por LARRY HUFFORD

Larry Hufford é professor de Relações Internacionais na St. Mary’s University em San Antonio, Texas.

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Leia a versão em inglês

 

 

O dia de Martin Luther King, Jr.

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

Martin Luther KingAo entrar no ano de 2006, e ao preparar-nos para celebrar o dia de Martin Luther King, Jr., nos defrontamos com a urgente necessidade de re-focalizar nossa energia na não violência, e na criação de uma sociedade mais democrática. Dentro do espírito dos ensinamentos e exemplo de Dr. King, eu recomendaria que os cidadãos dos Estados Unidos refletissem sobre a questão do que significa viver em um mundo em que há diferentes religiões, ou seja, um mundo multi-religioso.O diálogo entre as religiões e a educação sobre suas diferenças são pontos críticos para que se evite um choque entre civilizações.

Este verão passado eu fui convidado a participar em uma conferência de multi-religiões na Universidade de Griffith, na Austrália. Dos 75 participantes, a maioria era budista; em seguida vinham os muçulmanos, cristãos, hindus, judeus, sikhs, religião aborígene, e bahá’i.[1] Em toda a Ásia e Oceania, a educação multi-religiosa e o diálogo estão sendo promovidos com um sentido de urgência. Tal diálogo é considerado um passo chave para a prevenção de conflitos e a criação de comunidades saudáveis e diversas.

A Professora Kamar Oniah Kamaruzzaman, uma mulher muçulmana da Malásia, e professora de Estudos Islâmicos na Universidade Islâmica Internacional, enfatizou a importância da educação multi-religiosa quando afirmou, “Se Osama bin Laden diz que ele é o verdadeiro intérprete do Islamismo e aqueles entre vocês que não são muçulmanos acreditam nele, o que isto revela sobre vocês?” Kamar acredita que todas as religiões têm uma parte central baseada na não-violência e nas relações justas. Independentemente do credo religioso, se nós falharmos em viver pacificamente e em ser modelos da não-violência, estaremos falhando aos ensinamentos do Divino Espírito.

Meu colega de quarto na conferência foi H. Salman Harun, um professor de Interpretação do Corão na Universidade Estadual Islâmica Syarif Hidayatullah na Indonésia. Ele falou veementemente que o islamismo é uma religião de paz. Em 2004, ele organizou a primeira conferência multi-religiosa na Indonésia e foi publicamente condenado pelo Supremo Conselho Islâmico por promover “pluralismo religioso”.O presidente de sua universidade, que tem um doutorado em História pela Universidade de Columbia, desafiou publicamente o julgamento do Supremo Conselho Islâmico, dizendo que seus membros não entendiam o propósito ou as metas de um diálogo multi-religioso.

Foi um aprendizado de humildade encontrar-me com acadêmicos e ativistas que estão tomando posições proféticas quando vivem circundados por dogmatistas. Harun também observou que o Profeta Maomé, quando escreveu o Compacto de Medina, demonstrou um espírito democrático, em contraste com as tendências autoritárias encontradas em muitos países de maioria muçulmana da atualidade.

Jeremy Jones, um australiano que é o presidente do Conselho Executivo do Judaísmo Australiano, falou de um grupo de diálogo multi-religioso que ele co-fundou em Sydney. Em seu primeiro ano, o grupo se reuniu para trabalhar com os povos aborígenes da Austrália um projeto comum de justiça. Durante este ano amizades foram fortalecidas, confiança estabelecida, e um forte sentimento de comunidade foi criado. A comunidade tem que ser construída com bases em relações justas e o estabelecimento destas relações justas é um processo demorado, freqüentemente conflituoso e estressante. Para que se obtenha sucesso é necessário que haja uma dedicação ao processo da não-violência e a um entendimento que a comunidade, que é por definição relacional, está em um perpétuo estado de “vir-a-ser”, de transformação. Depois de um ano em que estabeleceram relações, Jones disse que o grupo multi-religioso começou a promover discussões sobre assuntos “difíceis” como “a guerra justa”, “guerra sagrada”, “martírio”, e “verdade religiosa” encontrada em todas as religiões. Cada um destes assuntos pode tomar até um ano de diálogo, e este diálogo pode até ser “conflituoso” até que os membros cheguem a um ponto em que eles sentem que foram entendidos pelos outros. Este processo requer que cada religião reflita honestamente e discuta seu “lado escuro”. O diálogo requer que a pessoa fale para ser entendida, e ouça para entender. O diálogo não quer dizer fazer discursos, nem provocar discussões. O diálogo também não é baseado em vencer e convencer, e definitivamente não é uma conversão.

