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Por ADRIANO NERVO
CODATO
Adriano Nervo Codato é Professor de
Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Editor
da
Revista de Sociologia e Política |
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Reforma
política:
entre
comportamentos e instituições
Conforme
se lia nos noticiários em janeiro passado, antes da crise política
polarizar a atenção, a “reforma política” estaria, enfim, na
ordem do dia em 2005.
Por
“reforma política” se entende o seguinte: a instituição do
financiamento público das campanhas eleitorais, a votação em
listas de candidatos elaboradas pelos partidos (e não mais em
candidaturas isoladas) e o fim das coligações entre partidos para
as eleições proporcionais. A agenda mais ambiciosa que tinha como
um dos pontos mais importantes a adoção de um sistema eleitoral
que previa o “voto distrital misto” foi, até segunda ordem,
abandonada pelas lideranças.
Evito
especular sobre as conseqüências práticas da alteração nas
regras da competição política. Mas para além dos aspectos técnicos
envolvidos na reforma, desejo indicar dois pontos que passaram ao
largo dessa discussão aparentemente interminável. Afinal de
contas, que problema a reforma política quer resolver? Uma vez
respondida essa questão, surge imediatamente a seguinte: e qual é
o caminho mais adequado para resolver esse problema?
Assim
como os costureiros, os cientistas políticos vivem dos modismos. A
última palavra na área é a ênfase na importância das
“instituições”. Instituições “fortes”, segundo se
acredita, modelam comportamentos políticos erráticos. Os
reformadores de constituições apostam que as alterações nas
regras do jogo que regulam a competição política são suficientes
para restabelecer a fidelidade partidária, a verdade eleitoral e a
transparência das doações para as campanhas.
A
insistência quase exclusiva nos efeitos inibidores do federalismo
(na verdade, do poder dos governadores), do sistema de governo (isto
é, do presidencialismo) e do sistema eleitoral (o voto proporcional
com listas abertas) sobre o sistema partidário confirma esse viés.
Legislação permissiva mais instituições frouxas é igual a caos
político. Todavia, essa constatação banal não inclui certos
condicionantes históricos, de natureza mais estrutural que
institucional, às análises das causas dos problemas reais do
sistema político brasileiro. O padrão histórico de articulação
Estado/sociedade, e seus efeitos práticos, tendem a ser descartados
em nome da recém-descoberta “engenharia institucional”.
Penso
que se deva reabilitar o valor heurístico de certos traços da
formação brasileira sem voltar, no entanto, à repetição das
generalidades culturalistas sobre o “caráter nacional” e das
dificuldades político-institucionais daí decorrentes na discussão
sobre os políticos, os partidos e as instituições políticas em
geral.
É
preciso enfatizar três fenômenos interligados que podem sabotar,
para ficarmos numa só questão, “a institucionalização dos
partidos políticos”: o personalismo das lideranças, o
clientelismo parlamentar e os recursos de patronagem mobilizados
pelos ocupantes de cargos no Executivo. Para quem acompanha o noticiário,
traduzo nos termos correntes esses três prodígios: o populismo
lulista, o mensalão e o valerioduto, e uso dos “programas
sociais”.
O
personalismo é um
traço importante da política nacional desde sempre. Seja em função
da relevância das “lideranças individuais”, seja em função
da descontinuidade do sistema partidário nacional, os eleitores
normalmente tendem a identificar-se e emprestar seu apoio político
mais a candidatos do que a partidos. Uma forma moderna de
personalismo, que vem ocorrendo em vários países da América
Latina nas últimas décadas, é o “neopopulismo”. Desde os anos
oitenta, no curso do processo de redemocratização de toda a região,
constatou-se que as novas lideranças personalistas venceram eleições
sem estarem filiadas a nenhum partido com representação nacional.
Foi o caso de Fernando Collor no Brasil, Alberto Fujimori no Peru e
Hugo Chávez na Venezuela. O caso de Lula é mais complicado
justamente porque ele tinha atrás de si um partido de massas. Mas
no momento em que a cúpula (os dirigentes) separou-se da base (os
militantes); e no momento em que o governo (controlado pela cúpula)
separou-se do partido, o “lulismo”, a nova forma de personalismo
da política brasileira, surgiu como a forma mais eficiente porque
mais popular para a manutenção dessa cúpula no poder.
O
personalismo, ou mais
exatamente, a função política do personalismo nessa conjuntura, só
pôde manter-se graças a duas fontes: pelo clientelismo parlamentar
(antes representado pelo atendimento, legítimo, aliás, das emendas
ao orçamento; agora diretamente sob a forma de mesada) e pela
patronagem, características que derivam justamente de uma “relação
direta” (i.e., não mediada pelas instituições) entre
representantes-representantes e representantes-representados.
A
patronagem envolve
tradicionalmente a distribuição de empregos e recursos públicos
em troca de apoio político. Em sua forma moderna, esse fenômeno
abrange desde serviços e obras, até contratos, concessões,
investimentos estatais e a nomeação para cargos em órgãos públicos
ou no próprio governo. É, sem dúvida, um instrumento de incentivo
que os ocupantes de cargos majoritários (presidente, governadores)
têm para induzir ações de lideranças políticas locais. Sob o
lulismo, a administração dos “recursos sociais” e sua canalização
para os clientes certos reforçaram, como as sondagens de opinião
confirmaram, o prestígio pessoal do Presidente.
Tudo
isso faz com que, no Brasil, além das barreiras institucionais, os
partidos políticos precisem vencer barreiras de ordem social (ou
melhor: sociopolíticas) para se fortalecerem como agentes de
representação das demandas junto ao sistema estatal.
Se,
por um lado, postular que estas variáveis são importantes não é
suficiente para contestar o “institucionalismo”, por outro
compreender que não só a engenharia institucional resolve os
problemas da representação política é um passo adiante que os
reformadores de constituições deveriam dar.
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