Israel
e os palestinos – uma luz no fim do túnel?
Três
acontecimentos da última semana em Israel abrem possibilidades de
formação de um novo núcleo de poder de centro-esquerda,
isolando a ultra-direita e os religiosos ortodoxos que defendem a
reconquista da Grande Israel, em suas fronteiras bíblicas. O
primeiro, a visita da Secretária de Estado norte americana,
Condoleezza Rice que prolongou as reuniões com os representantes
da Autoridade Palestina e do governo de Israel até a madrugada a
fim de arrancar algumas concessões mútuas que irão facilitar a
vida dos habitantes da faixa de Gaza, recentemente desocupada
pelos colonos e as tropas de Israel; o segundo foi a eleição de
uma nova liderança do partido trabalhista que imediatamente
proclamou a “paz” como objetivo prioritário; e, terceiro, o
rompimento de Ariel Sharon com seu partido Likud do qual foi
co-fundador há mais de trinta anos,
Como
explicar as transformações, em apenas cinco décadas, de uma
sociedade formada por “pioneiros” idealistas, motivados por
uma visão mística e redentora do povo judeu, na Terra Prometida,
que abandonaria o estereótipo da diáspora, de pequenos
comerciantes ou artesãos, transformados em produtores agrícolas
que iriam também construir um novo Estado judeu após quase dois
mil anos de exílio e perseguições?
No
lugar da sociedade socialista e libertária surgiu um Estado
militarizado, dotado de equipamentos bélicos dos mais avançados.
Entretanto, apesar de viver em clima de conflito constante com
seus vizinhos árabes, que por várias vezes juraram apagar Israel
do mapa, este é o único país democrático do Oriente Médio em
cujo parlamento tem assento também deputados árabes,
representantes dos palestinos.
A
economia coletivista dos Kibutzim cedeu lugar à famigerada
economia de mercado capitalista com todos seus efeitos inovadores
e desarticuladores. Os
Kibutzim – uma nova forma de organização de trabalho e
de vida social que
recusaram à propriedade privada dos meios de produção e a
exploração do trabalho assalariado, preconizaram uma nova forma
de gestão coletiva através de assembléias gerais que decidiram,
em comum, assuntos pertinentes a todos. Os fundadores e os
primeiros participantes da vida em Kibutz eram filhos da
classe média, da Europa Oriental e Central, com boa formação
escolar e ideológica, adquirida nos movimentos juvenis do tipo
escoteiro, visando preparar os jovens para trabalhos na lavoura,
na construção de habitações, estradas e portos.
Politicamente
identificados com a “esquerda” socialista e simpatizantes do
comunismo soviético, criaram a Central Única dos Trabalhadores (Histadrut)
e partidos políticos que faziam parte da Internacional
Socialista. Alguns até abandonaram o Kibutz e regressaram
à União Soviética para lá construir a “verdadeira”
sociedade socialista. Ironia da História, acabaram sendo
deportados para a Sibéria ou, na melhor das hipóteses, para
Birobidjan, uma república criada por decreto de Stalin, para
servir de “lar” aos súditos de nacionalidade judaica.
Posteriormente, muitos foram liquidados pela máquina de terror
stalinista.
Desde
o início da imigração e colonização por sucessivas ondas de
imigrantes europeus, os Kibutzim e outras formas de
assentamentos cooperativos enfrentaram a resistência dos árabes
que lá viviam, há séculos, geralmente explorados pelos “effendis”,
os proprietários ausentes das terras que acabaram sendo vendidas
às instituições judaicas de colonização.
Com
o fim da primeira guerra mundial e a derrota da Turquia pelo exército
inglês e as tropas formadas por beduínos e sublevadas pelo
coronel Lawrence da Arábia, a Grã-Bretanha assumiu o mandato de
governar a Palestina, confirmado posteriormente pela Liga das Nações.
Um dos primeiros atos da administração colonial inglesa foi o
desmembramento da parte oriental da Terra Santa, transformada em
reino da Jordânia cujos reis sempre mantiveram atitudes e políticas
mais moderadas para com o Estado judeu.
