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Por MÁRIO MAESTRI
Doutor em História pela UCL, Bélgica, e
professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. |
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Submissão
e Autonomia
Apontamentos
sobre a gênese, formação e crise do Estado nacional no Brasil
[Parte I]
I.
Gênese, consolidação e crise da formação social escravista
brasileira
O
Escravismo colonial
O
poder estatal lusitano implantou-se na América através de colônias
[capitanias, donatárias], inicialmente litorâneas, centradas na
produção escravista exportadora de gêneros alimentícios e
minerais que exigiu a apropriação latifundiária e alodial da
terra e a feitorização de mão-de-obra, primeiro americana, a
seguir, africana. A escravização de americanos permitiu a acumulação
inicial necessária à expansão da produção colonial e à importação
de trabalhadores africanos, após a extinção tendencial das
comunidades nativas, sobretudo do litoral. A escravização de
americanos prosseguiu nas regiões ligadas fragilmente à produção
de mercadorias para o mercado internacional.
A
inserção das colônias luso-americanas na divisão mundial do
trabalho, através de modo de produção escravista colonial,
determinou o extermínio, a degradação das condições de vida, a
assimilação subalternizada das comunidades americanas e dos
produtores africanos. O escasso desenvolvimento das forças
produtivas ensejou formas rudimentares de resistência social ao
escravismo. O Estado Lusitano constituiu-se de bloco político-social
no qual dominavam as classes agrárias feudais, associadas,
sobretudo, à burguesia mercantilista e aos plantadores escravistas.
As classes escravistas das colônias americanas dependiam do Estado
Lusitano para manter o fluxo da mão-de-obra escravizada, o controle
dos territórios, a submissão dos produtores diretos.
A produção regional de bens exportados pelos portos
regionais, por onde chegavam os manufaturados e os trabalhadores
escravizados, e o imbricamento ao Estado Lusitano ensejavam colônias
social e economicamente semi-autônomas.
O
caráter semi-autônomo das colônias luso-americanas e os frágeis
laços entre elas ensejaram inexistência de mercado interno nacional
propriamente dito e de consciência brasileira por parte
das classes dominantes regionais, que aceitavam - já que
necessitavam para produzir e se auto-reproduzir - a hegemonia
metropolitana. Conseqüentemente, essas classes se auto-concebiam-se
como lusitanas e pernambucanas, paulistas, maranhenses, etc.
Duramente submetidas e mantidas à margem da comunidade civil, as
classes exploradas tinham origens étnicas diversas, praticavam línguas
e costumes variados. No período colonial, a administração metropolitana das colônias americanas – centralizada ou não
− pactuou sempre com os interesses escravistas regionais. O
aparato administrativo colonial interpretava mais fortemente
os interesses escravistas à medida que se distanciava do
poder central. Durante a Colônia, não podemos falar de Estado
colonial-escravista brasileiro propriamente dito.
Em
inícios do século 19, quando da crise colonial, os fortes impulsos
autonomistas, republicanos e liberais das classes exploradoras
regionais – que se expressaram na Inconfidência Mineira, Revolta
dos Alfaiates, Revolução Pernambucana, etc. – foram sufocados
pelas classes crioulas regionais hegemônicas em prol de projeto monárquico-centralista
nascido sobretudo da necessidade de manter o tráfico transatlântico
e a população trabalhadora escravizada na submissão. O unitarismo
brasileiro foi exigido pela defesa da ordem escravista. Até a Abolição,
o Estado Monárquico defendeu os interesses dos grandes escravistas,
através de ordem institucional autoritária e centralizadora
organizada em torno do imperador.
Estado
Escravista
A
transferência para o Brasil do aparato administrativo central do
Estado lusitano determinou que ele defendesse crescentemente os
interesses escravistas, então principal base de seu poder,
fato que ensejou o movimento restaurador da burguesia mercantil
lusitana, em 1820. A partir de 1822, o Estado Monárquico-Escravista
prosseguiu a liberdade comercial, instituída por dom João, sob a
exigência do governo inglês. A medida interpretava as exigências
das classes exportadoras regionais e aniquilou a frágil produção
artesanal-manufatureira provincial, consolidando a hegemonia
escravista. De 1822 a
1831, o Estado Monárquico-Escravista interpretou igualmente os
interesses da burguesia comercial lusitana radicada no Brasil e da
Casa dos Braganças. Devido à crise da mineração e à recessão pós-guerras
napoleônicas, a economia escravista-exportadora conhecera
importante recessão. Sediado no Rio de Janeiro, o Estado Monárquico-Escravista,
sob o controle das facções de classes organizadas em torno da
Corte, empreendeu forte exploração semi-colonial das províncias periféricas,
que mantiveram a autonomia sócio-econômica relativa. Durante a Regência
[1831-40], facções liberais, republicanas, federalistas,
separatistas regionais questionaram fortemente o unitarismo e o
centralismo político imperiais – Cabanagem, Balaiada,
Farroupilha, Praieira, etc.
Mesmo
após a deposição de dom Pedro, em abril de 1931, o então domínio
pleno das classes escravistas sobre o Império não determinou a gênese
de Estado-nação, mantendo-se a forte autonomia provincial social e
econômica de fato, por um lado, e a marginalização das classes
trabalhadoras dos direitos civis, por outro, fenômenos nascidos do
prosseguimento da dominância do modo de produção escravista
colonial. A produção latifundiária-escravista ensejou a formação
de classe trabalhadora, sobretudo de origem africana e nativa,
duramente explorada, de limitada esperança média de vida, de baixo
nível cultural, com débeis laços familiares e frágeis vínculos
com a terra e com o território, mantida à margem dos direitos
cidadãos mínimos, o que ocorria, do mesmo modo, em forma apenas
menos completa, com os limitados segmentos trabalhadores livres.
Nas
terras imprestáveis à produção latifundiária, o Estado Monárquico-Escravista
favoreceu o estabelecimento de comunidades de colonos-camponeses de
origem européia, sobretudo para que fossem contraponto aos
trabalhadores escravizados; gerassem braços para os exércitos;
produzissem alimentos para as capitais e latifúndios. A concessão
de terras, primeiro gratuita, a seguir financiada, próximas aos
mercados provinciais, permitiu que as comunidades
colonial-camponesas se desenvolvessem, sob a permanente expropriação
da renda familiar empreendida pelo capital comercial. No contexto da
posse da terra e do acesso ao mercado, a necessidade dessa produção
familiar de braços determinou fortíssima expansão demográfica,
absoluta e relativa.
