A dimensão
estética das desigualdades sociais modernas
Em
uma excelente análise acerca das formas de classificação
intersubjetiva entre os indivíduos modernos Pierre Bourdieu, em seu
Dintinción (2002),
mostra como a diferenciação
simbólica entre as classes e os segmentos de classe naturaliza-se
objetivamente em tipos diferenciados de gente. Isto causa
impactos psíquicos profundos na medida em que afeta diretamente a
condição emocional dos indivíduos causando depressão, timidez e
baixa auto-estima, o que resulta diretamente em impactos sociais
concretos, dificultando o desempenho individual nas relações
diante do outro, principalmente quando o outro é alguém favorecido
pelos signos da distinção.
A
mesma lógica e aplicada por Bourdieu, agora em seu Dominação
Masculina (1999),
quando analisa a forma como os gêneros são transformados em
discursos, onde uma classificação cultural camufla-se em aparências
naturais. Nesta perspectiva ele identifica o corpo como principal
portador e reprodutor de diferenças hierarquizantes socialmente
construídas. Este processo ocorre na aquisição do habitus, que
para ele significa um conjunto de esquemas avaliativos e formas de
comportamento incorporados pré-reflexivamente pelos indivíduos em
sua trajetória de vida.
Sendo
assim, desejo aplicar estas categorias interpretativas a dois
aspectos centrais da vida cotidiana: as relações
profissionais e as relações
afetivas. De acordo com Axel Honneth, em seu Luta por reconhecimento, estas são duas esferas intersubjetivas
fundamentais para a construção da auto-estima e autoconfiança dos
indivíduos (Honneth, 2003) Ademais, Charles Taylor desenvolve nesse
sentido a velha tese weberiana da afirmação da vida cotidiana
ressaltando que as esferas do trabalho e da família passam a ser na
modernidade o centro de nossa valoração e sentido, bem como da
constituição de nossa identidade (Taylor, 1997). De modo que estas
questões tocam hoje no cerne de nossa existência. Por isso é
fundamental compreender os detalhes das distinções sociais nestes
aspectos. Aqui eu desejo acrescentar a função diferenciadora
exercida pelos critérios estéticos de classificação relacionados
aos padrões de beleza. Neste ponto é necessário lembrarmos os
signos de classificação estética naturalizados na sociedade
ocidental moderna, bem como a forma como lograram eficácia.
Estes
signos são tipos étnicos e genéticos que estão culturalmente
classificados em uma hierarquia muito bem definida. Esta classificação
está internalizada em nosso imaginário coletivo, condicionando
nosso olhar diante das formas físicas do outro e de nossa própria.
Isto significa que o indivíduo moderno, a todo momento, conscientemente ou não, situa a
si mesmo e ao outro dentro de uma classificação estética
arbitrariamente pautada em diferenças físicas.
Esta
hierarquia possui uma origem complexa. No mundo ocidental, temos
como belo o modelo físico do europeu, em conseqüência do fenômeno
eurocêntrico da colonização, em detrimento dos demais tipos físicos.
Este padrão se desenvolveu na medida em que se consolidou, nas nações
colonizadas, um modelo de sociedade desigual dominado pelos brancos
europeus. Sendo assim, a afirmação da imagem do europeu como mais
evoluído, superior, inteligente e belo, é fundamental para a eficácia
simbólica da distinção social estética. A afirmação da imagem,
na verdade, é uma naturalização de uma hierarquia entre corpos
mais perfeitos e menos perfeitos.
Neste
ponto, gostaria de chamar a atenção para o fato de que a cor da
pele nem sempre consiste no critério mais importante dessa
classificação. O padrão sutil e subliminar de beleza está muito
mais implícito nos traços do rosto e nos cabelos do que na cor da
pele. Um negro de traços faciais finos, típicos do europeu,
geralmente é percebido como mais belo do que um branco de traços
largos, típicos dos africanos. Neste contexto os nordestinos, por
exemplo, sofrem preconceitos sutis relacionados a sua aparência,
principalmente nos núcleos regionais de maior colonização européia.
A
construção e difusão do olhar estético condicionado se processa
de forma subliminar, nas entrelinhas, nos signos. Neste sentido, a mídia
reflete e reproduz com impressionante vigor estes padrões estéticos.
