A
amizade em tempos sombrios (I)
(Atenção:
companheiros, camaradas, colegas e amigos!)
“Queria ser o amigo de muitos
homens,
mas não o irmão [de fé] de nenhum
homem”
(H. Arendt, Tempos sombrios, p.
35)
.
“Sem amizade a vida não é nada, pelo
menos se quisermos,
de um jeito ou de outro, viver como
seres humanos”
(Cícero,
p. 133)
A
amizade está em declínio e a solidão está em ascensão. Qualquer
um pode constatar isso no mundo contemporâneo. Os laços humanos
tornam-se cada vez mais frágeis e efêmeros porque vivemos numa época
em que tudo se “liquefaz”, usando a imagem de Z. Bauman. Hoje,
antes mesmo que uma amizade se solidifique, ela está condenada a se
evaporar frustrando a intenção sincera dos pretensos amigos. O
amor também facilmente se evapora. Aliás, a própria vida escorre,
rapidamente, sem que possamos aproveitá-la intensamente como
parecia acontecer com os antigos.
Vivemos
a época das grandes manifestações de massa, das grandes multidões
que acorrem aos estádios para assistir ao futebol, ao culto
religioso, à banda de rock, ao partido político ou ao carisma de
um falso ídolo, mas nunca nos sentimos tão só e sem vínculos autênticos
de amizade.
Nos
dias de hoje já não importa ter amizades autênticas, mas
relacionamentos úteis. O outro é avaliado para ser nosso amigo
instrumental, em função de interesses mesquinhos. Importa
menos um encontro consumatório,
para conversar-por-conversar, do que estar conectado na rede,
para trocar e-mails, participar
de um chat, ser incluído num grupo do orkut,
ou simplesmente jogar, jogar e jogar em rede com os “amigos
virtuais”. A conexão
da Internet ou do celular promete um especial mais-gozar
do que estar “ao vivo” com o outro. Ficar face-a-face está
ficando cada vez menos necessário.
Cresce
o número de gente que se sente intoxicada de gente, daí cada um inventa uma fuga: um relacionamento de
faz-de-conta, contatos apenas virtuais, arrumar um bichinho de
estimação, viver em algum lugar solitário. J. D. Salinger, o
autor de “O apanhador no campo de centeio”, numa rara e
resistente entrevista em 2004, preferiu viver solitário nas
montanhas. Sua halitose, seu jeito de ser e o sucesso do livro
contribuíram para reforçar sua tendência anti social.
A
atitude avessa às pessoas não é adotada apenas por escritores e
cientistas; costuma fazer parte de pessoas que vivem o cotidiano
acadêmico, não obstante o imperativo de eles terem que conviver
com alunos e colegas. “Seria bom trabalhar numa universidade que não
tivesse alunos”, diz um pesquisador que odeia ensinar. Outro me
confidenciou que não acreditava mais na amizade; outro, diz que
somente se interessa conversar com os de “seu nível”. Há
aqueles que substituem os amigos pelos “irmãos em Marx”, ou
“irmãozinhos da psicanálise segundo Lacan”. Um erudito tentou
me convencer de que com a fragmentação irreversível de nossa época
resta cada um ficar na sua, em casa, e “conversar” com Platão,
Aristóteles, Agostinho, Tomas de Aquino, apenas com gente que abre
o caminho da sabedoria e da ascese. Segundo esse erudito “é mais
proveitoso conversar com meus amigos,
pensadores, do que com especialistas de nossa época”.
Hoje
é fácil descartar amizades
potenciais. A falta de disponibilidade para a amizade verdadeira é
tamanha que torna-se visível a resistência para continuar uma
conversa que mal teve um início. Não raro, as poucas amizades que
ousam ultrapassar a barreira do estereótipo precisam vencer as
contingências que concorrem para descartá-las, ou podem
simplesmente serem toleradas por interesses profissionais,
institucionais, políticos,
acadêmicos, comunitários, ou mesmo familiares. Entretanto, segundo
Alberoni (1993), essas indicações, acima, nada têm a ver com o
conceito de amizade.
Militantes não são
amigos
Uma
das primeiras frustrações que tive na militância política de
esquerda foi reconhecer que entre os militantes não existe
verdadeira amizade, mas sim lealdade e interesse na “causa”
revolucionária.
Na verdade, alguém disse que – especialmente em período de crise
política, ou de CPIs – a política não só separa amigos de
inimigos, separa também amigos de amigos e, pior, tende a juntar
inimigos conforme interesses de momento. (Dissidentes do PT, hoje,
parecem “amigos” da direita, contra o governo Lula).
Onde
as relações são
instrumentais não existe verdadeira amizade. As amizades se
sustentam apenas onde as relações são consumatórias.
