Por JOÃO BERNARDO

Doutor pela Unicamp e autor de vários livros.

 

 

Um Acto Estético  

Sobre as expulsões na Unesp-Franca

 

As instalações da Unesp que por uma curiosa perversão da palavra são denominadas «campus» de Franca consistem, na verdade, num decrépito edifício conventual disposto em torno de um claustro, de uma pardacenta feiura característica das instituições religiosas de ensino. Como é sabido, claustrofobia tem claustro como étimo, e a derivação não podia ser mais elucidativa. Que a brutalidade da pedra e do cimento, do betão e do ferro não iludam. A arquitectura e o urbanismo são as mais espirituais das artes, porque nelas se desvenda a existência interior. Como não podia deixar de suceder num edifício assim, o campus de Franca tem uma memória pesada.

Será que são conhecidos e divulgados os caminhos que em Dezembro de 1975, numa época em que se fazia sentir violentamente o poder dos generais, levaram à morte de um geógrafo francês nascido na Polónia, o professor Jan Leszek Dulemba? Suicidou-se ou foi precipitado, física ou moralmente, de uma janela de um décimo primeiro andar? Segundo testemunhas da época, o professor Dulemba não pertencia ao Partido Comunista nem seguia a esquerda radical, mas enquanto europeu era considerado pelos corifeus da direita como um eventual progressista. Além disso, ele era um cientista competente e lutava contra a indigência académica, o que bastava para o singularizar num meio em que proliferavam professores de conhecimentos parcos mas com curricula carregados e abastecidos pela ditadura. Foram estes representantes da mediocridade institucional que envolveram Dulemba numa rede de boatos e delações. Perante o cadáver do marido, a esposa acusou outro professor: «Foi você quem o matou!». Metáfora, decerto, mas como decifrar a alusão? Será que a biblioteca da Unesp cuidou de preservar a documentação referente ao professor Dulemba? Sobre o campus de Franca pairou também a sombra sinistra de Manuel Nunes Dias, um professor ligado de muito perto aos militares, fomentador de denúncias e obreiro de censuras ideológicas, inquéritos e processos administrativos. Estes nomes, estes acontecimentos e o ambiente que os rodeou são hoje silenciados e, quando a omissão não é suficiente, os vestígios são obliterados, mas os fantasmas infestam o lugar. Eu, que residi durante duas semanas nas instalações do campus de Franca, já lá vai uma dezena de anos, via-os passar à luz do dia, rastejando, gemendo baixinho.

Apesar do seu carácter deprimente, aquele edifício serviu de quadro a uma manifestação estética cuja qualidade intrínseca seria suficiente para a singularizar, e que mais notável se tornou ainda pelas consequências que suscitou. Eis como um dos participantes, usando de invejável concisão, descreveu o sucedido:

«No dia 2 de agosto, aqui no campus da UNESP-Franca, tivemos uma visita do nosso reitor (Marcos Macari). Como já sabemos que os interesses da reitoria não representam os interesses dos universitários, um ato de caráter “terrorista poético” foi praticado após o término das inscrições, quase ao fim da reunião, depois de escutarmos todas as perguntas e respostas. O Ato:

«Um estudante entrou na sala carregando um balde, chegou diante do reitor, ajoelhou-se e começou a vomitar, enquanto outro estudante, espalhando um jornal no chão, dizia as seguintes palavras: “Com licença, caríssimo reitor, estamos aqui para mostrar todo nosso cotidiano. Afinal, o senhor não se faz presente com frequência no campus”. (O campus de Franca possui mais de setenta pontos de risco, entre eles desabamento, incêndio, etc. O restaurante universitário atende menos de 10% dos estudantes e a assistência estudantil é precária.) Após ter dito isto o estudante defecou no jornal, enquanto outros estudantes se levantaram e colocaram na mesa do reitor simbólicos coqueteis molotov, alegando que se o objectivo da reitoria era acabar com a universidade, que o magnífico iniciasse isso naquele momento».