É importante lembrar que estes padrões, além de se materializarem
em tipos físicos naturalizados, se esquematizam e combinam também
em tipos de comportamento e em modismos, na lógica entendida por
Bourdieu como uma disputa entre as classes e grupos sociais pelo
monopólio do “gosto”, compreendido como um jeito sofisticado e
especial de ser que concede a algumas pessoas o status de
naturalmente melhores (Bourdieu, 2002).
Depois
deste breve parêntese acerca da formação da distinção estética,
podemos nos concentrar na análise de seus impactos psicossociais
nas relações
profissionais. Neste campo tão importante da vida cotidiana,
os resultados dessa diferenciação podem ser irreversíveis. Por
exemplo, um indivíduo classificado como feio pode enfrentar uma
extrema timidez acompanhada por dificuldades de expressão quando
estiver diante de uma entrevista de emprego. Isso quando sua
oportunidade não é vetada mesmo antes, como nos conhecidos anúncios
que solicitam “boa aparência”.
Aqui identifico uma espécie de capital estético, que
em muitos casos pode definir a situação a priori, abrindo ou
fechando portas nas diversas esferas da vida pública.
O
ponto que quero destacar aqui é que a baixa auto-estima causada nos
indivíduos classificados por baixo na hierarquia estética, desde
que ele inconscientemente incorpore e internalize sua inferiorização
como inferioridade,
pode causar danos psíquicos irreparáveis como, por exemplo, a
desistência diante de determinadas situações profissionais ou
simplesmente públicas em que costuma fracassar. Isto significa que
a estética contribui de forma gigantesca para a sensação de
fracasso ou sucesso pessoal e moral nas sociedades modernas.
O
último aspecto desta análise diz respeito aos impactos
psicossociais no campo das relações afetivas.
Principalmente nesta dimensão tão importante para nossa
individualidade, as conseqüências emocionais da distinção estética
através da posse ou não do capital estético socialmente distribuído são
avassaladoras. Isto por que, conforme Honneth em sua análise sobre
a família, as relações afetivas tocam na dimensão primária de
nossa natureza (Honneth, 2003). O problema aqui está na timidez e
introversão geralmente causada nas pessoas desfavorecidas pela
diferenciação simbólica. Os resultados são reais, considerando
que a inibição nas relações afetivas pode causar profunda solidão,
seja com respeito a relacionamentos amorosos, seja com respeito a
amizades, o que pode levar à depressão e até mesmo ao suicídio.
O
condicionamento do olhar pode ser muito bem percebido na fragilidade
dos relacionamentos afetivos modernos, onde o interesse individual
socialmente condicionado, na maioria dos casos, privilegia a beleza
física acima de qualquer outro critério. Este é um bom exemplo de
como os indivíduos sociabilizados são moldados a determinadas
formas sociais que pré-direcionam seu gosto e seu olhar.
Além
do mais, podemos pensar também nos indivíduos situados fora do
modelo físico simétrico considerado normal, ou seja, os portadores
de diferenças físicas assimétricas de qualquer espécie ou
pessoas de qualquer tipo de aparência incomum. Nestes casos, o que
predomina é a estética
da maioria, concebendo
assim as minorias diferentes como verdadeiras anomalias físicas e
conseqüentemente sociais. Também neste tipo de hierarquização os
impactos psicossociais podem ser devastadores, tanto no mundo
social, seja em sua dimensão pública ou privada, afetiva,
profissional ou de qualquer outro caráter, quanto no complexo mundo
subjetivo individual.
Deste
modo, uma mudança em nosso olhar se faz urgente. Isto por que as
classificações simbólicas, como aquelas já estudadas por
Bourdieu entre classes e gêneros, assim como as estéticas
ressaltadas aqui, são fenômenos complexos que invisivelmente
contribuem para a perpetuação das diferenças sociais. Na
modernidade, nosso olhar economicista condicionado pela forte presença
do capitalismo competitivo em nossas vidas não consegue tematizar
estas questões, e é exatamente por passarem despercebidas que
alcançam tanta eficácia na reprodução de nossas diferenças.
Sendo assim, podemos compreender então que igualdade é também uma
questão moral, compreendida aqui como pano de fundo normativo que
conduz nossas atitudes, além de material. O acréscimo desta
perspectiva em nossa autopercepção é um avanço indispensável na
luta contra as desigualdades modernas.