dos trabalhadores públicos
determinou primeira fratura no aparato petista e avanço da consciência
dos trabalhadores, ensejando movimento pela fundação de novo
partido classista, democrático e socialista para os trabalhadores.
Produto
dos trabalhadores públicos isolados, a mobilização contra a
previdência não teve força suficiente para ensejar fratura maior
no PT; atrair outras forças sociais, com destaque para o operariado
industrial; impor fusão, nem que fosse parcial, dos dois principais
núcleos políticos que participavam do movimento: o comandado pelos
quatro parlamentares expulsos do PT e o dirigido pelo PSTU.
Na incapacidade de fusão desses dois segmentos contribuiu
indiscutivelmente a falta de vontade política da direção dos dois
grupos. A esquerda no PT – Articulação de Esquerda, Força
Socialista, Democracia Socialista, O Trabalho, etc. – prosseguiu
justificando a adesão ao Estado como participação em
“governo em disputa”, formando movimentos de “resgate”,
“blocos de esquerda”, etc. Sequer em 2005, constrangida pelo escândalo
do Mensalão e pela radicalização conservadora de Lula da Silva e
de seu governo, esse segmento rompeu substancialmente com o
PT-governo .
Na
medida em que a defesa de participação em “governo em disputa”
perdeu efetividade devido à consolidação do caráter conservador
do governo Lula da Silva, a defesa do governo neoliberal deu-se, em
forma marginal, através da proposta de abandono da luta pela
construção de instâncias e ferramentas políticas novas [novo
partido]; de pela desqualificação da ação política e de
qualificação da mobilização e pressão social pela base – movimentismo.
Ajudado
pela violenta exploração da classe trabalhadora e da sociedade
brasileira, pela expansão do mercado internacional, pelo processo
recessivo anterior, etc., em fins de 2003, iniciou-se a fase
expansiva da economia brasileira, com crescimento absoluto de pouco
mais de 5% do PIB, em 2004. Esse processo alastrou-se, em forma
limitada, a seguir, para o consumo e para a produção interna,
sobretudo devido à expansão das exportações, favorecida pela
conjuntura internacional, e à legalização do crédito pessoal, a
taxas usurárias, garantido pela folha de pagamento. A manutenção
da alta taxa de juros imposta pelo capital financeiro nacional e
internacional e o pagamento incondicional da dívida determinaram
que, nesse momento de crescimento econômico, a expansão do PIB
brasileiro fosse inferior à média latino-americana, em geral, e
dos países de maior crescimento, em particular – Venezuela,
Argentina [8,7% do PIB em 2003; 9% em 2004; expectativa de 7%
em 2005], etc. Durante todo o
governo Lula da Silva, aprofundou-se a fragilidade e a
internacionalização da economia, através da compra do controle de
empresas nacionais e investimentos diretos; aumentaram as
disparidades sociais e regionais; cresceu o enfraquecimento dos laços
unitários nacionais objetivos.
Fortalecimento
neoliberal
A
forte expansão dos interesses financeiros e exportadores permitiu a
aprovação da Lei de Falência; a lei das Parcerias Público-Privadas;
o defenestramento dos ministros ligados ao
nacional-desenvolvimentismo – Roberto Amaral, da Ciência e
Tecnologia; de Miro Teixeira, das Comunicações; de Carlos Lessa,
do BNDES. O programa Parcerias Público-Privadas, implementado pelo
governo neoliberal inglês, após a conclusão da privatização das
empresas públicas rentáveis, materializa o sonho capitalismo de
investimento sem risco, ao garantir taxa mínima de retribuição
para investimentos na construção-gestão de serviços e
infra-estruturas públicas – estradas, pontes, saneamento, etc.
–; permitir que os capitais provenham parcialmente da área pública
– BNDES, etc.; e retribuir as aplicações com ações das
valiosas estatais, no caso da inadimplência pública.
Em
2005, apesar de prosseguir a situação internacional positiva, o
ciclo expansivo da economia nacional manteve-se em patamares
limitados, esperando-se que não supere de muito os 3,5%. Em julho
de 2005, abriu-se forte crise política ensejada pela denúncia da
expansão da base de sustentação parlamentar do governo e de sua
administração através de remuneração econômica. A crise
registrou o enfraquecimento relativo do governo, expresso nos pífios
resultados nas eleições municipais de 2004 e na eleição de
Severino Cavalcanti, em 15 de fevereiro de 2005. A interpretação
incondicional das exigências do capital financeiro – juros
elevados; cortes nos investimentos; câmbio flutuante – ensejava
fricções com segmentos do capital sem vinculações com o capital
financeiro, sobretudo voltados para o mercado interno, e com facções
exportadoras urbanas e rurais.
