Tecendo a
manhã
Neste
dia 16 de janeiro, como todos os anos, aqui nos Estados Unidos se
comemora o aniversário do Dr. Martin Luther King Jr. Esta é uma
ocasião para lembrar a sua vida, o que ele conseguiu durante seus
anos de luta, assim como também a vida e o exemplo de muitas outras
pessoas que participaram e participam na luta pela igualdade de
direitos humanos para todos, independentemente da cor da sua pele.
Um dos primeiros exemplos que vêm à memória é Rosa Parks, que
morreu no dia 24 de outubro de 2005, aos 92 anos de idade. Ela, que
foi chamada a mãe da luta pelos direitos humanos, viveu uma vida
muito simples, mas que espelhou sempre sua coragem e determinação.
Naquele
dia, primeiro de dezembro de 1955, em Montgomery, Alabama, quando a
jovem costureira Rosa Parks se recusou a ceder o banco do ônibus a
um homem branco, ela sabia muito bem o que estava fazendo. Ademais,
como ela disse mais tarde, ela sabia que ela
“had the strength of [her] ancestors with [her]” –
“tinha a força dos [seus] antepassados com [ela]”. Como todos
sabemos, naquela época os meios de transporte coletivo eram
segregados nos Estados Unidos, isto é, tinham lugares na frente
para os brancos, e uma parte reservada no fundo para os negros. Rosa
Parks, que então tinha 42 anos, e
participava das reuniões da NAACP como conselheira dos
grupos juvenis, estava voltando do trabalho, e havia se sentado na
primeira fila da secção “negra” do ônibus.
De acordo com a lei “Jim Crow” em vigor na época, os negros
sentados até a quarta fila da sua secção tinham que ceder o lugar
a um branco que estivesse de pé.
Um homem branco queria que Rosa lhe desse seu lugar, e ela se
recusou a levantar-se.
Ela
estava cansada. Muitos escreveram que ela estava cansada depois de
um longo dia de trabalho. Mas não: como ela disse mais tarde, ela
estava cansada da discriminação, e de ser forçada a ceder aos
brancos. Como punição por sua negativa, o motorista James Blake
chamou a polícia, e ela foi presa por violar as leis de segregação.
Um dos jornais do dia seguinte estampou a seguinte manchete: “Negress
Draws Fine In Segregation Case Involving Bus Ride” (“Mulher
negra recebe multa em caso de segregação envolvendo viagem de ônibus”).
Mas na verdade, houve muito mais que uma multa, e muito mais que uma
simples viagem de ônibus. Ela não foi a primeira pessoa a ser
presa por recusar a dar o lugar a um branco, mas a liderança dos
grupos negros queriam que ela fosse a última.
E
assim foi. A ação de Rosa Parks, e a sua determinação de não
ser amedrontada pelos então vigentes estatutos legais, deram início
à luta pelos direitos humanos nos Estados Unidos. Esta luta começou
com o boicote de todos os negros contra todos os ônibus na cidade
de Montgomery. Para liderar este boicote, foi escolhido o jovem
ministro Martin Luther King, Jr., que se dirige às paradas de ônibus
para ver se nenhum africano americano está tomando o ônibus, e
naquela noite, em reunião na igreja, faz um discurso que galvaniza
os presentes e os incentiva a seguir com a luta. Um ponto
fundamental na luta proposta por Dr. King era a não-violência. Em
nome da não-violência ele levou sua vida, sempre pregando que
mudanças podem ser conseguidas sem que as pessoas recorram às
armas. Infelizmente, como todos sabemos, Dr. King foi assassinado em
Memphis, Tennessee, em 4 de abril de 1968.
Rosa
Parks, assim como muitas outras pessoas envolvidas com os direitos
humanos, continuaram a luta. Ela mais tarde teve que mudar-se de
Alabama, para escapar à perseguição das pessoas. Durante toda sua
vida, ela seguiu participando em inúmeras atividades, sempre
levando a mensagem da não violência e da necessidade de cada um
fazer a sua parte. Quando ela morreu, aos 92 anos, o país inteiro
prestou homenagens. Em outubro, quando o corpo de Rosa Parks foi
velado na Rotunda do Capitólio em Washington, ela foi a primeira
mulher a receber esta honra.
Mas
ela não foi a primeira mulher negra a lutar, a seu modo, pela
igualdade e a liberdade dos negros americanos. Uma das outras
mulheres cujo exemplo e luta não é muito conhecido fora dos
Estados Unidos é Harriet Tubman. Aqui, ela é uma das figuras
estudadas nas escolas, e foi através dos estudos de uma de minhas
filhas que eu conheci a história desta mulher de garra.
