Maurice
Halbwachs e a questão da Memória
O
crescente interesse que a memória vem suscitando hoje entre os
historiadores decorre, segundo Patrick Hutton, da inspiração da
historiografia francesa, especialmente da história das mentalidades
que se propagou nos anos 1970. Para Hutton, a memória já se
encontrava implícita naquele momento, principalmente porque os
estudos voltados para a área em questão procuravam abordar
aspectos da cultura popular, da vida em família, dos hábitos e
costumes de uma localidade, da religiosidade, entre outros, que são,
sem dúvida, pontos que remetem à constituição social da memória.
Patrick Hutton destaca ainda o trabalho de Philippe Ariès, o qual
seria um dos primeiros a adentrar no tema da memória, ao
reivindicar atenção sobre o papel dos monumentos e comemorações
relacionados aos personagens políticos reconhecidos do século XIX,
durante a formação dos Estados-Nação (FERREIRA, 2002:
pp.141-52).
Em
trabalhos mais recentes, a relação entre História e Memória
levou vários estudiosos a refletir sobre o conceito de memória,
uma vez que o termo passou a ser muito difundido e revalorizado
atualmente, mas, em contrapartida, tornou-se alvo de grande descaso
ou “fragilidade teórica”. “Em uma palavra, muito se fala e se
pratica a ‘memória’ histórica (...), mas pouquíssimo se
reflete sobre ela” (SEIXAS, 2004: p.38). Neste esforço de pensar
o conceito de memória tornou-se fundamental o retorno às idéias
de Maurice Halbwachs que, em 1925, elaborou uma espécie de
“sociologia da memória coletiva”. Trabalhos importantes como Les
Lieux de Mémoire do historiador Pierre Nora de 1984 e Memória,
Esquecimento, Silêncio e Memória e Identidade Social do
historiador Michael Pollak (publicados respectivamente em 1989 e
1992) encontram-se em constante diálogo com a obra deste pensador.
E,
com a finalidade de perfazer estes caminhos já há algum tempo
sinalizados por tais historiadores, que proponho neste texto algumas
breves considerações acerca do pensamento de Halbwachs sobre a memória.
A
questão central na obra de Maurice Halbwachs consiste na afirmação
de que a memória individual existe sempre a partir de uma memória
coletiva, posto que todas as lembranças são constituídas no
interior de um grupo. A origem de várias idéias, reflexões,
sentimentos, paixões que atribuímos a nós são, na verdade,
inspiradas pelo grupo. A disposição de Halbwachs acerca da memória
individual refere-se à existência de uma “intuição sensível”.
Vejamos:
“Haveria
então, na base de toda lembrança, o chamado a um estado de
consciência puramente individual que - para distingui-lo das
percepções onde entram elementos do pensamento social -
admitiremos que se chame intuição sensível” (HALBWACHS, 2004:
p.41).
Tal
sentimento de persuasão é o que garante, de certa forma, a coesão
no grupo, esta unidade coletiva, concebida pelo pensador como o espaço
de conflitos e influências entre uns e outros (HALBWACHS, 2004:
pp.51-2). A memória individual, construída a partir das referências
e lembranças próprias do grupo, refere- se, portanto, a “um
ponto de vista sobre a memória coletiva”. Olhar este, que deve
sempre ser analisado considerando-se o lugar ocupado pelo sujeito no
interior do grupo e das relações mantidas com outros meios (HALBWACHS,
2004: p.55).
Para
além da formação da memória, Halbwachs aponta que as lembranças
podem, a partir desta vivência em grupo, ser reconstruídas ou
simuladas. Podemos criar representações do passado assentadas na
percepção de outras pessoas, no que imaginamos ter acontecido ou
pela internalização de representações de uma memória histórica.
A lembrança, de acordo com Halbwachs, “é uma imagem engajada em
outras imagens” (HALBWACHS, 2004: pp. 76-78). Ou ainda,
“a
lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a
ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por
outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a
imagem de outrora manifestou-se já bem alterada” (HALBWACHS,
2004: pp. 75-6).
As
lembranças podem ser simuladas quando ao entrar em contato com as
lembranças de outros sobre pontos comuns em nossas vidas acabamos
por expandir nossa percepção do passado, contando com informações
dadas por outros integrantes do mesmo grupo. Por outro lado, afirma
Halbwachs, não há memória que seja somente “imaginação pura e
simples” ou representação histórica que tenhamos construído
que nos seja exterior, ou seja, todo este processo de construção
da memória passa por um referencial que é o sujeito (HALBWACHS,
2004: p. 78; 81).
A
memória individual não está isolada. Freqüentemente, toma como
referência pontos externos ao sujeito. O suporte em que se apóia a
memória individual encontra-se relacionado às percepções
produzidas pela memória coletiva e
pela memória histórica (HALBWACHS, 2004: pp. 57-9). A vivência
em vários grupos desde a infância estaria na base da formação de
uma memória autobiográfica, pessoal.
Também
importante neste processo, assinala Halbwachs, são as percepções
acrescentadas pela memória histórica:
“os
quadros coletivos da memória não se resumem em datas, nomes e fórmulas,
que eles representam correntes de pensamento e de experiência
onde reencontramos nosso passado porque este foi atravessado por
isso tudo” (HALBWACHS, 2004: p.71).
A
memória apóia-se sobre o “passado vivido”, o qual permite a
constituição de uma narrativa sobre o passado do sujeito de forma
viva e natural, mais do que sobre o “passado apreendido pela história
escrita” (HALBWACHS, 2004: p.75). Em Halbwachs, a memória histórica
é compreendida como a sucessão de acontecimentos marcantes na história
de um país. O próprio termo “memória histórica” desta forma,
seria uma tentativa de aglutinar questões opostas, mas para
entender em que sentido a História se opõe à Memória, para
Halbwachs, é preciso que se atenha à concepção de História por
ele empregada.
