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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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Contribuição
à história do marxismo no Brasil (1987-1994)
II
- O
marxismo-leninismo: entre
a negação
e a afirmação da tradição stalinista
O Partido Comunista Brasileiro (PCB)
O
PCB e o PC do B são, historicamente, as principais forças políticas
que representam a tradição stalinista em nosso país. O PCB,
fundado em 1922, foi hegemônico na esquerda brasileira durante décadas
e se constituiu no tronco principal do marxismo no Brasil.
Este partido incorporou a concepção de partido marxista-leninista,
a teoria e cultura política prevalecentes no movimento comunista
internacional com a vitória de Stalin contra Trotsky no seio do
Partido Comunista da URSS e da III Internacional. Evidentemente, há
outras organizações e grupos permeados pelo stalinismo. Mas estas
em sua maioria aderiram ao projeto de construção do Partido dos
Trabalhadores. Nos limitaremos à análise da evolução do PCB e o
PC do B – e suas cisões – procurando apreender suas mudanças e
reações ao impacto dos acontecimentos no Leste Europeu e no Brasil
e os elementos de superação e/ou manutenção da tradição
stalinista.
No
Brasil, a hegemonia da vertente stalinista só foi abalada
seriamente a partir da segunda metade da década de 1950. Sob o
impacto das revelações no XX Congresso do PCUS, em 1956, após a
morte de Stalin, a mentalidade arraigada pela ideologia
marxista-leninista durante décadas entrou em crise. A tradição
perdia sua solidez ideológica. Abria-se um período de crescente
questionamento que fomentava o surgimento de uma “nova
esquerda”.
Foi
nesse período que o PCB iniciou o processo de crítica e
autocrítica em relação ao legado stalinista.
Apesar de romper formalmente com o stalinismo, manteve valores e
conceitos teóricos que marcaram esta tradição. A concepção de
partido predominante ainda se referendava no passado; o partido também
não conseguia exercer a democracia em sua plenitude; a exclusão
política permanecia como método preferencial para dar término à
luta de idéias; e, as mudanças internas não colocavam em questão
a teoria etapista da revolução brasileira.
Embora
abalado pelas conseqüências desta crise, o PCB manteve a
hegemonia, agora enfraquecida pela concorrência de outras organizações
marxistas e não-marxistas com inserção no movimento operário e
no campo. Enquanto força hegemônica coube a ele o principal ônus
pela derrota da esquerda em 1964. Após o golpe militar, sua direção
majoritária conseguiu se impor e manter a linha política adotada
até então. O partido implodiu e jamais se recuperaria das diversas
cisões que sofreu.
O
PC do B e o MR-8 também não escapariam da crise
geral da esquerda brasileira nos anos pós-golpe. A crítica ao PCB
levou-os a adesão à luta armada: o primeiro influenciado pelas
teses maoístas da “guerra popular prolongada” e do “cerco da
cidade pelo campo”; o segundo, adotou as teses “foquistas” da
revolução cubana, inspirado nos textos de Che Guevara e Régis
Debray.
Nos
anos 1970-80, cerraram fileiras na defesa da transição democrática
sem sobressaltos – isto é, sem radicalização do movimento
sindical e popular. Tanto o PCB como o PC do B e o MR-8
viam o MDB como um espaço privilegiado para a ação política e
eram frontalmente contrários a qualquer proposta de construção de
um novo partido. Para eles, isso representaria a divisão da frente
democrática. Na verdade, como outros grupos menores que estavam
fora do MDB, eles se autoproclamavam o partido do proletariado e,
como tal, pensavam retomar o seu papel dirigente tão logo as condições
políticas se modificassem.
Embora
divergentes quanto à tática e as formas de luta, o PCB, PC
do B e MR-8 se caracterizam por elementos comuns como: a
estratégia de frente democrática inserida na concepção etapista
do processo revolucionário;
a mesma concepção marxista-leninista do partido de quadros etc.
A
tese etapista da revolução brasileira os levariam a privilegiar a
frente democrática e a conceber a radicalização do movimento operário
como um fator de risco à transição. Esta convergência estratégica
se expressou no apoio ao governo Sarney e a Nova República e
se refletiu ainda na crítica à Central Única dos Trabalhadores
(CUT), na conseqüente formação de outra central sindical, a Central
Geral dos Trabalhadores (CGT) e na defesa do pacto social.
