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Por EVA PAULINO BUENO Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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Um
poema de 150 anos:
Leaves
of Grass de Walt Whitman
Neste
ano de 2005 se comemoram os 150 anos da publicação da primeira edição
do livro Leaves of Grass (Fohas
de Relva), de Walt Whitman. Devemos celebrar, de
alguma forma, nem que seja somente lendo um dos poemas do livro, em
qualquer edição disponível. As razões são muitas, e grande
parte delas bem conhecidas. Mas sempre é bom rever as mais
importantes, e pensar em algumas outras.
Uma
delas, é que qualquer livro de poesia que mantém sua proeminência
mesmo depois de tantos anos, já merece ser celebrado pela
longevidade. Mas esta não é a única razão, porque, afinal, há
outras obras literárias que conseguiram atravessar até mais que um
século e meio e continuam sendo apreciadas. Além dos feitos técnicos
e artísticos de Leaves of
Grass, um fator que aponta para a sua importância é como este
livro, e este poeta, influenciaram a poesia que veio depois. Grandes
poetas geram poetas, ou, como disse Clarice Lispector, “a palavra
é fruto da palavra.”
Mas
comecemos com o livro.
Em
4 de julho de 1855, o jovem Walt Whitman publicou, com seus próprios
recursos, um pequeno livro de 95 páginas que continha um prefácio
de dez páginas e doze poemas, dos quais seis tinham o título de
“Leaves of Grass” (“Folhas de Relva”), e outros não tinham
título. O livro foi publicado por uma pequena editora em Brooklyn,
Nova Iorque, e segundo a lenda, o próprio Whitman trabalhou na
montagem tipográfica de umas dez páginas do livro. Na capa do
livro aparece uma foto do poeta vestido com roupas de trabalhador. E
o livro não tem o nome do autor, a não ser na informação de
copyright, e, já dentro do livro, no primeiro poema, numa referência
“Walt Whitman, um americano.”
Deste
modesto início, o livro cresceu a cada nova edição. Quando
Whitman morreu, em 1892, o livro tinha passado por nove edições, e
aumentado para 382 páginas contendo 293 poemas. A cada nova edição,
Whitman não só mudava sua foto, como também acrescentava novos
poemas, retirava alguns, reescrevia outros já publicados,
ampliando-os, reduzindo-os, modificando-os. Alguns especialistas na
obra de Whitman afirmam que, de fato, seis destas edições eram tão
diferentes da edição anterior que cada uma das edições poderia
ser considerada um livro completamente diferente.
E,
mesmo durante a vida de Whitman, o livro não foi somente alvo de
admiradores. Muitos o consideraram obsceno, porque o poeta se
atrevia, num tempo em que a poesia se mantinha candidamente envolta
em alegorias, símbolos, e em meditações sobre assuntos religiosos
e espirituais, a falar abertamente da importância do corpo. Dentro
da secção chamada “Calamus,” por exemplo, há poemas que têm
sido lidos como um hinos ao amor homossexual, enquanto que alguns
outros revelam, sem meias palavras, a questão do desejo, também
heterossexual. Tal é o caso da parte 11 de “Song of Myself”
(“Canção de Mim Mesmo”) que revela o olhar de admiração e
carinho ao amor jovem, à camaradagem entre homens, enquanto também
inclui outro elemento:
Twenty-eight young men bathe by the shore,
Twenty-eight young men and all so friendly;
Twenty-eight years of womanly life and all so lonesome.
She owns the fine house by the rise of the bank,
She hides handsome and richly drest aft the blinds of the
window.
(página 38)
Vinte e oito homens jovens se banham na
praia,
Vinte e oito homens jovens, todos amigáveis;
Vinte e oito anos de vida feminil e
todos tão solitários.
Ela é dona de uma fina casa na colina
da praia,
Ela se esconde, linda e ricamente
vestida atrás das cortinas da janela.
Aqui
vemos que o poeta mostra como a mulher, mesmo escondida atrás de
cortinas, mesmo de longe, deseja um dos homens. A voz do corpo,
atravessando as barreiras do decôro social. Mas, o mais importante
aspecto de Leaves of Grass
é a tentativa de incluir na humanidade uma imagem mais completa.
Também, na minha opinião, na sua tentativa de abrir espaço para
todos, o poeta revela o amor a todas as pessoas, mesmo as feias, as
que não “contam.” Um excelente exemplo disto é o poema de
1891-2, titulado “The Rounded Catalogue Divine Complete” (“O
Catálogo Divino Completo”) que aparece na secção chamada
“Good-bye My Fancy.” O poema tem uma explicação em prosa:
[Sunday, -- -- -- --, ---. Went this forenoon to church.
