por ROGATA SOARES DEL
GAUDIO
Professora
de Geografia COLTEC/UFMG; Doutoranda em Educação FaE/UFMG;
membro do NEILS/PUC-SP |
|
O
mapa enquanto discurso e o discurso do mapa: algumas questões
Resumo
Este
artigo procura analisar o discurso presente em alguns mapas
políticos em pequena escala. Os referenciais teóricos para
essa análise estão presentes no campo da Análise do
Discurso. Se os mapas políticos elaborados em pequena
escala exercem uma função “mistificadora”, esta se
apresenta sob a forma da “neutralidade e cientificidade”
aparentemente presentes em sua elaboração e a partir de
nossa familiarização com eles, construída no contato
cotidiano nas aulas de geografia da escola básica, e mesmo
na grande imprensa.
Palavras-chave:
análise
do discurso, ideologia, mapas políticos em pequena escala,
Geografia. |
Uma
das peculiaridades da geografia enquanto disciplina escolar diz
respeito ao constante uso de mapas, tanto em sala de aula, quanto
como exercício de “fixação de conteúdos”. Normalmente os
mapas mais utilizados são os políticos, em pequena escala, que
procuram demonstrar as relações entre os lugares quanto à distância
ou localização, entre outras coisas. Portanto, os mapas procuram
representar os diferentes espaços,
estabelecendo a “síntese” sobre um determinado território
em um dado momento histórico.
O
que se pretende nesse texto é justamente estabelecer algumas reflexões
sobre os mapas em pequena escala
bastante utilizados como instrumentos de síntese e representação
espacial nas aulas de Geografia. Não se procurará analisar a prática
docente em relação ao uso de mapas – até mesmo porque não
realizamos pesquisas empíricas a esse respeito – mas, apontar
alguns elementos do mapa enquanto portador de um - ou vários –
discurso(s) sobre o território.
Como,
ou de que modo os mapas se constituíram em objetos valorizados
enquanto representações efetivas e verdadeiras sobre o real? De
acordo com Bakhtin (1992),
“a
cada etapa do desenvolvimento da sociedade, encontram-se grupos de
objetos particulares e limitados que se tornam objeto de atenção
do corpo social e que, por causa disso, tomam um valor particular.
Como se pode determinar este grupo de objetos ‘valorizados’?
Primeiro, é indispensável que ele esteja ligado às condições sócio-econômicas
essenciais do referido grupo, que concerne, de alguma maneira às
bases de sua existência material. Em outras palavras, não pode
entrar no domínio da ideologia, tomar forma e aí deitar raízes
senão aquilo que adquiriu um valor social.”
Os
mapas têm o seu “valor social” construído a partir da nossa
familiarização com eles nas aulas de geografia, ou através da
imprensa (escrita ou televisionada). E foram tão profundamente
associados à essa “disciplina escolar” a ponto de serem com ela
confundidos. Pode-se dizer que os mapas representam uma “imagem
canônica” para a Geografia, especialmente a escolar.
Nesse
caso, a percepção não é a do mapa enquanto portador de um
discurso sobre um território, mas dele enquanto o discurso melhor
elaborado sobre o mesmo, evidenciando seu caráter de convencimento
sobre a realidade, ou mesmo sua capacidade em apontar para
diferentes contradições políticas, econômicas e sociais
presentes nessas representações. Ou seja, é interessante analisar
alguns mapas políticos em pequena escala não apenas como
portadores de um determinado discurso sobre o território, mas
caracterizar esse discurso como ideológico, apesar da aparente
“neutralidade” apresentada pelos mesmos.
É
ainda a Bakhtin que recorremos para apontar esse aspecto ideológico
presente nos mapas políticos em pequena escala. Para Bakhtin (1992)
“o ser, refletido no signo, não apenas nele se reflete, mas
também se refrata.” E refratar, nesse caso, pode significar
“quebrar ou desviar a direção de” (Dicionário Aurélio:
2.000). Qual a relação desta idéia com os mapas? Um mapa pode
aparecer como um “reflexo” fiel do real. Todavia, ao mesmo tempo
em que efetivamente reflete em parte este real, pode desviar a atenção
de elementos/atores importantes para determinada construção. Um
mapa político em pequena escala efetivamente apresenta um poder de
convencimento? Que sentimentos um mapa político em pequena escala
pode despertar? Que informações esse tipo de mapa fixa de forma
subliminar? O que um mapa desse tipo explicita sobre um território?