Em
fins da década de 1970 e inícios dos anos 1980, a esquerda
passaria por um processo de rearticulação. Nesse período, o PCB
enfrentaria outra vaga de cisões. Sua linha política foi
questionada abertamente: a começar por Luís Carlos Prestes; pelos
“renovadores” (também conhecidos como
eurocomunistas), liderados por Armênio Guedes e Marco Aurélio
Nogueira; a dissidência paulista agrupada em torno de David
Capistrano e do jornal “a Esquerda” – muitos dos quais,
a começar por Capistrano, terminariam por aderir ao PT; e, pelas
dissidências que, em vários estados, formaram os Coletivos Gregório
Bezerra (CGB).
A
turbulência que atingiu o partido parecia superada após a aliança
de setores à esquerda em torno do núcleo dirigente contra o que
era considerado a ala direita, rotulada de “eurocomunista”.
Essa manobra interna não lograria superar a crise: persistiu o
que muitos consideravam como a política de conciliação e de
aprofundamento da frente democrática; o velho estilo de direção
enviesado por métodos e práticas stalinistas; a discussão em
torno do significado da democracia, da concepção de partido etc.
A
atitude do PCB frente à Nova República e ao governo
Sarney aprofundariam as divergências e críticas internas à direção
partidária. Vários setores criticavam o zelo excessivo em torno da
governabilidade de Sarney, a prioridade à negociação no âmbito
institucional, o alinhamento acrítico ao projeto político burguês
da Nova República e a confusão reinante dos que concebiam a
Aliança Democrática como a expressão política do governo
da frente democrática. Outros apontavam a necessidade de reconhecer
a crise de identidade do partido, resultante da sua política, do
“comodismo mental” e da persistência do “velho estilo” de
fazer política.
Diante
desse quadro, vários militantes e dirigentes passaram a reivindicar
a realização do 8º Congresso. Então, a direção nacional
convocou uma conferência nacional, que foi suspensa sob o argumento
da necessidade de concentrar as forças partidárias nas eleições
de 1986. Na esteira da crítica à suspensão da conferência,
muitos colocaram em questão o 7º Congresso: este não teria sido
democrático, pois a discussão interna teria sido insuficiente, além
de prejudicada pela ambigüidade que caracterizou a sua realização.
O
partido voltou-se então para as eleições. Em São Paulo, a
discussão sobre o apoio a Quércia ou Antônio Ermírio de Moraes,
candidatos ao governo, detonaria outra crise. A maioria da direção
paulista conseguiu, com o aval da direção nacional, aprovar a adesão
à segunda candidatura, a qual expressaria mais fielmente a
amplitude desejada para a frente democrática.
Passado
o período eleitoral, a direção nacional do PCB publicou,
em fevereiro de 1987, as teses que abriam o processo preparatório
do 8º Congresso, reivindicado por vários setores do partido. Sem
colocar em dúvida a concepção estratégica estabelecida
anteriormente,
essas teses representavam uma tentativa de adequar a estratégia à
dinâmica conjuntural da transição democrática.
As
posições da direção nacional foram criticadas por vários
setores do partido, em tons e graus diferenciados. Havia desde os
que apenas reivindicavam a reorientação da política de apoio ao
governo Sarney, o que não implicava alteração da sua essência, até os que abertamente
questionavam a legitimidade do núcleo dirigente,
ou acusavam-no de reboquismo e oportunismo político, cuja expressão
seria a defesa da democracia burguesa, a secundarização do partido
de quadros etc.
Esta
crítica levou alguns a propor a unidade preferencial à esquerda: a
frente democrática popular, englobando desde o PT, PC do B,
PDT e PSB às correntes à esquerda dentro do PMDB. Houve
ainda quem defendesse a reunificação dos comunistas, com o convite
a Prestes e a outros setores da esquerda a participarem do
congresso.
Esta
situação reflete a realidade de um partido dividido da cúpula à
base, cuja impossibilidade de conformação de tendências internas
facilita a dispersão e dificulta a organização dos indivíduos e
setores que poderiam constituir uma alternativa de direção à
maioria dirigente. As forças políticas internas, heterogêneas e
descentralizadas, configuram grupos políticos regionais que se
articulam em torno de questões pontuais e tem na crítica à tática
e estratégia predominantes o patamar mínimo para sua aglutinação.
Isto possibilitaria a construção da Articulação por dentro,
com as características descritas.