Com
a abolição do tráfico transatlântico de trabalhadores [1850], as
classes dominantes escravistas preocuparam-se com a expansão do
raquítico mercado livre de trabalho e com a reprodução endógena
de trabalhadores livres, aprovando a Lei de Terras [1850-4] que
proibiu a distribuição gratuita de propriedades fundiárias a fim
de produzir-reproduzir homens livres pobres, obrigados a vender a
força de trabalho a preço vil, já que incapazes de produzirem
seus meios de subsistência – exército rural de reserva. A
Lei de Terras possibilitava a expansão quase sem ônus dos latifúndios
através do reconhecimento das posses, em geral
compradas-expropriadas a caboclos posseiros, sem representação política.
II.
Gênese, consolidação e crise do Estado Oligárquico brasileiro
A
Revolução Abolicionista
A
abolição do tráfico transatlântico, em 1850, pôs fim à
expatriação de capitais necessária à importação de
trabalhadores escravizados, favorecendo maior taxa de acumulação
de capitais pela cafeicultura escravista então hegemônica. A
seguir, com o esgotamento das terras fluminenses, o centro da produção
escravista deslocou-se para São Paulo.
A abolição do tráfico internacional e o aumento do preço
do cativo promoveram a concentração da mão de obra escravizada no
Centro-Sul cafeicultor. O surgimento de territórios e de classes
sociais à margem da escravidão favoreceu a formação de movimento
emancipacionista e, a seguir, abolicionista. A luta histórica dos
cativos contra a escravidão – mais comumente individual,
localizada, não-política – conquistou apoios sociais, políticos
e nacionais entre a população livre.
Intérprete
dos interesses escravistas hegemônicos, com destaque para os
cafeicultores, o Estado imperial impediu que as províncias menos
dependentes da produção escravista abolissem a instituição,
criando, assim, áreas opostas política, social e economicamente à
instituição, como ocorrera nos USA. A solidez do escravismo
bloqueou por décadas o desenvolvimento social e produtivo de formação
social brasileira profundamente regionalizada. Nos últimos anos da
escravidão, as relações escravistas emperravam a própria expansão
da cafeicultura dominante. Maturavam, portanto, as condições para
a destruição das relações escravistas dominantes que
obstaculizavam o desenvolvimento da produção livre. Desde fins de
1887, apoiados pelo abolicionismo radical, os cativos empreenderam o
abandono das fazendas cafeicultoras, exigindo relações de trabalho
contratuais, pondo assim derradeiro fim ao escravismo, em 1888.
A
Abolição foi a única revolução social vitoriosa no Brasil. Ela
destruiu o modo de produção escravista colonial que dominara, por
três séculos e meio, a sociedade no Brasil, unificando social e
juridicamente a classe trabalhadora, dividida até então em
trabalhadores juridicamente escravizados e trabalhadores juridicamente
livres. A falta de tradição ampla de posse de exploração
parcelar − individual ou familiar − da terra pelo
trabalhador escravizado ensejou que ele se mobilizasse sobretudo
pela liberdade e não pela divisão dos latifúndios, o que
facilitou, no momento da transição, a manutenção, por um lado,
do caráter agrário-latifundiário da produção da riqueza e, por
outro, da essência oligárquica do exercício do poder no Brasil
republicano.
A
Abolição foi possível devido à expansão endógena da população
livre-pobre, sobretudo mineira e nordestina, e à importação de
milhões de trabalhadores europeus, sobretudo italianos, no final da
escravidão. Esses processos promoveram a constituição de
crescentes multidões de trabalhadores obrigados a vender a força
de trabalho por preço vil − exército rural e urbano de
reserva. O abolicionismo foi a primeira proposta política a se
transformar em movimento político nacional de massas,
formado por trabalhadores escravizados e livres, classes médias e
proprietários não-escravistas dos campos e de cidades. Fenômeno
que sequer a luta pela independência, socialmente excludente,
materializou. O abolicionismo via o fim da escravidão como passo na
modernização do país a ser obtida através de reformas político-sociais
entre as quais destacava-se a distribuição de terras a ex-cativos
e livres-pobres. O Partido Liberal adotou parte desse
programa.
A
contra-revolução republicana
A
plena dominância de variadas formas de produção apoiadas em
produtores juridicamente livres tornava desnecessárias e anacrônicas
as instituições centralizadoras imperiais criadas para defender a
escravidão. Novas classes e novas formas de produção mais
complexas exigiam formas de dominação mais refinadas. O movimento
republicano, de 15 de novembro de 1889, foi promovido sobretudo pelo
Partido Conservador, apenas derrotado no pleito eleitoral, e por
ex-conservadores, em geral grandes proprietários de terras
convertidos ao republicanismo. A República foi golpe federalista e
oligárquico, de caráter antidemocrático preventivo. Ela entregou
o poder político às oligarquias agrárias regionais, já
detentoras do poder econômico, e pôs fim ao movimento
nacional-reformista parido pelo abolicionista. A República não foi
uma revolução burguesa, ainda que tenha aplainado o terreno para o
desenvolvimento da produção capitalista, que iniciara seu percurso
no Brasil muito antes de 1888. A República ensejou a conformação
de Estado Republicano, Federal e Oligárquico constituído
sobretudo pela associação de classes agrário-latifundiárias
mercantis regionais que tinham o fundamental de seus ganhos apoiado
na renda da terra [pré-capitalista] e em relações de produção não-capitalistas.
As classes industrialistas regionais integraram em situação
claramente subordinada o bloco político-social oligárquico-republicano.
