por FRANCIS DOV POR

Francis Dov Por, nascido 1927 na Romênia. Casado com Dra. Scintila de Almeida Prado.
Desde 1960 na Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor emérito de zoologia, na área de zoologia aquática, biogeografia e evolução. Presidente Fundador da Sociedade Internacional de Zoologia.
Professor convidado da USP, Depto. de Ecologia Geral, 1981-1997.

 

 

 

Vivendo no Túnelou o Fim dos Estereótipos

De Jerusalém comentando o artigo do Prof. H. Rattner

 

Analisando o complicado conflito Israelo-Palestino, e a sociedade Israelense em si, circulam lá fora muitos estereótipos. É saudável esta tentativa de uma análise otimista do Prof.Rattner. Mas a situação não obedece aos estereótipos, e as ilusões são as vezes mais perigosas do que a realidade. Lamento isto, mas estou vivendo por 45 anos dentro do túnel do conflito israelo-palestinense.

É verdade que estamos vivendo uma fase nova do conflito. Entre as várias causas podemos contar a derrubada de Saddam Hussein e o ativismo dos Americanos; a derrota da intifada e a morte do Arafat; o fim das visões utópicas da esquerda e da direita em Israel. Resultou um novo realismo que poderia criar paliativos, soluções intermediárias sustentáveis e uma redução sensível do sofrimento humano nos dois lados. O ideal de um acordo de paz duradouro entre dois países democráticos virou um alvo a ser alcançado somente pelas futuras gerações. As idealizações sobre uma paz na palma da mão, são um estereotipo bem difundido.

Os palestinos sempre foram a carne de canhão dos estados muçulmanos "amigos". Eles não deixaram estabelecer o estado Palestino em 1949, mantiveram quatro gerações de Palestinos num limbo sem parelho de "refugiados", deflagraram três guerras de agressão contra Israel que foram travados nas terras palestinas, e quando viram que eram militarmente inferiores, subornaram os palestinos para efetuar indiscriminados ataques suicidas. Saddam quis armas atômicas para destruir Israel, ameaçou com armas químicas, lançou foguetes e pagou dezenas de milhares de dólares para a família de cada terrorista suicida em Israel. A Síria, que nunca reconheceu Israel, além de abrigar os remanescentes do regime do Saddam, está patrocinando e pagando as organizações terroristas que "agem" em Israel e nos territórios. Em fim, o Iran, além de subvencionar os crimes terroristas, tem uma liderança desastrada que quer também a arma atômica para erradicar Israel do mapa. O ativismo Americano com todos os seus erros, conseguiu limitar e conter este "perigo externo" que age sobre o nosso conflito doméstico, em vez de ampliar o conflito como diz outro estereotipo. As chances de paz são mínimas. enquanto o ultimo dos estados muçulmanos não aceitar a existência de Israel incentivando o terrorismo.

Os Palestinos estavam sujeitos a uma ditadura sangrenta e corrupta do Arafat, o estereotípico herói da esquerda internacional, e de seus companheiros. É muito instrutivo ler a entrevista de Bassam Eid na revista "Veja" de 30 de Novembro. Os Palestinos viviam e vivem numa terrível duplicidade. Por um lado eles têm ciúmes do nível de vida do mais de um milhão de palestinos, cidadãos de Israel e dos mais de 200.000 árabes de Jerusalém que gozam dos serviços sociais e educacionais dos Israelenses. Eles querem também voltar para os lugares de trabalho e os salários em Israel, que proporcionaram um início de bem estar nos territórios ocupados. Mas as intifadas arruinaram tudo e criaram sofrimento e desejo de vingança contra as ações de represália israelenses. A intifada do Arafat "descobriu" e usou maciçamente a bomba suicida, a mais temível e horrorosa das armas.

