Por AIRTON LORENZONI ALMEIDA

Jornalista graduado pela UFSM, durante três décadas trabalhou e dirigiu várias publicações nacionais, entre elas algumas da Editora Abril. Atualmente é ligado ao Programa de Pós-graduação em Educação nas Ciências, Mestrado, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí (RS).

 

 

 

 

O “velho” profeta-aldeão McLuhan está de volta

 

Herbert Marshall McLuhanMetáforas como “aldeia global”, “era eletrônica”, “o meio é a mensagem”, “retribalização da humanidade”, já inscritas no nosso vocabulário cotidiano, e quase sempre tendo sua fonte original omitida, são do pensador canadense Herbert Marshall McLuhan, cujos 25 anos de sua morte celebramos neste 31 de dezembro de 2005. Seus aforismos-metafóricos, ao que parece, têm-se mostrado, neste cenário globalizado da internet, da tv por satélite, da telefonia celular, entre outros meios tecnológicos de comunicação e informação, mais pertinentes e renovadores do que nas décadas de 60 e 70 quando foram postulados.

Ao longo de sua vida, McLuhan produziu cerca de 25 livros entre ensaios literários e estudos sobre a influência dos meios de comunicação no conjunto da sociedade. De toda esta produção, poucas chegaram ao Brasil. Excetuando-se Os meios de comunicação como extensões do homem, ainda hoje utilizado por um ou outro professor como bibliografia nos cursos de Comunicação Social, os editores nacionais deixaram de publicar o autor nas últimas três décadas, na contra-mão do que ocorreu no restante da aldeia global. Mas eis que, diante do tema tão palpitante que se tornou a globalização ou mundialização, a Ediouro resgatou Marshall McLuhan como o “profeta da aldeia global”, numa elaborada versão de Understanding me: lectures and interviews, coletânea de conferências inéditas e de entrevistas do teórico canadense, organizadas e compiladas por Stephanie McLuhan e David Staines, com prefácio de Tom Wolfe e consultoria editorial de Cremilda Medina, da USP. Por aqui o livro saiu em outubro como McLuhan por McLuhan, e perdeu alguns textos do original americano, porque os editores entenderam que eles dizem mais respeito à realidade dos EUA do que de à nossa. Isso, contudo, não invalida a iniciativa. Ao contrário, permite conhecer a origem das principais teses, métodos e linguagens que forjaram a idéia da aldeia global, o que vem ao encontro do que Palmer explicita sobre o gesto da leitura e da interpretação: “a interpretação recorre ao intérprete para que este torne explícito o significado que uma obra tem nos nossos dias; (...) obriga-nos a construir uma ponte que una a distância histórica entre o nosso horizonte e o horizonte do texto” (Palmer, 1986, p. 246).

Herbert Marshall McLuhanEm outras palavras: McLuhan está tão atual ou, talvez, mais do que à época em que escreveu seus artigos. Parece que sim, por que os textos mcluhanianos, como as obras literárias, são vivos, e estão aí para serem lidos e interpretados, nunca se perdendo de vista a tese de Palmer (1986) sobre que “toda a interpretação verdadeira implica uma ‘aplicação’ ao presente”. Isto é, interpretar é unir o passado com o presente por meio da historicidade, e nenhuma interpretação se constitui como certa, verdadeira, única e para sempre; é sim uma experiência vivida no lugar onde nos encontramos, posto que ler é experimentar, experienciar, romper e alargar nosso modo de ver as coisas: “(...) não foi o intérprete que manipulou a obra, pois esta se mantém fixa; foi antes a obra que o marcou, mudando-o de tal modo que ele nunca mais pode recuperar a inocência que perdeu com a experiência” (Palmer, 1986, p. 250).

Mais do que uma homenagem ao teórico da comunicação, o presente artigo procura resgatar, nos esparsos textos sobre educação escritos por McLuhan, importantes debates e postulados pedagógicos à luz desta era eletrônica. E, num gesto interpretativo, experimentar as provocações metafóricas do autor, especialmente no que concerne ao modelo de escola formatadora, modeladora de sujeitos que ele denuncia e que ainda está tão presente.