Harriet
Tubman nasceu escrava, em Maryland, em 1819 ou 1820. Quando tinha 12
anos, um homem branco – um capataz – lhe deu uma pancada tão
forte na cabeça que ela sofreu a vida inteira de uma doença,
narcolepsia, que a fazia cair em sono profundo de um minuto para
outro. Aos 25 anos ela se casou com um americano negro livre, o que
não a libertava da escravidão. Por isto, em 1849 ela fugiu dos
donos, e foi para o norte, onde seria livre. Mas, e aqui está a
parte mais importante da história, ela voltou à sua terra natal
para salvar outros. Primeiro, ela salvou a seus pais e irmãos, os
quais ela levou a St. Catharines, no Canadá. Depois, continuou seu
trabalho, participando no que se conhece como “The Underground
Railroad” (“A linha subterrânea”). Esta “linha” consistia
de várias casas e lugares onde os fugitivos podiam se esconder
durante o dia, na jornada ao norte, rumo à liberdade. Muitas destas
casas pertenciam a brancos, simpatizantes da causa da libertação
dos escravos. Entre eles, estavam os que participavam da religião
dos “Quakers,” assim como de outras religiões. Durante
10 anos, Harriet fez 19 viagens de volta ao sul escravagista, e se
calcula que levou 300 pessoas ao norte. Por esta luta, ela foi
chamada a “Moisés de seu povo”. Mas sua missão não terminou aí:
quando começou a guerra civil, ela trabalhou para o lado da União
como cozinheira, enfermeira, e mesmo como espiã (provavelmente
utilizando as habilidades que desenvolvera durante os anos da
“linha subterrânea”. Quando Harriet Tubman morreu, em 1913, sua
casa em Auburn – que ela tinha comprado da família do ex-senador
e ex-governador do estado de Nova Iorque, William W. Seward –
tinha se expandido em um estabelecimento de caridade em que velhos e
indigentes eram cuidados.
Mas
a idéia da liberdade para os escravos não ficou reduzida em um
compartimento estanque. Como a casa de Harriet Tubman fica a somente
algumas milhas de Seneca Falls – o lugar em que o movimento para o
direito ao voto feminino ganhou força – a inspiração desta
mulher excepcional certamente fazia parte das mesmas energias que
moviam as “sufragettes” – mulheres que lutaram pelo direito ao
voto feminino. Quando as mulheres ganharam
o direito de votar, em 1920, depois de uma luta de 72 anos,
este direito mínimo se expandiu, e hoje mulheres têm não só o
direito de votar, mas também de se candidatarem, serem eleitas e
participarem plenamente da vida política da nação. Em 2005,
comemoramos 85 anos em que este direito é parte da vida de todas as
mulheres, é difícil acreditar que houve um tempo em que nascer
mulher determinava que a pessoa não podia votar.
Assim
como o movimento, no século XX, para garantir que africanos
americanos tivessem os mesmos direitos que os outros americanos se
expandiu em outros movimentos de caráter democrático, o exemplo de
Harriett Tubman foi uma fagulha que se expandiu em outros fogos. E
nem sequer suas limitações físicas a impediram: ela era uma
mulher frágil, com um sério problema de saúde (causado pelo golpe
na cabeça), mas não se acabrunhou, e lutou até as últimas conseqüências
por aquilo que achava certo. Ela, assim como Rosa Parks, não
pensava em benefícios pessoais. Ela lutou por algo em que
acreditava, e soube aceitar a ajuda dos que estavam a seu favor, não
se importando com a sua cor. É preciso não esquecer: entre os
abolicionistas americanos, muitos eram brancos.
Aqui
chegamos a Martin Luther King, Jr,
o homenageado do dia 16 de janeiro. Como Rosa Parks, ele também
se sabia descendente de uma linha de pessoas que haviam lutado
contra a opressão dos negros. Assim como Harriet Tubman e Rosa
Parks, ele também sabia que a luta contra a discriminação e o
racismo não é uma luta somente das pessoas de uma cor. Assim como
muitos abolicionistas eram brancos, muitos dos que lutaram – e
morreram – durante o tempo em que os Estados Unidos passaram pelo
movimento pelos direitos civis, eram brancos.
O
ponto, nestas lutas pela igualdade de todos, é conseguir manter a
calma enquanto se debatem os pontos importantes, e levar a discussão
dos assuntos de maneira inclusiva: todos estamos envolvidos, de uma
maneira ou outra. A liberdade e a igualdade afetam a todos, assim
como a escravização, a humilhação, a diminuição de uma parte
da população afetam a todos.
Infelizmente,
muitos lutam durante toda a vida, e não chegam a usufruir dos
resultados.
Cada país tem exemplos de tais pessoas, e no Brasil, para citar um
caso recente, basta lembrar o nome de Chico Mendes, que pagou com a
própria vida, em 22 de dezembro de 1988, por sua tentativa de
proteger o Amazonas.
Muitos
atos grandes e pequenos de heroísmo e sacrifício anônimos se
repetem no dia
a dia, mas a mensagem é a mesma: brigar não é a solução,
simplesmente porque a violência só atrai mais violência. A solução
só pode ser encontrada com a soma de forças. Todo movimento, toda
idéia, necessita um ícone, uma fagulha, mas é a união de todos
que faz o movimento, seja aqui, seja aí, seja acolá. O espírito
humano, a sede de justiça e os sonhos de igualdade que comemoramos
no aniversário de Martin Luther King Jr, existem em todos os
lugares. Homens e mulheres de boa vontade, de qualquer cor, de
qualquer lugar, que qualquer habilidade física e mental, são
necessários para fazer deste um mundo melhor. Ou, como escreveu
o poeta João Cabral de Melo Neto,
"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".