Em
linhas gerais, as resoluções aprovadas pelo 8º Congresso,
realizado nos dias 17, 18 e 19 de julho de 1987, expressaram os
projetos de resoluções apresentados pela direção nacional e a
aliança entre os “renovadores” e a burocracia dirigente. Os 121
delegados eleitos, mais os 41 membros da direção nacional e 17
convidados (com direito a voz), concluíram que a transição
inaugurada com o governo Sarney foi um elemento positivo para a luta
dos trabalhadores e que esse governo, mesmo com limitações,
manteve os compromissos com a democracia e assegurou as liberdades
democráticas. (PCB, 1987a: 03-04)
O
partido insistiu no estabelecimento de um pacto político que
envolvesse os diversos setores da sociedade e os partidos. Sua
estratégia visava a conquista do Estado de direito democrático,
compreendido como “a institucionalização e a consolidação de
um regime democrático, onde o povo possa ter os seus direitos e
garantia da cidadania assegurados”. (Id.: 06)
Na
análise pecebista, a luta pela democratização do Brasil, condição
essencial para a implementação de uma alternativa popular e
progressista, realçava a atualidade da articulação da frente
democrática, composta por todos os setores dispostos a lutar pela
democracia, os interesses nacionais ou mesmo que assumissem uma
plataforma mínima nesta direção.
Com
a conquista do estado de direito, que na avaliação do PCB
poderia ser consagrado pela Constituição, dependendo da mobilização
popular, essas forças deveriam lutar “por uma maioria
parlamentar” que possibilitasse a formação de governos
“comprometidos em consolidar e aprofundar os avanços
institucionais e as reformas de estrutura inscritos na nova
constituição”. Esses governos abririam caminho para a implantação
de “uma democracia de massas” (PCB, 1987a: 06-07).
De
acordo com o PCB, a formação desses governos e a realização
de suas tarefas dependiam de inúmeros fatores, os quais não podiam
ser previstos. A magnitude do desafio de implementá-los e consolidá-los,
bem como as resistências que teriam, levou o partido a concluir que
tal projeto não poderia ser vitorioso sem a constituição de “um
novo bloco político e social, um novo bloco histórico, democrático
e nacional, construído por uma política de amplas alianças, capaz
de afirmar a hegemonia do proletariado e encaminhar o país para o
socialismo” (Id.: 07).
O
8º Congresso analisou a atuação dos demais partidos no processo
da “transição democrática”. O PT foi caracterizado como um
“partido com um programa de tendência socialista e penetração
na classe operária, particularmente entre os setores modernos e
combativos, nas classes médias assalariadas, no campo, no clero e
na intelectualidade” (PCB, 1987b: 22).
Para
o PCB, o PT subestimava a questão democrática, se
equivocava na identificação da política de amplas alianças com a
colaboração de classes. Assim, caía numa postura de oposição
sistemática e nutriria preconceitos em relação aos comunistas e
às forças democráticas e populares, o que dificultava a unidade
do movimento sindical e popular. Contudo, o PCB admitia que o
PT havia “avançado”, isto é, flexibilizara sua política de
alianças. (Id.).
Quanto
ao PC do B, as resoluções congressuais afirmam que este
mudou algumas de suas concepções “ultra-esquerdistas”. Porém,
ressalta que isto ocorreu “apenas parcialmente e com muitas
fraturas” e, sobretudo, sem qualquer “autocrítica pública”.
O PC do B teria permanecido preso a uma “posição de
confrontação caluniosa e divisionista” em relação à URSS, ao
movimento comunista mundial e ao próprio PCB. As concepções
em relação à revolução e ao processo político em curso seriam
“antiquadas, dogmáticas e sectárias”. Estas se traduziam no
“ziguezague da sua prática política, no aparelhismo e golpismo
de sua relação com as forças políticas e atuação nos
movimentos de massas” (Id.: 22-23).
A
despeito das limitações e desigualdades na disputa eleitoral, o
partido avaliou que, no Congresso Constituinte eleito em 1986, “as
forças comprometidas com um discurso favorável à democracia e às
mudanças” foram vitoriosas e, acreditava o PCB, teriam
condições de barrar a resistência conservadora e articular “uma
maioria capaz de garantir a aprovação de uma Constituição democrática
que institucionalize o Estado de Direito Democrático”. Para o PCB,
o parlamento se tornara o “terreno onde tem lugar e se entrecruzam
as grandes batalhas político-institucionais do período de transição”
(Id.: 27-28).