Na
direção de seus estados, as oligárquicas rurais regionais
em crise aprofundaram a opressão das classes exploradas, motivando
movimentos populares insurgentes – Canudos, Contestado,
etc. – de cunho social e libertário, apesar da expressão messiânica
de alguns deles nascida dos limites objetivos da consciência
popular, sobretudo rural. Na República Velha, elevados formalmente
à cidadania, os trabalhadores foram mantidos na submissão política
e social através de meios coercitivos [exército, polícia, jagunços,
etc.], legais [voto aberto limitado aos alfabetizados, etc.] e ideológicos
[racismo, monocracia positivista, etc.] As elites
republicanas regionais herdaram dos escravistas a visão consensual
da necessidade de manter as classes populares à margem dos direitos
políticos e sociais de fato.
A
entrega pelo Estado Republicano Oligárquico de grande parte do
poder político às classes dominantes regionais, sobretudo
agro-exportadoras, aprofundou a autonomia política, econômica e
identitária dos agora estados. Sem conformar de fato uma nação,
o Estado Republicano, Federal e Oligárquico constituía-se
de superestrutura jurídico-política de classes dominantes
regionais, sobretudo latifundiárias e exportadoras, dominada pelos
estados de maior economia e população – SP, MG, RJ, Ba, RS.
A transição republicana no Rio Grande do Sul foi exceção.
A consolidação de bloco político-social intérprete da economia
colonial-camponesa, da agricultura pequeno-mercantil, da agricultura
capitalista, do artesanato, da manufatura e da indústria regional,
etc., localizadas sobretudo no norte do Estado, deslocou do poder a
oligarquia agrário-pastoril, centrada principalmente no sul, em
estagnação econômica [Guerra Federalista, 1893-95]. Esse processo
foi determinado em boa parte pelo crescimento demográfico, do
mercado interno, da acumulação de capitais, etc. impulsionado pela
economia colonial-camponesa.
O
Partido Republicano Rio-Grandense empreendeu modernização autoritária
pró-capitalista e antiliberal, voltada à autonomia política, econômica
e social regional, que se apoiou na ideologia antidemocrática do
positivismo comtiano. O PRR interveio na economia em apoio do
desenvolvimento dos interesses mercantis e capitalistas dominantes,
financiando a educação, os meios de comunicação, encampando
sistemas de transporte em mãos estrangeiras, etc. Na República
Velha, sobretudo no RJ, SP, RS, Ba e Pe, desenvolveu-se produção e
reprodução do capital, em pequenas, médias e grandes unidades
produtoras de mercadorias – tecidos, alimentos, móveis, etc. –,
para os mercados locais e regionais, sobretudo. Essa produção-reprodução
de capitais apoiou-se exclusivamente em acumulação originária endógena,
ensejada pela economia escravista e colonial-camponesa, sobretudo.
República
Federal-Oligárquica
Apesar
do capital fabril em desenvolvimento, as oligarquias agrárias
mantinham o domínio político inconteste em todos os estados, à
exceção do Rio Grande do Sul. Em 1910, dos 23 milhões de
trabalhadores, apenas 160 mil eram operários manufatureiros e
fabris propriamente ditos, dispersados através e nos Estados
mais industrializados, sobretudo RJ, SP e RS. Ainda em 1920, setenta
por cento da população nacional vivia e trabalhava no campo,
sobretudo em atividades direta ou indiretamente exportadoras – café,
cacau, borracha, algodão, fumo, couro, etc. Era imensa a dispersão
geográfica, étnica e social da classe trabalhadora rural –
imigrados e descendentes de imigrados; ex-cativos e descendentes de
ex-cativos; caboclos; etc.; trabalhadores assalariados; meeiros;
moradores; pequenos proprietários, etc.
Na
República Velha, a renda exportadora apoiou a formação de mercado
interno, de cunho essencialmente regional, apenas em parte
abastecido pela produção artesanal, manufatureira e fabril
regional. A classe trabalhadora artesanal, manufatureira e fabril
conhecia exploração apoiada sobretudo na produção de mais valia
absoluta. Descentralizada pela produção-realização local e
regional das mercadorias, sua vanguarda buscou coordenação
regional e nacional política correspondente à centralização
federal política das classes proprietárias. Em 1906, no Rio
de Janeiro, realizou-se o 1° Congresso Operário Brasileiro, com a
representação de sindicatos e associações de chapeleiros,
marmoristas, carpinteiros, pedreiros, ladrilheiros, pintores,
sapateiros, etc. Nesse momento, diante da quase inexistente integração
nacional da produção e do consumo, podia-se falar sobretudo
de classe operária no Brasil e não de classe operária brasileira.
Opostos
à intervenção na vida política oligárquica, os setores
anarco-sindicalistas dominaram as minúsculas vanguardas operárias
locais e regionais. Ideologicamente, o anarquismo e, sobretudo, o
anarco-sindicalismo expressavam a forma de produção artesanal e
pequeno-manufatureira de grande parte da classe trabalhadora da época.
Com o impacto da revolução de 1917, a vanguarda política operária
foi conquistada para o PCB que, fundado em 1922, desenvolveu-se sob
a hegemonia do autoritarismo e colaboracionismo stalinista. No
contexto de sociedade agro-exportadora, escassamente
industrializada, com classe operária jovem e heterogênea, a adesão
ao comunismo foi essencialmente ideológica, sendo mínimos o
conhecimento do marxismo e seu uso na interpretação da formação
social brasileira. Na República Velha, as frágeis classes médias
regionais – militares, funcionários, professores, liberais, etc.
–, em estagnação econômico-social, iniciaram ativismo político
que se centralizou e se expressou em forma mais forte no Exército
– Tenentismo. Forças Armadas e Igreja eram as duas únicas
grandes instituições nacionais. As classes médias viam com
antipatia-receio a organização-promoção das classes populares e
trabalhadoras, sobretudo afro-descendentes. A seguir, segmentos das
classes médias radicalizadas expressaram-se fortemente através das
organizações operárias.
Durante
a I Guerra Mundial, a militarização das indústrias européia e
estadunidense promoveu fortalecimento da produção manufatureira e
industrial regional do Brasil, através do processo de substituição
de importações. Esse movimento foi apoiado pelo desenvolvimento
das exportações do Brasil no período bélico. A crise dos anos
1920 e as transformações estruturais da produção capitalista
determinaram a queda do preço do café e dos produtos primários,
levando a que sobretudo as classes cafeicultoras paulistas,
nacionalmente dominantes, aplicassem os recursos e o poder federal
na defesa de sua renda, comprometendo a taxa de lucro das
oligarquias regionais periféricas – algodão, açúcar, arroz,
cacau, charque, etc. Ensejando inflação, a política de defesa do
café deprimia consumo popular já baixo, aprofundando a crise
social, muito forte entre os setores médio, populares e operários.