Danielle Calermajer, uma judia australiana, falou de dois paradigmas contrastantes de como os judeus como indivíduos e Israel como uma nação podem se relacionar com “o outro”.O paradigma usado atualmente por Israel, de acordo com o Dr. Celermajer, pode ser encontrado na relação bíblica entre Sara e Hagar. Se Israel algum dia vai viver em paz com palestinos e árabes muçulmanos, ela propõe que o atual paradigma seja mudado para a história de Naomi e Ruth.

O arcebispo católico Fernando Capalla, das Filipinas, trabalha para promover o diálogo entre cristãos e muçulmanos na província de Mindanao, onde a violência religiosa tem sido um fato da vida por décadas. As escolas católicas em Mindanao começam a educação entre-credos à idade de quatro anos. Os professores são treinados e educados no diálogo multi-religioso. O currículo escolar integra as culturas cristã e muçulmana, fé, temas de não-violência, cuidados com o meio ambiente, humildade, harmonia, respeito, e responsabilidade pessoal.

O mais conhecido monge budista da Tailândia, Sulak Sivaraksa, fundou a Rede Internacional do Budismo Engajado, e falou do meio ambiente como uma maneira de fazer com que as diferentes religiões se juntem em uma comunidade para trabalhar pelo bem comum. Sulak disse que há duas visões do mundo: a terra como mercadoria, e a terra como comunidade. O fundamentalismo do mercado global está baseado na crença que “eu consumo, portanto eu sou”. Esta crença está em contradição aos valores centrais de todas as religiões. Os quatorze preceitos do budismo engajado foram escritos pelo monge vietnamita, Thich Nhat Hanh, amigo do monge trapista americano Thomas Merton.[2] Há uma grande similaridade entre os quatorze preceitos e os dez princípios do Ensinamento Social Católico (em geral chamado de o segredo mais escondido do catolicismo).

Se uma pessoa toma os princípios cristãos presentes no Ensinamento Social Católico, os quatorze preceitos do budismo engajado, o paradigma de Naomi e Ruth, o Compacto de Medina, a lei védica hindu, aqui temos a fundação para uma comunidade local, nacional e global baseada na justiça e na não-violência.

É imperativo que aqueles entre nós que somos cidadãos dos Estados Unidos nos dediquemos ao diálogo multi-religioso em nossas igrejas, templos, mesquitas, sinagogas, centros de meditação, escolas e universidades. À medida que os Estados Unidos se torna mais diverso em termos de religiões, o diálogo multi-religioso desarmará o medo do outro, que sempre está baseado na ignorância. Se esta “ignorância” não é enfrentada através da educação e dos valores comuns, os fundamentalistas cristãos continuarão a empurrar o Congresso e as Cortes a transformar os Estados Unidos legalmente e constitucionalmente em uma nação cristã. Como Sulak Sivaraksa disse, “mono-culturas produzem pessoas que só vêem e reconhecem sua própria cultura”.Tais pessoas produzem medo e violência. O diálogo multi-religioso não é fácil. Mas o produto final será uma comunidade global mais justa e menos dedicada à violência.

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[1] Na página oficial da religião Bahá’i (http://info.bahai.org/article-1-2-0-1.html) se esclarece que esta é a mais jovem das religiões independentes do mundo. Foi fundada por Bahá’u’lláh (1817-1892), que é considerado o mais recente dos mensageiros de Deus. Bahá’i acredita que a humanidade é composta de uma única raça e que chegou o dia para a sua unificação em uma sociedade única, global.

[2] Thomas Merton nasceu em 1915 em Prades, França. Aos vinte e seis anos, ele se converteu ao catolicismo e entrou para a Abadia de Gethsemani no Kentucky onde, a página official diz, ele continuou sua busca de Deus “as a Trappist monk until his death on 10 December 1968 at the age of fifty-three” — como um monge trapista até a sua morte em dez de dezembro de 1968, à idade de cinqüenta e três anos.” Ver mais detalhes sobre sua vida e obra em http://www.geocities.com/ganesha_gate/merton.html

 

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