A
ascensão do nacionalismo árabe, historicamente atrasado, foi
precedida pela queda de regimes monárquicos corruptos, tal como o
do rei Faroukh no Egito, derrubado por um grupo de jovens oficiais
liderados pelo general Nagib. Poucos anos depois, Nagib foi
deposto pelos coronéis liderados por Gamal Abdel Nasser,
protagonista do pan-arabismo e criador da República Árabe Unida,
englobando o Egito, a Síria e a Jordânia. O objetivo central da
União era cercar com suas tropas o Estado de Israel e eliminá-lo
definitivamente.
Voltando
ao contexto atual, a saída dos israelenses da Faixa de Gaza pode
ser considerado como um primeiro passo na longa caminhada em direção
à paz.
Os
palestinos tinham resistido à colonização judaica com ataques
armados contra assentamentos em 1921, 1929 e 1936; o que levou a
Grã Bretanha a divulgar um decreto baseado em parecer de uma
comissão parlamentar, impondo fortes restrições à imigração
judaica. Com a divisão da Palestina em dois estados, judeu e
palestino, por decisão da Assembléia Geral das Nações Unidas,
em 1947, os países árabes recusaram a partilha e lançaram suas
tropas – egípcios, jordanianos, sírios, iraquianos e
palestinos - contra o jovem Estado.
A
derrota contra o exército de Israel teve como conseqüência o êxodo
– forçado ou voluntário – de centenas de milhares de
palestinos, estabelecidos em precárias condições nos campos de
refugiados no Líbano e na Jordânia, onde se encontram até hoje.
Ao
contrário do que aconteceu em Israel que absorveu quase um milhão
de judeus expulsos dos países árabes, não houve tentativas de
absorver produtivamente os refugiados palestinos pelos regimes
autoritários de seus vizinhos.
Em
1956, ansiosos de recuperar o Canal de Suez nacionalizado por
Nasser, a França e a Grã-Bretanha lançaram uma ofensiva naval e aérea contra o Egito, induzindo também
Israel a juntar-se na aventura que levou suas tropas até
as margens do Canal de Suez e às portas do Cairo. Foi a intervenção
conjunta das duas superpotências, EUA e URSS, que ordenaram a
retirada das tropas israelenses e a cessão das hostilidades, o
que foi festejado como vitória pelos egípcios.
Dez
anos mais tarde, em junho 1967, irrompeu a “guerra dos seis
dias” em que as forças israelenses, antecipando-se ao ataque
planejado por Nasser, infligiram pesada derrota aos árabes e
ocuparam em seguida a península do Sinai (Egito), as colinas de
Golan (Síria) e a Cisjordânia, incluindo a parte oriental de
Jerusalém.
Na
euforia de pós-guerra, perdeu-se uma oportunidade única de se
chegar à paz mediante a devolução dos territórios
conquistados, em troca do reconhecimento do Estado de Israel.
Embriagados com o sucesso militar e confiando na inquestionável
superioridade tecnológica e militar, todos os governos
israelenses, desde a esquerda dos trabalhistas até a direita do
Likud optaram por uma política agressiva de ocupação dos territórios
conquistados, mediante assentamentos e colônias, desde Sharm el
Sheik no Mar Vermelho, passando pela Cisjordânia e Jerusalém
Oriental, até as colinas do Golan, consideradas estratégicas
para a defesa do norte do país.
A
soberba e confiança excessiva em sua superioridade militar
levaram a um descuido quase fatal em 1973, quando o Egito lançou
um ataque surpresa que rompeu as linhas de defesa israelenses, no
dia religioso mais sagrado para os judeus, o Yom Kippur.
Com pesadas perdas – mais de 2 mil soldados mortos – as tropas
israelenses conseguiram reverter a situação, empurrando as
tropas árabes para seus pontos de partida.
Cinco anos mais tarde, em 1979, com a intermediação do
presidente norte-americano James Carter, foi assinado o acordo de
paz com o Egito, seguido de uma visita histórica de seu
presidente Anuar Sadat a Israel. Logo depois, Sadat foi
assassinado por oficiais membros da Irmandade Muçulmana.