O
8º Congresso também fez uma avaliação autocrítica da atuação
do partido. Após ressaltar a sua contribuição à derrota da
ditadura militar e de apontar seus pontos frágeis – destacando
sua débil inserção no movimento de massas e no proletariado, as
incompreensões sobre o caráter partidário etc. – as resoluções
admitiram que o partido cometeu erros e revelou incompreensões que
resultavam na subestimação do valor da democracia burguesa para os
trabalhadores. Por outro lado, também admitiu que o partido
desenvolveu a “tendência de omitir o caráter de classe da
democracia, alimentando ilusões sobre a democracia burguesa”.
Esses
equívocos levariam igualmente à confusão sobre o caráter de
classe do governo Sarney e da transição. Isto, na prática,
induzira a ambigüidades e desvios que se expressavam na atitude de
“esfriar os ânimos das massas” e daqueles que pretendiam
impulsionar a democracia, ainda que burguesa. Essas concepções
“golpistas e conciliadoras, por prescindirem das massas como
construtores da história” se fizeram presentes particularmente
nas eleições de 1986, as quais serviriam como um termômetro que
colocou a nu a fragilidade do partido. (Id.:48)
Por
fim, o Congresso aprovou o regimento Interno, reafirmando o princípio
do centralismo democrático, e promoveu a eleição da nova direção
nacional (ampliada de 66 para 85 membros). Renovada em mais de 50%,
a nova direção tem à frente Salomão Malina, como presidente, e
Roberto Freire, vice-presidente. Giocondo Dias, impedido de
participar do congresso por estar gravemente enfermo, foi
reconduzido à direção efetiva. A novidade ficou por conta da eleição,
no próprio congresso, do Conselho de Controle e Ética, composto
por sete membros efetivos e dois suplentes – antes, este órgão
era eleito pela direção central.
A
inexistência de chapas concorrentes no 8º Congresso dá a impressão
de que o partido finalmente construíra a unidade e que as críticas
foram incorporadas pelo núcleo dirigente. De fato, as resoluções,
assimilam vários elementos críticos suscitados pela esquerda,
principalmente no balanço autocrítico divulgado pela direção
central. Nos aspectos mais gerais, que dizem respeito diretamente à
estratégia e à tática democratizante, manteve-se a política
anterior.
A
inflexão à esquerda não foi efetivada, quando muito, houve
concessões retóricas e pontuais à esquerda. Na prática, a direção
pecebista perseverou no compromisso com o governo Sarney e não fez
questão de escondê-lo. Quando a Aliança Democrática se
esfacelou, o PCB alardeou a “necessidade de um programa de
governo capaz de dar continuidade à transição, promover mudanças
e assegurar a base política e social necessária ao presidente
Sarney”. Por isso, defendeu a consecução de “um novo acordo
político, centrado no objetivo maior de conduzir o país ao Estado
de direito democrático”.
A
tônica da política pecebista continuaria sendo a garantia da
estabilidade do governo e da transição democrática. “O
confronto”, afirmava Malina, “somente favorece a regressão”. Esta orientação
refletia a política do partido adotada na década de 70, centrada
no âmbito institucional e na negociação, embora mantivesse a retórica
do socialismo e da mobilização das massas.
O
exemplo maior dessa política foi a atitude do partido frente às
greves no ABC, quando a direção temeu que esse movimento
terminasse por levar o país ao retrocesso institucional e o viu
como um risco à abertura política. Essa orientação vigorou até
o 8ºCongresso.
Isso explica porque o partido foi o último a abandonar o governo
Sarney.
A
esquerda pecebista não ficou isenta de responsabilidade.
Galvanizada pela mesma concepção etapista da revolução
brasileira, pela estratégia da frente democrática, ligada
umbilicalmente à burocracia dirigente pelas mesmas referências
ideológicas que expressavam o socialismo realmente existente,
ela corroborou com uma prática que, em teoria, passara a
questionar.
O
elemento novo que contribuiu para o aprofundamento das divergências
políticas e pressionaria as correntes pecebistas a definirem perfis
próprios foi a evolução do quadro internacional. A luta interna,
até então contida, enquadrada e assimilada pelo aparato partidário,
devido à vinculação do partido a um projeto político-ideológico
representado pela URSS, foi acirrada na proporção da evolução da
crise no Leste Europeu, ou seja, da crise do projeto referencial.
