Embratur
o epicentro da crise no turismo brasileiro: a antipolítica do
turismo
Não
sei se você conhece o Brasilino!?
Mas isso não importa . . .
Brasilino
– é um homem qualquer, que mora num apartamento qualquer, numa
cidade qualquer . . . Situemo-lo
em Santos, por exemplo. (Paulo
Guilherme Martins. Um dia na vida do brasilino. Santos, 1961 )
Estudantes
de turismo, turismólogos, profissionais das áreas afins e amigos
defensores de uma política de turismo direcionada para a inclusão
social da população brasileira. Vivenciamos uma situação assaz
delicada no que diz respeito ao futuro de nosso campo de trabalho
e da compreensão pedagógica do fenômeno turístico, pois o
estigma da elitização dessa atividade é cada vez mais forte no
conjunto das atividades turísticas, alimentada pela compreensão
e prática inconclusa daqueles que dirigem o turismo brasileiro,
demonstra que estão desenvolvendo a antipolítica do turismo.
Política
Pública verdadeira na área do turismo se exerce por meio de um
planejamento global e não por meio de atividades pulverizadas em
programas carimbados por interesses políticos pessoais como foi o
caso do PNMT. No qual, cansamos de nos pronunciar sobre sua
inconsistência teórica e possuidor de um pragmatismo ufanista
quase religioso, com isso, sofremos retaliações de cunho político
e pessoal por parte de pares da academia que utilizaram o
expediente da difamação pessoal para nos prejudicar no campo
profissional.
No
atual governo tínhamos a esperança de livrar-nos da tradicional
política de turismo que sempre foi hereditária e imposta por um
grupo de curiosos, mas o fato é que isso não ocorreu.
Metas de fundo idealista a serem atingidas contidas no
“Plano Nacional de Turismo” começam a serem explicitadas por
meio de atividades configuradas em diversos programas.Os mesmos
também estão compartimentados, o que irá refletir mais uma vez
a inexistência de um plano global e sim, o continuísmo de
antigas políticas de turismo.
Poderíamos
aqui relembrar a fala do Ministro da economia Antonio Palocci que
em depoimento a CPI relatou que os Ministérios em geral possuem várias
dezenas de programas direcionados ao mesmo objetivo e que isso
parece não ser a formatação de uma Política Pública
consistente e correta para as dimensões dos problemas
brasileiros.
No
que se refere ao nosso trabalho como turismólogo não podemos ser
desrespeitados por profissionais equivocados de outras formações
que fazem questão de ignorar a nossa qualificação profissional.
Entretanto continuamos entendendo que em sua essencialidade como
ciência o turismo é resultado de um movimento interdisciplinar e
multidisciplinar compartilhado com profissionais de outras áreas
do conhecimento. Porém, não se pode admitir que curiosos do
turismo por meio de indicações políticas e do nepotismo clássico
e cultural que está impregnada na maquina do aparelho de Estado
brasileiro continue e sejam vistos como práticas costumeiras e
naturais de empregabilidade.
As
políticas “públicas” existentes no campo do turismo são
inconseqüentes, porque são privatizantes, elitistas,
pulverizadas e obedecem ao princípio de estarem descomprometidas
com as classes populares. Dentre as diferentes ações
desenvolvidas pelo governo é no turismo que o mesmo delega à
iniciativa privada a totalidade de suas atividades, pois não
entende que no Brasil o turismo deve ser encarado como um
investimento social a fundo perdido e não como simplesmente
gerador de mais-valia.
As
características abismáticas da estrutura social brasileira
exigem que o Estado desenvolva uma política de turismo de cunho
social e cidadã em que a responsabilidade principal deve ser do
governo com o apoio do trade. Com isso, não estamos
negando o papel e a importância da iniciativa privada, mas sim,
alertando aos responsáveis pelo turismo no Brasil que o Estado
tem o dever de desenvolver políticas públicas para as classes
populares com diretrizes claras de inclusão social para com os
diferentes estratos sociais.
A
ênfase de uma política pública em turismo nos paises em que as
diferenças sociais são imensas deve ser traçada pelo Estado e
dirigida para as classes sociais menos favorecidas. Como assim o
fez exemplarmente o presidente Getúlio Vargas com a criação do
SESC e SENAC na década dos anos 40, com objetivo de dar as condições
necessárias para que o trabalhador pudesse desenvolver atividades
de lazer, como comenta o professor Trigo:
Criado,
em 10 de janeiro, pelo Decreto-lei n. 8.621, o Serviço Nacional
de Aprendizagem Comercial (SENAC), que no futuro teria participação
na formação em nível médio e superior dos profissionais nas áreas
de turismo e hotelaria. No mesmo ano o Decreto-lei n. 9.853, de 13
de setembro, criou o Serviço Social do Comércio (SESC) Essa
entidade, juntamente com o SENAC, colaborou para a teoria e prática
de lazer social. O lazer é o ponto alto das atividades do SESC e
um de seus programas que mais agradam aos associados. Os
comerciários passam fins de semana e férias em locais confortáveis
e bem-equipados, onde se divertem, praticam esportes e recebem
educação física e cultual e orientação social. As colônias
de férias os balneários e os centros campestres do Sesc estão
espalhados pelo Brasil, assim como as unidades educacionais do
SENAC.