III.
Gênese, Consolidação e Crise do Nacional-Desenvolvimentismo Burguês
Autônomo
Domínio
e consolidação burguesas
Em
1929, as oligarquias agrárias periféricas apresentaram candidatura
contra o prosseguimento do controle da presidência por
representante direto da cafeicultura paulista. A Aliança Liberal
possuía programa liberal, oligárquico e agro-exportador, sem
qualquer sensibilidade industrialista. Getúlio Vargas, candidato do
bloco das oligarquias periféricas, ex-governador do Rio Grande do
Sul, era membro de destaque do Partido Republicano Rio-Grandense que
realizara reunificação momentânea dos republicanos situacionistas
e da oposição liberal-pastoril, que escovava sua produção em boa
parte para os outros estados da federação. Em 1930, a derrota
eleitoral da Aliança Liberal determinou movimento militar que
perseguia essencialmente a restauração do equilíbrio inter-oligárquico.
A
segunda crise mundial do capitalismo depreciou o valor das exportações
primárias, debilitando, por um lado, as oligarquias
agro-exportadoras regionais, em geral, e cafeicultoras, em especial,
e, por outro, deprimindo a capacidade importadora do Brasil, o que
interrompeu relativamente a importação de manufaturados,
fundamental para o abastecimento do mercado interno.
Em 1930, a produção industrial do Brasil, em expansão,
superava a rural-exportadora, em depressão.
Na
direção do governo provisório, Vargas iniciou intervenção na
economia e na sociedade que apontou para o desmonte da autonomia
federalista-oligárquica da República Velha, motivando a Revolução
Constitucionalista, em 1932, empreendida pela oligarquia
paulista e apoiada por Borges de Medeiro, principal intérprete no
PRR do autonomismo rio-grandense. Como chefe do governo provisório
[1930]; como presidente constitucional [1934]; como ditador [1937],
Vargas interpretou os interesses das classes industriais burguesas,
sobretudo dos segmentos dominantes paulistas e cariocas, sendo por
eles apoiado, repetindo, em forma potenciada, para o Brasil, o
programa de desenvolvimento mercantil-capitalista autonômico do
PRR, para o Rio Grande do Sul.
A
crise capitalista mundial – 1929-1933 – deprimiu o mercado
mundial de capitais, o valor dos produtos primários, o consumo
internacional, determinando que o desenvolvimento da indústria no
Brasil devesse necessariamente se dar com capitais internos e
voltado ao mercado interno, de dimensão relativa e abastecida em
grande parte pela produção internacional. De 1939-45, a militarização
da produção industrial estadunidense e européia favoreceu o
prosseguimento do processo de industrialização por substituição
de exportações, já política oficial do getulismo. O Estado Burguês
Nacional-Desenvolvimentista Autônomo se serviu de medidas
fiscais, tributárias, aduaneiras, etc., para apoiar-financiar a
industrialização através da transferência de renda do setor primário
e das classes populares. A industrialização efetuou-se através da
substituição de importações, inicialmente com a plena utilização
da capacidade industrial instalada e, a seguir, com a expansão do
parque produtivo. Esse processo deu-se no contexto de significativa
ampliação do consumo interno, destino quase essencial da produção
industrial do Brasil.
Opressão
regional e social
O
mercado interno, necessário à reprodução ampliada do capital
industrial, invertia a equação produção interna e realização
externa dominante na Colônia, Império e República Velha. A
destruição do federalismo garantiu mais livre circulação nacional
de capitais, trabalhadores, matérias-primas e mercadorias,
etc., em proveito do capital industrial do Centro-Sul, sobretudo.
Esse padrão de acumulação ensejou que os estados periféricos
conhecessem exploração semi-colonial em proveito dos Estados
centrais. Desde 1930, empreendeu-se a invenção da brasilidade
através da construção de cultura, gosto, identidade, etc. nacionais
necessários à conformação de mercado interno nacional e
do projeto nacional-desenvolvimentista, burguês, centralizador,
autoritário, autonomista. A produção industrial e o mercado
nacional foram os agentes da construção do Estado-nação
brasileiro burguês, permeado por profundas e crescentes
diversidades regionais e sociais. Ele materializou, consolidou e
ampliou o domínio das classes burguesas nacionais − sobretudo
de SP, RJ, RS −
sobre o Brasil, em associação com os grandes
proprietários rurais subalternizados, sobretudo dos setores
interessados na ampliação do mercado interno.
Através
de controle ditatorial e populista da nação, o Estado Burguês
Nacional-Desenvolvimentista Autônomo implementou a política
industrialista voltada para o mercado interno que garantiu alta
extração de mais-valia ao produtor direto, através de salário médio
próximo ao mínimo necessário à subsistência, e aprofundou a
exploração absoluta e relativa das demais regiões, sobretudo pela
burguesia de SP, RJ, RS. As regiões periféricas do Brasil −
Norte, Nordeste, etc. − foram reduzidas, por um lado, a situação
de produtoras de matérias-primas e de mão-de-obra, remuneradas –
uma e outra – abaixo de seu valor e, por outro, a consumidoras de
manufaturados vendidos a preço superior aos do mercado mundial.
Em
proveito sobretudo do desenvolvimento das regiões onde se realizava
a concentração e centralização do capital industrial, o Estado
Burguês Nacional-Desenvolvimentista Autônomo assumiu a construção,
propriedade e gestão das empresas que, pela dimensão dos
investimentos requeridos ou pela demora da retribuição dos
capitais empregados, estavam além da possibilidade-interesse do
capital privado nacional – transporte, eletricidade, metalurgia,
etc.
A
área de propriedade pública ensejou a expansão de segmento
trabalhador industrial de maior poder aquisitivo e melhor organizado
que, sobretudo após o fim do Estado Novo, transformou-se no eixo
dinâmico do movimento sindical. Esse segmento manteve-se sob a direção
populista, do trabalhismo, e colaboracionista, do PCB. O getulismo
reconheceu ao núcleo central da classe industrial – mantido na
submissão, política, ideológica e policial – os direitos
trabalhistas necessários ao funcionamento harmônico da ordem
industrial; à obtenção de consenso popular mínimo para o projeto
em curso; à expansão de mercado interno, etc. – oito horas, férias,
salário mínimo, etc.
