Vivendo
no Túnel – ou
o Fim dos Estereótipos
De
Jerusalém
comentando o artigo do Prof. H. Rattner
Analisando
o complicado conflito Israelo-Palestino, e a sociedade Israelense em
si, circulam lá fora muitos estereótipos. É saudável esta
tentativa de uma análise otimista do Prof.Rattner. Mas a situação
não obedece aos estereótipos, e as ilusões são as vezes mais
perigosas do que a realidade. Lamento isto, mas estou vivendo por 45
anos dentro do túnel do conflito israelo-palestinense.
É
verdade que estamos vivendo uma fase nova do conflito. Entre as várias
causas podemos contar a derrubada de Saddam Hussein e o ativismo dos
Americanos; a derrota da intifada e a morte do Arafat; o fim das visões
utópicas da esquerda e da direita em Israel. Resultou um novo
realismo que poderia criar paliativos, soluções intermediárias
sustentáveis e uma redução sensível do sofrimento humano nos
dois lados. O ideal de um acordo de paz duradouro entre dois países
democráticos virou um alvo a ser alcançado somente pelas futuras
gerações. As idealizações sobre uma paz na palma da mão, são
um estereotipo bem difundido.
Os
palestinos sempre foram a carne de canhão dos estados muçulmanos
"amigos". Eles não deixaram estabelecer o estado
Palestino em 1949, mantiveram quatro gerações de Palestinos num
limbo sem parelho de "refugiados", deflagraram três
guerras de agressão contra Israel que foram travados nas terras
palestinas, e quando viram que eram militarmente inferiores,
subornaram os palestinos para efetuar indiscriminados ataques
suicidas. Saddam quis armas atômicas para destruir Israel, ameaçou
com armas químicas, lançou foguetes e pagou dezenas de milhares de
dólares para a família de cada terrorista suicida em Israel. A Síria,
que nunca reconheceu Israel, além de abrigar os remanescentes do
regime do Saddam, está patrocinando e pagando as organizações
terroristas que "agem" em Israel e nos territórios. Em
fim, o Iran, além de subvencionar os crimes terroristas, tem uma
liderança desastrada que quer também a arma atômica para
erradicar Israel do mapa. O ativismo Americano com todos os seus
erros, conseguiu limitar e conter este "perigo externo"
que age sobre o nosso conflito doméstico, em vez de ampliar o
conflito como diz outro estereotipo. As chances de paz são mínimas.
enquanto o ultimo dos estados muçulmanos não aceitar a existência
de Israel incentivando o terrorismo.
Os
Palestinos estavam sujeitos a uma ditadura sangrenta e corrupta do
Arafat, o estereotípico herói da esquerda internacional, e de seus
companheiros. É muito instrutivo ler a entrevista de Bassam Eid na
revista "Veja" de 30 de Novembro. Os Palestinos viviam e
vivem numa terrível duplicidade. Por um lado eles têm ciúmes do nível
de vida do mais de um milhão de palestinos, cidadãos de Israel e
dos mais de 200.000 árabes de Jerusalém que gozam dos serviços
sociais e educacionais dos Israelenses. Eles querem também voltar
para os lugares de trabalho e os salários em Israel, que
proporcionaram um início de bem estar nos territórios ocupados.
Mas as intifadas arruinaram tudo e criaram sofrimento e desejo de
vingança contra as ações de represália israelenses. A intifada
do Arafat "descobriu" e usou maciçamente a bomba suicida,
a mais temível e horrorosa das armas.
A
sangrenta segunda intifada não foi deflagrada por causa da
"visita" do deputado Sharon na esplanada das mesquitas.