No artigo L’avenir de l’education: la génération de 1989, McLuhan (1969) aponta que uma instituição escolar que se pretenda inserida na nova configuração social planetária deve fazer uso apropriado dos meios de comunicação, em vista a transpor os muros que separam a escola de todo o debate das diferenças étnicas, sexuais, políticas, sociais, econômicas, ambientais, presentes no dia-a-dia dos estudantes da era eletrônica, de forma a promover um diálogo com a vida cotidiana. Alerta que a comunicação, e entendemos que educar é, antes de tudo, comunicar, atravessa os sujeitos onde eles estejam e que o mundo, retribalizado pelos aparatos tecnológicos de informação, nos mostra que “o lugar dos nossos estudos é o mundo mesmo, o planeta de todos. A escola clausura está a ponto de tornar-se escola-abertura ou, melhor ainda, escola-planeta” (McLuhan, 1969, p. 57).

Nesta ótica, o que o autor nos apresenta é a necessidade de compreendermos as mudanças de ordem social, política e econômica contemporâneas e as formas como elas afetaram as relações humanas e educacionais, de uma maneira que hoje as salas de aula não são mais o único referencial pedagógico, muito menos o exclusivo espaço de aprendizagem. As fronteiras geográficas estão diluídas, o mundo atual está interligado (plugado) no aqui-agora pela simultaneidade da mídia. “As cidades são uma sala de aula (...) onde os anúncios são os mestres; as salas de aula [tradicionais] tornaram-se obsoleta casa de reclusão, uma masmorra feudal” (McLuhan, 1971, p. 246).

Ao discorrer sobre os efeitos cada vez mais presentes da tecnologia, da comunicação e da informação no cotidiano das pessoas, assim como no ambiente escolar (não na forma de conteúdos pedagógicos porque a escola ainda trata os meios de comunicação como um clandestino, um invasor dos seus muros; mas extra-classe, como nas conversas dos corredores, no recreio), McLuhan (1969) tece comentários ao arcaísmo em que se encontra a educação, enclausurada em modelos e métodos nos quais as evoluções sociais e tecnológicas, em especial, não são acolhidas. Seu principal foco de crítica é a estandardização do ensino – ou seja, a modelagem dos indivíduos sem respeitar suas diversidades, seus tempos e espaços, ao lhe impor uma educação linear e seqüencial, baseada em lições, livros, horários, calendários de atividades, salas estrategicamente separadas, currículos e conteúdos que não suscitam no estudante o engajamento, a descoberta do novo, mas apenas a repetição de velhas fórmulas – ancorado na disciplinarização e sujeição do homem, com objetivo de produzir “um corpo dócil, que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (Foucault, 2004, p. 118).

O que McLuhan (1969) diz em forma de metáforas é que este tipo de escola mostra-se apenas preocupada em atender as necessidades e demandas da máquina social, ou seja, recrutar e formatar indivíduos, transformando-os em operários-padrão especializados. Segundo ele, nesta ótica, à escola e ao professor cabe a tarefa de moldar o homem, especializando-o numa área, parcializando-o, criando um ser amorfo e acrítico à sociedade que o cerca, isto é, construindo um sujeito competidor altamente treinado e qualificado. As conseqüências deste projeto educacional, alerta o teórico, têm sido mimetizar o indivíduo e suscitar a competição. O resultado deste modelo, ainda segundo McLuhan, nada mais é do que criar homens capazes de se distinguir entre si, não pela originalidade nem pela criatividade, mas sim pela repetição dos movimentos produtivos, só que de forma mais rápida e eficiente.

Creio que um dos pontos focais do artigo de McLuhan (1969) encontra-se no seu julgamento desta escola estar preocupada em ser uma instituição normatizadora, enquanto que deveria ter como seu pressuposto que “educar não é sinônimo de formar e manter homens a meio caminho de suas possibilidades de desabrochamento, mas, ao contrário, abrir-se à essência e à plenitude da sua existência” (McLuhan, 1969, p. 57-58).