O que ele oculta? Eis algumas questões que procuraremos abordar ao
longo desse texto, usando como referencial elementos pertinentes à
análise do discurso.
De
modo geral, um mapa corresponde a
“uma
representação geométrica plana, simplificada e convencional, do
todo ou de parte da superfície terrestre, numa relação de
similitude conveniente denominada escala. (...) É uma construção
seletiva e representativa que implica o uso de símbolos e de sinais
apropriados”. (JOLY,
1990:7/8)
Porém,
além dessa representação espacial, os mapas apresentam informações
codificadas, que se dirigem de um sujeito para outro sujeito
constituindo-se, portanto, numa “enunciação”.
Para
Yves Lacoste, todavia,
“muito
mais que um conjunto de estatísticas ou que um conjunto de
escritos, a carta é a forma de representação
geográfica por excelência; é sobre a carta que devem ser
colocadas todas as informações necessárias para a elaboração de
táticas e estratégias. Tal formalização do espaço, que é a
carta, não é nem gratuita, nem desinteressada: meio de dominação
indispensável, de domínio do espaço, a carta foi, de início
criada por oficiais e para os oficiais. A produção de uma carta,
isto é, a conversão de um concreto mal conhecido em uma representação
abstrata, eficaz, confiável, é uma operação difícil, longa e
onerosa, que só pode ser realizada pelo aparelho de Estado e para
ele. A confecção de uma carta implica num certo domínio político
e matemático do espaço representado, e é um instrumento de poder
sobre esse espaço e sobre as pessoas que ali vivem.” (Lacoste:
1997:23)
Em
parte um dos elementos que permite considerar o mapa enquanto um
discurso sobre o real assenta-se exatamente nessa primeira característica.
Para elaborar um mapa político de um território muito extenso como
o brasileiro, as simplificações são de grande magnitude.
Destacam-se apenas informações bastante genéricas, seja sobre o
relevo, o clima, ou, no caso que nos interessa, sobre os limites políticos,
tanto interna quanto externamente. E à medida que esses limites
aparecem sempre do mesmo modo e aparentemente descontextualizados,
criamos a impressão que o Brasil “nasceu” com essa forma, não
que suas fronteiras foram objeto de estratégias políticas e
militares por parte primeiramente da Coroa Portuguesa e,
posteriormente, do próprio Estado brasileiro. Portanto, ao mesmo
tempo em que temos uma noção “clara” acerca do que seria o
Brasil e suas fronteiras, nos “esquecemos” de verificar as
manobras, articulações e lutas que levaram à conformação político-fronteiriça
atual. Mais que isso, temos a impressão que essa forma é perene,
estável, não sujeita a alterações, portanto, eterna.
Apesar
das fronteiras não se constituírem como uma linha5 , nos mapas políticos
em pequena escala é assim que aparecem, dando a impressão de que
no terreno também é assim, confundindo “limite e fronteira”
(Martin, 1994:47 e segs.) e criando também a ilusão de “fim de
país”, extremo, distante.
Nesse
caso, tais mapas cumprem uma importante função ideológica:
separam o que é interno, considerado nesse caso como homogêneo - a
despeito de todas as diferenças regionais ou de classes - do que é
externo, apesar das semelhanças ou continuidades.
Foucault
(2.000:22) afirma que
“pode-se
supor que há, muito regularmente nas sociedades, uma espécie de
desnivelamento entre os discursos: os discursos que ‘se dizem’
no correr dos dias e das trocas, e que passam com o ato mesmo que os
pronunciou; e os discursos que estão na origem de certo número de
atos novos de fala que os retomam, os transformam ou falam deles, ou
seja, os discursos que, indefinidamente, para além de sua formulação,
são ditos, permanecem ditos e estão ainda por dizer” (Grifo
nosso).
