O
dia de Martin Luther King, Jr.
[Tradução:
Eva Paulino Bueno]
Ao
entrar no ano de 2006, e ao preparar-nos para celebrar o dia de
Martin Luther King, Jr., nos defrontamos com a urgente necessidade
de re-focalizar nossa energia na não violência, e na criação de
uma sociedade mais democrática. Dentro do espírito dos
ensinamentos e exemplo de Dr. King, eu recomendaria que os cidadãos
dos Estados Unidos refletissem sobre a questão do que significa
viver em um mundo em que há diferentes religiões, ou seja, um
mundo multi-religioso.O diálogo entre as religiões e a educação
sobre suas diferenças são pontos críticos para que se evite um
choque entre civilizações.
Este
verão passado eu fui convidado a participar em uma conferência de
multi-religiões na Universidade de Griffith, na Austrália. Dos 75
participantes, a maioria era budista; em seguida vinham os muçulmanos,
cristãos, hindus, judeus, sikhs, religião aborígene, e bahá’i.
Em toda a Ásia e Oceania, a educação multi-religiosa e o diálogo
estão sendo promovidos com um sentido de urgência. Tal diálogo é
considerado um passo chave para a prevenção de conflitos e a criação
de comunidades saudáveis e diversas.
A
Professora Kamar Oniah Kamaruzzaman, uma mulher muçulmana da Malásia,
e professora de Estudos Islâmicos na Universidade Islâmica
Internacional, enfatizou a importância da educação
multi-religiosa quando afirmou, “Se Osama bin Laden diz que ele é
o verdadeiro intérprete do Islamismo e aqueles entre vocês que não
são muçulmanos acreditam nele, o que isto revela sobre vocês?”
Kamar acredita que todas as religiões têm uma parte central
baseada na não-violência e nas relações justas.
Independentemente do credo religioso, se nós falharmos em viver
pacificamente e em ser modelos da não-violência, estaremos
falhando aos ensinamentos do Divino Espírito.
Meu
colega de quarto na conferência foi H. Salman Harun, um professor
de Interpretação do Corão na Universidade Estadual Islâmica
Syarif Hidayatullah na Indonésia. Ele falou veementemente que o
islamismo é uma religião de paz. Em 2004, ele organizou a primeira
conferência multi-religiosa na Indonésia e foi publicamente
condenado pelo Supremo Conselho Islâmico por promover “pluralismo
religioso”.O presidente de sua universidade, que tem um doutorado
em História pela Universidade de Columbia, desafiou publicamente o
julgamento do Supremo Conselho Islâmico, dizendo que seus membros não
entendiam o propósito ou as metas de um diálogo multi-religioso.
Foi
um aprendizado de humildade encontrar-me com acadêmicos e ativistas
que estão tomando posições proféticas quando vivem circundados
por dogmatistas. Harun também observou que o Profeta Maomé, quando
escreveu o Compacto de Medina, demonstrou um espírito democrático,
em contraste com as tendências autoritárias encontradas em muitos
países de maioria muçulmana da atualidade.
Jeremy
Jones, um australiano que é o presidente do Conselho Executivo do
Judaísmo Australiano, falou de um grupo de diálogo multi-religioso
que ele co-fundou em Sydney. Em seu primeiro ano, o grupo se reuniu
para trabalhar com os povos aborígenes da Austrália um projeto
comum de justiça. Durante este ano amizades foram fortalecidas,
confiança estabelecida, e um forte sentimento de comunidade foi
criado. A comunidade tem que ser construída com bases em relações
justas e o estabelecimento destas relações justas é um processo
demorado, freqüentemente conflituoso e estressante. Para que se
obtenha sucesso é necessário que haja uma dedicação ao processo
da não-violência e a um entendimento que a comunidade, que é por
definição relacional, está em um perpétuo estado de “vir-a-ser”,
de transformação. Depois de um ano em que estabeleceram relações,
Jones disse que o grupo multi-religioso começou a promover discussões
sobre assuntos “difíceis” como “a guerra justa”, “guerra
sagrada”, “martírio”, e “verdade religiosa” encontrada em
todas as religiões. Cada um destes assuntos pode tomar até um ano
de diálogo, e este diálogo pode até ser “conflituoso” até
que os membros cheguem a um ponto em que eles sentem que foram
entendidos pelos outros. Este processo requer que cada religião
reflita honestamente e discuta seu “lado escuro”. O diálogo
requer que a pessoa fale para ser entendida, e ouça para entender.