Por isso, o impacto desta sobre o PCB se daria de forma mais
intensa.
O
partidão repercutiu em seu seio as tendências contraditórias
do congênere soviético. No início, todos apoiaram as medidas
propugnadas por Gorbatchov e acreditaram que estas levariam a URSS a
recuperar “a sedução e a influência do socialismo no mundo”
(FREIRE, 17.07.1989).
Então, o partido apresentava publicamente um aparente consenso.
Ainda não haviam surgido as avaliações de que as reformas econômicas
e políticas em curso na URSS poderiam levar este país a engatar a
marcha ré, isto é, retroceder ao capitalismo. Porém, os ventos do
leste solapavam os alicerces do edifício das antigas verdades e
demonstraria que este não era mais do que um castelo de areia.
Impulsionadas pelo advento da perestroika e a glasnost,
as diversas concepções presentes no interior do PCB irrompiam com
toda a força.
Na
campanha eleitoral de 1989, Freire antecipou a polêmica que se
tornaria pública às vésperas do IX Congresso do PCB:
defendeu a renovação do socialismo; admitiu a introdução de
mecanismos de mercado na economia socialista; questionou o conceito
de democracia adjetivada, comum à tradição marxista. Freire também
colocou sob dúvida o modelo leninista de partido, o conceito de
ditadura do proletariado, a concepção de Estado e de revolução.
O questionamento dos ícones da ideologia marxista-leninista e a
defesa de teses consideradas modernizantes passaram a ser
compartilhados pela maioria da direção pecebista. Em suma,
colocava-se em xeque a tradição comunista vinculada à III
Internacional.
A
crítica a estas teses nem sempre representou a defesa irrestrita da
ortodoxia. Será a maior ou menor ênfase na crítica à cultura e
prática ortodoxa que determinará a heterogeneidade da oposição e
os diferentes rumos que seus membros tomarão. Na dissidência havia
o desejo de renovação, com caráter e conteúdo diferenciado da renovação
modernizante da maioria capitaneada por Freire. Havia ainda
elementos autocríticos em relação à práxis do partido nos últimos
anos. Embora mantivessem conceitos e concepções ortodoxas, os
dissidentes elaboraram uma reflexão crítica sobre o
marxismo-leninismo e as experiências do socialismo real.
A
dissidência que se formou no Rio Grande do Sul, por exemplo,
criticou tanto a ala ortodoxa (da esquerda) quanto à ala
modernizante liderada por Freire – era a terceira via. Em São
Paulo, a “Esquerda Socialista” representou outro setor
dissidente que, embora mais próximo aos ortodoxos, também defendia
a construção de um caminho alternativo contraposto à “velha
burocracia” e aos “modernos”.
A
crítica e autocrítica da oposição objetivavam a articulação
dos militantes para “reconstruir o PCB”, qualificando-o
para ser a direção da revolução brasileira. Acreditava-se na
possibilidade de ganhar a luta interna. O determinante seria os
esforços da militância no sentido de “forjar uma nova hegemonia
no partido” que gerasse as condições para uma renovação
radical. O caminho a trilhar seria o da oxigenação da vida partidária
através de várias medidas que fortalecessem a democracia interna,
inclusive com o reconhecimento da existência de tendências.
As
divergências irromperam ruidosamente no processo preparatório do
IX Congresso. Este, realizado nos dias 30 de maio a 02 de junho de
1991, foi o ponto culminante da polêmica instaurada no interior do
partido em torno de questões como a manutenção ou não do nome e
símbolos; sua laicidade; o papel que este devia cumprir perante a
sociedade; avaliação sobre o socialismo etc.
O
elemento fundante das teses da maioria da direção é a “política
de radicalidade democrática”, ou seja, a incorporação da
cidadania à modernidade “através do processo democrático e de
sua ampliação”. Este conceito tem como base fundamental a concepção
da democracia enquanto “valor de caráter universal e radical”,
o que pressupõe a valorização desta, sem negar a permanência dos
conflitos de classe. (Direção Nacional do PCB, 1991: 03-06).
Isto
exigia a reformulação da concepção de Estado. O conceito
tradicional do Estado como o “comitê executivo da burguesia”
deu lugar à compreensão de que, no mundo atual, o aparelho de
Estado “é permeável à ação da sociedade civil e submetido ao
seu controle, sendo passível de disputa no jogo democrático por
forças sócio-políticas contraditórias”. A maioria dirigente
advoga que a “supremacia da sociedade civil sobre o Estado” é
um princípio estratégico a ser seguido “infatigavelmente”.
