Venezuela
é indispensável
Em
21 de novembro de 1941, os ministros das Relações Exteriores
Oswaldo Aranha (Brasil) e Enrique Ruiz-Guiñazú (Argentina)
firmaram um tratado que visava a "estabelecer em forma
progressiva um regime de intercâmbio livre, que permita chegar a
uma união aduaneira (...), aberta à adesão dos países limítrofes,
o que não seria obstáculo a qualquer amplo programa de reconstrução
econômica que, sob a base da redução ou eliminação de direitos
e outras preferências comerciais, viesse a desenvolver o comércio
internacional, baseado no princípio multilateral e incondicional da
nação mais favorecida". Esse tratado não foi implementado
porque logo ocorreu o bombardeio de Pearl Harbor e a 2ª Guerra
Mundial afastou o Brasil da Argentina.
Cerca
de 44 anos depois, em 1985, os presidentes Raúl Alfonsín e José
Sarney celebraram os acordos de integração Argentina-Brasil, que
constituíram o maior feito na política exterior dos dois países,
ao longo do século 20.
Esses
acordos, consubstanciados no Tratado de Buenos Aires, evoluíram
para a conformação do Mercosul, em 1991, com a celebração do
Tratado de Assunção e a incorporação do Uruguai e do Paraguai.
Seu objetivo, desde o início, não era confinar-se aos países da
Bacia do Prata, mas constituir, como o tratado de 1941, uma união
aduaneira, aberta à adesão dos países limítrofes, ou seja, aos
vizinhos da América do Sul.
Tanto
isto é certo que, há alguns anos, o Chile esteve a ponto de
integrar-se como membro pleno do Mercosul, conforme o próprio
presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a anunciar, mas não o
fez devido às pressões e manobras dos Estados Unidos.
Se
o Chile esteve para ingressar como membro pleno do Mercosul, por que
não a Venezuela? O Brasil, a Argentina e demais sócios no
Mercosul, se querem fortalecer e consolidar sua unidade econômica e
política, não podem discriminar e excluir nenhum país da América
do Sul.
A
Venezuela é um dos mais importantes países da região, com enorme
importância estratégica, pois compartilha da Amazônia e dá
acesso ao Caribe. Não pode ser de nenhuma forma discriminado,
simplesmente porque seu presidente, Hugo Chávez, é mal visto em
Washington.
A
Venezuela tem enorme peso econômico, devido às suas reservas energéticas
– gás e petróleo, do qual é o quinto maior produtor do mundo e
responsável por 15% do consumo nos Estados Unidos – e a cooperação
com o Brasil e a Argentina permitirá a construção de uma rede de
gasodutos que passará pelos três países, beneficiando o Mercosul.
Naturalmente
o ingresso da Venezuela no Mercosul não agrada à administração
do presidente George W. Bush, que há muitos anos se empenha em
demonizá-lo e destruí-lo, sem sucesso. E não agrada, porque o
Mercosul, com a adesão da Venezuela, amplia-se e se consolida,
robustece seu poder de barganha, ao mesmo tempo em que fortalece a
posição de Hugo Chávez vis-à-vis dos EUA.
É
preciso considerar que o processo de integração Argentina-Brasil,
impulsionado pelos presidentes Alfonsín e Sarney, não visava
apenas ao incremento das relações comerciais. Implicava também um
objetivo político e estratégico, ofuscado pelo Tratado de Assunção,
ao enfatizar o aspecto comercial, sob inspiração do Consenso de
Washington, dominante ao tempo em que foi celebrado pelos governos
de Carlos Menem e Fernando Collor de Melo, em 26 de março de 1991.
Esse
objetivo político e estratégico foi revalorizado com o projeto de
constituição da Comunidade Sul-Americana de Nações e o ingresso
da Venezuela no Mercosul, institucionalizando o eixo Buenos
Aires-Brasília-Caracas.
A
Venezuela é indispensável à Comunidade Sul-Americana de Nações.