Apesar
de o autor estar se referindo especificamente neste texto à fala,
podemos associar este trecho à permanência que encontramos nos
mapas políticos em pequena escala, pois eles são elaborados e
usados, assim permanecendo indefinidamente, ou até o momento em que
um fato novo e/ou violento não apenas os questionem como estabeleçam
mudanças na sua configuração.
Portanto,
esses mapas sendo elaborados pelos aparelhos de Estado e para eles, cumprem a função
ideológica destacada por Lacoste, na medida em que geram um
aparente saber sobre o espaço, ao mesmo tempo em que permitem um
maior domínio sobre ele e “sobre as pessoas que ali vivem”.
Determinados
mapas políticos em pequena escala podem criar também impressões
de proximidade e distância que não condizem necessariamente com o
real, até por ser a Terra esférica. Observe os mapas 1, 2 e 3 a
seguir.
Mapa
1
Fonte:
MAGNOLI, D e SCALZARETTO, R. (1996:22), adaptado.
Mapa
2

Fonte:
MAGNOLI, D. &SCALZARETTO, R. (1996:07, adaptado)
Mapa
3
Fonte:
CHALIAND & RAGEAU (1991: 81, adaptado)
Todos
os três mapas foram elaborados em pequena escala, porém retratam a
mesma superfície e todos apresentam distorções. O que explicitam
e o que ocultam?
O
mapa 1 é encontrado facilmente em qualquer manual didático, em agências
de turismo, em escritórios ou nas salas de aula. Já os mapas 2 e
3, nos chegam a parecer até estranhos, tão pouca é nossa
familiaridade com esse tipo de projeção, embora eles estejam se
tornando mais comuns nos manuais didáticos.
A
partir da primeira imagem temos a impressão que tanto a Rússia,
quanto os países localizados no Leste da Europa estão bastante
distantes da nossa realidade; além disso, é muito difícil
localizarmos o Hawai no Pacífico.
A
comparação do primeiro com o terceiro é óbvia: o Hawai está
localizado estrategicamente no Pacífico, daí sua importância para
a federação americana, a ponto de se constituir no 50º
estado dos EUA. Essa localização estratégica passa despercebida
por todos nós, e chegamos inclusive a estranhar que o Hawai seja
constituinte da federação americana. Todavia, os estrategistas
estadunidenses, os economistas, os militares ou os investidores,
sabem perfeitamente a importância estratégica desse conjunto de
ilhas para o comércio e para a guerra no Pacífico, sustentando
portanto, sua permanência na federação. Por sua vez, ao lidarmos
preferencialmente com a primeira representação, sequer percebemos
claramente o território havaiano. O que está explicitado na
primeira representação é que existe no oceano Pacífico um
conjunto minúsculo de ilhas que constituem o Hawai. O que fica
oculto nessa representação é justamente o mais importante: sua
localização estratégica, evidenciada pela terceira representação.
Para
compararmos a primeira e a segunda projeção convém nos
reportarmos à Guerra Fria, período de grande tensão mundial. O
que isso tem a ver com os mapas políticos em pequena escala?
Quando
afirmamos que tais mapas ocultam e revelam um discurso, basta
observar a aparente distância entre EUA e URSS no primeiro mapa. Ao
utilizar e divulgar exaustivamente essa representação, havia um
reforço subliminar da distância entre ambos. Todavia, ao
observarmos o segundo mapa, centrado no Pólo Norte, verificamos que
ao invés de distantes, as duas superpotências na realidade eram
vizinhas, separadas apenas pelo Estreito de Bering. Aqui entra em
relevância outro aspecto: por que o Alasca se constitui no 49º
Estado da federação americana? Primeiramente por seus recursos
naturais, sobretudo energéticos (petróleo) e segundo, também por
sua importância estratégica: a proximidade com a Ásia, sobretudo
com a URSS. O que revelam? As formas políticas entre os países. O
que ocultam? Suas localizações estratégicas.
Um
outro aspecto que merece destaque: no período da Guerra Fria houve
um forte alinhamento dos países latino-americanos aos EUA.