A política é o melhor exemplo de relações instrumentais, porque,
nela, sempre existe um terceiro elemento que condiciona as relações
humanas, que são: a causa, o interesse do partido que cada um
serve, ser um “não-sujeito”, etc. Na amizade – e no amor,
também – sobressai o impulso
natural e o sentido consumatório
da relação de querer estar com outro, e basta! Embora a
amizade e o amor tenham
os seus próprios e camuflados interesses egoístas, a finalidade de
ambos é a sustentação do vínculo entre as pessoas que se quer
bem.
O
cristianismo é acusado como uma religião que trabalhou
ideologicamente para substituir a amizade, cuja matriz é grega e
laica, pela irmandade, mediada pelo poder e amor divinos.
A ética cristã que aproxima os crentes é o amor que
passa por Deus-Pai, ou ao “próximo”, portanto, não ao “amigo”.
Fontes e definição da
amizade
Os
gregos antigos são fonte de inspiração sobre a amizade. Para
Epicuro (341-270 a.C) “embora não altere o sofrimento nem possa
evitar a morte, [a amizade ou philia]
ajuda a suportá-la (...). Ainda, a philia
é o instrumento indispensável ao artesanato ético interior, pois
a presença do amigo auxilia a procura e a manutenção da
sabedoria...” (Pessanha, 1992).
Epicuro
foi o sábio que mais teve amigos, na antiguidade, tamanho foi o número
deles que vieram saudá-lo no seu funeral. Embora fosse um homem de
saúde frágil, Epicuro, morreu feliz, brindando aos seus amigos com
uma taça de vinho.
Sócrates
(469-399 a.C.) também não se cansava de dizer que o maior bem que
tinha na vida eram os amigos. Entretanto, sua ferina ironia, teria
angariado para si muitos inimigos, dentre eles os sofistas. Uma de
suas preocupações, como filósofo, era ensinar aos discípulos
como fazer e como manter amizade, dado que existem pessoas que
facilmente iniciam uma, mas não sabem como mantê-la.
Platão, seu principal
discípulo, herdou do mestre sua dedicação para com esse assunto,
fazendo vários diálogos elogiando a amizade.
Mas
coube a Aristóteles elevar a amizade à categoria de virtude, que como tal é uma coisa absolutamente necessária para a
vida – mais exatamente, para viver a vida com sentido de
felicidade (gr.: eudaimonia).
“Ainda que possuísse todos os bens
materiais, um homem sem amigos não pode se feliz”, diz.
Homem
do nosso tempo, o sociólogo italiano Alberoni
(op.cit.), observa
com propriedade que amizade só é possível entre “iguais”, ou
entre aqueles que vivem a mesma condição humana. Portanto, é
praticamente impossível existir amizade entre patrão e empregado,
entre professor e aluno, entre médico e paciente, entre
psicanalista e analisando, entre líder e liderados, entre sargento
e soldado, entre uma autoridade e os seus subalternos, etc, porque
sendo relações dessimétricas é natural que exista entre tais
pessoas, respeito, veneração, temor reverencial, adulação, puxa
saquismo, mas não amizade genuína. Para que alguma dessas relações
vire uma amizade verdadeira há que ser superada tal dessimetria, além
delas passarem por provas impostas pelas circunstâncias da própria vida.
Malebranche
lembrou que as atitudes de adulação nada têm a ver com a amizade.
O aluno que adula o professor, longe de promover a relação, reforça
o narcisismo que todo professor não revela, mas se alimenta dele
para exercer bem o seu ofício. A experiência mostra que o aluno
adulador tem outros interesses facilmente adivinhados. Os discípulos
que seguem a orientação de um “grande mestre” vão além da
adulação quando almejam levar suas idéias para o ato, mas não
fundam uma verdadeira amizade. Parece que o enamoramento
e a amizade são de naturezas diferentes, embora existam muitos
pontos de semelhança entre ambos, tais como:
confiança, desejo de estar junto, agradar o outro, trocar pontos de
vista, etc.
É
mais sábio e gratificante para todo o ser humano ser levado por
esse “impulso natural” que é a amizade do que ser movido por
interesses supostamente elevados, onde o outro é reduzido a um mero
objeto-instrumento de uma causa. Foi publicada uma pesquisa em 2005 sobre a relação entre amizade e saúde; além de ela
dar sentido existencial as pessoas ela proporciona saúde física e
bem estar as pessoas envolvidas nesse vínculo afetivo.
Finalizo
com uma observação de meu amigo e escritor José
Carlos Leal:
“Desconfie
de uma pessoa que chama a todos de amigos. Porque, se ele chama a
todos de amigos, provavelmente não se
sente amigo de todos”.
______________
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