A sangrenta segunda intifada não foi deflagrada por causa da "visita" do deputado Sharon na esplanada das mesquitas. Eis um outro estereótipo. Foi na realidade um descabido e irresponsável ato de protesto político contra o governo trabalhista de Barak que aceitou o plano de paz de Clinton que previa também uma partição de Jerusalém. Foi um bem-vindo presente para Arafat que rejeitou também o plano Clinton. A intifada que ele lançou não foi contra o oposicionista Sharon, mas contra o governo trabalhista e seu plano de paz. Iria sem dúvida achar um outro casus belli. Os quatro anos de governo do Likud direitista que seguiram em Israel, foram um resultado direto da intifada. Quando Arafat morreu a intifada já tinha acabado e sido derrotada. O regime herdeiro do Abu Mazen não e tão ditatorial e parece que não tem a duplicidade criminosa do Arafat. Terrorismo não é mais a política verdadeira da Autoridade Palestina. Mas não existe mais a força e a autoridade moral do "raîs" morto. As seis ou sete organizações terroristas têm muito mais liberdade de agir, de competir entre si e de atrapalhar. As eventuais eleições na Palestina, tão desejadas pelos americanos, vão consagrar a força dominante do Hamas a maior destas organizações que querem destruir Israel.

O pior é que Abu Mazen, mesmo querendo evitar futuros conflitos, não tem a força de assinar a paz, uma paz que necessariamente implicaria compromissos e renúncias recíprocas, e além de tudo a erradicação do terrorismo.

Enfim, Israel. Quantos estereótipos existem a este respeito! O Prof.Rattner faz o panegírico dos kibutzim. Mas os kibutzim continuam existindo. Faz tempo que eles se distanciaram do idealismo coletivista; por exemplo já há cinqüenta anos que eles aceitam contratar trabalho assalariado de fora. Mas eles continuam se adaptando ao novo ambiente econômico, numa metamorfose que ainda exibe muito humanismo e solidariedade entre os camaradas.

E a sociedade em Israel? Nunca foi um Xanadu. Sempre tinha corrupção, crimes, drogas e prostituição. O "socialismo" israelense era um socialismo de austeridade anacrônica e de estado de sítio. Para o espanto de uma amiga brasileira, sempre se roubaram carros em Israel! Por incrível que pareça, é uma sociedade hoje, que enfrenta meio século de guerra, absorveu milhões de imigrantes da Rússia até a Etiópia, e se manteve não somente democrática, mas socialmente avançada num nível europeu ocidental. No regime do Likud, além de financiar um exercito demasiado grande, foram gastas fortunas para financiar a aventura descabida dos assentamentos nos territórios ocupados. Pior de tudo, nestas circunstâncias, Netanyahu teve a insensibilidade de introduzir uma política Tatcherista anti-social, totalmente inadequada a nossa realidade de sociedade solidária.

A verdadeira mudança eleitoral que aconteceu neste último mês de surpresas políticas em Israel foi a eleição do sindicalista Amir Peretz como líder dos trabalhistas. Um Walesa, ou Lula, made in Israel. Ele levantou a bandeira da mudança econômico-social. Não apresentou um novo programa de paz como afirma o prof.Rattner, mais sim uma política econômica social-democrata. O desejo de uma política sócio-econômica mais beneficiente e humana vai ser o assunto eleitoral central, se os Palestinos não influenciarem as eleições em Israel com uma nova onda de terror, como já o fizeram várias vezes no passado. E isso independente do êxito bastante duvidoso dos trabalhistas, mesmo liderados por Peretz.

O público israelense amadureceu. A esquerda entendeu que infelizmente não existe um parceiro palestino, nem mesmo na figura do Abu Mazen. A direita  virou cada vez mais fundamentalista-messiânica, mas a grande maioria do povo entendeu que não existe chance alguma de realizar o sonho do "Grande Israel". Errou o prof.Rattner quando diz que a maioria em Israel é religiosa-direitista.

