O
Brasil não deu certo?
Reflexões
sobre o sucesso do fracasso
Nesses
últimos tempos, parece que (e este “parece” é simplesmente
sinal de otimismo por parte do autor) uma das últimas esperanças
de boa parte dos brasileiros para dar um novo sentido à sua
sociedade está se dissolvendo. E isso menos pelos escândalos
de corrupção, caixa 2 e outros e mais por uma opção pelo
conservadorismo e/ou falta de interesse ou capacidade para
enfrentar, ainda que superficialmente, as mazelas mais graves da
sociedade brasileira.
Isso
tem levado muita gente a repetir uma das frases que mais
sintetizam o que somos e pensamos da nossa própria sociedade,
ou seja, “O Brasil não deu certo”. Muitas variantes dessa
frase também circulam (como, por exemplo, “O Brasil é o país
do futuro que nunca chega”), mas o seu significado central é
claro: nós, brasileiros, queremos construir uma sociedade rica,
justa e influente no mundo e não o conseguimos simplesmente por
incompetência, corrupção e muitos outros possíveis motivos.
Longe
de mim dizer que esse país não tem problemas sérios de corrupção,
incompetência, descaso e outros. Também não seria justo
esquecer os muitos milhões de brasileiros que efetivamente
sonham com um país melhor. Mas meu ponto é outro: talvez devêssemos
ver o Brasil (e, provavelmente, toda a América Latina) como um
caso de projeto
incrivelmente bem sucedido e não o contrário.
Note-se
que não apresento essa tese como criação minha. Inúmeros
historiadores e cientistas sociais (como Manolo Florentino, João
Fragoso, Jorge Caldeira e outros) têm trabalhado esse tópico e
é neles que me baseio (sem, evidentemente, concordar com tudo o
que eles propõem) para
a redação desse artigo. O que quero deixar claro é que o
momento atual é mais um daqueles em que imaginamos que o
motorista está seguindo o caminho errado por desconhecer a
estrada quando, na verdade, ele o faz simplesmente porque quer.
Desde
a época da colonização portuguesa, realmente, as elites
brasileiras (ou luso-brasileiras, como se queira) parecem ter
elaborado um projeto muito claro do que deveria ser o Brasil.
Seria uma terra, onde, a partir da exploração intensiva do
trabalho dos pobres e dos recursos naturais e de uma relação
patrimonialista com o Estado,
seria possível reunir rapidamente grandes fortunas. Tais
fortunas seriam então usadas para reafirmar a hierarquia social
através da ostentação e do clientelismo.
Ao
mesmo tempo, nesse projeto, o Estado seria montado e pensado não
como fator de desenvolvimento ou estrutura de representação
coletiva, mas simplesmente para manter os privilégios, o poder
e a riqueza dos dominantes. Por fim, haveria um ideal aristocrático
permeando a sociedade brasileira, pelo qual se busca sempre
enriquecer não pelo trabalho, mas pelo rentismo (ou seja, lucro
advindo de atividades não produtivas), e sempre se procurando
manter a maior distância social possível entre ricos e pobres,
não apenas como subproduto do modelo, mas como ideal deste.
A partir daí, certas derivações óbvias – como a
violência para manter a ordem social e a fratura entre uma
elite pouco comprometida com a nação e a população em geral
– também aparecem.
É
claro que este é um quadro muito simplificado de uma realidade
muito mais complexa. Também está claro como tentar manter o
grosso das riquezas e poder para si é algo que qualquer elite
pretende e quer, seja aonde for. O que espanta, no caso
brasileiro, é como um projeto inacreditavelmente exclusivo e
injusto tem conseguido se manter ao longo de tanto tempo. As
elites brasileiras, aliás, parecem ser mestres na arte de
compor, recompor e mudar tudo na aparência sem alterar nada.
Realmente,
os anos, as décadas e os séculos se sucedem e a essência do
país parece continuar. A mão-de-obra tem que ser explorada ao
limite e isso se fez/faz com os escravos, os imigrantes e os mal
pagos trabalhadores de hoje. A ostentação é chave e objetivo
da acumulação do capital e isso se manifestava/manifesta na
construção de uma imponente casa grande na fazenda, em viagens
a Paris ou a Miami ou em compras na Daslu. O meio ambiente tem
que ser destruído para gerar riqueza rapidamente e isso
aconteceu/acontece no Nordeste, na Serra do Mar e, agora, na
Amazônia. O Estado deve distribuir favores e isso
ocorreu/ocorre na época colonial, na de Pedro II ou nos escândalos
recentes da República. Passado e presente parecem se confundir
em alguns momentos
Mas
talvez nada espante mais do que a capacidade das elites
brasileiras em eliminar quaisquer alternativas e/ou adaptá-las
para que o projeto maior não seja alterado.Tentou-se, por
exemplo, manter o país essencialmente agrário o quanto foi
possível. Quando isso não foi mais factível e a modernidade
capitalista chegou ao país, no século XX, este se tornou cada
vez mais urbano e industrializado. Mas continuamos, até hoje,
com os traços do projeto original mais do que presentes, o que
se corporifica na exploração de trabalho escravo por empresas
modernas, na distribuição de benefícios do Estado aos
“amigos do Rei”, no uso deste para concentrar a renda, etc.
