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Por
ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
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Governo
Lula ratifica vitória da Monsanto
Através
do Decreto nº. 5.591, publicado no dia 23 de novembro de 2005 no Diário
Oficial da União, o Governo Lula regulamentou a Lei nº. 11.105,
também conhecida como a nova Lei de “Biossegurança”,
sancionada em março deste ano. Com isso, o governo brasileiro
afirma ter institucionalizado normas de segurança e fiscalização
para a pesquisa, cultivo e comercialização de organismos transgênicos
e reestruturado a CTNBio – Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança – chegando ao final de um dos seus mais polêmicos
conflitos políticos. A surpreendente mudança de posição do
governo com relação ao tema (ver o texto A
nova Lei de Biossegurança: o governo Lula derrota
a si mesmo, publicado na edição nº.48 desta
revista:), as diversas Medidas Provisórias editadas e a pressa na
aprovação e regulamentação legal, revelam claros indícios da
subserviência e impotência do poder público diante dos fortes
interesses econômicos e políticos que cercam a temática.
A
assim chamada Lei de Biossegurança pode ser resumida em 3 elementos
básicos: 1) o plantio e a comercialização da soja transgênica
deixam de ser regulamentados por Medidas Provisórias e passam a ser
liberados através de lei; 2) a CTNBio passa a ter a competência de
decidir sobre a liberação de pesquisa, plantio e comercialização
de organismos transgênicos; 3) estão revogadas todas as disposições
anteriores. Note-se que isso não significa dizer que, com essa lei,
a situação deixe de ser inconstitucional, pois ela não prevê a
necessidade dos Estudos de Impacto Ambiental, previstos na Constituição
Federal para a liberação de transgênicos. O governo iniciou
afirmando sua contrariedade aos transgênicos, foi gradativamente
cedendo e acabou sendo favorável, derrotando seu próprio projeto
de lei original. Fundamentais nessa mudança de posição do governo
são dois elementos políticos: 1) a aposta nas exportações agrícolas
para melhorar os resultados da balança comercial, na expectativa
de, com isso, poder pagar parte da dívida externa e garantir
"estabilidade econômica" (e a soja é o primeiro produto
de exportação do Brasil, com forte potencial de expansão com o
uso da transgenia); 2) a concepção de governabilidade, que é a
prioridade número 1 do governo, evitando confrontar as elites agrárias
do país e sim construir "pactos sociais", de forma que a
contrariedade ao plantio dos transgênicos seria uma afronta aos
grandes proprietários rurais e aos interesses das multinacionais.
Do ponto de vista da população como um todo, essa política é
antidemocrática, pois é contrária ao plano de governo apresentado
e à maioria dos seus eleitores.
Do
ponto de vista estratégico, a liberação dos transgênicos é
desastrosa, pois a biodiversidade em recursos naturais é a maior
riqueza que o Brasil possui. Entregar esse potencial aos interesses
de uma multinacional é um problema, especialmente a longo prazo,
pois, com isso, o Brasil entrega sua soberania, sua capacidade de
produzir alimentos a um mercado internacional momentaneamente
interessado na soja porque não há produto no mundo com tamanho índice
de proteína a tão baixo preço (especialmente após o escândalo
da vaca louca, que impede o uso de derivados animais na ração).
Ter aprovado o plantio e a comercialização da soja transgênica é
apenas o primeiro passo rumo a uma maior dependência tecnológica
que está por vir e a rapidez como o processo de aprovação ocorreu
(em comparação ao longo período de discussões que vem
acontecendo, por exemplo, na Europa) demonstra que o conceito de
soberania nacional já desapareceu há muito tempo da esfera dos
governos brasileiros, cada vez mais entregues à lógica monetarista
do capital financeiro mundial e seus aliados.
Para
ilustrar a dimensão dos interesses econômicos que estão em jogo,
é importante destacar que a maioria das empresas processadoras e
comercializadoras de alimentos na Europa está confrontada com a
rejeição dos consumidores aos alimentos que possam conter
ingredientes transgênicos. Por isso, estão procurando, de várias
formas, adquirir produtos que estejam comprovadamente livres de
transgênicos. Entretanto, 80% dos produtos transgênicos estão
relacionados à ração animal e os principais alimentos de origem
animal (ovos, leite e carnes) estão, inclusive, isentos da
rotulagem, de forma que os consumidores estão sendo obrigados a
consumir esses produtos por, praticamente, não terem outra opção.
Como o Brasil é o único país em condições de exportar soja não-transgênica
em grandes quantidades, o potencial de mercado que se abre para a
soja convencional é enorme. Basta ver as estatísticas oficiais da
balança comercial dos países produtores de soja para constatar que
o Brasil, nos últimos anos, ocupou o espaço na exportação de
soja que os dois concorrentes EUA e Argentina perderam em função
dos transgênicos.
O
que pode ocorrer, portanto, é que a Europa venha a adotar outra
fonte protéica para a ração animal, caso não existir mais soja
convencional no mercado (a um maior custo, mas se o consumidor
aceitar pagar um maior preço, isso estaria viabilizado). Um aumento
do preço à soja não-transgênica também poderia estimular o
cultivo de soja convencional ou orgânica, inviabilizando a produção
de soja transgênica diante dos já constatados problemas de aumento
no custo de produção em função do pagamento de royalties,
aumento no uso de herbicidas por resistência dos inços à aplicação
continuada de um mesmo produto, maior incidência de pragas e doenças
e menor produtividade. Outro elemento a ser considerado no mercado
mundial, entretanto, é que a China oferece um amplo mercado à soja
transgênica, independente da posição dos consumidores japoneses e
europeus, o que relativiza a hipótese de uma “soberania dos
consumidores no mercado”. Um detalhe importante na posição do
governo chinês é a exigência de que a soja transgênica seja
rotulada, tendo em vista que a soja é originária da China, e o país
procura prevenir seu produto nacional de possíveis contaminações.