A política do dia, que hoje está recebendo o apoio da grande maioria do eleitorado, é do sharonismo. Sharon, este novo de Gaulle israelense, tem um programa unilateral realista no seu minimalismo. Para manter a maioria demográfica judia e diminuir ao máximo o terrorismo individual, está sendo construída uma barreira de separação entre Israel e os territórios palestinos que em alguns trechos tem uma estrutura de muro. Uma barreira semelhante funciona bem por vários anos em torno da faixa de Gaza.

Dentro desta barreira vão ficar três blocos de colônias judaicas somando entre 5 ou até  20% do território palestino.Mesmo o partido de esquerda , o velho Meretz , aceita a separação física. As diferenças são somente em torno da porcentagem dos territórios palestinos retidos e a maneira de compensar os palestinos. O resto dos assentamentos deve ser evacuado como foi feito com as colônias de Gaza e do norte da Samaria.

Até agora, depois de três anos, somente um terço da barreira funciona. Os moradores palestinos prejudicados pela barreira podem apelar individualmente para a Corte Suprema de Israel. O trajeto da barreira já foi corrigido atendendo os apelos. Um quinto do orçamento total desta obra está prevista para pagar indenizações para os prejudicados.

A evacuação unilateral que quase causou uma guerra fratricida em Israel, foi executado com o brilho de um grande estrategista. Porém a retirada quebrou o Likud e propiciou a saída de Sharon para uma entidade política nova, o partido Kadima. Uma retirada unilateral e limitada dos territórios palestinos representaria na doutrina do Sharon um paliativo para as próximas décadas. Ela daria aos palestinos a folga para estabelecer um estado funcional. Este processo precisa, mesmo na opinião do próprio Bassam Eid, pelo menos de 20 anos. Os jovens líderes, tais como Dahlan, Rajoub, Barghuti, Siniora que cresceram e se educaram em interação com Israel e os israelenses, as vezes com experiência das prisões israelenses, tem que tomar o comando. Além disso uma nova geração deve amadurecer nas escolas palestinas, sem ser ensinados que os judeus são monstros personificados.

A retirada de Gaza não foi feito sob a pressão dos americanos, por ter sido um primeiro passo nas retiradas unilaterais do sharonismo... Ela deixou mais de um milhão de árabes com a possibilidade de transitar livremente pelo Egito e de estabelecer um mini-estado modelo. Alias é o que poderia acontecer se o Dahlan conseguisse dominar o Hamas e os outros terroristas locais. A Condi apertou nas teclas somente para definir os procedimentos do trânsito civil na fronteira entre Gaza e o Egito. Foi a consciência que Sharon vai continuar com a política das retiradas estratégicas unilaterais que quebrou o partido Likud. É uma ironia da história que Sharon, o demônio estereotípico de toda a esquerda mundial, segundo só após o Bush, virou a maior figura política de Israel desde Ben Gurion. A caída do astro Arafat levantou o astro Sharon. Parece inacreditável, mas todos os pecados passados do velho bulldozer, inclusive os seus processos de caixa dois em andamento, foram esquecidos. Voltamos ao velho Plekhánov presenciando o papel do individuo na história.

Rattner tem razão. Vivemos num túnel, mas nos acostumamos com ele. Israel não tem que se envergonhar: a vida é boa, a agricultura, a indústria, a ciência estão florescendo. Com a violência limitada a um nível "sustentável" se pode continuar vivendo bem. Várias vezes, quando uma luz parecia no fim do túnel, foi na verdade a luz de um outro confronto. A luz de bombas suicidas ou dos foguetes iraquianos. Uma velha sabedoria histórica em Yiddish dizia que "Uma vida em tempo emprestado, é também vida" ("Haiei shu  iz oikhet a leibn"). Os grandes conflitos nunca são resolvidos de um ano para o outro. Enquanto isso somente os armistícios paliativos funcionam. As guerras frias, as cortinas de ferro, o balanço da dissuadiação, a contenção dos conflitos, etc. No mundo de hoje em que se tem de resolver o problema agudo da convivência da cultura humanista com a anti-cultura muçulmana, nosotros, pequenos, estamos de novo na ponta do conflito."'Deja vu".

 

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