Colaboracionismo
e independência
O
ingresso da classe operária no cenário político-social, através
de suas vanguardas, não se deu sob o signo da independência, mas
do colaboracionismo. Em momento algum, a vanguarda do proletariado
brasileiro propôs projeto autônomo, dirigido aos segmentos
trabalhadores e médios da cidade e do campo. A expansão industrial
promoveu a incorporação ininterrupta à produção de
trabalhadores, rurais e urbanos, com experiência cidadã
profundamente limitada, chegados de espaços sócio-produtivos
pré-capitalistas, para os quais a exploração capitalista sob relações
contratuais significava avanço econômico, político e social.
Esses setores dificultavam e deprimiam em forma tendencial a maturação-acumulação
de consciência-organização operária.
O
PCB apoiou o industrialismo, impulsionado pela burocracia soviética
– coexistência pacífica – e pela hegemonia nas suas filas dos
interesses favoráveis à burguesia nacional industrialismo.
Mesmo quando se opôs ao getulismo, o PCB não disputou a hegemonia
operária através de programa e de prática classistas, mantendo a
dependência à burguesia nacional-industrialista.
Nos
estados periféricos, as oligarquias agrárias mantiveram-se no
poder regional, submetidas ao poder federal. Sobretudo os proprietários
rurais interessados na expansão do mercado interno participaram em
forma subordinada no Estado Burguês Nacional-Desenvolvimentista Autônomo
que garantiu para todos os terratenentes a propriedade latifundiária
e a não organização dos trabalhadores rurais. As classes
dirigentes dos estados atrasados foram remuneradas política
e economicamente pela gestão autoritária e paternalista das
classes trabalhadoras urbanas e rurais regionais, tanto pelas
classes dominantes regionais como pelo Estado nacional.
A
deposição de Vargas [1945] expressou também a hegemonia mundial
do capital imperialista estadunidense, consolidada na II Guerra,
interessado na liberalização da economia nacional para a
exportação de capitais, insumos, tecnologia, indústrias, etc. O
bloco contrário ao industrialista autônomo foi formado pelo
imperialismo, pelo ainda frágil capital bancário nacional e pelo
latifúndio, sobretudo exportador – [UDN]. Esse bloco político-social
optou pelo golpismo ao compreender que não imporia, através do
voto, sua política de metamorfose do Estado e da nação. O projeto
nacional-desenvolvimentista burguês foi reapresentado em 1950,
1955, 1961, sob contexto democrático, se apoiando, portanto, para
tal, em forma mais substancial nos segmentos sociais operários e médios.
Nesse momento, o processo de acumulação de capitais através do
nacional-desenvolvimentismo burguês autônomo conhecia já
importantes barreiras objetivas, que nasciam da insuficiência de
capitais, dos limites do mercado interno, da dependência tecnológica,
etc.
Crise
do desenvolvimentismo burguês autônomo
Para
superar o impasse, impunha-se rompimento radical com o imperialismo
− controle do envio de lucro, dividendos, royalties;
maior centralização estatal da produção, devido à
crescente composição orgânica internacional do capital −
CSN, Eletrobrás, Petrobrás, sobretudo, FNM;
expansão e generalização dos bancos públicos – BNDE,
Banco da Amazônia, Banco do Nordeste;
expropriação sem pagamento do latifúndio; extensão da
renda e do direito de organização dos trabalhadores da cidade e,
sobretudo, do campo; desenvolvimento de ciência e da tecnologia
nacional estatal.
Imprescindíveis
à continuação do processo de industrialização autônoma do país,
essas iniciativas promoveriam a conseqüente queda da massa de
capitais e de lucros do capital privado nacional, devido ao
crescimento das empresas estatais, da moderna classe trabalhadora,
ao aumento dos salários, etc. A destruição do latifúndio, sem
indenização, exigia quebra radical do pacto existente entre a
burguesia industrial e o latifúndio, com o conseqüente
fortalecimento da classe trabalhadora rural.
A
burguesia industrial nacional negou-se terminantemente a
implementar medidas que questionavam, já a curto e médio prazo,
sua hegemonia sobre o processo. Dirigentes máximos do
desenvolvimentismo burguês autônomo, Getúlio Vargas e Jango
Goulart preferiram, respectivamente, o suicídio, em 1954, e o exílio,
em 1961, a lançar mão à mobilização popular que ameaçasse as
classes que representavam. Diante do impasse, a burguesia industrial
nacional rompeu com o projeto desenvolvimentista autônomo,
procurando saída na associação-submissão ao capital imperialista
e na repressão aos trabalhadores. O rompimento acelerou-se quando
os trabalhadores passaram a reivindicar, com maior ou menor consciência,
em forma parcial, algumas das medidas necessárias à superação
classista e nacional do impasse. Como na Colônia, as classes
dominantes brasileiras vergavam-se às classes dominantes metropolitanas,
esperando, dessas, proteção contra as classes exploradas e
participação, mesmo subordinada, no processo de acumulação.
Apenas
programa que propusesse o prosseguimento do industrialismo, no
contexto das necessidades das diversas regiões e das populações
das cidades e dos campos, apresentado e dirigido pelo proletariado
industrial, era capaz de solucionar o impasse em que se encontrava o
processo de produção e reprodução do capital. Para isso, era
necessário que o proletariado, dirigido sobretudo pelos
trabalhadores das grandes estatais, superasse as propostas
colaboracionistas defendidas por segmentos sociais,
interessados no industrialismo e com divergência com o
imperialismo e com o latifúndio, mas opostos à superação da
sociedade de classes, representados sobretudo pelo PTB e pelo PCB
− segmentos médios, aristocracia operária, etc.
O
caminho do meio
Em
1956-60, Juscelino Kubistchek tentou superação parcial das
contradições objetivas vividas pelo industrialismo burguês autônomo
através de rompimento com o FMI [1959], abertura controlada do
mercado ao capital imperialista [montadoras]; financiamento da
expansão econômica com a renda popular [política inflacionária].