No domínio das técnicas artísticas contemporâneas, aquele acto classifica-se como happening. Trata-se de uma forma efémera, em que o artista, neste caso um colectivo artístico, é ao mesmo tempo encenador e representante, e em que o público é envolvido. Em todo o verdadeiro happening a participação do público, voluntária ou involuntária, é indispensável, e deve ser este o critério para distinguir happening e performance. A performance assemelha-se a uma representação teatral, embora na maioria dos casos inclua uma boa parte de improviso, à semelhança do que sucede no jazz. Por seu lado, através de um envolvimento mais amplo do público, os happenings permitem ultrapassar a noção de espaço cénico fechado e convertem-se numa estetização da vida quotidiana.

No entanto, os intuitos do happening dinamizado pelo colectivo artístico de Franca não se esgotaram na sua exibição evidente. Ele teve um carácter estritamente simbólico, e por isso se inseriu na arte conceptual, uma corrente hoje hegemónica nas expressões estéticas. Aliás, os membros do colectivo de Franca manifestam grande interesse pela personalidade e pela obra – as duas são indissociáveis – de Marcel Duchamp, o inspirador das formas actuais de conceptualismo.

Os três ingredientes principais empregues no acto de Franca permitem uma definição estética mais rigorosa. O vómito e as fezes, enquanto matérias orgânicas, lembram a propensão que Beuys manifestava pelo uso de elementos como gordura animal. Só que para Beuys, figura cimeira da arte mundial nas últimas décadas, essa utilização tinha conotações puramente místicas, o que não era de espantar em alguém cuja educação de juventude se fizera no meio do misticismo pagão dos Waffen SS e que aderiu depois a outra modalidade não menos mística, a ecologia, com a sua veneração pela natureza. A enorme repercussão alcançada pelas iniciativas de Beuys e a influência decisiva que elas exercem devem constituir para nós, hoje, tanto uma lição como um problema. Beuys usou de maneira peculiar os símbolos, para localizar a arte - se posso supor os seus termos - na flutuação de energias entre o caótico, o intelectual e o orgânico, tal como na flutuação entre o espírito e a natureza e entre a observação materialista e a intuição irracional. Pelo contrário, no caso do colectivo artístico de Franca as fezes e o vómito foram empregues não como símbolos místicos decorrentes do irracionalismo mas numa acepção estritamente prática e objectiva, para denotar a relação dos alunos e das alunas com a universidade. Quanto ao terceiro dos ingredientes principais, os cocktails molotov, a sua utilização foi duplamente simbólica, e portanto irónica, porque essas conhecidas armas da plebe urbana foram apresentadas não como emblema subversivo dos artistas mas como expressão da vontade destrutiva atribuída à reitoria.

Quanto aos suportes artísticos secundários, o balde e o papel de jornal, pela sua banalidade inserem-se sem dúvida na corrente da arte povera, com todos os seus ecos citadinos de ressentimento quando não mesmo de contestação. Vale a pena reflectir que para vomitar e defecar os artistas teriam podido escolher desde os recipientes mais luxuosos até aos mais humildes, e ao optarem por estes últimos eles mostraram claramente onde se localizam as suas preferências estéticas.

Naquele happening as autoridades académicas foram um elemento tão importante quanto o colectivo artístico que o promoveu, com a diferença porém de que elas não quiseram participar do acto, e foi a sua própria recusa – totalmente previsível, claro – que teve ali valor estético, conferindo ao dinamismo do happening o seu motor principal e instalando nele uma linha de clivagem que tornou a leitura clara para os assistentes. Foi graças à actuação das autoridades académicas, que ao mesmo tempo estiveram envolvidas e recusaram estar, que o simbolismo daquela manifestação se tornou perfeitamente legível, o que contrasta com as ambíguas obscuridades a que se remete a grande maioria da arte conceptual dos nossos dias.

Pelos seus objectivos de contestação e pelo carácter evidente assumido pelo seu simbolismo, a manifestação artística de Franca inseriu-se no quadro da arte conceptual de cariz político. Dentro desta corrente, porém, e ao contrário do que faz Hans Haacke, que ou exibe fotografias e documentos ou usa a instalação como suporte, ou do que faz Thomas Schütte, por exemplo, que usa suportes mais tradicionais ainda, como cartazes, maquettes ou esculturas, o colectivo artístico de Franca recorreu a uma forma de suporte mais moderna, gestual ou, quando material, de valor apenas simbólico.