Eis um outro estereótipo. Foi na realidade um descabido e irresponsável
ato de protesto político contra o governo trabalhista de Barak que
aceitou o plano de paz de Clinton que previa também uma partição
de Jerusalém. Foi um bem-vindo presente para Arafat que rejeitou
também o plano Clinton. A intifada que ele lançou não foi contra
o oposicionista Sharon, mas contra o governo trabalhista e seu plano
de paz. Iria sem dúvida achar um outro casus belli. Os
quatro anos de governo do Likud direitista que seguiram em Israel,
foram um resultado direto da intifada. Quando Arafat morreu a
intifada já tinha acabado e sido derrotada. O regime herdeiro do
Abu Mazen não e tão ditatorial e parece que não tem a duplicidade
criminosa do Arafat. Terrorismo não é mais a política verdadeira
da Autoridade Palestina. Mas não existe mais a força e a
autoridade moral do "raîs" morto. As seis ou sete
organizações terroristas têm muito mais liberdade de agir, de
competir entre si e de atrapalhar. As eventuais eleições na
Palestina, tão desejadas pelos americanos, vão consagrar a força
dominante do Hamas a maior destas organizações que querem destruir
Israel.
O
pior é que Abu Mazen, mesmo querendo evitar futuros conflitos, não
tem a força de assinar a paz, uma paz que necessariamente
implicaria compromissos e renúncias recíprocas, e além de tudo a
erradicação do terrorismo.
Enfim,
Israel. Quantos estereótipos existem a este respeito! O
Prof.Rattner faz o panegírico dos kibutzim. Mas os kibutzim
continuam existindo. Faz tempo que eles se distanciaram do idealismo
coletivista; por exemplo já há cinqüenta anos que eles aceitam
contratar trabalho assalariado de fora. Mas eles continuam se
adaptando ao novo ambiente econômico, numa metamorfose que ainda
exibe muito humanismo e solidariedade entre os camaradas.
E
a sociedade em Israel? Nunca foi um Xanadu. Sempre tinha corrupção,
crimes, drogas e prostituição. O "socialismo" israelense
era um socialismo de austeridade anacrônica e de estado de sítio.
Para o espanto de uma amiga brasileira, sempre se roubaram carros em
Israel! Por incrível que pareça, é uma sociedade hoje, que
enfrenta meio século de guerra, absorveu milhões de imigrantes da
Rússia até a Etiópia, e se manteve não somente democrática, mas
socialmente avançada num nível europeu ocidental. No regime do
Likud, além de financiar um exercito demasiado grande, foram gastas
fortunas para financiar a aventura descabida dos assentamentos nos
territórios ocupados. Pior de tudo, nestas circunstâncias,
Netanyahu teve a insensibilidade de introduzir uma política
Tatcherista anti-social, totalmente inadequada a nossa realidade de
sociedade solidária.
A
verdadeira mudança eleitoral que aconteceu neste último mês de
surpresas políticas em Israel foi a eleição do sindicalista Amir
Peretz como líder dos trabalhistas. Um Walesa, ou Lula, made in
Israel. Ele levantou a bandeira da mudança econômico-social. Não
apresentou um novo programa de paz como afirma o prof.Rattner, mais
sim uma política econômica social-democrata. O desejo de uma política
sócio-econômica mais beneficiente e humana vai ser o assunto
eleitoral central, se os Palestinos não influenciarem as eleições
em Israel com uma nova onda de terror, como já o fizeram várias
vezes no passado. E isso independente do êxito bastante duvidoso
dos trabalhistas, mesmo liderados por Peretz.
O
público israelense amadureceu. A esquerda entendeu que infelizmente
não existe um parceiro palestino, nem mesmo na figura do Abu Mazen.
A direita virou cada
vez mais fundamentalista-messiânica, mas a grande maioria do povo
entendeu que não existe chance alguma de realizar o sonho do
"Grande Israel". Errou o prof.Rattner quando diz que a
maioria em Israel é religiosa-direitista.
A
política do dia, que hoje está recebendo o apoio da grande maioria
do eleitorado, é do sharonismo. Sharon, este novo de Gaulle
israelense, tem um programa unilateral realista no seu minimalismo.
Para manter a maioria demográfica judia e diminuir ao máximo o
terrorismo individual, está sendo construída uma barreira de
separação entre Israel e os territórios palestinos que em alguns
trechos tem uma estrutura de muro. Uma barreira semelhante funciona
bem por vários anos em torno da faixa de Gaza.