O caminho intermediário aumentou o endividamento do país,
inicio o processo de internacionalização da indústria nacional,
redistribuiu a renda em favor das classes proprietárias,
aprofundando a crise social e política, o que colocou com maior
premência a necessidade imperiosa da solução da contradição do
processo de produção e reprodução das riquezas pelo mundo do
capital ou pelo mundo do trabalho.
Em
1959, a eleição de Jânio Quadros, liberal-populista independente,
com o apoio da UDN e do imperialismo, registrou o impasse político
do industrialismo burguês autônomo. Jânio Quadros tentou
empreender desmonte liberal do nacional-desenvolvimentismo autônomo,
primeiro nos marcos legais, a seguir, através de golpe gaullista.
O comando das forças armadas procurou servir-se de sua renúncia
para pôr sob controle direto a presidência da República, sendo
impedido pela mobilização popular dirigida por Leonel Brizola,
governador do RS [Legalidade]. A derrota do imperialismo e da
direita civil e militar não foi aprofundada com a dissolução do
Congresso, envolvido no golpe, proposta por Leonel Brizola e apoiada
pela população mobilizada, por decisão de Goulart, para não pôr
sob ameaça o domínio burguês. Goulart preferiu assumir o governo
com poderes presidenciais restringidos, restabelecidos plenamente em
janeiro de 1963 [período parlamentarista].
Após
tentar inutilmente estabilização econômica de caráter liberal e,
a seguir, governo centrista com apoio militar [4-7 de outubro de
1963], Goulart relançou o nacional-desenvolvimentismo burguês autônomo,
sem propor as medidas político-econômicas necessárias a sua
consecução e, sobretudo, sem mobilizar-organizar as classes
populares contra o golpe e pela conquista da hegemonia nacional.
Para o trabalhismo e para o PCB, o desarmamento político, ideológico,
organizacional e militar da classe operária era pressuposto necessário
à participação da burguesia nacional-progressista, que já
aderira plenamente ao golpismo, no projeto desenvolvimentista − [PTB e PSD].
O
PCB mantinha hegemonia sobre o movimento operário e social que
pequenas organizações socialistas-revolucionárias – Polop,
grupos trotskistas, etc. – jamais alcançaram a questionar, mesmo
parcialmente. Em 1964, as duas únicas soluções para
restabelecimento do processo de expansão econômica eram o
aprofundamento social da industrialização autônoma, sob a
hegemonia das classes trabalhadoras, ou o prosseguimento do processo
de acumulação de capitais, em associação-inserção ao capital
internacional. Revolução e contra-revolução eram os dois únicos
caminhos que se apresentavam objetivamente à sociedade brasileira.
IV.
Gênese, consolidação e crise do Nacional-Desenvolvimentismo Burguês
Associado
Primeiro
governo liberal
A
vitória do golpe de 1964 constituiu dolorosa negação da proposta
de entregar a direção do desenvolvimento autônomo às classes
burguesas brasileiras. O golpe foi apoiado pelo imperialismo; pelo
capital financeiro; pelo latifúndio; por parte das classes médias;
pela Igreja; pelo capital bancário nacional e praticamente por toda
a burguesia industrial brasileiro, com destaque para sua vanguarda
paulista. O governo ditatorial despediu, prendeu, torturou,
expatriou, executou políticos, sindicalistas, militantes, etc.;
interveio nos sindicatos, nos partidos, etc.; fechou jornais,
editoras, etc.; expurgou parlamentares, oficiais, soldados,
marinheiros, etc., tudo para criar as condições para a imposição
de novo padrão de acumulação do capital apoiado na super-exploração
dos trabalhadores e confisco de conquistas sociais históricas –
valor do salário mínimo; duração da jornada real do trabalho;
estabilidade do emprego, etc.− aumentando, assim, a taxa de
acumulação de mais valia, sobretudo absoluta.
Desorganizado
por sua vanguarda política, o movimento operário e social não opôs
a necessária resistência de massa e armada ao golpe de 1964. Tal
fato constituiu derrota histórica que desequilibrou a correlação
de forças em favor do capital e em detrimento do trabalho,
determinando profundamente a vida política, econômica, social,
ideológica do Brasil desde então. O golpe de 1964 influenciou
significativamente o processo de contra-revolução latino-americana
e mundial, que obteve vitória em fins dos anos 1980 – Queda do
Muro de Berlim. Após disputa entre as facções das classes
dominantes nacionais, que se expressaram nas diversas candidaturas
do alto mando militar, o primeiro governo ditatorial representou
sobretudo o imperialismo e o então frágil capital bancário
nacional [UDN], obrigados a concessões ao setores industriais
brasileiros. No contexto da nova ordem ditatorial, retomava-se e
expandia-se o projeto empreendido confusamente por Jânio Quadros.
O
governo Castelo Branco implementou, gradualmente, medidas liberais,
recessivas e antiinflacionárias. A liberação das remeças de
capitais; indenização régia do capital expropriado; corte de
despesas e investimentos; diminuição dos subsídios; restrição
do crédito; arrocho salarial; desvalorização cambial, etc.
ensejaram recessão, inflação, desemprego, queda do poder
aquisitivo. Em 1965, o crescimento do PIB foi igual a zero. A política
recessiva fortaleceu oposição social crescente ao regime
ditatorial, primeiro, dos segmentos médios [eleições de 1964;
revolta estudantil, em 1967] e, finalmente, da classe trabalhadora
[greves operárias de 1968]. A recessão obrigou, em vez das
exigidas privatizações das empresas públicas, investimentos no
setor público, para limitar o processo econômico depressivo.
O
prestígio da Revolução Cubana [1961], da Revolução Cultural
Chinesa [1966], da Revolução Vietnamita e o desprestígio do
colaboracionismo nacional-reformista ensejaram que o PCB perdesse
sua hegemonia e enorme parte de seus quadros, dando lugar a pequenas
organizações militaristas formadas sobretudo por estudantes das
classes médias e praças nacionalista-revolucionários, que
empreenderam ataque militar incondicional ao Estado, a partir de
fins de 1967. Em geral, as organizações que se lançaram à
conquista armada do poder mantiveram os programas
nacional-colaboracionistas – Libertação Nacional. Apoiado no
Brasil e na América Latina pelo Secretariado Unificado da IV
Internacional, o militarismo constituía também clara rejeição do
caráter hegemônico das classes operárias industriais no processo
de emancipação social.