Para tanto, “impõe-se a reforma democrática do Estado para a
consolidação da democracia”. De acordo com a Direção Nacional
(DN), “esta é a chave para a democratização da vida nacional e
a realização da reforma de estrutura”. (Id.)
Esta
política não contrapõe reforma e revolução. Assim, as reformas
democráticas, na medida em que contestam as elites e oligarquias
tradicionais, “tem um sentido revolucionário de duplo caráter:
elas serão em si uma mudança de estrutura, rompendo a lógica da
modernização conservadora; e, por outro lado, colocarão na ordem
do dia o socialismo com democracia e liberdade”. As lutas pelas
reformas possibilitariam ainda a geração de “zonas de rupturas
possíveis” que ultrapassariam os “limites do velho reformismo
evolucionista”. A revolução adquire um novo significado: um caráter
processual. O socialismo aparece como resultante da concretização
de várias reformas e das diversas rupturas possíveis. (Id.)
A
implementação destas teses exigia a renovação radical do
partido. Isto significava abandonar a concepção tradicional de
partido de quadros, da ditadura do proletariado e o desafio de
construir uma nova teoria e organização partidária. A maioria da
direção coloca em xeque a existência do PCB, seu nome,
seus símbolos e a tradição histórica que estes encerram. Para
viabilizar este novo operador político, a maioria da direção
defende a realização de um “encontro nacional do qual participem
comunistas e socialistas, marxistas ou não, com partido ou sem
partido, sem modelos e programas pré-estabelecidos” (Id.). Esta
foi a base teórica para a formação da chapa Socialismo
e Democracia, liderada por Roberto Freire, Sérgio Arouca e
Salomão Malina.
Os
dissidentes se dividiram em duas chapas: a “Fomos, Somos e
Seremos Comunistas”, composta pelo grupo dos “renovadores
revolucionários”, rotulados como “ortodoxos” e liderados por
Horácio Macedo, Ivan Pinheiro, Francisco Milani, Juliano Siqueira,
Antônio Mazzeo, Edmilson Costa etc.; e, a chapa “Política de
Esquerda pelo Novo Socialismo”, liderada pelo
ex-presidente do partido no Rio Grande do Sul, Domingos Tódero, além
de Jairo Ferreira e Lauro Hagemann. Embora defenda a manutenção do
nome e símbolos partidários, esta chapa se colocou como
alternativa às teses social-democratas da maioria e à ortodoxia da
minoria, a qual representaria o legado da III Internacional e a
herança stalinista. Neste aspecto, a dissidência gaúcha
aproxima-se da maioria.
Na
avaliação do dirigente Antonio Carlos Mazzeo, a antítese
apresentada pela esquerda não traduziu o acúmulo teórico do
conjunto da oposição, expressando mais intensamente o setor
influenciado pelo stalinismo. Este fator teria dificultado a
incorporação do grupo gaúcho e facilitado a vitória da chapa
liderada por Freire. Ainda segundo Mazzeo, a esquerda, neste
momento, não se identificava com as teses de Gorbatchov.
A
correlação de forças entre as chapas ficou evidente nas votações.
A Declaração Política proposta pela maioria da Direção
Nacional foi aprovada por 336 votos contra 254 da chapa “Fomos,
Somos e Seremos Comunistas” e 45 da chapa liderada por Tódero.
Na eleição para o novo Diretório Nacional, a chapa encabeçada
por Freire obteve 54% dos votos dos mais de 600 delegados presentes,
ficando com 38 membros efetivos num total de 71 cargos. A outra,
liderada por Macedo, teve 36,5% dos votos, elegendo 26
representantes para a DN. A chapa de Tódero teve 10,5% e ficou com
sete vagas. Freire foi eleito presidente nacional do partido,
substituindo Salomão Malina.
A
aprovação da Declaração Política representou a vitória
das teses liberalizantes: caíram o conceito de partido único, de
ditadura do proletariado e o centralismo democrático. Em seu lugar,
o PCB adotou uma nova concepção de Estado, de socialismo e
de partido. Outra mudança radical foi a admissão de mecanismos da
economia de mercado no socialismo. Por outro lado, foi recusada a
tese do partido laico. Mas, com a aprovação das propostas de
Freire, tornou-se desnecessário ser marxista para se filiar ao
partido.