Os
anos oitenta vieram confirmar o desenvolvimento tecnológico e
econômico de Israel, continuando a absorver mais imigrantes,
entre os quais um milhão de russos. A população cresceu para
mais de cinco milhões dos quais mais de um milhão de árabes palestinos, cuja diáspora está sendo estimada em
quatro milhões. As mudanças, contudo, não foram apenas
quantitativas. Mudou profundamente o perfil étnico, religioso,
cultural e econômico da população que passou a ser
predominantemente urbana, a maioria de origem oriental (judeus
sefardim e orientais), com uma mentalidade capitalista e pequeno-
burguesa, oposta ao coletivismo dos “pioneiros”. A nova
maioria – religiosa e ortodoxa – pretende seguir as leis do
Talmud, como orientação básica para a vida civil e coletiva, à
semelhança dos islâmicos que adotam o Corão e suas prescrições
como guia.
Com
a dissolução da maioria dos Kibutzim, a sociedade
israelense, antes igualitária e tolerante, adquiriu rapidamente
as características e, também, os vícios das outras sociedades:
o tráfico de drogas, a prostituição, a corrupção e a
criminalidade, tão bem caracterizadas pelo cineasta Amos Gitai em
seus filmes.
Ademais,
iniciou-se um refluxo de jovens judeus – emigrantes para os
Estados Unidos e os países da Europa Ocidental, inclusive Áustria
e Alemanha.
Os
movimentos de revolta dos palestinos, com a primeira Intifada nos
anos oitenta e as operações bélicas do Hisbola – partido
religioso armado pela Síria e o Irã, aumentaram a pressão sobre
Israel onde, paradoxalmente fortaleceu-se o partido da direita –
o Likud, frontalmente oposto a qualquer concessão aos palestinos.
Os ataques armados, instigados e financiados pelas plutocracias do
petróleo, foram dirigidos contra assentamentos, soldados e a
população civil, tornando-se uma ameaça constante na vida da
população israelense.
A
Liga Árabe, associação dos países árabes cujo objetivo
principal era fomentar o conflito com Israel e votar repetidamente
contra a paz com o Estado judeu, viu sua influência enfraquecer
após a assinatura do acordo de paz com o Egito e a Jordânia.
Mas, em 1990, após uma desastrosa e provocativa visita de
deputados israelenses liderados por Ariel Sharon ao Monte do
Templo – terceiro lugar mais sagrado dos árabes no mundo,
eclodiu outra Intifada que se manteve acesa até a morte de Yasser
Arafat em 2004.
O
impasse só foi rompido após grande empenho da diplomacia
norte-americana, pressionando Israel a evacuar a Faixa de Gaza,
com seus oito mil colonos. Abriu-se assim a possibilidade de
futuras negociações seguindo o “Mapa da Estrada” – um
plano de paz elaborado após o fracasso das reuniões de Oslo,
Madrid e Camp David, com a participação da Rússia, União Européia,
EUA e as Nações Unidas.
Não
há como ignorar o profundo envolvimento dos EUA
no Oriente Médio, a região com as maiores reservas de
petróleo do mundo, mas sem perspectivas de retirar suas tropas do
Afeganistão e do Iraque, em busca de estabilização política e
militar desta região estratégica.
Acuado
pela mídia mundial e pela oposição no Congresso
norte-americano, por práticas de tortura contra presos iraquianos
e o uso de fósforo branco (arma química!) contra civis, a perda
de mais de 2 mil soldados até agora no conflito e estimativas de
vítimas civis iraquianas que oscilam entre 25 mil e 75 mil, o
governo Bush está apostando pesadamente na pacificação entre
israelenses e palestinos.
O
momento político atual parece propício: Hamas e Jihad Islâmica
concordaram em suspender seus ataques contra Israel, que até
recentemente tem retaliado a qualquer atentado.
O
novo presidente da Autoridade Palestina – Mahmoud Abbas procura
fortalecer sua ascendência sobre os grupos armados, induzindo-os
a participar das próximas eleições marcadas para fevereiro de
2006.
O
rompimento de Sharon com o Likud e a convocação de eleições
para a Knesset – o parlamento de Israel - e a expressiva votação
obtida por Amir Peretz, novo líder do partido trabalhista que
declarou imediatamente sua intenção de procurar a paz com os
palestinos, acenam para uma nova chance do tortuoso e muitas vezes
decepcionante processo de paz na Terra Santa, pelo caminho da
diplomacia e de negociações de um acordo político.