E convém assinalar aqui que o próprio modo de obtenção de dois dos três ingredientes principais, o vómito e as fezes, constituiu um happening. Os artistas não trouxeram esses elementos já prontos, por assim dizer, mas vomitaram e defecaram em público, de maneira que o processo de obtenção dos materiais estéticos se converteu ele mesmo num processo artístico, o que situou ainda mais resolutamente aquela manifestação entre as correntes de vanguarda da arte dos nossos dias. Como explica um dos membros do colectivo de Franca,

«acreditávamos que a teoria antropofágica de Oswald de Andrade já estava ultrapassada. “Pensávamos” o movimento da Regurgitofagia, que consistia no ato de comer o que é de “fora”, mastigar, vomitar da nossa maneira como na antropofagia, contudo, após tal ato, voltar a comer o vômito, simbolizando o retorno a algo que deu certo em um passado presente».

A arte aprende-se, como qualquer outra coisa. Mas criar não se aprende. Ou se faz ou não se faz. Embora nenhum dos membros do colectivo artístico de Franca seja estudante de arte, todos eles se mostram profundamente empenhados na estética concebida como forma de vida, ou na vida concebida como forma de estética, e por isto mesmo se situaram de maneira criativa no cruzamento de algumas das correntes mais fecundas da arte contemporânea. Um dos participantes no colectivo explica:

«A contracultura, o teatro artaudiano, a arte-intervenção, a aproximação entre arte e vida e muito mais, que inclui desde Charles Bukowski a Hakim Bey, de Allen Ginsberg a Michel Foucault, influenciaram as práticas do dia 2 de agosto. Até mesmo literatura situacionista, psicogeografia, Guy Debord e Bakunin estavam em nosso inconsciente. [...] Ninguém pensava em estabelecer algum tipo de movimento de vanguarda, pois este tipo de intervenção desde 1968 já acontecia. Allan Kaprow em Nova York, Bart Huges em Amsterdam, Provos, o próprio Artaud antes de 68, todos esses já desempenhavam de maneira bastante radical a aproximação entre arte e vida».

A aproximação entre a arte e a vida tem sido desde o romantismo um anseio duradouro na cultura ocidental. Na vertente elitista, o dandy tentou adequar a sua biografia a um padrão de estilo, e pelo menos desde Lord Byron tem havido quem, embora produzindo eventualmente obras objectivadas, se esforce por fazer da vida a obra principal. Consistia precisamente nisto o tão erroneamente denominado «esteticismo», que em vez de isolar a estética da sociedade procurava assumir a vida como um acto estético. Oscar Wilde pagou caro, muito caro, por isso. Mas o Dada mudou tudo, quando deu à aproximação entre vida e arte uma finalidade estritamente subversiva. Não foi por acaso que o Dada surgiu onde surgiu, e quando surgiu, durante a primeira guerra mundial, na Suíça, um país neutral em que abundavam desertores, pacifistas e revolucionários de todos os matizes e de todas as origens. Um pouco mais tarde, na França de entre as duas guerras mundiais, com uma sociedade urbana estiolada, os dadaístas não tiveram outro recurso senão o de se inserir na tradição estética dos salons, e foi desta maneira pouco auspiciosa que nasceu o surrealismo. Na Alemanha, pelo contrário, a revolução de 1918 e 1919, que fracassara na política e nos locais de trabalho, conseguira um novo fôlego na cultura e nos locais de lazer, e através da arte de cabaret prolongou algo da intenção iconoclástica do dadaísmo. Só nesta perspectiva se pode entender a fecundidade da colaboração de Brecht com Kurt Weil. O nazismo acabou com aquilo tudo e, depois do triunfo das democracias, a televisão tem-se esforçado por assegurar que nenhuma dessas ervas daninhas renasça. Inutilmente. A subversão da vida pela arte continua a ser um lema inspirador, pelo menos para aqueles a quem a monotonia da vida ainda não fez esquecer a arte.