Sob este aspecto o teórico canadense nos leva a refletir sobre a questão ainda tão presente da profissionalização, da qualificação fragmentada do ser humano. Esta especialização, ou como McLuhan classifica, estandardização, que atende apenas às políticas e aos interesses dos sistemas produtivos, não valoriza o homem no seu todo; ao contrário, traz no seu cerne os efeitos de, ao formatar o indivíduo igualando-o, de torná-lo uma peça de fácil substituição na engrenagem da máquina produtiva de bens e de consumo. O que se desprende desta crítica é que essa escola modeladora não se caracteriza como um espaço de afloramento das diversidades. Nela os alunos precisam despir-se de seus corpos no portão de entrada, uma vez que dentro da instituição não existe lugar para a subjetividade, a criatividade, o sonho e a utopia, mas sim para a massificação ou, em outras palavras, a estandardização, cujo sucesso se deve à utilização de instrumentos de vigilância com base na hierarquia, na sanção e no exame, sem os quais um sujeito não se torna força útil, nem um sujeito produtivo e submisso. “Quando uma lanterna brilha diante de nosso rosto, não conseguimos ver nada. (...) o especialista faz isso o tempo todo; a lanterna de sua especialidade ofusca-o, obscurecendo a resposta aos problemas” (McLuhan, 2005, p. 345).

A crítica de McLuhan tem como endereço o modelo, cada vez mais profissionalizante e formatador, em que as escolas se inseriram. Ou seja, ao invés de promover/encorajar as multiplicidades humanas, dando-lhes chances de descobrir em si suas potencialidades e capacidades, quer-se pré-fabricar indivíduos, robotizá-los, igualando-os e nivelando-os por baixo. O autor alerta que a escola tem se afastado cada vez mais do seu objetivo, o de ser um centro aberto de debates, sem muros, sem cercas, para tornar-se uma produtora e repositora de mão-de-obra especializada, como se a ela coubesse o papel de recrutar operários para os setores de produção, seja na iniciativa privada ou no aparelho estatal.

Assim, parece ser evidente que uma escola que tem seu sustentáculo na disciplinarização e exercitação dos corpos, no treinamento, na vigilância, na punição e na correção, com vistas a impor poder e com ele construir discursos objetivando a modelagem de indivíduos, no meu entendimento só pode criar sujeitos voltados à competição e não ao seu esclarecimento e emancipação, tendo como via o respeito às diversidades e pluralidades. A escola sem muros, verdadeiramente globalizada, pressupõe, sem sombra de dúvidas, a necessidade de devolver o lúdico à educação. Por lúdico aqui se entende tudo aquilo que engaja o ser dentro de um todo, que permite ao homem o aspecto vivencial, as experimentações. Na concepção de McLuhan (1969; 1971), é ilusório supor que existam diferenças entre entretenimento e educação. Para ele sempre foi fato verídico que tudo o que agrada ensina de forma mais eficaz. A questão exposta pelo autor, quanto ao atual modelo de educação, diz respeito a que a escola hoje tem mais o caráter de dar ao aluno um ensino do que verdadeiramente uma aprendizagem. Priorizar mais a técnica do que o engajamento. E, em muitos casos, de fetichizar a tecnologia em vez de fazer com que as conquistas tecnológicas sejam utilizadas pelos sujeitos para a sua emancipação.

Rever a questão modular hierarquizada, esquadrinhada, em que se encontra a escola, ao que tudo indica, parece ser o maior desafio dessa educação da era eletrônica: os professores deixam de ser meros reprodutores de um “saber” específico, como eram os leitores de pergaminhos em tempos medievais, e assumem a cena como construtores de saberes múltiplos, promovendo o diálogo entre as culturas e as diversas visões do mundo que chegam à sala de aula por meio dos educandos com suas tradições, vivências, experiências (historicidade), e também através dos meios de comunicação. Em tempos de aldeia global, o professor-informante e o aluno-ouvinte estão fadados a personagens de uma narrativa do passado. Neste horizonte, aos meios e às tecnologias de comunicação e informação caberá o papel de informar. Ao professor e ao aluno, o papel de promover as discussões críticas das mensagens e construir novos conhecimentos a partir destas experienciações. Na dimensão propiciada pelo uso adequado das novas tecnologias de comunicação, a “escola-planeta” decreta o fim do esquema da memorização, do condicionamento, das respostas prontas, desde que não se mantenha uma atitude passiva diante da mídia.

