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Astrojildo
Pereira
e
a gênese do comunismo no Brasil
Há
40 anos morria um dos principais responsáveis pela fundação do
Partido Comunista do Brasil, Astrojildo Pereira. Entre 1922 e 1930
ele foi o secretário-geral da nova organização. Tarefa que
realizou com dedicação e com relativo sucesso. Mas, as disputas
políticas que abalaram o movimento comunista em nosso país levaram
a uma minimização do seu papel. Esse artigo visa resgatar um pouco
o papel desempenhado por Astrojildo Pereira na história da luta
pelo socialismo no país.
Astrojildo
nasceu em 1890 no pequeno município de Rio Bonito (RJ). Ainda
adolescente mudou-se para Niterói e estudou no Colégio Anchieta,
dirigido por rígidos jesuítas. Depois se transferiu para o Colégio
Abílio. Aos quatorze anos pensou em tornar-se frade e aos quinze, já
decepcionado com a igreja, começou a abraçar o ateísmo. Nesse
mesmo período abandonou o colégio. Sem religião e sem escola,
tornou-se um autodidata.
Podemos
dizer que Astrojildo entrou na história do Brasil pelas mãos do
autor de Os Sertões,
Euclides da Cunha. Este, num artigo tratando das últimas horas do
grande romancista brasileiro Machado de Assis, escreveu:
“Ouviram-se
tímidas pancadas na porta principal da entrada. Abriram-na.
Apareceu um desconhecido, um adolescente de dezesseis ou dezoito
anos no máximo (...) Ninguém o conhecia, não conhecia por sua vez
ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela
leitura de seus livros, que o encantavam (...) E o anônimo jovem
– vindo de noite – foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não
disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num
belo gesto de carinho filial (...) Levantou-se e, sem dizer palavra,
saiu (...) Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca
subirá tanto na vida. Naquele meio segundo (...) aquele menino foi
o maior homem de sua terra”. Mais tarde seria revelado que aquele
adolescente anônimo era Astrojildo Pereira.
O
seu primeiro envolvimento com a luta política se deu durante a
“campanha civilista”, ocorrida em 1910, que tentava levar Ruy
Barbosa à presidência da República. A vitória do Marechal Hermes
da Fonseca o decepcionou profundamente. No mesmo ano um outro
acontecimento contribuiu para dar novo rumo à sua vida: a revolta
da Chibata. O desencanto com a religião e a educação formal
transbordaria agora para o desencanto com o regime liberal-oligárquico
e com o próprio capitalismo. Assim, estava semeado o terreno no
qual brotaria as novas idéias libertárias.
Certo
dia seu pai lhe trouxe jornais e folhetos anarquistas que passou a
devorar com sua curiosidade juvenil. Anti-religiosa, anti-oligárquica
e anti-capitalista, a ideologia anarquista se encaixava como uma
luva às novas preocupações do jovem Astrojildo. Num desses
jornais achou o endereço de um Centro Anarquista e foi conhecê-lo.
Assim tiveram início seus primeiros contatos – ainda tímidos –
com o movimento operário e anarquista brasileiro.
Em
1911 seguiu para a França, onde pretendia trabalhar e estudar. A
aventura foi um desastre. Sem dinheiro e sem ter como sobreviver num
país estranho, acabou tendo que ser ajudado por um grupo de
brasileiros que vivia na Europa. A viagem somente não foi um
desastre completo porque conseguiu trazer na bagagem um bom número
de publicações libertárias. Iniciou-se uma nova fase de sua vida:
a de líder anarquista. Dois anos depois, em 1913, estaria entre os
organizadores do 2º Congresso Operário Brasileiro.
O
ano de 1917 foi de fundamental importância na vida de Astrojildo e
para as opções estratégicas que ele estaria por fazer. Naquele
ano ocorreram importantes greves operárias, a principal foi a de São
Paulo. Na Rússia, em novembro, eclodiu uma revolução socialista
que teria um grande impacto em todo o mundo.
Astrojildo
foi um dos militantes anarquistas mais entusiasmados com o feito dos
operários russos, dirigidos pelos bolcheviques, e logo se
transformou no principal propagandista da revolução russa entre nós.
Escreveu inúmeros artigos desmentindo as calúnias divulgadas pela
imprensa burguesa. Esse contato com os acontecimentos russos o
levaria a ter que ajustar conta com sua consciência ainda
anarquista.