O happening de Franca não se limitou, todavia, a reencenar pela enésima vez coisas já feitas. Se tal tivesse acontecido não teria chocado ninguém nem os seus autores teriam sofrido incómodos posteriores. Todos os artistas trabalham com materiais existentes e entre estes materiais contam-se as lições dadas pelos precursores, remotos ou recentes. O acto estético criativo não reside nos elementos que se utilizam mas na forma dessa utilização, e foi aqui que o colectivo artístico de Franca inovou. Será que esta inovação vai abrir caminhos e inspirar outros colectivos, dentro e fora dos campi?

É curioso que as autoridades académicas, que com a sua própria repulsa e indignação prestaram um contributo indispensável ao sucesso daquele happening político, não se tivessem até hoje apercebido de que estiveram no meio de uma actividade artística, e insistam em tratar o acto de Franca como uma vulgar falta de respeito. A nota oficial proveniente da reitoria argumenta que houve uma sessão de perguntas e respostas e que os sete estudantes a deveriam ter aproveitado se tinham alguma coisa a dizer. Como é possível não entender que se tratava de duas formas de arte em conflito? As perguntas e respostas, um sistema viciado pelo predomínio hierárquico de quem possui o controlo da agenda dos assuntos a tratar e o controlo dos tempos de intervenção, correspondem a uma modalidade teatral fechada e tradicional, onde os papéis estão distribuídos e o improviso não existe. Enquanto o happening desestruturou essa representação, apagou as fronteiras do palco, aboliu a distância entre actores e público e retirou às autoridades académicas a possibilidade de ditarem as regras do espectáculo. E apesar de tudo isto o reitor da Unesp desconheceu não só que estava a ser confrontado com uma acção estética mas ainda que a sua própria actuação era estética também, embora de outro estilo. Após o acto do dia 2 de Agosto um professor de Economia da Unesp de Franca, ao ouvir um dos membros do colectivo artístico mencionar uma obra de Duchamp que consiste na sua masturbação dentro de um chinelo, declarou que tal personagem, de que ele aliás nunca tinha ouvido falar, jamais podia ser considerado um artista e mostrou desconhecer o que seria um ready made. Da mesma ignorância padece o vice-reitor da Unesp, que no seu despacho classifica o happening de Franca como

«um ato escatológico sem sentido», «de extrema agressividade gratuita e de profunda imaturidade política».

Quem está a dar provas de imaturidade política, e muito grande, são as autoridades da Unesp, como demonstrarei na sequência deste artigo. Mas pior do que isso, devido ao carácter académico de tais autoridades, é a imaturidade cultural que revelam. Numa cidade como São Paulo, plenamente inserida nas correntes mais dinâmicas da arte dos nossos dias, podia-se esperar que ao menos o reitor da Unesp ou até mesmo o vice-reitor – embora os campi da Unesp e os respectivos professores estejam dispersos pela província, a reitoria está sediada na capital do estado – tivessem algum conhecimento das modalidades estéticas contemporâneas, quanto mais não fosse por ouvir dizer. Mas parece que não. Creio que uma vaca que percorrer o interior do Louvre também não se dará conta de que visitou um museu.

E assim as autoridades fizeram aquilo que sempre fazem quando não entendem o que se passa, invocaram o seu poder, instalaram uma comissão de sindicância e no dia 12 de Novembro decretaram a expulsão dos estudantes acusados de pertencer ao colectivo artístico.

Contactado por um desses estudantes para dar a minha opinião acerca do que ocorrera, com tanta mais boa vontade o fiz quanto isto me permite festejar condignamente os quarenta anos passados sobre a minha própria expulsão das universidades portuguesas. É muito instrutivo ver que decorridas quatro décadas, e em contextos políticos e sociais aparentemente tão diferentes, a universidade continua empenhada em mostrar os estreitos limites do permissível. No dia 18 de Novembro enviei ao reitor da Unesp a seguinte carta:

Magnífico Reitor da Universidade Estadual Paulista

Venho pedir a cassação das expulsões decretadas contra os estudantes do campus de Franca: Bruno Levorin, Petras Antonelli, Iamara Nepomuceno, Felipe Luiz, Tais da Silva, Marcus da Conceição e Rafael Zanatto.

Como não pretendo ocupar-lhe mais do que alguns escassos minutos, esta é a argumentação em que fundamento o meu pedido.