Dentro
desta barreira vão ficar três blocos de colônias judaicas somando
entre 5 ou até 20% do
território palestino.Mesmo o partido de esquerda , o velho Meretz ,
aceita a separação física. As diferenças são somente em torno
da porcentagem dos territórios palestinos retidos e a maneira de
compensar os palestinos. O resto dos assentamentos deve ser evacuado
como foi feito com as colônias de Gaza e do norte da Samaria.
Até
agora, depois de três anos, somente um terço da barreira funciona.
Os moradores palestinos prejudicados pela barreira podem apelar
individualmente para a Corte Suprema de Israel. O trajeto da
barreira já foi corrigido atendendo os apelos. Um quinto do orçamento
total desta obra está prevista para pagar indenizações para os
prejudicados.
A
evacuação unilateral que quase causou uma guerra fratricida em
Israel, foi executado com o brilho de um grande estrategista. Porém
a retirada quebrou o Likud e propiciou a saída de Sharon para uma
entidade política nova, o partido Kadima. Uma retirada unilateral e
limitada dos territórios palestinos representaria na doutrina do
Sharon um paliativo para as próximas décadas. Ela daria aos
palestinos a folga para estabelecer um estado funcional. Este
processo precisa, mesmo na opinião do próprio Bassam Eid, pelo
menos de 20 anos. Os jovens líderes, tais como Dahlan, Rajoub,
Barghuti, Siniora que cresceram e se educaram em interação com
Israel e os israelenses, as vezes com experiência das prisões
israelenses, tem que tomar o comando. Além disso uma nova geração
deve amadurecer nas escolas palestinas, sem ser ensinados que os
judeus são monstros personificados.
A
retirada de Gaza não foi feito sob a pressão dos americanos, por
ter sido um primeiro passo nas retiradas unilaterais do sharonismo...
Ela deixou mais de um milhão de árabes com a possibilidade de
transitar livremente pelo Egito e de estabelecer um mini-estado
modelo. Alias é o que poderia acontecer se o Dahlan conseguisse
dominar o Hamas e os outros terroristas locais. A Condi apertou nas
teclas somente para definir os procedimentos do trânsito civil na
fronteira entre Gaza e o Egito. Foi a consciência que Sharon vai
continuar com a política das retiradas estratégicas unilaterais
que quebrou o partido Likud. É uma ironia da história que Sharon,
o demônio estereotípico de toda a esquerda mundial, segundo só após
o Bush, virou a maior figura política de Israel desde Ben Gurion. A
caída do astro Arafat levantou o astro Sharon. Parece inacreditável,
mas todos os pecados passados do velho bulldozer, inclusive os seus
processos de caixa dois em andamento, foram esquecidos. Voltamos ao
velho Plekhánov presenciando o papel do individuo na história.
Rattner
tem razão. Vivemos num túnel, mas nos acostumamos com ele. Israel
não tem que se envergonhar: a vida é boa, a agricultura, a indústria,
a ciência estão florescendo. Com a violência limitada a um nível
"sustentável" se pode continuar vivendo bem. Várias
vezes, quando uma luz parecia no fim do túnel, foi na verdade a luz
de um outro confronto. A luz de bombas suicidas ou dos foguetes
iraquianos. Uma velha sabedoria histórica em Yiddish dizia
que "Uma vida em tempo emprestado, é também vida"
("Haiei shu iz
oikhet a leibn"). Os grandes conflitos nunca são resolvidos de
um ano para o outro. Enquanto isso somente os armistícios
paliativos funcionam. As guerras frias, as cortinas de ferro, o
balanço da dissuadiação, a contenção dos conflitos, etc. No
mundo de hoje em que se tem de resolver o problema agudo da convivência
da cultura humanista com a anti-cultura muçulmana, nosotros,
pequenos, estamos de novo na ponta do conflito."'Deja vu".