A
memória coletiva é pautada na continuidade e deve ser vista sempre
no plural (memórias coletivas). Ora, justamente porque a memória
de um indivíduo ou de um país estão na base da formulação de
uma identidade, que a continuidade é vista como característica
marcante. A História, por outro lado, encontra-se pautada na síntese
dos grandes acontecimentos da história de uma nação, o que para
Halbwachs faz das memórias coletivas apenas detalhes:
“O
que justifica ao historiador estas pesquisas de detalhe, é que o
detalhe somado ao detalhe resultará num conjunto, esse conjunto
se somará a outros conjuntos, e que no quadro total que resultará
de todas essas sucessivas somas, nada está subordinado a nada,
qualquer fato é tão interessante quanto o outro, e merece ser
enfatizado e transcrito na mesma medida. Ora, um tal gênero de
apreciação resulta de que não se considera o ponto de vista de
nenhum dos grupos reais e vivos que existem, ou mesmo que
existiram, para que, ao contrário, todos os acontecimentos, todos
os lugares e todos os período estão longe de apresentar a mesma
importância, uma vez que não foram por eles afetadas da mesma
maneira” (HALBWACHS, 2004: pp. 89-90).
A
história de uma nação pode ser entendida como a síntese dos
fatos mais relevantes a um conjunto de cidadãos, mas encontra-se
muito distante das percepções do indivíduo, daí a diferenciação
estabelecida por Halbwachs entre Memória e História (HALBWACHS,
2004: p.84).
Ora,
a escrita da História passou por significativas mudanças. A crise
epistemológica porque passou recentemente a disciplina estremeceu várias
das certezas dos historiadores. Passamos a questionar a própria noção
de um tempo fixo, para defender a existência de temporalidades múltiplas.
Também a questão da objetividade, durante tanto tempo cara ao
historiador, vem sendo relativizada, pois assim como o historiador
é fruto de seu tempo, também o é o discurso histórico por ele
produzido. As fontes escritas também não são menos inverídicas
do que as fontes orais, ambas devem ser analisadas criticamente,
este sim critério indispensável àqueles que concebem a prática
historiográfica como científica.
Mesmo
partindo de uma concepção diferenciada acerca da disciplina histórica,
Pierre Nora, na tentativa de pensar a ponte entre História e Memória,
assim como Halbwachs, as opõe radicalmente. Para Nora, a memória
tornou-se objeto da história, sendo por esta filtrada, o que impede
o estabelecimento de diferenças entre a memória coletiva e a memória
histórica. Mais do que isso, fala-se muito em memória atualmente,
mas porque a memória já não existe e tudo aquilo que se considera
memória é, para Nora, história. Com isso, restam apenas
“lugares de memória” (SEIXAS, 2004: p.40-1). Nora, acaba por
retomar parte do pensamento de Halbwachs, acerca das relações
entre história e memória:
“a
história começa somente do ponto onde acaba a tradição,
momento em que se apaga ou se decompõe a memória social.
Enquanto uma lembrança subsiste, é inútil fixa-la por
escrito” (HALBWACHS, 2004: p.85).
A
diferença entre o que defende Pierre Nora nos dias de hoje para o
que afirmava Halbwachs na década de 1920 é que para Halbwachs as
lembranças seriam incorporadas pela história à medida em que
fossem deixando de existir ou à medida em que os grupos que as
sustentavam deixassem de existir. Nora, por outro lado, entende de
forma mais ampla que a categoria memória deixou de existir porque
passou a ser reivindicada pelo discurso histórico.
Já
Michael Pollak, não vê com tanto pessimismo as relações entre
história e memória ou entre a memória oficial (nacional) e aquilo
que denominou “memórias subterrâneas” em referência às
camadas populares. Para Pollak, estas memórias marginalizadas
abriram novas possibilidades no terreno fértil da História Oral. Não
se trata de historicizar memórias que já deixaram de existir, e
sim, trazer à superfície memórias “que prosseguem seu trabalho
de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível” e
que “afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e
exacerbados” (POLLAK, 1989: p. 3-15). É por isto, que se pode
afirmar, nos dizeres de Henry Rousso que a “história da memória
tem sido quase sempre uma história das feridas abertas pela memória”
(ROUSSO, 2002: p. 95).
Mais
do que isso, o que a emergência destas memórias vêm ocasionando,
conforme aponta Pollak, é a disputa entre memórias ou a luta entre
a memória oficial e as memórias subterrâneas. Este embate que se
trava pela incorporação destas memórias marginalizadas,
silenciadas, é um embate pela afirmação, sobretudo, de uma
identidade que, por pertencer a uma minoria, encontra-se
marginalizada (POLLAK, 1989: pp. 3-15).
A
escrita da história como concebida nestes tempos idos do estudioso
da sociologia da memória transformou-se profundamente até os dias
atuais. E se, a memória retornou ao meio acadêmico com tamanha força,
isto, sem dúvida, decorre das questões que o tempo presente vem
colocando ao historiador e à sociedade atual.
O
processo de globalização recorrente, por exemplo, é parte
indissociável do que agora molda o homem que procura compreender
seu tempo, seu passado. Também aí se insere a luta empreendida
pelos diversos movimentos sociais no intuito de alargar o conceito
de cidadania no interior da sociedade e nas relações de poder que
permeiam a atividade humana. Ambos os processos reclamam a questão
da identidade, seja ela de minorias, seja do ponto de vista da nação.
Daí o discurso de “memória” alcançar tamanho significado nos
dias de hoje.