É
por este motivo que as discussões sobre alguns tópicos, no
Brasil, são aparentemente infindáveis e nunca chegam a lugar
nenhum, como quando se debate a educação, mecanismos de
distribuição de renda, projetos para viabilizar o crescimento
econômico acelerado, etc. Discute-se muito, mas, como não se
quer realmente mexer nas coisas, não se sai do lugar.
Realmente,
acho que não há ninguém que não saiba e concorde que alguns
dos problemas centrais do Brasil são a má distribuição de
renda (com conseqüente falta de um mercado interno), a educação
de má qualidade e a imensa incompetência e falta de critérios
do Estado para seus investimentos e gastos, entre outros. Ë visível
que só com a renda mais bem distribuída, educação de
qualidade para todos e um Estado menos patrimonialista que
poderemos avançar para uma situação de desenvolvimento em que
não apenas as elites, mas todos os brasileiros sejam
beneficiados. Ou será que os exemplos da Espanha, da Irlanda,
do Chile, da Coréia do Sul e outros não podem nos ensinar
nada?
O
problema é que os que realmente mandam no país (e, na verdade,
toda a população, que acaba por absorver e reproduzir esses
ideais) não viam, e não vêem, porque avançar na direção
dessas iniciativas. Para que, se, como as coisas estão, minha
riqueza e poder continuam crescendo e tudo vai bem? Numa situação
de desenvolvimento, as elites poderiam ficar ainda mais ricas,
mas para que se preocupar em agir se elas já têm até mais do
que conseguem gastar e as massas parecem quietinhas no seu
lugar? Além disso, numa situação hipotética de
desenvolvimento e democracia plenas, a pobreza e a desigualdade
social diminuiriam e isto seria horrível. Afinal, ostentar a própria
riqueza no meio da pobreza e deixar claro quem manda é um dos
prazeres dos vencedores dentro do “sistema Brasil” e perder
isso seria inaceitável.
Enfim,
o projeto brasileiro se revelou suficientemente elástico para
permitir ao país sair de uma realidade agrícola para uma
urbana e industrial, mas sempre mantendo, em linhas gerais, os
seus elementos chave. A questão que se coloca, nos últimos
anos, é se é possível levar o país ao mundo moderno, do
consumo de massa, da democracia e da sociedade tecnológica sem
romper radicalmente com ele. Creio que não. Portanto, o
problema agora é sair de vez do modelo e não, como sempre tem
sido feito, adaptá-lo às novas circunstâncias que vão
surgindo.
Espero
que tenha ficado claro, ao fim do artigo, como não acredito que
a história brasileira seja totalmente homogênea e imutável
desde 1500 até hoje, como se o imponderável e as alterações
estruturais não pesassem. O Brasil de hoje não é o de 1930 ou
de 1780 e não ver as mudanças seria um crime capital para um
historiador. Cumpre ressaltar igualmente como, no decorrer da
história, muitos grupos (imigrantes, escravos, empresários)
conseguiram resistir ao que a sociedade impunha e defender ao
menos em parte os seus interesses. Se não fosse assim, os
descendentes de italianos ainda estariam nas fazendas, os negros
nas senzalas e haveria aristocratas no poder, o que, felizmente,
não é o caso.
O
que quero deixar claro é que está mais do que na hora de
darmos nomes aos bois e entender que este não é um país que
tentou com vontade e determinação o desenvolvimento e falhou.
É um que tenta o desenvolvimento, mas desde que não fuja do
seu projeto original, o que, no mundo contemporâneo, é sinônimo
de fracasso.
Resta
esperar que, em algum momento, a pressão interna ou externa
seja tão forte que inste nossas elites e nossa população a
mudar. O como, o quando e o se isso vai acontecer, é algo que não
sei. A única coisa que tenho certeza é que o “projeto
Brasil” é inviável
para o futuro. Ou rompemos com ele, ou estamos permanentemente
condenados a sermos um país, parafraseando Darcy Ribeiro,
que não dá certo porque dá certo demais para as suas
elites.