O diálogo não quer dizer fazer discursos, nem provocar discussões.
O diálogo também não é baseado em vencer e convencer, e
definitivamente não é uma conversão.
Danielle
Calermajer, uma judia australiana, falou de dois paradigmas
contrastantes de como os judeus como indivíduos e Israel como uma
nação podem se relacionar com “o outro”.O paradigma usado
atualmente por Israel, de acordo com o Dr. Celermajer, pode ser
encontrado na relação bíblica entre Sara e Hagar. Se Israel algum
dia vai viver em paz com palestinos e árabes muçulmanos, ela propõe
que o atual paradigma seja mudado para a história de Naomi e Ruth.
O
arcebispo católico Fernando Capalla, das Filipinas, trabalha para
promover o diálogo entre cristãos e muçulmanos na província de
Mindanao, onde a violência religiosa tem sido um fato da vida por décadas.
As escolas católicas em Mindanao começam a educação entre-credos
à idade de quatro anos. Os professores são treinados e educados no
diálogo multi-religioso. O currículo escolar integra as culturas
cristã e muçulmana, fé, temas de não-violência, cuidados com o
meio ambiente, humildade, harmonia, respeito, e responsabilidade
pessoal.
O
mais conhecido monge budista da Tailândia, Sulak Sivaraksa, fundou
a Rede Internacional do Budismo Engajado, e falou do meio ambiente
como uma maneira de fazer com que as diferentes religiões se juntem
em uma comunidade para trabalhar pelo bem comum. Sulak disse que há
duas visões do mundo: a terra como mercadoria, e a terra como
comunidade. O fundamentalismo do mercado global está baseado na
crença que “eu consumo, portanto eu sou”. Esta crença está em
contradição aos valores centrais de todas as religiões. Os
quatorze preceitos do budismo engajado foram escritos pelo monge
vietnamita, Thich Nhat Hanh, amigo do monge trapista americano
Thomas Merton.
Há uma grande similaridade entre os quatorze preceitos e os dez
princípios do Ensinamento Social Católico (em geral chamado de o
segredo mais escondido do catolicismo).
Se
uma pessoa toma os princípios cristãos presentes no Ensinamento
Social Católico, os quatorze preceitos do budismo engajado, o
paradigma de Naomi e Ruth, o Compacto de Medina, a lei védica
hindu, aqui temos a fundação para uma comunidade local, nacional e
global baseada na justiça e na não-violência.
É
imperativo que aqueles entre nós que somos cidadãos dos Estados
Unidos nos dediquemos ao diálogo multi-religioso em nossas igrejas,
templos, mesquitas, sinagogas, centros de meditação, escolas e
universidades. À medida que os Estados Unidos se torna mais diverso
em termos de religiões, o diálogo multi-religioso desarmará o
medo do outro, que sempre está baseado na ignorância. Se esta
“ignorância” não é enfrentada através da educação e dos
valores comuns, os fundamentalistas cristãos continuarão a
empurrar o Congresso e as Cortes a transformar os Estados Unidos
legalmente e constitucionalmente em uma nação cristã. Como Sulak
Sivaraksa disse, “mono-culturas produzem pessoas que só vêem e
reconhecem sua própria cultura”.Tais pessoas produzem medo e violência.
O diálogo multi-religioso não é fácil. Mas o produto final será
uma comunidade global mais justa e menos dedicada à violência.
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