Os
equipamentos do SESC estão presentes em grande parte do território
nacional, atendendo a classe trabalhadora, graças à vontade política
de um período marcante de nossa história. Mas há também uma
grande parcela da população inserida no trabalho informal que não
possuem amparo previdenciário e que estão excluídos de qualquer
política pública efetiva de atendimento no campo do lazer e
turismo.
A
existência de um trade informal e “não legalizado”
que vive sempre se “ocultando” das fiscalizações, sejam na
área dos transportes, hospedagens, gastronomia e entretenimento e
que caminha paralelo ao sistema turístico legalizado. Não pode
ser simplesmente punido, por sua ilegalidade, mas sim, deve ser
objeto de uma política de inclusão desses serviços, pois há
uma demanda que agrega em si uma quantidade respeitável de serviços
no mundo do turismo.
O
ato de punir deve servir para coibir os aproveitadores, que apesar
de terem condições para oferecer serviços segundo as regras do
mercado, continuam com atividades fora dos padrões legais,
simplesmente porque há uma demanda pauperizada da população que
busca esses serviços. O papel do Estado é perceber que há uma
enorme demanda de brasileiros que recorrem a esses serviços por
limitação econômica e a solução não é somente puni-los, mas
de educá-los com o apoio do Estado criando políticas especificas
para esse processo.
O
mercado turístico brasileiro em sua dinâmica demonstra que 60%
da população brasileira está excluída ou tem poucas condições
básicas para usufruir as atividades de turismo e lazer, porque o
seu baixo poder aquisitivo faz com que ingresse em atividades
consideradas não legalizadas. Voltamos a reafirmar que se o
Estado deseja desenvolver uma política de turismo que trabalhe
para a construção de cidadania brasileira deve optar por atuar
prioritariamente junto ao mercado interno formulando ações para
que os excluídos tenham acesso aos serviços de ocupação do
tempo livre.
Com
isso, não descartamos em hipótese nenhuma a relevância do
turismo receptivo para a economia brasileira, mas sim, não
podemos relegar a um segundo plano o turismo interno no ufanismo
economicista da Embratur que se transformou num grande Conventions
Visitors Bureaux. E que sua atuação junto ao trade
tem colaborado drasticamente para que os organismos públicos
municipais, estaduais e até federais de atuação no turismo
percam suas funções e caiam no descrédito. Bem como, em muitas
partes do país os Conselhos Municipais de Turismo começam a ser
aparelhado aos interesses dos Conventions
o que desvirtua a constituição de 1988 que foi pensada para
ampliar a participação popular.
Esse
processo vem demonstrando o quanto a atuação da Embratur acaba
interferindo na formulação de uma Política Nacional de Turismo,
apesar de sua normatização jurídica de competências em que as
ações desse órgão estão voltadas para a captação de eventos
internacionais e divulgação do Brasil no exterior. Reafirmamos
que a atuação da Embratur em estimular a criação dos Convention
& Visitors Bureaux, de forma indiscriminada, bem como, o
convênio celebrado entre Embratur e FBC$VB (mesmo sendo entidade
sem fins lucrativos) para a criação dos Escritórios no exterior
como eixo básico da política desse órgão.
Está
marcando uma política hegemônica que expressa uma critica
subliminar tencionada no entendimento de que a estrutura estatal
está contaminada pelo excesso de funcionários, pela paralisia
administrativa, pela descontinuidade de metas e pela falta de
compreensão empreendedorista.
Esse
entendimento trouxe duas situações agravantes em termos de ciência
política: A primeira em que a iniciativa privada começa a
administrar o “bem público” o que faz o Estado esquecer seu
papel maior de atender a população brasileira em todos seus
estratos. A segunda um órgão público firmar convênio com a
iniciativa privada não é nada problemático, desde que não haja
repasse de dinheiro público com destino questionado pela
Controladoria Geral União.
O
esforço de mais de 30 anos que a academia, estudantes, turismólogos
e estudiosos de outras áreas realizaram em prol da criação de
órgãos públicos de atuação no turismo e o processo de
convencimento que desenvolvemos junto ao aparelho de Estado, para
que este entendesse a importância dessa atividade político-social
para a população brasileira. Esta sendo contestado da forma mais
antidemocrática possível, pois o centralismo privatista tomou
lugar nas decisões do governo no campo do turismo e transformou
o público em privado e o privado em “atuação pública”.
Esse
processo galopante em querer desqualificar a atividade pública
como incompetente e atrasada esquecendo que a mesma tem por
objetivo atender à população em suas necessidades coletivas.
Bem como, a apropriação do público pelo privado já era
denunciada por Karl Marx em 1847 no texto clássico do Manifesto
Comunista, quando afirma que. “O governo moderno não é senão
um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe
burguesa”.