A
fragilização da base popular e a incapacidade de responder às
diversas facções proprietárias ensejaram que o PT tivesse sua
proposta de manter-se, em 2007-2010, como bloco intérprete do
grande capital, duramente contestada pelos partidos da direita
tradicional – PSDB e PFL, sobretudo. Durante julho, agosto e
setembro, a crise fragilizou o governo e a própria gestão
conservadora do país, emperrando iniciativas como as reformas
universitária, política, sindical, trabalhista, etc., situação
à qual se opôs, explicitamente, o grande capital,
nacional e internacional.
O
respaldo do grande capital; o apoio da burocracia sindical e da direção
do MST; o prosseguimento da expansão econômica relativa e da
desmobilização popular; a fragilidade da oposição de esquerda;
disposição da direita tradicional de não envolver nas investigações
o presidente e os ministros neo-liberais, etc. ensejaram que a crise
se estabilizasse no contexto de radicalização conservadora do
governo Lula da Silva, que se afastou e afastou relativamente seu
governo do PT – substituição de Dirceu por Dilma Russef na Casa
Civil; defenestramento de Olívio Dutra em favor de ministro
conservador, etc. A crise debilitou relativamente Lula da Silva, o
governo e o PT, sem comprometer efetivamente a recondução de Lula
da Silva em 2006.
Crise
e estabilização
Através
da reafirmação do compromisso conservador e da orientação
neoliberal do governo, Lula da Silva procurou superar a crise e
criar as condições para candidatar-se, em 2006, como cabeça de
bloco político organicamente mais harmônico. Ou seja, procurou
preparar condições para aliança eleitoral na qual um PT
redimensionado e com sua nova natureza política consolidada
constituiria mera base de apoio popular ao projeto neoliberal
radicalizado, eventualmente ao lado do PMDB, PP, PTB, PL. Uma
operação que procura assegurar a continuidade da adesão do grande
capital ao prosseguimento da gestão governamental por político com
origem e laços populares, agora à cabeça de coligação com vínculos
orgânicos mais sólidos com as classes conservadoras, capaz de
gerir política anti-popular mais dura que ponha fim às contradições
entre o grande capital financeiro e o capital produtivo.
Discutida
publicamente pelo governo, a proposta de Delfim Netto de “Déficit
Nominal Zero” constituiu programa de soldadura da fratura atual
entre o capital financeiro e setores produtivos não ligados a ele.
O programa propõe reforma constitucional que anule as vinculações
orçamentárias de gastos sociais – saúde, educação, etc. – e
imponha cortes ainda mais radicais nos gastos públicos. Assim, o
governo manteria o elevado superávit primário, necessário
ao pagamento da dívida, sem recorrer a empréstimos que
aumentem as taxas de juros reais, atualmente as mais elevadas do
mundo.
O
corte dos gastos públicos permitiria que o governo retomasse os
investimentos infra-estruturais exigidos principalmente pelos
segmentos exportadores – hoje em menos de meio por cento do PIB.
Permitiria igualmente recuo da carga tributária, que seria limitada
por Lei de Diretrizes Orçamentárias, e a queda da taxa de juros,
ensejando a retomada de investimento do capital privado, hoje abaixo
aos 20% do PIB, em uma potenciação da independência da produção
interna do mercado interno. A retomada dos investimentos públicos e
privados daria-se no contexto do prosseguimento da orientação da
produção para a exportação, com ainda maior encolhimento do
consumo interno. Propõe-se que essa política permitiria
crescimento da participação das exportações de 16 para 25% do
PIB. Os crescentes setores populares marginalizados do trabalho e da
produção seriam objetos de medidas assistenciais e policiais.