Sou português, escritor, com numerosos livros publicados em Portugal e no Brasil, além de outros países, e desde 1984 tenho sido convidado regularmente a leccionar em várias universidades públicas brasileiras em cursos de pós-graduação.

No entanto, também eu fui expulso da universidade, há exactamente quarenta anos, em 1965, quando era aluno do primeiro ano do Curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fui proibido de frequentar durante oito anos a totalidade das universidades portuguesas, a pena mais elevada aplicada durante todo o regime salazarista. A lista das acusações que me foi endereçada era de considerável extensão, mas de todas elas eu ressalto aqui uma, a de ter agredido fisicamente o reitor da Universidade de Lisboa e dois funcionários que tentaram interpor-se. Pratiquei assim um acto de violência directa, prática, e não meramente simbólica como aquele de que estão acusados os sete alunos do campus de Franca.

E quais foram os resultados da minha expulsão? Ela fez de mim um autodidata, ou seja, lançou-me para formas não académicas de pesquisa e de conhecimento. Além disso, excluindo-me das instituições de ensino, consolidou em mim uma profunda hostilidade a todo o tipo de instituições oficiais e converteu-me para sempre num radical. E apesar disso aqui estou eu, com uma carreira académica, dando aulas em universidades. Nem sequer isto a minha expulsão conseguiu impedir. Para mim ela serviu muito, mas sob o ponto de vista das autoridades não valeu para nada!

Por estes motivos, e com perfeito conhecimento de causa, baseado na minha própria experiência, peço que seja cassada a expulsão dos sete alunos do campus de Franca. Fazer vítimas é, evidentemente, incómodo para as vítimas. Mas, sob o ponto de vista da ordem estabelecida, não me parece que seja a melhor política. Se eu não tivesse sido expulso, seria hoje muito possivelmente um professor de ideias convencionais e postura moderada, em vez de ser quem sou. Não virá a suceder o mesmo com os sete expulsos? É este o risco.

Peço-lhe, Magnífico Reitor, mais uns minutos de paciência.

A editora da Unesp está a publicar a obra completa de Maurício Tragtenberg. Devo muito ao Maurício, autodidata e radical como eu, grande amigo, grande debatedor, a pessoa que inspirou o primeiro convite que me foi feito para leccionar no Brasil. E recordo-me de ele me mostrar uma fotografia tirada numa visita de Benjamin Péret, onde ao lado desse conhecido poeta surrealista francês se podem ver, entre outras pessoas, Mário Pedrosa e Maurício Tragtenberg. Recordo-me também de outra fotografia, mais antiga, publicada em La Révolution Surréaliste, o órgão dos surrealistas franceses, onde se vê o poeta e um padre de sotaina com ar assustado, com a legenda «Benjamin Péret insultant un curé». E conta-se que ele não só insultava os padres, mas cuspia-lhes também. Isto vem hoje nas histórias de literatura, é ensinado por professores e estudado por alunos, passou a fazer parte dos curricula. Talvez seja uma injustiça, mas nas revoltas poéticas são os nomes dos autores que a história registra, não os de quem sofreu o insulto.

E esta é mais uma razão que invoco, Magnífico Reitor, para que seja adoptada uma atitude prudente, evitando-se a expulsão dos sete alunos do campus de Franca.

Com os meus melhores cumprimentos,

João Bernardo

(Doutor pela Unicamp)

Outros professores e estudantes têm protestado contra as expulsões e tentado mobilizar uma corrente de opinião. Apesar de tudo, e perante o carácter de inovação estética apresentado por aqueles acontecimentos, o movimento de apoio parece-me débil, mesmo nos meios de esquerda. Serão muitos os professores com medo de que as suas aulas venham a ser interrompidas por novos happenings? Estarão eles inquietos acerca do que têm andado a fazer? E porquê a hostilidade que numerosos estudantes demonstram para com o acto de Franca? Estou convencido de que no meio estudantil só uma pequena minoria é conscientemente partidária de uma defesa intransigente da ordem estabelecida. Será que alguns se enraivecem ao ver colegas praticarem o que a gente cinzenta jamais teve sequer coragem de imaginar? O fascismo viveu disso, de arrebanhar trabalhadores cobardes que odiavam os seus companheiros ousados. Uma mente livre pode ser um perigo para os poderosos, mas é sentida como um insulto por aqueles que se deixaram escravizar.