Agora,
o PCB passava a admitir a alternância do poder, o pluralismo
e o pluripartidarismo. O papel revolucionário da classe operária
enquanto agente histórico de transformação social foi
relativizado, descartado como exclusivista. A revolução terminou
por ser concebida como um processo de ampliação da participação
da cidadania. A oposição conseguiu manter a existência do
partido, seu nome e seus símbolos e ampliou seu peso na Direção
Nacional. Sua vitória neste ponto representa um recuo da maioria da
DN diante do sentimento das bases. Contudo, terminado o congresso,
ela se viu novamente dividida e em minoria.
Tradicionalmente
o controle da máquina partidária determinou os rumos do PCB.
Agora não seria diferente. Sob o pretexto de encaminhar as resoluções
do IX Congresso, a maioria da DN (por 47 contra 17 votos), em reunião
extraordinária realizada nos dias 31 de agosto e 01 de setembro de
1991, decidiu iniciar o processo de constituição da nova formação
política socialista, propondo o diálogo com lideranças,
personalidades, forças e partidos vinculados à tradição
socialista de vocação democrática. Para tanto, o Diretório
Nacional convocou o X Congresso do PCB, em caráter
extraordinário e aberto à participação dessas forças e
partidos. A maioria da direção nacional argumentou que apenas dava
seqüência ao processo inaugurado em 1989 quando o partido teria se
colocado o desafio de “renovar a cultura política e a prática da
esquerda com propostas modernas e pluralistas”.
Anteriormente
a esta reunião, ainda em agosto, um grupo de 40 militantes decidiu
sair e ingressar no PC do B. Entre os que mudaram de sigla,
seis eram membros do Diretório Regional do Rio de Janeiro; outros
seis do Diretório Municipal; os demais pertenciam aos diretórios
zonais desse município. À frente desse grupo estava Juliano
Siqueira (integrante do Diretório Nacional). Oscar Niemeyer, que
apoiara os ortodoxos, licenciou-se da direção do partido e
declarou que o abandonaria caso este viesse a mudar de nome.
A
saída desses militantes demonstra a heterogeneidade da oposição.
No entanto, mesmo enfraquecida pela perda da ala mais ortodoxa,
reagiu de forma imediata e incisiva diante das decisões da maioria:
vinte e nove dos seus integrantes, membros do DN, manifestaram o repúdio
à postura liquidacionista da ala majoritária e decidiram criar o Movimento
em defesa do PCB, convocando um encontro nacional com este
objetivo.
Em
novembro, a oposição sofreu outro golpe. Numa atitude inédita na
história da esquerda, Freire registrou no Instituto Nacional de
Propriedade Industrial (INPI) as marcas símbolos do PCB:
a foice e o martelo, o nome “Partido Comunista Brasileiro”, a
sigla PCB e a expressão “partidão”. O deputado se
declarou respaldado pela Comissão Executiva, patrocinadora da decisão.
“Um dia depois da nossa transição socialista, poderemos até
abrir mão dos direitos”, ironizou (GAZETA MERCANTIL, 21.11.1991).
O
Movimento Nacional em Defesa do PCB entrou com requerimento
junto ao INPI solicitando a recusa do inusitado pedido. Na
fundamentação, os signatários denunciam que o assunto jamais foi
discutido no Diretório Nacional. Afirmam que a atitude do referido
deputado coloca em risco a democracia brasileira, pois transforma os
partidos em marca comercial; que Freire “tem o direito de criar
outro partido, mas não o de tentar inviabilizar o partido que
renega”. “O legado político e histórico do PCB não é
propriedade privada, mas patrimônio do povo brasileiro em geral e
dos comunistas em particular”, concluem (MOVIMENTO NACIONAL DE
DEFESA DO PCB, 1991).
Esse
movimento decide ainda participar do X Congresso com a “disposição
de derrotar o liquidacionismo, manter a mística do “partidão”
e reafirmar a atualidade da questão comunista”. Seus
organizadores se colocam o objetivo de reconstruir o PCB numa
“perspectiva da revolução social e política” que se vincula
ao socialismo e à luta “pela reunificação dos comunistas e pela
unidade das forças do progresso” (Id.).