Em parte, ao utilizarmos exaustivamente a primeira projeção, reforçávamos
subliminarmente duas coisas: primeiro a nossa distância - ideológica
e geográfica - em relação à URSS aos seus satélites; segundo,
nossa proximidade ideológica e geográfica com os EUA - estamos
situados inclusive no “mesmo” continente.
Yves
Lacoste aponta essa aparente inutilidade, repetição ou permanência
no discurso geográfico como um elemento extremamente poderoso, à
medida que contribui para o esvaziamento do sentido do
saber/apreender/conhecer o espaço. Para este autor, “é sobretudo quando ele parece inútil que o discurso geográfico exerce
a função mistificadora mais eficaz, pois a crítica de seus
objetivos ‘neutros’ e ‘inocentes’ parece supérflua.”
(Lacoste:1997:25). Portanto, apesar de serem “mapas políticos”,
há um discurso dentro e por trás dessas representações
aparentemente esvaziado da própria política.
Como
discordar ou mesmo criticar algo elaborado criteriosamente
e que se pretende como uma “síntese” do real? Como não
perceber que mesmo um instrumento aparentemente neutro é portador
de um discurso condizente e conivente com determinada realidade?
É
certo que os mapas são representações/imagens oriundos de construções
matemáticas e empíricas e que, de fato, constituem uma síntese
sobre o espaço. Mas é preciso alertar também para o fato de ser o
espaço extremamente dinâmico, ao passo que as representações são
estáticas. São como um instantâneo, ao passo que o entorno foi
sendo reconfigurado enquanto era elaborado.
Os
processos de mudanças de fronteiras, na atualidade, são muito rápidos.
Se não houver certa criticidade ao trabalhar com esse tipo de
representação, se não houver uma preocupação em observar os
processos históricos de construção dos territórios, poderemos
ser “pegos de surpresa”. Os acontecimentos de fins da década de
1980 que o digam.
Outro
aspecto que se destaca em relação aos mapas diz respeito ao fato
de se constituírem em uma mensagem, portanto, “falarem” sobre
algo, sendo dirigidas de um “sujeito” para outro “sujeito”,
como as cartas manuscritas. Os mapas são elaborados para fins específicos,
como os militares, estratégicos, escolares, bem como, sua
acessibilidade e compreensão também se relacionam aos fins para
que foram elaborados.
Porém,
um mapa e uma carta escrita se diferenciam à medida em que no
primeiro, está contido o próprio código para sua compreensão,
representado pela legenda, ao passo que na segunda, pressupõem-se
apriorísticamente o reconhecimento dos sinais ali plotados.
Portanto,
um mapa é algo que se produz - representa - para alguém, que está
codificado e que se pressupõe que o outro compreenda e decodifique.
E que mantém a particularidade de ser o resultado de operações
matemáticas e empíricas que constituem objeto de escolha de quem
encomendou sua realização e de quem o materializou. Portanto, é
um discurso na medida em que estabelece uma comunicação, pretende
representar o espaço/território, é objeto de escolha – tanto do
tema, quanto da forma – e pressupõe, mesmo durante sua elaboração,
o uso e a compreensão.
Para
que servem os mapas, especialmente os políticos em pequena escala
(planisfério, mapa do Brasil, mapa de Minas Gerais, etc.)? Servem
fundamentalmente para fixar determinadas imagens dos territórios,
e, ao mesmo tempo, reforçar certas noções de proximidade/distância,
aparentemente não considerando os processos históricos, sociais e
econômicos, ou as possibilidades de sua permanente de construção/desintegração.
Tais
procedimentos podem contribuir para o reforço do sentimento de
“pertencimento” (Anderson:1989) e de fidelidade por exemplo, aos
Estados Nacionais, superiores inclusive a outros sentimentos ou
fidelidades (como a de classe). Desse modo é possível compreender
como numa guerra entre nações
temos uma mesma classe em luta entre si, dominados x dominados,
defendendo, cada um, “seu quinhão territorial”.