Nacional-desenvolvimentismo
burguês associado
A
oposição sobretudo da poderosa burguesia industrial paulista e a
crise social determinada pela política liberal-recessiva
determinaram que o segundo governo militar [15.3.1967] retomasse o
nacional-desenvolvimentista burguês,
em associação com o capital internacional, através de
medidas autoritárias. Expressão das necessidades da grande
burguesia industrial brasileira, em geral, e paulista, em especial,
o novo padrão de acumulação foi financiado por empréstimos
mundiais; pela renda do trabalho [arrocho salarial]; pela renda
nacional [cortes de investimento sociais]; pela renda regional
[expropriação-centralização federal das rendas dos estados e
municípios]. O recurso ao capital internacional; a crescente
liberalização da circulação de capitais; o pagamento
incondicional da dívida; a adesão política ao anticomunismo, etc.
determinaram a consolidação da aliança relativa do bloco
nacional-burguês ao imperialismo, mesmo após a reorientação em
detrimento do projeto castelista, apoiado pelo capital financeiro
internacional.
A
retoma econômica deu-se com o fortalecimento da área pública [PETOBRÁS,
Banco do Brasil, etc.]; com a criação de novas estatais [EMBRAER,
TELEBRÁS, NUCLEBÁS, etc.]; com a modernização do parque
industrial; com o desenvolvimento da tecnologia e da ciência
nacional [qualificação da universidade pública]; com a modernização
capitalista do campo, etc. Ela privilegiou as regiões
industrializadas – SP sobretudo, RJ, MG, Rio RS, secundariamente
–, aprofundando a exploração das regiões periféricas,
principalmente o Norte e o Nordeste. O novo padrão de acumulação
expressava a dominância da grande burguesia industrial em parceria
com o capital bancário, principalmente paulistas, sobre o país, em
associação com os proprietários rurais e o imperialismo.
O
limite do mercado interno, um dos motivos do impasse do período
anterior, foi superado, sobretudo, com a expansão das exportações
de produtos primários e secundários – mais de 20% ao ano – e
com a expansão do consumo de bens duráveis e semiduráveis para
segmentos médios e altos da população, grupos sociais
fortalecidos pela crescente concentração da renda. A associação
da produção interna – financiada com incentivos e pelo arrocho
salarial –, à realização externa, permitiu desenvolvimento da
taxa de acumulação do capital nacional. Ainda que em crescimento,
o mercado interno decaia relativamente como espaço de realização
da produção interna, retomando tendencialmente a realidade
conhecida na Colônia, no Império e na República Velha.
O
novo regime impulsionou a concentração, a centralização e a
liberalização do sistema bancário e financeiro nacional, para que
apoiasse o desenvolvimento industrial e agrário capitalista do país.
O fim do financiamento dos gastos públicos com a desvalorização
da moeda era exigência do capital financeiro internacional. A
intermediação da interiorização de capitais; o crescimento do
volume e das formas de crédito; o lançamento de títulos da dívida
pública como meio de financiamento estatal, etc., promoveram forte
impulso da acumulação do capital bancário nacional, que conheceu
taxas de crescimento sempre superiores ao do capital produtivo. A
manutenção de reservas de mercado para a indústria nacional foi
estendida ao capital bancário e financeiro nacional, através da
restrição ao estabelecimento de bancos estrangeiros no país.
Uma
nação grande
O
projeto nacional-desenvolvimentista autoritário e associado
propunha a promoção do Brasil no contexto internacional, ensejando
alguns fortes atritos com a administração USA. O governo militar
retomou a proposta getulista de controle da energia atômica e,
conseqüentemente, da bomba nuclear, através de acordo com a
Alemanha [1975] e apoiou o desenvolvimento de indústria nacional de
armamentos – ENGESA − e informática. Na política externa,
para construir-se área de influência internacional, apoiou a
independência dos Estados africanos de língua portuguesa, em oposição
ao imperialismo estadunidense e europeu. No estágio virtuoso do
ciclo, o nacional-desenvolvimentismo associado e autoritário
ensejou crescimento da produção, do mercado e da renda interna,
que já sofriam a pressão da crescente exportação de capitais,
devido às trocas desiguais de valores e à expatriação incessante
de capitais, sob a forma de royalties, lucros e dividendos.
Como no período anterior, o Estado Burguês
Nacional-Desenvolvimentita Associado expressou sobretudo a burguesia
industrial, com destaque para a paulista, agora em associação com
o capital bancário e financeiro nacional, crescentemente
fortalecido. Com a penetração capitalista no campo, o latifúndio
pré-capitalista perdeu crescentemente força no Estado. O
crescimento da força econômica direta e indireta do capital
imperialista no país expressava-se em forma indireta no Estado.
Apesar
de ser acompanhado de endividamento financeiro, público e privado,
nacional e internacional, e de internacionalização tendencial da
produção, no que se refere ao controle da produção [controle
acionário das empresas] e a sua realização [orientação
exportadora], o novo padrão de acumulação ensejou um elevado nível
de crescimento do PIB – dez por cento anuais –, determinando o
fim da fratura dos diversos setores das classes proprietárias; o
apoio substancial das classes médias à ditadura; a mais fácil
neutralização da classe operária; o isolamento sobretudo da
esquerda militarista, que prosseguiu o ataque militar incondicional
ao Estado, mesmo quando o ciclo econômico expansivo já se
instalara plenamente.
Despreocupados
com o estágio de organização e da consciência dos trabalhadores,
que propunham dinamizar através de atos armados excelentes,
os grupos militaristas foram destruídos política e fisicamente,
movimento repressivo que se expandiu à esquerda reformista e
classista. [Nov. 1969, morte de Marighella; maio 1970, desbundados
na TV]. Derrotados politicamente, desbaratados organicamente,
isolados socialmente, milhares de militantes partiram para o exílio,
dispersaram-se, abandonaram a luta, foram presos ou mortos,
dissolvendo-se as principais organizações – ALN, VAR, VPR, etc.
