Por MARLI AURAS

Professora Titular do CED/UFSC, aposentada

 

Waldir Rampinelli, Valdir Alvim e Gilmar Rodrigues (organizadores)

Universidade: a democracia ameaçada. São Paulo: Editora Xamã, 2005

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Por que a democracia encontra-se ameaçada no interior da Universidade?

 

Acaba de ser lançado o livro Universidade: a democracia ameaçada, organizado por Waldir Rampinelli, Valdir Alvim e Gilmar Rodrigues, pela editora Xamã, São Paulo. Trata-se de uma obra composta por 14 artigos, todos de autoria de integrantes do cotidiano universitário, professores, pós-graduandos, jornalistas e servidores técnico-administrativos da UFSC e de outras universidades públicas brasileiras e latino-americanas. Posso afirmar que o traço comum a amalgamar os artigos é a forte preocupação para com a defesa do caráter público da Universidade, sob diversos ângulos do trabalho realizado no interior da instituição. Daí o próprio título da obra, que apresenta como inspiração e como força motriz o entendimento de que, para que se consiga ampliar, realmente, com firmeza e coerência, tal compromisso com o público, é indispensável a ampliação e o aprofundamento das práticas democráticas também no âmbito da própria Universidade. Inclusive porque esta instituição, mantida pelos cofres públicos, diante do avassalador domínio do analfabetismo, funcional ou não, a caracterizar historicamente a sociedade brasileira, é um campo privilegiado para a promoção do avançar da democracia em nosso meio, teórica e praticamente (para percebermos mais fundamente o significado disto, é fundamental lembrarmos que a pesada e distorcida carga tributária nacional, proporcionalmente, acaba incidindo mais sobre a multidão dos brasileiros que ganham menos, sob a forma de impostos indiretos, como é o caso do ICMS). Considero importante recordarmos que a UFSC proclama como sua missão “produzir, sistematizar e socializar o saber filosófico, científico, artístico e tecnológico (...) na perspectiva da construção de uma sociedade justa e democrática”. Será que tal mister vem, de fato, sendo perseguido e concretizado? O livro ora em pauta possibilita levantar sérias dúvidas a respeito, chegando mesmo a afirmar que a democracia encontra-se ameaçada.

Diante da continuidade secular do abissal quadro de excludência a caracterizar a realidade de nosso país[1], mantendo o Brasil na vergonhosa posição de ser um dos campeões mundiais no quesito desigualdade econômico-social, apenas superado por um e/ou outro país do continente africano (geralmente marcados pela presença de guerra civil entre seus diferentes grupos étnicos), urge perguntarmos pela real densidade do caráter público da propalada democracia brasileira e perguntarmos, também, já que são questões inter-relacionadas, pelo caráter público da universidade pública. Se o grande traço de nossa paisagem social é a desigualdade, a marcar feito um vergão gerações e gerações de nossos patrícios Brasil afora, seria ingênuo imaginar que a Universidade nada ou pouco tem a ver com tudo isso. É fundamental, pois, que venha a contribuir para a criação de um outro “clima cultural”, que problematize fundamente o “status quo”, que busque desvelar – em todos os campos do saber – a gênese e os nexos responsáveis pela sempre reiterada reprodução do mesmo, de modo a possibilitar o avanço das condições históricas capazes de, efetivamente, promover a construção da “res publica”. Tal imperativo demanda, ao fim e ao cabo, a construção de um projeto nacional, democrático, popular, que trate de responder, de fato, ao desafio de mobilizar legiões e legiões de brasileiros, de todas as idades e quadrantes, para a geração de um coletivo que possa romper com a condição subalterna e garantir mais e mais uma vida decente e digna para o conjunto da população.

Todos os artigos da obra aqui referenciada, encharcados por esse caráter militante, desafiam ao debate, à produção de novas e singulares sínteses a partir da diversidade do trabalho realizado nesta instituição. Vale a pena conferir. O leque das discussões vai do papel dos intelectuais latino-americanos na transformação social aos rumos da educação universitária brasileira sob o domínio do capital financeiro e do conservadorismo. O que vem a ser democracia (é preciso “democratizar a democracia”) e a própria idéia de universidade, a relação entre o público e o privado e a questão do exercício do poder no interior da instituição, seus vários processos eleitorais, a acelerada corrida pelo Lattes (condição “sine qua non” para a vida acadêmica), a ausência de uma política de comunicação entendida como um bem público, a longa greve de nove meses dos servidores da UERJ e o desvelamento do discurso supostamente democrático da reitoria e a cerrada luta do movimento estudantil da Universidade Estadual de Londrina (PR) pelo alargamento de sua participação, são temas, todos da maior importância, trabalhados na obra em pauta, Universidade: a democracia ameaçada. Mas, há ainda mais. O leitor interessado encontrará artigos que, feito dardos, lançam perguntas fundamentais, tais como: “Com a universidade pública em descaso, é a sua reforma que precisamos discutir?”, “Por que atualmente se descarta com tanta facilidade o compromisso nacional que ‘toda’ universidade possui?”, “Como é possível que milhares de universitários brasileiros se dirijam, ano após ano, às universidades estadunidenses e européias e não percebam que as instituições que freqüentam e nas quais conquistam seus títulos são ‘universidades nacionais’?”. Continuam, na obra, as problematizações, todas fecundas e fundamentais, abordando a relação crise da universidade, desafio digital e democratização do ensino (formação educacional para aprender a comprar ou para aprender a refletir?). Por fim, gostaria de destacar um artigo que, pela riqueza e seriedade de suas fontes, alcança o caráter de uma denúncia: “Ensino público e gratuito: a problemática dos cursos de pós-graduação ‘lato sensu’ e as fundações de apoio”[2]. Você sabia, caro leitor, que há casos de professores que conseguem faturar cerca de R$ 70 mil mensais só com a remuneração recebida das fundações? E que há casos de alguns tão envolvidos com o oferecimento de cursos pagos fora da sede que chegam a ser substituídos pelos seus doutorandos que, como orientandos-professores, “eram remunerados pelas aulas ministradas!”?

Para finalizar, faço minhas as palavras da profª Zilda M.G. Iokoi, da USP, responsável pelo prefácio: “Considero que este livro será muito significativo para o debate sobre a democratização da universidade, que, como puderam observar, é equivalente ao da democratização da sociedade”.

 

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[1] A propósito, recentemente, em 21-09-05, a “Folha de S.Paulo”, no Caderno Dinheiro, publicou a reportagem “Fosso – Brasil não só está entre os 4 países mais desiguais em estudo do Banco Mundial como tem mecanismos para perpetuar situação - Bird vê ‘armadilha da desigualdade’ no país”, p. B-1.

[2] Por uma questão de espaço e isonomia, não estou citando os autores do artigo, a exemplo de todos os demais que compõem o conjunto do livro.

 

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