O
exemplo da revolução russa povoava a cabeça de nossas lideranças
operárias. A greve geral de São Paulo parecia ter sido apenas o
ensaio-geral de um movimento mais amplo e radical. Dentro desse espírito,
em 1918, os anarquistas do Rio de Janeiro planejaram realizar um
levante operário e popular. O complô foi descoberto e Astrojildo
Pereira acabou sendo preso.
A
confusão política e ideológica era tão grande que as lideranças
operárias anarquistas resolveram realizar um congresso para fundar
um Partido Comunista. Desta insólita reunião, realizada em 1919,
participaram representantes de cinco estados brasileiros. Esta foi
mais uma demonstração do impacto causado pela revolução russa
nas fileiras proletárias. O engano logo foi descoberto e o partido
se desfez.
Justamente
naquele ano os anarquistas começaram a romper a frente-única
mundial em torno da defesa da Revolução Russa. Os artigos contra Lênin
e os bolcheviques se multiplicavam na imprensa libertária. Isso
desagradou profundamente Astrojildo e inúmeros líderes operários.
Entre o anarquismo e a revolução russa, ficavam com a segunda.
Assim, uma cisão no movimento operário brasileiro era inevitável.
Os
defensores da revolução bolchevique empreenderam um esforço
gigantesco para organizar um verdadeiro Partido Comunista no Brasil
e, no dia 7 de novembro de 1921, fundaram o Grupo Comunista no Rio
de Janeiro, integrado inicialmente por 12 pessoas. Este pequeno
agrupamento de revolucionários conseguiu a façanha de lançar dois
meses depois uma revista intitulada Movimento Comunista.
O
próximo passo foi tentar reunir os representantes dos diversos
grupos comunistas que existiam espalhados pelo país e constituir um
partido unificado, vinculado a 3ª Internacional. O esforço foi
vitorioso. No dia 25 de março de 1922 teve início o congresso de
fundação do PC do Brasil. Participaram nove delegados
representando apenas 73 comunistas. Um começo modesto, mas bastante
promissor.
Embora
fosse o principal expoente da nova organização, Astrojildo
defendeu que a secretaria-geral fosse ocupada por Abílio Nequete,
representante do primeiro núcleo comunista brasileiro – a União
Maximalista de Porto Alegre - e que tinha relação com os membros
da Internacional Comunista no Uruguai. Além disso, Nequete era um
dos poucos que não vinham das fileiras anarquistas. Naquele momento
tal condição pesava-lhe favoravelmente.
O
Partido Comunista gozou de poucos meses de vida legal. Em julho, após
o levante do Forte de Copacabana, foi decretado o Estado de Sítio e
ele acabou sendo colocado na ilegalidade. Nequete foi preso,
espancado e se afastou da secretaria-geral. Astrojildo assumiu o
cargo no qual permaneceu até 1930. Caberia a ele comandar o Partido
Comunista durante os heróicos anos de sua formação. Esteve à
frente dos quatro primeiros congressos, que se realizaram num prazo
de menos de 10 anos - uma verdadeira façanha da democracia partidária.
Segundo vários depoimentos, Astrojildo foi um dirigente democrático
e que respeitava seus camaradas.
Em
1924 o PCB enviou-o para Moscou com o objetivo de participar do V
Congresso da Internacional Comunista e conseguir o reconhecimento do
partido brasileiro como membro efetivo daquela organização. A missão
foi vitoriosa, o que permitiu que o Partido Comunista pudesse
ostentar o honroso título de “seção brasileira da Internacional
Comunista”. Voltando ao país dedicou-se a criação do jornal A
Classe Operária, lançado em maio de 1925.
Antes
de partir para Moscou ele havia articulado uma aliança dos
comunistas com a Confederação-Cooperativista Brasileira – de caráter
reformista – o que permitiu ao PCB ocupar um espaço permanente
num jornal de grande circulação: O
Paiz. Através da
seção intitulada “No meio operário”, Astrojildo publicou suas
Cartas da Rússia,
correspondências enviadas quando estava em Moscou. O acordo,
bastante criticado pelos anarquistas, foi amplamente favorável ao
Partido naqueles primeiros anos, ajudando a colocá-lo fora do gueto
político e social.
Astrojildo
também foi um dos responsáveis pelo acordo com o líder
socialista-positivista Leônidas de Rezende, que deu aos comunistas
a direção do jornal A Nação,
em janeiro de 1927. Pela primeira vez os comunistas tinham sob sua
influência um jornal diário e de grande circulação. Nele, por
exemplo, foi lançado o apelo à formação do Bloco Operário
(depois Intitulado Bloco Operário e Camponês – BOC) - a primeira
tentativa de organização de uma frente-única operária e
socialista para concorrer às eleições no país.