O que me impressiona nas críticas feitas por alguns leitores à primeira versão deste meu artigo, publicada num dos sites do Centro de Mídia Independente[1], é o profundo moralismo. Recusa-se ao acto a classificação estética porque ele incluiu excrementos. Fala-se de «o cheiro que ficou ali», de «situação embaraçosa», de «atentado violento contra o pudor», «falta de vergonha», e um tal moralismo é demonstrado por pessoas que não hesitam em empregar a este respeito o vocabulário grosseiro em vez do polido, permitindo-se expressar nas palavras o que negam nos actos. Este paradoxo – que resume a hipocrisia de todo o moralismo – está no centro da questão. Aquilo que indignou tanta gente na manifestação artística de Franca e que chocou vários leitores do meu artigo foi o facto de o vómito e os excrementos terem sido considerados de maneira objectiva, como materiais de finalidade simbólica, sem se introduzirem valores de outro tipo que não o estético. Prova flagrante disto é que os cocktails molotov foram esquecidos e ninguém se preocupou com a possibilidade de, por exemplo, eles explodirem. Especialmente curioso foi ver marxistas ortodoxos participarem da indignação pelo uso de fezes. A redução de um acto ao material empregue no acto é um exemplo extremo de reificação, mas perante o cocó até gramscianos encartados não hesitaram em cometer o supremo pecado antidialéctico.

Parece que custa a entrar nas cabeças que a arte e a moral são permanentemente inimigas. Quando o cristianismo conseguiu produzir uma arte sublime não foi directamente graças à moral mas a um sentido de fé estimulado pela noção de pecado e pelo complexo de culpa. Foi porque os homens se sentiam abjectos e praticavam o que julgavam ser a abjecção que ergueram as catedrais, e lá em cima, nas gárgulas e nos capitéis, longe dos olhares, esculpiram as obsessões cuja superação os levara a rendilhar aquela colossal música de pedra. Por isso os artistas medievais e da primeira renascença, que jamais conseguiram pintar o céu senão de uma maneira entediante, reservaram para o inferno todas as seduções da estética.

Pode-se discordar, evidentemente, do acto de Franca. Uns preferirão outra estética, talvez pendurem reproduções de pintores impressionistas nas paredes de casa, se é que lá penduram alguma coisa, e coloquem uma pequena Vénus de Milo em cima da televisão, ou, se estiverem com a cabeça nos nossos dias, talvez sejam fanáticos de outras correntes artísticas e desprezem tudo o que não seja, por exemplo, instalações com vídeo. Outros não preferem estética nenhuma e acham apenas que os estudantes devem estudar e não ser mal educados. Outros pensarão outras coisas ainda. Mas depois de a reitoria da Unesp ter levado a questão para o plano disciplinar, os professores e os estudantes que se mantiverem em silêncio estão na verdade a apoiar as expulsões. Aqueles que se abstêm de protestar usam as expulsões como arma da sua discordância. Que isto fique claro.

Quanto àquelas pessoas de uma certa esquerda, quando não mesmo de uma certa extrema-esquerda, que se mostram indignadas com o acto e concordam publicamente com as expulsões, fico prevenido do tipo de ensino e de ordem que pretendem estabelecer no dia em que forem donos das coisas. Já o sabia antes, e vejo agora que os factos não lhes ensinaram nada.

A este respeito convém incluir aqui uma observação. Sempre achei, desde muito jovem, que as pessoas de esquerda que rejeitam a irreverência são simples candidatos a novos burocratas e novos conservadores, ou a novos polícias. Cuidado com eles! Numa nota de leitura publicada há alguns meses acerca de um dos meus últimos livros, uma velha figura da esquerda observou que eu teria a língua menos solta se fosse filiado num qualquer dos agrupamentos políticos que por aí existem. Disse-o de uma maneira mais bem educada, mas a ideia era esta. E tem razão. Só que eu prefiro, apesar de ser também uma velha figura da esquerda militante, pertencer à sempre renovada e periodicamente reabastecida confraria dos irreverentes.

 

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[1] A versão ora publicada é a terceira.

 

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