Óbvio
que os mapas - especialmente os políticos em pequena escala - não
são os únicos instrumentos desse processo. Todavia, são imagens
muito poderosas, porque materializam e objetivam o que só é
concebido em pensamento. Um mapa em pequena escala fornece, ao mesmo
tempo, uma imagem de neutralidade/cientificidade e de verdade sobre
um dado território.
Em
parte, esse poder do mapa deriva de três coisas:
 |
poucos
sabem utilizá-lo efetivamente;
|
 |
poucos
são os que os elaboram;
|
 |
são
utilizados apenas determinados mapas em determinadas escalas,
conforme o objetivo previamente estabelecido.
|
Ao
mesmo tempo, tais mapas potencializam e canalizam nossos sentimentos
em relação ao território que habitamos, tornando familiar
determinada imagem, a ponto de causar estranhamento e incômodo
qualquer processo que almeje modificar sua forma.
E
contribui para ocultar, a partir dessa aparente super oferta de
imagem, outras possibilidades de elaboração e uso dos mesmos. De
acordo com Magnoli (1997:32) “Os
avanços na representação geográfica do Estado acompanharam a
consolidação do poder Monárquico, na Europa pós-medieval. Inventários
e cartas foram os meios utilizados para a produção dessas
representações. (...) Os descobrimentos assinalaram um período de
efervescência na atividade cartográfica, que deu origem à
cartografia moderna e teve na África o principal objeto de
representação, ainda nos séculos XV e XVI. (...) Uma parte
significativa dos produtos cartográficos desse período jamais
chegou a ser impressa, em virtude do manto de sigilo que a recobria:
os reis tiveram, desde cedo, uma consciência viva do caráter
estratégico do saber que as cartas sintetizavam. Por determinação
legal, uma série de cartas mais acuradas, elaboradas pelos
engenheiros do rei - versando sobre fronteiras ou assuntos militares
- só podiam assumir forma manuscrita, ficando interditada sua
impressão” (grifos
nossos). Portanto, as cartas eram elaboradas “por oficiais e para os
oficiais” (Lacoste:1997). E no caso de não ser possível recorrer
à impressão, os cartógrafos reais recorriam então à linguagem,
todavia, uma linguagem cifrada, contendo as informações
pertinentes e necessárias, mas somente para quem as pudesse
decodificar – interpretar.
Pode-se
dizer que essa concepção dos mapas e cartas como representação
cifrada da realidade mantém sua atualidade, pois poucos
efetivamente os percebem deste modo e utilizam-nos dessa forma. No
caso dos mapas políticos em pequena escala, esse caráter de
“saber estratégico” e codificado raramente aparece como tema de
discussão.
A
representação (mapa) do estado nacional e suas fronteiras de forma
a - crítica e atemporal permite, sem questionar - pois constitui
uma “verdade materializada” sobre uma “imaginação” - a
homogeneização do “povo” para dentro e sua diferenciação
para fora, a partir das fronteiras, aparentemente linhas bem
demarcadas e estáveis. Não se constitui apenas em elemento de
dominação, mas é artifício de formação da “identidade
nacional” e de “amor à pátria”.
Esse
tipo de mapa reforça também nossa familiaridade com os nomes
regionais, dando a impressão que esses termos sempre existiram,
como por exemplo, Pampulha, Araxá, Goiás,
ao mesmo tempo, esvaziando ou tendo modificado seu sentido inicial.
Todavia, ao ouvirmos esses nomes e ao vermos exaustivamente suas
representações nos mais variados meios de comunicação, criamos a
sensação de familiaridade com eles, “cristalizando-os” em
nossas concepções territoriais.
Desse
modo, tais divisões, que aparecem muitas vezes até sobrepostas, ao
invés de parecerem contraditórias para nós, se apresentam quase
como “coisas naturais” e comuns. Estranho seria não termos
identidades reforçadas por tais representações. É aqui que se
coloca a inversão propiciada pelas cartas e mapas políticos em
pequena escala como discurso: não há estranhamento na superposição
de identidades (belo-horizontino, mineiro, brasileiro). O
estranhamento ocorre quando essas identidades e suas representações
são questionadas de alguma forma.