–, para sempre, sem jamais realizar-se balanço sistemático
efetivo sobre as raízes profundas da aventura militarista
empreendida em nome das classes trabalhadoras.
Em
meados dos anos 1970, a terceira crise cíclica do capitalismo
elevou a taxa de juros, retraiu o mercado, deprimiu o consumo
mundial, determinando que explodissem a dívida pública e privada
brasileira, enquanto os preços e o volume das exportações
nacionais recuavam. Durante o ciclo expansivo, o capital bancário e
financeiro conheceu taxa de lucro sempre superior ao do capital
produtivo. Durante o ciclo virtuoso, o capital financeiro
abocanhava parte do lucro do capital produtivo. O capital
bancário e financeiro manteve a expansão no ciclo depressivo,
apropriando-se de parte crescente da taxa de lucro decrescente do
capital produtivo nacional e, muito logo, de parte do próprio
capital industrial nacional.
O
renascimento do movimento sindical
O
governo Geisel retardou a crise de acumulação através de promoção
de ambicioso plano de desenvolvimento de indústrias de base, Porém,
rendendo-se ao ultimato do capital financeiro, já no fim do governo
Geisel e durante o governo Figueiredo [1979-85], para garantir o
pagamento incondicional da dívida, a administração federal
promoveu as medidas liberais exigidas pelo capital internacional
para promover as exportações, produzir excedentes comerciais,
obter superávits orçamentários, etc. Os cortes de investimentos,
as restrições dos gastos sociais, a apropriação inflacionária
da renda do trabalho, etc. determinaram recessão, retração do
consumo, crise do mercado de trabalho.
No
final da ditadura, ainda sob a hegemonia de Estado que representava
os interesses industrialistas nacionais, sobretudo paulistas,
instaurou-se a exploração plena pelo capital financeiro e bancário
nacional e internacional da produção e da sociedade brasileira. Em
1980-86, o Brasil transferiu aos USA, como renda líquida, mais de
64 bilhões de dólares, 56 bilhões dos quais apenas como juros. Os
grandes grupos produtivos nacionais procuraram contornar essa
realidade participando da expropriação financeira, ao fundarem
bancos e entes financeiros próprios.
A
recessão, inflação e arrocho salarial promoveram o renascimento
da luta sindical, a partir de 1977, liderada pelo setor metal-mecânico
paulista e bancário nacional, fortalecidos durante o Milagre
Econômico. Em 1979, o Brasil conheceu verdadeiro Ano Vermelho,
através de poderoso ciclo grevista sobretudo por reposição
salarial – metalúrgicos, bancários, professores, construção,
motoristas, etc. Apesar da derrota parcial das reivindicações econômicas, a
força do movimento social permitiu vitória política materializada
na fundação do PT, em 1980, e da CUT, em 1984. Em 1979, no norte
do RS, com o apoio da Igreja progressista, colonos de origem alemã,
italiana, polonesa, etc., expulsos de reservas indígenas, ocuparam
a Fazenda Anoni, antes de 1964, centro da luta no RS contra o latifúndio,
dando origem, mais tarde, ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra.
O
PT e a CUT foram fundados por sindicalistas classistas, católicos
progressistas, marxistas organizados, ex-militaristas dispersos,
intelectuais de esquerda, etc. O PT e a CUT nasceram classistas e
tendencialmente anti-capitalistas, ainda que tal orientação geral
não se expressasse em forma clara no programa partidário. Lula da
Silva, que se encontrava à frente do poderoso sindicato metal-mecânico
paulista quando do ciclo grevista, assumiu a direção do processo
de fundação do PT e da CUT.
Diretas,
Já!
Em
1984, o movimento social conheceu importante derrota. A luta pelas Diretas
já! efetuou-se sob a direção das facções das classes
proprietárias e médias, com contradição com a ditadura, mas
interessadas em manter a sociedade de classe. A derrota popular
materializou-se nas eleições indiretas do presidente e do
vice-presidente por Colégio Eleitoral que, em janeiro de 1985,
elegeu dois políticos burgueses recém-chegados das filas da
Ditadura. Em nenhum momento exigiu-se o esclarecimento dos atos de
corrupção e dos crimes cometidos durante o período militar,
permitindo que o aparado político-militar ditatorial se
metamorfoseasse, adaptando-se aos novos tempos.
Apesar
dos mais de dois milhões e meio de populares mobilizados em São
Paulo e no Rio de Janeiro [abril de 1984], o movimento operário e
popular foi derrotado, mais uma vez sem lutar, já que sua direção
foi incapaz de decretar a greve geral, discutida pela direção do
PT e da CUT, e balbuciada por Lula da Silva.
Novamente, a classe operária manteve-se atrelada à direção
burguesa e pequeno-burguesa democráticas.
Sobretudo
após o Plano Cruzado, o governo Sarney [1985-1990] prosseguiu a
subjunção da sociedade nacional ao pagamento do grande capital
financeiro, através do corte de investimentos e de gastos sociais
e, sobretudo, do confisco inflacionário da renda popular. No final
do governo, a inflação alcançava os 80% ao mês. Em 1971-80, o
PIB conhecera média anual de crescimento de 8,6%; em 1981-1990,
pouco inferior aos 1,6 %. A estagnação econômica iniciou processo
de fragilização objetiva das classes trabalhadoras, sobretudo
industriais.
Em
fins de 1989, após mais de uma década de estagnação econômica,
o PT concorreu, em segundo turno, contra o candidato da totalidade
das classes proprietárias, apoiado, este último, por toda a grande
mídia. O programa democrático radical petista defendia a rejeição
da dívida internacional; o apoio e a expansão à propriedade pública;
a recuperação do salário mínimo; o crescimento dos gastos
sociais; a reforma agrária. Propunha, portanto, apenas parcialmente
as medidas necessárias à retomada do nacional-desenvolvimentismo
autônomo. É crível que Lula da Silva tenha sido derrotado devido
à desestabilização emocional motivada pela denúncia caluniosa e
ao favorecimento de Collor de Mello, pela Globo, durante o último
debate. Leonel Brizola morreu externando a opinião de que houve
trapaça na totalização dos votos, cabendo a vitória a Lula da
Silva.
[continua...]
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