A
reconstrução do partido ganhou novo impulso com a decisão tomada
no Rio de Janeiro, em 28 de dezembro, da fundação do Partido
Comunista (PC) e a conseqüente publicação no Diário
Oficial, em 9 de janeiro de 1992, do manifesto, programa e
estatutos da nova legenda. Em seu manifesto, o PC declara que
se orienta teoricamente pelo pensamento de Marx, Engels e Lênin,
incorporando a experiência do movimento operário e socialista,
nacional e internacional; que seu objetivo é contribuir para uma
profunda transformação da situação econômica e social no Brasil
e lutar pelo uso do nome “Partido Comunista Brasileiro”. O
primeiro signatário da relação de fundadores do PC foi o
arquiteto Oscar Niemeyer.
Ainda
neste mês, realizou-se no Rio de Janeiro o Encontro do Movimento
Nacional em Defesa do PCB. Este aprovou a Declaração Política
ao X Congresso do PCB, a qual reafirma a “bandeira da revolução
brasileira e da conquista do socialismo na perspectiva do
comunismo”; defende a “unidade estratégica de todos os
comunistas, militantes ou não do PCB” na luta por este
objetivo e pela reconstrução do partido; e, dirige-se às “forças
progressistas e de esquerda”, no sentido de construir um “bloco
político capaz de forjar uma nova hegemonia e um movimento
nacional” que possa empolgar o povo e conquistar-lhe o apoio político
e social. (Id.: 03)
A
concepção de democracia dos dissidentes difere do conceito de
“democracia universal” da maioria da Direção Nacional. A
minoria defende a “Democracia Política, que mesmo sendo a expressão
das possibilidades da ordem burguesa, foi sempre fruto das
conquistas dos trabalhadores”. Nesse sentido, as liberdades democráticas
são valorizadas e reafirmadas “não como resultantes intrínsecas
ao capitalismo e à ordem burguesa, mas sim como fruto das lutas
populares e sociais travadas ao longo do tempo”. Para estes, é
nesta perspectiva que “a democracia se desnuda e transmuta”,
adquirindo “um valor estratégico, tanto na luta anticapitalista
quanto no caminho da construção e desenvolvimento da Sociedade
Socialista” (Id.).
Em
relação à luta parlamentar, os organizadores do Partido
Comunista reconstruído a vêem “como um dos caminhos possíveis
na construção do Socialismo”. Mas não acreditam no socialismo
“apenas pela via parlamentar, pois esta não esgota a luta política”.
Para eles, “o eixo das transformações está nas lutas sociais e
na organização do povo” (Id.). Os dissidentes defendem uma
renovação que reafirme o legado marxista, mas que, por outro lado,
represente uma ruptura definitiva “com os métodos burocráticos,
antidemocráticos e deformadores da vida do partido, bem como com as
velhas interpretações de cunho pequeno burguês, que levaram o
partido à conciliação de classes e ao distanciamento das massas
trabalhadoras”. Desta forma, o projeto do novo PCB pressupõe
o resgate do “verdadeiro conceito do centralismo democrático”
com a restauração da democracia interna, a qual terá como base
“valores éticos” e prevê a constante renovação dos quadros
dirigentes. (Id.)
O
PCB almeja construir-se enquanto um partido marxista e
revolucionário, um partido de quadros e de massas: “de quadros
que constroem o partido” e têm “qualidade para impulsionar o
movimento de massas”; de massas porque almeja ampliar a
“quantidade de militantes e filiados”. Não será um partido
laico, mas estará “aberto à todos que aderirem ao seu programa e
estatutos, independente de suas crenças e convicções
religiosas”. Segundo a Declaração Política: “A
unidade de ação será alcançada à base da exaustão da discussão,
do convencimento das minorias e do respeito por elas, da circulação
vertical e horizontal das informações, da disciplina
consciente”. (Id.: 07)
Este
documento avaliou ainda que o capitalismo mundial passava por uma
crise profunda e que a “internacionalização do processo
produtivo e a transnacionalização da economia não alteram a essência
agressiva do imperialismo”. No que se referia à conjuntura
nacional, o novo PC se colocou em oposição ao governo Collor,
caracterizando-o como “um governo conservador, anti-social e
entreguista” (Id.: 04-05).
Os
renovadores modernizantes e os renovadores revolucionários
formalizavam assim mais um episódio de fragmentação da esquerda:
os primeiros formariam o Partido Popular Socialista (PPS);
os segundos, reorganizariam o Partido Comunista Brasileiro
(PCB).
Continua...
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Referências
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