A América
Latina pende à esquerda?
A
histórica vitória do líder camponês Evo Morales nas eleições
da Bolívia, em 18 de dezembro, confirma a tendência de uma viragem
política à esquerda na América Latina. Após um longo período de
hegemonia neoliberal, com a folgada reeleição de direitistas
alinhados aos EUA – como FHC, Menem e Fujimori –, o pêndulo
hoje pende para as forças oriundas das lutas sociais comprometidas
com soberania e a integração regional. A insatisfação social,
presente nas guerrilhas da Colômbia e Chiapas, nos levantes
insurrecionais que depuseram onze presidentes em cinco anos e nos
crescentes protestos de rua, desemboca na vitória de candidatos
mais esquerda do espectro político – como Chávez, Lula, Kirchner,
Tabaré e, agora, Morales.
A
“esquerdização” da América Latina já inquieta o imperialismo
e seus servos locais. FHC e a diplomata ianque Carla Hills,
integrantes de um grupo de consultoria dos EUA, já alertaram o
presidente George W. Bush sobre os perigos para a “democracia na
continente”. Roberto Teixeira, ex-presidente do Conselho de Empresários
da América Latina, insiste em enquadrar os novos governos no
espartilho neoliberal. “Nossa região corre risco de que se
acentue um movimento pendular para a esquerda – esquerda que, no
entanto, quando no poder tem demonstrado moderação e bom senso. A
globalização impôs regras de conduta em políticas macroeconômicas
que não dão margem a experiências exóticas ou demagógicas”,
aconselha.
O
temor imperial deve crescer ainda mais. Além da Bolívia e do
Chile, onde também o candidato ligado aos EUA foi derrotado no
primeiro turno, outras 11 eleições presidenciais ocorrerão na América
Latina em 2006. Em várias delas, postulantes de esquerda e
centro-esquerda despontam como favoritos. No Peru, o militar
nacionalista Ollanta Humala já surpreende com 22% das intenções
de voto para o pleito de abril. No México, López Obrador,
ex-prefeito da capital e líder da centro-esquerda, mantém folgada
vantagem para a eleição de junho. Hugo Chávez, por sua vez,
consolidou sua força bolivariana para a reeleição em junho. Na
Nicarágua, o líder sandinista Daniel Ortega poderá retornar à
presidência.
Por
fim, para encerrar este ciclo eleitoral, haverá a decisiva sucessão
no Brasil. Segundo recente artigo da BBC britânica, esta é a que
gera maior expectativa em Wall
Street. Dois especuladores entrevistados não esconderam as
preferências do capital financeiro. Paulo Leme, do Banco Goldman
& Sachs, avaliou que “o PSDB tem chance de ganhar a eleição.
O presidente Lula continua a ser um candidato formidável, mas
acredito na alternância de poder e acho que isso é positivo”. Já
Lise Schineller, diretora da agência de risco Standard & Poor’s,
revelou que “em conversas com investidores, percebe-se a preferência
por Alckmin”. A sucessão no Brasil é estratégica para o futuro
das esquerdas na América Latina. Não é para menos que Chávez, em
recente discurso em Pernambuco, fez questão de dizer: “Se fosse
brasileiro, votaria em Lula”.
Região
em chamas
Mas
o que explica a recente viragem política à esquerda na América
Latina? Ela tem consistência e pode, de fato, redesenhar o mapa político
desta sofrida região? No esforço para decifrar este fenômeno,
alguns livros têm sido publicados sobre o tema. Um dos mais
recentes, “Continente em chamas – globalização e território
na América Latina”, organizado por Maria Laura Silveira (Editora
Civilização Brasileira), reúne oito artigos que abordam as
diversas transformações econômicas, políticas e sociais e ajudam
a entender as turbulências e as mutações em curso no continente.
Os autores, todos vinculados à área da geografia, procuram
pesquisar os impactos da globalização neoliberal neste vasto e
diferenciado espaço territorial.
Ao
estudar as experiências recentes do México, Venezuela, Colômbia,
Uruguai, Chile, Argentina e Brasil, eles abordam a rica diversidade
destes países, mas apontam as convergências que integram a região.
“Na globalização, a América Latina mostra, mais uma vez, que não
é homogênea, que as possibilidades e as mazelas da história do
presente atingem-na diferenciadamente, que a lei que permite a
mais-valia se faz a partir do uso específico de cada território
nacional e que cada sociedade dá valor próprio às coisas, aos
homens, às ações. Mas o período atual revela, também, que há
um denominador comum no continente: a desvalorização do trabalho,
fundamento da pobreza”, explica a organizadora do livro.
No
estudo de cada nação, ficam evidentes os efeitos destrutivos e
regressivos do neoliberalismo na região. Sob a hegemonia do capital
financeiro, este modelo devastou os Estados nacionais, reduziu
investimentos nas áreas sociais, desnacionalizou as economias e
saqueou suas riquezas, atacou os direitos trabalhistas e gerou mais
desemprego, violência e miséria. “Prometendo tirar a América
Latina do marasmo, o ideário do Consenso de Washington foi aplicado
nos seus rígidos princípios de estabilidade macroeconômica,
abertura da economia, redução do papel do Estado e ajuste
estrutural. Apresentada como conseqüência inevitável e indesejável
do caminho da recuperação dos países, a pobreza foi, na verdade,
uma produção deste receituário e, portanto, uma opção política
do norte ao sul do continente”, conclui Maria Laura.
O
apanhado de cada país é rico em informações. Daniel
Hiernaux-Nicolas mostra os estragos causados no México pela
“abertura brutal e repentina” da economia. Delfina Fighera prova
como a riqueza do petróleo serviu à oligarquia, agravou os índices
de pobreza e projetou a forte liderança de Hugo Chávez. Gustavo
Montañez analisa o peso do narcotráfico, da explosão de violência
e das guerrilhas na Colômbia. Álvaro Gallero aborda a espantosa
regressão do “civilizado” Uruguai. Luis Riffo desmistifica a
badalada inserção do Chile na globalização neoliberal. Maria
Laura relata a destruição imposta pela ditadura financeira na
Argentina. Mônica Arroyo estuda o aumento da vulnerabilidade e da
dependência da economia no Brasil. Por fim, Lia Osório trata do
sistema de Estados e dos limites internacionais da atual globalização.
O
livro é bastante plural, inclusive com certas abordagens de viés
liberal. Mas as análises e informações contidas nele ajudam a
entender as recentes turbulências políticas e sociais no
continente e a explicar a tendência em curso de fortalecimento da
esquerda da América Latina. A devastação neoliberal, imposta pela
ditadura financeira, resultou na explosão de insatisfação e
revolta na região. O desejo de mudanças, de superação do
neoliberalismo, tem levado os “excluídos” a votarem em
militares rebeldes, em operários sindicalistas e em líderes
camponeses. A frustração desta esperança, entretanto, pode
reverter a alentadora guinada à esquerda da América Latina em luta
por soberania, integração, democracia e justiça social.