No
final daquele ano ele esteve com Luís Carlos Prestes – o legendário
comandante da Coluna, alcunhado de “cavaleiro de esperança” –
no seu exílio boliviano e entregou-lhe documentos do PCB e livros
marxistas. Tornou-se, ao lado de Octávio Brandão, defensor
ardoroso de uma aliança estratégica com a pequena-burguesia
revolucionária.
Astrojildo
e Brandão defenderam a tese que a revolução brasileira seria
democrática pequeno-burguesa – devido à destacada participação
política das classes médias urbanas. Acreditavam que ocorreria uma
terceira revolta tenentista – as duas primeiras foram a de 1922 e
1924. Brandão escreveu: “Se os revoltosos pequeno-burgueses
souberem explorar a rivalidade imperialista anglo-americana e a luta
entre os agrários e os industriais, se procurarem uma base de
classe para a sua ação, se o proletariado entrar na batalha e se
essas contradições coincidirem com a luta presidencial e as
complicações financeiras, será possível o esmagamento dos agrários”.
Esta era quase uma premonição do que ocorreria em 1930.
No
início de 1929, eleito para direção da Internacional Comunista,
partiu para Moscou e ali trabalhou no Secretariado para a América
Latina. Chegou na “Meca do socialismo” num momento que o
movimento comunista pendia perigosamente para a esquerda. Ao lado do
esquerdismo começavam a predominar práticas autoritárias e sectárias
– a política leninista de proletarização se transformava em “obrerismo”.
Foi
nesse ambiente, marcado pela intolerância, que foram analisadas a tática
e a estratégia dos comunistas brasileiros. Suas teses foram
duramente criticadas e consideradas mencheviques. Astrojildo teve
que voltar ao Brasil com a missão de corrigir os rumos do Partido e
adequá-lo às novas diretivas da Internacional Comunista. O
primeiro passo foi afastar do secretariado vários dirigentes
importantes - como Paulo de Lacerda, Octávio Brandão e Leôncio
Basbaum –, sob argumentação de que eram intelectuais e tentarem
obstruir o processo de proletarização.
Na
Conferência de Partidos Comunistas da América do Sul, realizada
entre abril e maio de 1930, os dirigentes brasileiros foram
novamente acusados de tentar subordinar o proletariado à
pequena-burguesia e de procurar dissolver o Partido Comunista no
Bloco Operário e Camponês, considerado o Kuomitang brasileiro. Uma
gravíssima acusação, após os trágicos acontecimentos chineses.
O
esquerdismo e o obreirismo, incentivados pelo Secretariado
Latino-Americano da IC., passaram a imperar no interior do PCB.
Abandonou-se a proposta de aliança preferencial com a
pequena-burguesia urbana, através do movimento tenentista, e
fechou-se o Bloco Operário e Camponês. As reflexões originais
sobre a formação econômica e social brasileira foram abandonadas
e substituídas por esquemas e modelos mais rígidos produzidos no
exterior. As posições recém adotadas pelo PCB, levaram que ele
ficasse fora do grande movimento cívico-militar que culminou na
revolução de 1930.
Após
a reunião de Buenos Aires, Octávio Brandão foi afastado do Comitê
Central e Astrojildo Pereira destituído da secretaria-geral e
enviado para São Paulo, onde deveria se reabilitar através do
trabalho nas bases partidárias. Nos meses que se seguiram uma
avalanche de acusações recaiu sobre ele. Antes que fosse expulso,
bastante deprimido, solicitou seu afastamento do Partido que ajudara
a fundar. O PCB mergulhou numa profunda crise de direção. Nos
quatro anos que se seguiriam à destituição de Astrojildo o PCB
teve seis secretários-gerais.
Entre
os anos de 1931 e 1945, afastado do PCB, tornou-se comerciante de
frutas no Rio de Janeiro e escreveu artigos de críticas literárias
para o Diário de Notícias. Esta atividade o mantinha em contato com a
nata da cultura brasileira daquele tempo. Relações que, no futuro,
seriam muito úteis ao partido comunista.
Mesmo
longe do Partido, continuou sendo um ardoroso defensor da União
Soviética e do PCB. Num texto de 1934 escreveu: “Na situação
brasileira atual (...) só há um caminho de salvação para as
massas operárias e camponesas. È o caminho que indicado pelo
Partido Comunista”. No seu exílio interno ainda publicou várias
coletâneas de artigos, como URSS,
Itália, Brasil (1935) e Interpretações
(1944). Neste último livro seria publicado o importante artigo
“Posições e tarefas da inteligência”.