Ao abordar, em texto distinto, a questão das perdas substanciais que a escola tem ao voltar as costas para a inquestionável presença da mídia na sociedade, deixando de ver e de ter, nos meios e tecnologias de comunicação, aliados importantes na construção de saberes, McLuhan reitera:

 

Hoje, esses novos meios ameaçam, em lugar de meramente reforçarem, os métodos da aula tradicional. É comum responder a essa ameaça com denúncias sobre o caráter e os efeitos infelizes do cinema, da televisão, [da internet]. As suas boas e más características em forma e conteúdo, quando colocadas cuidadosamente, podiam ter-se convertido numa importante e vantajosa aquisição para o professor. Onde o interesse do estudante já estiver focalizado, aí se encontra o ponto natural para a elucidação de outros problemas e interesses. A tarefa educativa não é fornecer, unicamente, os instrumentos básicos da percepção, mas também desenvolver a capacidade de julgamento e discriminação através da experiência social corrente. (...) Ser articulado e perspicaz a respeito das questões e informações correntes é a marca que distingue um homem educado (1971, p. 19).

Do fragmento exposto chego a uma compreensão mais nítida de que, ao negar o papel e a contribuição que a mídia pode aportar na educação de forma a convergir para o desenvolvimento da capacidade do indivíduo pensar sobre a sua realidade e de nela interagir, a ‘escola-clausura’ passa a exercer um poder pastoral sobre os sujeitos, impondo-lhes o que é bom ou não para o seu aperfeiçoamento como indivíduo. Essa relação de poder, de alguma forma provoca a insubordinação, resistência (insubmissão) dos mesmos.

Quero crer que essa insubmissão como resistência ao poder pastoral aqui descrito pode ser interpretada como um dos motivos pelos quais, apesar de todas as novidades agregadas ao campo da educação e da pedagogia, a escola enquanto estrutura medievalizada de claustro, e formatadora de homens, deixa de ser atraente aos estudantes desta era eletrônica. Estes respondem ao poder que os a-sujeita com insubordinação, e uma destas formas de sublevação pode ser entendida como a repetência, a evasão e o abandono escolar, cujos níveis percentuais mostram-se inaceitáveis.

A leitura e as interfaces que propusemos para este debate me leva a entender que a escola- planeta, preconizada por McLuhan (1969), pressupõe pensar a educação contemporânea sob uma nova perspectiva, atravessada pela mídia com suas redes, tecnologias e linguagens, capaz de aportar contribuições que visem a politização/emancipação do indivíduo e cuja essência está na polifonia das vozes. Assim, torna-se imperativo decretar o fim do sentido teatral-feudal que os estabelecimentos de ensino têm hoje, onde o palco é a sala de aula, o professor o ator único com seu monólogo já corroído pela velocidade com que se produz informação/conhecimento, e o aluno uma platéia-ouvinte que, alijado do processo de mediar a construção dos saberes trespassados por uma cultura não-homogênea do conhecimento técnico-científico dado como verdade, fica privado do sentido da comunicação posta aqui como “tornar comum a experiência”. Desta forma, quanto mais diferentes forem os indivíduos, mais possibilidades eles terão de transmitir uns aos outros suas experimentações, vivências e olhares. E este parece ser o papel da escola, da educação, do mestre: constituir pessoas, não máquinas, nem operários.

 

REFERÊNCIAS

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. 28.ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

MCLUHAN, Herbert Marshall. A revolução na comunicação. 2.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

______. Mutations 1990. Paris: Mame, 1969.

______. O homem e os meios de comunicação. In: MCLUHAN, Stephanie; STAINES, David. McLuhan por McLuhan: conferências e entrevistas. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

PALMER, Richard E. Hermenêutica. Lisboa: Ed. 70, 1986.

 
 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

 

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2005 - Todos os direitos reservados