O
espaço público está sendo cada vez mais contraído no interior
do aparelho de Estado pela ocupação do privado, um verdadeiro
empresariamento do “bem público” essa proposta neoliberal
acaba com a preocupação do Estado pelo cidadão coletivo e
imprime a ideologia do empreendedorismo como capaz de atender os
interesses privados e individuais de cada pessoa no que diz
respeito a empregabilidade.
O
movimento globalizante que atinge também o Estado brasileiro
enfraquece o público, tornando-o secundário e abrindo espaço
para a chamada Gestão
Compartilhada que nada mais é do que o uso e abuso do “bem
público” a serviço dos interesses privados. Com isso, a ações
da Embratur começam a ser objeto de investigação junto a
Controladoria Geral da União (CGU), como assim, expressou a
assessoria de imprensa desse órgão em 04/11/2005:
CGU
vê alternativas para os escritórios da Embratur no exterior
A
Controladoria-Geral da União (CGU) confirma que a auditoria feita
na Embratur constatou irregularidades e impropriedades, dentre
elas aquelas relacionadas com a forma escolhida para montar os
escritórios da empresa no exterior, que foram feitas sem licitação
e o pessoal foi selecionado sem concurso. Embora compreenda as
dificuldades enfrentadas pela empresa para montar a estrutura
necessária observando as exigências legais, que são mesmo
rigorosas, o sub-controlador-geral da União, Jorge Hage, insiste
em que a Embratur precisa, urgentemente, enquadrar-se no figurino
legal, conforme foi recomendado pela CGU no relatório de
auditoria apresentado no final de agosto.
Para
Jorge Hage, existem várias alternativas, todas elas legais, que
podem ser escolhidas pela empresa e pelo Ministério do Turismo, e
é claro que a empresa levará em conta também para essa escolha
o critério da economicidade e eficiência. Ressalte-se que,
segundo a Embratur, o modelo atual vem rendendo bons resultados do
ponto de vista econômico para o País. Ocorre que se tratando da
Administração Pública, o critério da economicidade não pode
ser o único, eis que a Constituição Federal impõe, em primeiro
lugar, a observância da legalidade. Como alternativas, o
sub-controlador aponta, em primeiro lugar, a utilização da
estrutura das embaixadas brasileiras no exterior, por meio de uma
articulação com o Ministério das Relações Exteriores. Uma
segunda alternativa seria a criação oficial desses escritórios
no exterior na própria estrutura regimental da Embratur, o que
exigiria a criação de cargos de chefia e direção. A terceira
seria a forma de convênio com entidades privadas do setor,
semelhante ao modelo adotado hoje, porém com uma grande diferença:
a celebração do convênio ou contrato teria que ser precedida de
licitação internacional; além disso, deveriam ser observados
critérios impessoais e transparentes para a seleção das pessoas
para a fixação de sua remuneração. Por último, Hage aponta,
ainda, um outro formato que seria a contratação direta de
empresas privadas no exterior, também mediante licitação,
pagando-lhes por serviços prestados, mas aí sem qualquer
interferência na indicação das pessoas, nem nos níveis de
remuneração, porque se pagaria pelo produto, observa Jorge Hage.
O
sub-controlador afirmou que a CGU aguarda as providências da
Embratur, que deverá se posicionar não apenas quanto à
reformulação do modelo adotado para os escritórios, como, também,
sobre as demais providências recomendadas no relatório da
auditoria, inclusive com a instauração de sindicâncias para a
apuração de responsabilidades, nos casos ali apontados.
Assessoria
de Imprensa da Controladoria-Geral da União
Quem
deve responsabilizar-se por essas questões é aquele que responde
pela Embratur e não o povo brasileiro que não tem culpa da tragédia
ou comédia da Política Nacional de Turismo que é inócua
e não atende às necessidades do turismo interno. Temos deixado
claro em nossos textos a incoerência dessa política demonstrando
os erros contidos nessa proposta.
Para
reforçar nosso argumento, não poderíamos deixar de relatar a
opinião de um acadêmico que muito tem contribuído para o
entendimento do fenômeno turístico no Brasil e que apesar de
partir de um conjunto teórico diferente daquele que adotamos, é
extremamente competente e também discorda da Política Nacional
de Turismo, afirmando:
Falta
vontade política para melhorar alguns pontos críticos do turismo
brasileiro. Estou cheio da propaganda demagógica das autoridades
setoriais que prometem muito e fazem nada. Basta ver o portal do
Ministério do Turismo na Internet para ver a incompetência
estampada.
Por
esses motivos o turismo brasileiro não cresce como deveria e,
apesar das melhoras, ainda possui lacunas graves. Cabe a nós
sociedade civil organizada, fazer alguma coisa em causa própria.
À luta.
Esse
é um indicador que merece respeito, pois se as diferentes
correntes epistemológicas existentes que fazem à leitura do fenômeno
turístico estão criticando o Plano Nacional de Turismo é por
que há algo de podre no reino da Dinamarca.