A
college professor, Rev. Dr. _______, gave us a fine sermon, during
which I caught the above words; but the minister included in his
“rounded catalogue” letter and spirit, only the aesthetic things,
and entirely ignored what I name in the following:]
The devilish and the dark, the dying and diseas’d,
The countless (nineteen-twentieths) low and evil, crude
and Savage,
The crazed, prisoners in jail, the horrible, rank,
malignant,
Venom and filth, serpents, the ravenous sharks, liars,
the disso-
Lute;
(What is the part the wicked and the loathsome bear
within
Earth’s scheme?)
Newts, crawling things in slime and mud, poisons,
The barren soil, the evil men, the slag and hideous rot.
[Domingo, __ ___
___, ___. Fui a igreja esta manhã. Um professor universitário,
Rev. Dr. _______, nos pregou um ótimo sermão, durante o qual eu
ouvi as palavras acima; mas o minustro incluiu neste “catálogo
completo” a letra e o espírito, mas somente as coisas estéticas,
e ignorou completamente aquelas coisas que eu nomeio em seguida:]
O demoníaco e o escuro, o moribundo e o
enfermo,
Os incontáveis
(mil novecentos e vintes) baixos e maus, crus e
Selvagens,
Os
loucos, os prisioneiros na cadeia, os horríveis,
os fétidos, os malignos
O veneno e a sujeira, serpentes, os
tubarões esfomeados, os mentirosos, os disso-
Lutos;
(Qual é a parte que os maus e odiados têm
Nos esquemas da Terra?)
Girinos, coisas que se arrastam na gosma
e na lama, venenos,
O solo morto, os homens maus, a escória e as horríveis
podridões.
De
fato, depois desta lista, o “catálogo divino completo” está
muito mais próximo da completude do que quando somente as coisas
lindas, suaves, doces, são mencionadas.
Mas
Walt Whitman não foi um santo. Seguindo a trajetória das publicações
de Leaves of Grass, se pode ver que ele, antes da guerra civil, se
aferrava à crença de que ela poderia ser evitada, porque, ele diz,
Affection shall solve the problems
Of Freedom yet;
Those who love each other shall
Become invincible.
A afeição ainda resolverá os
Problemas da Liberdade;
Aqueles que se amam
Se tornarão invencíveis.
Mas
evitar-se a guerra, e o que ela significava, implicaria a aceitação
continuação da subjugação dos negros à escravidão. Sim, Walt
Whitman, como ele mesmo admite em um dos poemas, se contradiz, e
contém multidões. Esta contradição se faz clara quando vemos
que, ao mesmo tempo que ele não quer a guerra civil, e que ele em
alguns outros escritos disse que acreditava que o negro era
intelectualmente inferior ao branco, Leaves
of Grass tem um poema, “Ethiopia Saluting the Colors” (“Ethiopia
saudando a bandeira)”, em que aparece a voz de uma mulher escrava
descrevendo sua captura, e seu tratamento por um amo cruel. O “eu
poético” se apresenta perplexo e cheio de admiração diante
desta mulher, cuja subjetividade ele não tem a presunção de dizer
que compreende completamente, mas cuja postura de dignidade ele
reconhece e saúda.
Walt
Whitman foi, acima de tudo, um homem que atendeu à chamada para a
invenção de uma poesia nova, que falasse a língua do novo país
que estava se formando. Ufanista? Sim, de certa forma. Idealista?
Sim, em alguns dos poemas. Mas sempre inventivo, corajoso, e sempre
tentando, com sua palavra, prestar conta de seu tempo histórico,
das lutas ocorridas durante sua vida, não só no âmbito pessoal
(seus amores e desamores), mas também na vida da nação: a guerra
civil, durante a qual ele trabalhou como enfermeiro voluntário (ver
especialmente os poemas da secção “Drum-Taps”); o assassinato
de Abraham Lincoln (na secção “Memories of President
Lincoln”); e até mesmo a existência de “mulheres da vida”
(especialmente o poema “To a Common Prostitute.”)
Um
homem de seu tempo, cuja voz vem atravessando os séculos, Walt
Whitman nos deixou, com Leaves
of Grass, seu testemunho e seu testamento humano e literário,
Muitos que vieram depois dele se inspiraram, aprenderam com ele,
discordaram dele, o amaram e até o odiaram. Mas o livro continua
vibrante e essencial ainda hoje. Certamente continuará por ainda
muitos anos mais, gerando poemas e poetas.
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