A
viabilidade desse projeto fortaleceu-se com a crescente estabilização
do governo, já em outubro de 2005, materializada na vitória de
Aldo Rebelo para presidente da Câmara, candidato de Lula da Silva,
e a manutenção do controle sobre o PT do Campo Majoritário, através
da derrota das propostas de refundação de centro – Tarso
Genro – ou de centro-esquerda – Raul Pont e Pomar –, do PT, no
segundo turno da PED. A defecção orgânica marginal de deputados e
militantes petistas, durante e após a PED, registram a solidez do
Campo Majoritário como expressão, por um lado, de uma compacta e
coesa camada de milhares de militantes com interesses diretos
na gestão do Estado – parlamentares, administradores,
fornecedores, sindicalistas, etc. – e, por outro, de vasta base
social, formada por milhões de eleitores, conquistada ou
neutralizada, em forma mais ou menos consciente, pelo projeto
governamental em desenvolvimento – paz social relativa;
assistencialismo; colaboracionismo social, etc.
Novo
bloco social
Em
fins de 2005, o grande capital conseguiu construir cenário
eleitoral em que se digladiarão dois blocos político-sociais com
praticamente o mesmo projeto de radicalização da metamorfose em
processo no Brasil, iniciado quando do último governo militar, com
salto de qualidade nos governos Collor de Mello e FHC. Processo que
ensejou crescente barbarização da sociedade nacional; perda de
autonomia das classes proprietárias sobre o país; fragilização
dos vínculos unitários nacionais, etc., devido à crescente
hegemonia do capital financeiro nacional e internacional;
desqualificação do mercado interno como centro de realização da
produção nacional; internacionalização da produção;
super-exploração estrutural das classes trabalhadoras, etc.
No
passado, de forma clara e indiscutível, diante da necessidade, para
materializar a autonomia nacional, de opor-se ao grande capital
mundial, de romper a aliança com o latifúndio, de estender a
centralização e concentração de capital nas mãos do Estado, de
ceder maior poder político e econômico às classes trabalhadoras
rurais e urbanas, a burguesia industrial nacional optou por
associação subalternizada ao processo de internacionalização da
sociedade brasileira responsável por crescente espoliação e
barbarização nacional que fragiliza a própria unidade do país.
Em
comprovação de sua incapacidade estrutural de representar os
interesses do país, as classes industriais nacionais procuraram e
aceitaram a submissão da sociedade brasileira ao capital
imperialista que lhe ensejou, finalmente, a perda efetiva crescente
do domínio político e econômico sobre o país. Num sentido histórico,
por sua essência ontológica, o operariado industrial constitui o
único setor capaz de reunir as classes trabalhadoras e intermédias,
urbanas e rurais, em torno de sua proposta programática para a solução
efetiva das contradições e impasses sociais e nacionais.
Devido
às condições do movimento social, em geral, e da classe operária
industrial, em especial, a construção de bloco político-social em
torno das classes operárias industriais não constitui mero projeto
de explicitação e convencimento programáticos. Ao contrário,
exige a pré-constituição orgânica, política e programática dos
trabalhadores industriais em classe para si e, nesse processo, sua
explicitação como demiurgos das transformações sociais, através
do estabelecimento de laços sociais, programáticos e orgânicos
com as restantes classes trabalhadoras e populares.
A
construção do novo bloco social exige luta incessante pela
autonomia dos trabalhadores, sobretudo diante das propostas
tradicionais de abatimento programático em prol de alianças táticas
ou estratégicas com setores progressistas, democráticos,
nacionais, etc. das classes proprietárias. Na atual
conjuntura, essa redução programática tem sido defendida como
necessário à construção de programa sintético e mínimo para
mais fácil estabelecimento de ampla aliança social, sobretudo
através dos pleitos eleitorais, com destaque para o de 2006. Nesse
sentido, impõe-se, como parte do programa democrático mínimo das
classes trabalhadoras, imprescindível para iniciar o processo de
solução da crise social e nacional que vive o país, a luta pela:
·
rejeição imediata da dívida
externa e interna, no que se refere ao principal e aos juros;
·
re-nacionalização e
desenvolvimento acelerado, sob controle social, da área pública
privatizada;
·
nacionalização do comércio exterior, sob controle
social;
·
nacionalização do sistema
financeiro e bancário, sob controle social;
·
expropriação sem indenização
dos grandes latifúndios, para efetiva democratização da posse da
terra;
·
desenvolvimento acelerado pelo
Estado da tecnologia e da ciência nacional, sob controle social;
·
aumento imediato e substancial
do salário mínimo;
·
redução da jornada de
trabalho, sem redução de salários;
·
universalização da saúde e do
ensino [nos seus três níveis] públicos, gratuitos e de qualidade;
·
revogabilidade popular de
parlamentares e governantes;
·
direito popular de plebiscito e
iniciativa legislativa.