Além
de conferirem essa sensação de pertencimento, os mapas conferem
também a impressão de eternidade: afinal, desde que nascemos o
espaço estava assim dividido; portanto, supomos que assim
permanecerá, indefinidamente.
Quanto
ao questionamento dessas identidades associadas às representações,
observe as Figuras 4 e 5 a seguir:
Figura
4

Figura
5
Fonte:
Assembléia Nacional Constituinte, Subcomissão dos Estados in:
Longhi: 1997 apêndices.
O
estranhamento está em imaginar Minas Gerais sem o seu “nariz”,
extremo da antropomorfização
do território. Todavia, o primeiro mapa (Figura 4) aparece em
cartilhas elaboradas pelos defensores da separação do Triângulo
de Minas Gerais.
E tais cartilhas são inclusive, distribuídas nas escolas da região.
Seria talvez o processo de familiarização das crianças
triangulinas com um “novo território” e a criação de seu
“estranhamento” para com o pertencimento à Minas Gerais.
Esse
processo de antropomorfização pode atingir inclusive outros
extremos discursivo-ideológicos. Observe as representações
abaixo:
Figura
6
Fonte:
Jornal de Uberaba apud Siqueira (1995): Longhi: 1997:53
Fonte:
Estado de Minas apud Siqueira (1995): Longhi: 1997:53
Os
mapas que representam esses dois territórios assumiram características
humanas, sendo capazes de “cantar” ou de “chorar”. É a
materialização, tendo a carta como referência, de dois discursos
políticos sobre pertencimento e território de dois grupos em
aparente conflito, que todavia, pelo menos por enquanto, se
encontram representadas - cartográfica e politicamente - por um
mesmo Estado dentro do contexto nacional.
Segundo
Bakhtin, “toda esfera ideológica se apresenta como um conjunto indivisível, não
sendo aconselhável separar a ideologia da realidade material do
signo, dissociar o signo das formas concretas de comunicação
social (o signo faz parte
desse sistema, não tendo existência fora dele, a não ser como
objeto) e dissociar a comunicação de sua base material. O signo
precisa estar ligado-referenciado nas condições sócio-econômicas
de um grupo.” (Bakhtin:1992). Desse modo, os mapas ao
representarem o espaço, o fazem a partir de elementos comuns aos
diversos grupos humanos que nele vivem. Todavia, as escolhas do que
e do como representar não necessariamente se adaptam às impressões
objetivas dos seus habitantes, mas ao contrário, podem
“refletir/refratar” apenas o que parte do grupo vivencia ou quer
“desvelar/ocultar”.
Portanto,
os mapas/cartas representam signos, porém esses signos somente têm
sentido dentro de sua realidade/materialidade objetiva e presente.
“Um
signo existe apenas como parte de uma realidade, ele também reflete
e refrata uma outra. Ele pode distorcer esta realidade, ser-lhe
fiel, ou apreendê-la de um ponto de vista específico. Tudo que é
ideológico possui valor semiótico. (...) Tudo que é ideológico
possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Tudo
que é ideológico é um signo. Sem signos, não existe ideologia.
Todo corpo físico pode ser percebido como signo. (...) E toda
imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico
particular já é um produto ideológico.” (Bakhtin:1992)
Bandeiras,
hinos, cenotáfios
e, neste caso, mapas políticos em pequena escala podem ser
considerados como signos, significações/materializações ideológicas
da nação ou dos estados que a compõem; podem significar sua
transposição do “imaginado” (Anderson:1986) para o mundo
“material”.
Não
negamos a cientificidade ou a síntese representadas pelos mapas e
cartas. Porém, procuramos destacar um elemento que geralmente passa
“despercebido” no nosso contato diário com eles, que é
justamente essa capacidade de revelar/ocultar a própria realidade
que lhe deu origem e valor.
As
representações, especialmente aquelas políticas em pequena
escala, por se constituírem numa síntese discursiva e criarem a
familiaridade com as diferentes construções políticas
materializadas no espaço, têm um poder de convencimento maior que
qualquer discurso proferido ou escrito, até por se
“cristalizarem” em nosso imaginário.
