Raio
X de Tio Sam
Moniz
Bandeira diz que 100 anos depois do nascimento, o império americano
começa seu declínio
Há
mais de 40 anos o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira está
mergulhado no estudo das relações entre os Estados Unidos e o
Brasil. Desse trabalho nasceu uma obra profícua, que teve início
com o hoje clássico Presença
dos Estados Unidos no Brasil, de 1973, escrito quando o autor ainda estava na
clandestinidade. O último rebento dessa prole saíra em 2004: As
relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (de Collor a Lula).
Agora, Moniz Bandeira acaba de publicar Formação
do Império Americano. Da guerra contra a
Espanha à guerra do Iraque (Civilização Brasileira), uma análise da trajetória e dos
mecanismos que fizeram, em pouco mais de 100 anos, os Estados Unidos
se transformarem na maior potência de todos os tempos, período em
que o “império da liberdade” dos Pais Fundadores da América
metamorfoseou-se na “liberdade do império” para atuar no mundo.
Doutor em ciência política pela USP, Moniz Bandeira está radicado
há dez anos na Alemanha. Em sua passagem pelo Brasil para lançar o
livro, ele concedeu esta entrevista a ISTOÉ, na qual afirma que,
apesar da pujança de sua economia, o império americano está em
declínio e é um gigante com pés de barro.
ISTOÉ
– O sr. acredita que os EUA começaram a atuar como potência
imperial já a partir da guerra
hispano-americana de 1898?
Luiz
Alberto Moniz Bandeira – Na
verdade, a história dos Estados Unidos, desde 1783, quando terminou
a guerra de independência contra a Inglaterra, é a história de
sua expansão contínua, primeiro internamente, contra os índios e
mexicanos, e depois externamente, como potência imperial. Sob o
discurso do “império da liberdade” dos Pais Fundadores da América
estava o espírito messiânico dos puritanos, que renovou a tradição
judaica de “povo eleito” e “terra prometida” e marcou a
formação e a cultura americanas. O período que vai da segunda
metade do século XIX até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
chamado “A Época dos Impérios”, marca a busca das potências
industriais por espaços econômicos em outros continentes. E os
Estados Unidos começaram a viver esta fase a partir da guerra
contra a Espanha, em 1898. Tendo como pretexto – eles sempre têm
um – o afundamento do navio Maine, supostamente por espanhóis, no
porto de Havana, os EUA fizeram a guerra contra a Espanha para
conquistar o que restava do império colonial espanhol. Naquele
conflito, os americanos incorporaram Cuba, Filipinas, Guam e Samoa.
Aí começou a formação do império americano, a fase da exportação
de capitais. Hoje, depois da queda do comunismo e da ascensão de
George W. Bush, os americanos proclamam abertamente sua condição
de império. E são mesmo. Qual é a nação no mundo que tem bases
militares e tropas em todos os continentes?
ISTOÉ
– Mas pode-se falar de imperialismo na ausência formal de colônias,
como as que integravam os impérios britânico ou francês?
Moniz
Bandeira – Justamente, porque o imperialismo é uma coisa muito mais
ampla do que o colonialismo. Onde estão as fronteiras dos Estados
Unidos hoje? Onde estão as instalações petrolíferas da Standart
Oil, onde estão os mercados Wal Mart, onde está qualquer
investimento americano estão as fronteiras dos EUA. Para isso, para
defender seus investimentos, eles têm que manter soldados em toda a
parte. Não é um império igual aos outros do passado – o império
romano, o império britânico, que têm características muito
diversas. Na verdade, podemos falar, como Karl Kautsky (pensador
marxista alemão, 1879-1938, dirigente da II Internacional), num
superimperialismo, em que a luta entre os capitais financeiros
nacionais dá lugar à solidariedade do capital financeiro
globalizado. Este capital financeiro globalizado, sob a liderança
dos EUA, se transformou num cartel, e os países industrializados
deixaram de competir entre si através de conflitos bélicos. As
guerras, para o consumo do material bélico, passam a ocorrer apenas
na periferia, nos países do Terceiro Mundo. Isso não quer dizer
que o capital financeiro internacional consiga impor uma ditadura
global, porque ainda existe resistência. E as contradições entre
as potências desse cartel, como entre os EUA e a União Européia,
não cessaram de existir.
ISTOÉ
– Nesse quadro, existe espaço de manobra para que países
emergentes como o Brasil possam jogar com essas contradições e
aumentar sua participação no cenário internacional?
Moniz
Bandeira – Sempre é possível jogar com essas contradições de
interesses no cenário internacional, embora o Brasil esteja
inserido neste mesmo contexto da economia internacional. Mas o
Brasil não pode afrontar abertamente esse sistema, como fez a
Argentina. Como disse o Cristovam Buarque num artigo recente, não
foi a Argentina quem fez o default (calote da dívida externa), foi o default que fez a Argentina.
Já o Brasil não pode hoje simplesmente decretar uma moratória,
pois nossa economia está globalizada. Mas nós podemos rejeitar a
Área de Livre Comércio das Américas (Alca), como o fizemos. Isso
está dentro da margem de manobra. Por quê? Porque a Alca não é
uma área de livre comércio, é um sistema de regras que os EUA
querem impor para abrir compras governamentais e investimentos. O
Brasil não tem condições de investir muito nos EUA, mas eles
querem investir muito aqui, só que nas melhores condições para
eles. Mas nós resistimos e a Alca acabou. Apesar da hegemonia
americana, algumas tendências multipolares permitem contrapontos
– a emergência da China, as contradições EUA/União Européia.
Na América do Sul há espaço para manobra, desde que os governos
saibam se conduzir com autonomia, não com subserviência.
ISTOÉ
– No caso do Iraque, não houve esse espaço de manobra...
Moniz
Bandeira – Além das questões geoestratégicas – controle do petróleo
e necessidade de reordenar o Oriente Médio –, o Iraque foi
invadido porque os americanos sabiam que eles não tinham nenhum
tipo de arma de destruição de massa, como foi apregoado. Senão,
por que os EUA não invadiram a Coréia do Norte? Porque eles sabem
que aquele país possui armas nucleares.
ISTOÉ
– Mas os EUA ainda são a economia mais poderosa do globo...
Moniz
Bandeira – Mas observe, os EUA, com toda sua pujança, não conseguem
ter um domínio completo da economia global. A dívida externa dos
americanos é mais de dois terços do PIB, US$ 7 trilhões, de um
PIB de US$ 11 trilhões. Além disso, eles têm um enorme déficit
comercial e fiscal. A China e a Europa estão cheios de dólares; no
dia em que eles resolverem colocá-los em circulação, acaba a
economia americana. É claro que isso não interessa nem a europeus
nem a chineses, porque também prejudica seu comércio. Então,
podemos dizer que o império americano, que há pouco vivia em seu
apogeu, já apresenta sinais de declínio. Só que não podemos
dizer quanto tempo esse declínio vai durar. Hoje, de qualquer
forma, o império americano é um gigante com pés de barro.
ISTOÉ
– Ainda assim, corre o risco de se tornar uma ditadura?
Moniz
Bandeira – Existe esse perigo. Veja as violações dos direitos
humanos em Guantánamo, em Abu Ghraib. Mas não há cultura política
para um golpe militar nos EUA; pode haver uma evolução para um
Estado autoritário, como na Alemanha. Hitler não precisou revogar
sequer uma linha da Constituição de Weimar para implantar sua
tirania.