No
entanto, o “astrojildismo” continuou sendo sinônimo de
revisionismo brasileiro. No relatório da direção do PCB ao VII
Congresso da Internacional ainda podia se ler sobre “a enérgica
luta (travada pelo Partido) contra a pobre linha menchevista de seu
antigo secretário-geral, o renegado Astrojildo Pereira”. Este era
o último suspiro de uma política sectária que aquele congresso
internacional iria sepultar, pelo menos por alguns anos.
A
vitória sobre o nazi-fascismo criou um novo ambiente político. Vários
antigos militantes regressaram ao Partido, entre eles Astrojildo
Pereira. Desde então se dedicou, fundamentalmente, a organizar o
trabalho comunista entre os intelectuais. Foi diretor das revistas Literatura
e Estudos Sociais e ajudou
a organizar o Congresso que fundou a Associação Brasileira dos
Escritores, da qual foi seu diretor.
Sendo
o militante mais antigo coube a ele fazer a abertura do IV Congresso
do PCB em 1954. Dois anos depois quando chegaram as notícias sobre
o XX Congresso do PCUS – especialmente sobre o conteúdo do relatório
“secreto” de Krushov, no qual revelava os crimes de Stalin – o
movimento comunista no Brasil entrou numa profunda crise. Travou-se
uma intensa luta política e ideológica em seu interior e inúmeros
experientes dirigentes - como Amazonas, Grabóis e Arruda - foram
afastados de seus postos.
Astrojildo
teve uma posição bastante digna nesse debate acalorado não se
utilizando dos anátemas muito comuns naquela época. Também não
fugiu das suas responsabilidades enquanto militante comunista.
Escreveu: “incluo-me, cem por cento, entre aqueles que mais
entusiasticamente participaram do culto à personalidade de Stálin”.
Durante
o período de crise, continuou seu trabalho incansável de organização
da intelectualidade progressista. Em 1959 já havia lançado o seu
principal trabalho de crítica literária, Machado
de Assis. Entre1960 e 1961, manteve uma coluna sobre livros no
semanário comunista Novos
Rumos. Muitos desses artigos e notas seriam publicados em Crítica
Impura (1963). Em 1961 sofreu um enfarte e foi se tratar na
URSS.
No
início de 1962, quando a crise interna teve seu desfecho com a cisão
dos comunistas, Astrojildo optou por ficar com o grupo liderado por
Prestes. No mesmo ano lançou o livro Formação
do PCB – coletânea de artigos sobre os primeiros anos de vida
do partido. Por longo tempo foi a principal referência bibliográfica
sobre este período obscuro da história dos comunistas brasileiros.
Após
o golpe militar de 1964, Astrojildo foi incluído em vários inquéritos
policiais militares e passou a viver na semi-clandestinidade. Sua
casa foi invadida e parte de seu rico arquivo pessoal saqueada. Em
nove de outubro, aos setenta e quatro anos de idade, foi preso
depois de se apresentar voluntariamente. Seu crime: ter ajudado
fundar há mais de 40 anos o Partido Comunista do Brasil e ter
tentado convencer Luís Carlos Prestes a ingressar nele. Realmente
crimes muito sérios naqueles anos de obscurantismo.
Ficou
cerca de três meses encarcerado, mas teve que ser libertado, pois
seu estado de saúde agravou-se. Em maio de 1965 a Revista
Civilização Brasileira publicou um dos seus últimos artigos
– a primeira (e única) parte do que deveria ser sua biografia. A
perseguição, os maus tratos, as notícias aterradoras de prisões
de companheiros ajudaram a debilitar ainda mais seu frágil
organismo e, no dia 20 de novembro, o coração do velho combatente
deixou de bater.
Quando
ainda era secretário-geral do Partido Comunista, respondendo a um
jogo de perguntas e respostas, Astrojildo afirmou que a sua idéia
de felicidade era “paixão amorosa e paixão política ao mesmo
tempo. Um doce amor de mulher em meio a uma bravia luta política”.
A sua grande paixão política foi o Partido que ajudou a fundar e a
grande paixão amorosa foi Inez Dias, com quem casou no início da década
de 1930.
No
dia 21 de novembro, quando seu caixão descia ao túmulo, uma voz
feminina – firme e decidida – foi ouvida: Viva Astrojildo
Pereira! Naquele momento mágico, as suas duas paixões se fundiram
- e se confundiram - com a bravia luta contra a opressão. Quarenta
anos depois, os comunistas ainda ecoam o brado de Inez Dias e
respondem: Viva o camarada Astrojildo! Viva o povo brasileiro!
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