Como
no caso das imagens anteriores, essa função criadora/reforçadora
de identidades é tão forte em tais mapas, que eles podem conter
toda uma propaganda ideológica, política e econômica,
transformando-se, eles próprios, em “sujeitos”.
Para
Althusser, “a ideologia é uma representação da relação imaginária dos indivíduos
com suas condições reais de existência”
(Althusser:1996:126). Nesse caso, os mapas políticos em pequena
escala representam ideologicamente a relação sociedade x território,
a despeito da temporalidade dessa relação, ou até mesmo, apesar
dela.
Ainda
segundo esse autor, “o que
os ‘homens’ ‘representam para si’ na ideologia não são
suas condições reais de existência, seu mundo real; acima de
tudo, é a sua relação com essas condições de existência que se
representa para eles na
ideologia. É essa relação que está no centro de toda representação
ideológica, portanto, imaginária, do mundo real.”
(Althusser:1996:127, grifos nossos). Portanto, um mapa político em
pequena escala não é o território “concreto” das sociedades,
mas representações imaginadas dele. E por isso mesmo, podem ser os
porta-vozes - indireta ou diretamente - de um discurso sobre ele,
como nos exemplos anteriores.
Outro
aspecto que se destaca nesses mapas é que eles realizam aquilo que
Pêcheux denomina de “interpelação”.
De acordo com ele, a “interpelação
é uma ilustração, um exemplo adaptado a um modo específico de exposição, suficientemente
‘concreta’ para ser reconhecida, mas abstrata o bastante para
ser pensável e pensada, dando origem a um conhecimento.”
(Pêcheux:1996:149, grifos nossos).
Logo,
quando “se fala, se fala a alguém”, e, especialmente no caso
dos últimos mapas, de “uma comunidade para outra comunidade”,
ainda que “imaginada”.
Tais mapas constituem portanto, um sentido e, ao mesmo tempo, “um
sujeito”, representando identidades, pertencimentos, “o seu
lugar”, o “seu território”.
Pêcheux
portanto, afirma que “o
teatro da interpelação” permite a ligação do “sujeito
perante a lei”, apresenta esse vínculo como se “o
teatro da consciência - eu vejo, eu falo, etc - fosse observado dos
bastidores” e designa, pela discrepância da formulação “indivíduo/sujeito,
o paradoxo pelo qual o sujeito é chamado a existir” (Pêcheux:1996:146,
147).
Logo,
o importante é o significante, isto é, aquilo que representa o
sujeito da interpelação/identificação. No caso dos mapas
apresentados anteriormente, eles próprios se transformaram em
significantes/sujeitos, traduzindo para outros sujeitos - dessa vez
concretos, os “nacionais” - o que significa pertencer a um
território.
É
uma inversão, como se o território existisse antes do espaço, sem
contradições, sem processos, sem relações de poder,
“naturalizando” e cristalizando portanto, tais configurações
territoriais.
Ainda
de acordo com Pêcheux,
“se
é verdade que a ideologia recruta sujeitos entre os indivíduos
(...), precisamos saber de que modo ‘voluntários’ são
designados nesse recrutamento (...), como os indivíduos aceitam
como evidente o sentido daquilo que ouvem e dizem, lêem e escrevem
(ou do que tencionam dizer e do que se tenciona dizer a eles) na
condição de sujeitos falantes.” (Pêcheux:1996:151)
Portanto,
apesar das especificidades inerentes aos mapas políticos em pequena
escala como discurso, estes podem realizar esse “recrutamento”,
especialmente ocultando/revelando a constituição histórico/concreta
dos territórios.
Tais
mapas são exaustivamente vistos em todos os lugares, diariamente
reproduzidos pelos meios de comunicação, com as mais variadas
intenções, além de se tornarem familiares para nós a partir das
aulas de geografia. Como não percebemos esse imenso poder com o
qual lidamos quotidianamente?. Como agimos como “autômatos” na
construção/reprodução desse saber, apesar de portarmos um
discurso político “progressista e libertário”? Talvez essa
seja apenas mais uma faceta do nosso “concreto” mal conhecido.
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BIBLIOGRAFIA
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