Considerando
o potencial da soja convencional no mercado internacional, os riscos
que estão implicados no uso da transgenia, seja com relação à saúde
e ao meio ambiente, bem como aos riscos econômicos relacionados à
sua produção e comercialização, a liberação, de acordo com o
conhecimento que dispomos neste momento, é claramente desvantajosa
para o Brasil. As principais desvantagens, no entanto, tendem a se
afirmar a longo prazo, se compararmos o Brasil com os países que já
aprovaram o uso da transgenia há mais tempo. Por isso, se o
conhecimento científico deve servir à humanidade, não podemos,
neste momento, deixar de expressar nossa preocupação com a forma
como a própria ciência vem sendo descaracterizada, constituindo-se
em mercadoria para legitimar interesses de grupos hegemonicamente
mais poderosos na sociedade.
A
Monsanto conta com um forte lobby sobre governos e parlamentos de
todo o mundo. Soma-se a isso sua forte presença na mídia e o poder
de convencimento exercido diretamente sobre agricultores, para criar
uma situação “de fato”,
perante a qual fica muito difícil os governos agirem, até porque
seus instrumentos de controle e fiscalização, especialmente nos países
mais pobres, são, em sua maioria, insuficientes e ineficazes. A
estratégia da Monsanto tem sido a seguinte: a) acostumar os
agricultores ao uso do glifosato (isso vem ocorrendo desde o início
da década de 1990 com a introdução do sistema de plantio direto
combinado com o uso do herbicida secante); b) influenciar pesquisas,
pesquisadores e institutos de pesquisa, cada vez mais dependentes de
financiamento privado em função do crescente abandono por parte do
Estado; c) adquirir a maior parte da indústria de sementes,
constituindo verdadeiros monopólios; d) selecionar um território
para introduzir as variedades transgênicas e esperar a contaminação
para áreas vizinhas (na América Latina esse território escolhido
é a Argentina e, no Brasil, o Estado do Rio Grande do Sul); e)
conquistar, criteriosamente, cientistas e políticos em favor dos
transgênicos, das mais variadas formas; f) constituir e financiar
uma rede de empresas de assistência técnica, incluindo ONGs, para
a difusão eufórica dos transgênicos especialmente entre os
agricultores; g) apostar em intensas campanhas publicitárias na mídia
(especialmente na televisão, no rádio e em jornais); h) criar uma
“situação de fato”, perante a qual os argumentos críticos são
tendencialmente deslegitimados; i) disponibilizar sementes e
herbicidas a baixo custo aos agricultores, ou seja, inicialmente,
sem incluir o pagamento de royalties; j) construir legislações
favoráveis através de um intenso lobby político sobre
parlamentares e governos; k) criar contratos de “empresas
colaboradoras” com cooperativas e demais empresas compradoras da
produção de soja dos agricultores, dispostas a controlar o
pagamento de royalties sobre a comercialização da produção em
troca de um percentual do faturamento total da multinacional. Esses
passos foram todos seguidos, mesmo que nem sempre nessa ordem e,
agora que a situação já foi regulamentada em lei, chegou o
momento da Monsanto faturar e esta já anunciou que dobrará o valor
dos royalties sobre a produção para a próxima safra e definiu que
cobrará R$ 0,88 em royalties por cada Kg de semente
patenteada (R$ 35,20 por cada saca de 40 quilos).
Com
a regulamentação da Lei de Biossegurança, a CTNBio está
legitimada com maior poder político do que os ministros, no que se
refere à aprovação da pesquisa, cultivo e comercialização de
transgênicos no país e, diante das decisões que vem tomando,
acima da própria Constituição Federal, o que é um verdadeiro
absurdo. Em função das pressões da sociedade civil, durante o período
de regulamentação foram incorporados alguns elementos importantes
na lei como uma relativa melhoria na composição da CTNBio, a
necessidade de 2/3 de votos dos seus membros favoráveis em caso de
aprovação de transgênicos, e a possibilidade de contestação das
decisões por parte de um Conselho de Ministros. Isso, entretanto, não
afeta substancialmente os interesses da Monsanto e seus aliados, nem
altera o caráter explicitamente antidemocrático da nova lei.
O
primeiro problema é que as decisões acerca do plantio e
comercialização de transgênicos são políticas e deveriam ser
tomadas com o máximo de participação da sociedade civil. Com o
governo abrindo mão do poder político que lhe foi delegado (ou
usando-o no sentido inverso do programa eleito), a participação da
sociedade civil fica ainda mais restrita. O segundo problema é que
a maioria dos membros da CTNBio são especialistas em biotecnologia
(mesmo que atuem em diferentes áreas do conhecimento) e não em
biossegurança (a matéria em questão). Portanto, mesmo o discurso
de que as decisões acerca da liberação devam ser tomadas por
especialistas no assunto é falso. O que a maioria da CTNBio reúne
são cientistas eufóricos na defesa dos transgênicos, com o
agravante de que muitos deles têm relações estreitas com a
multinacional interessada na aprovação e, por isso, houve toda
essa insistência dela ter tamanho poder, cuja regulamentação jurídica
foi amplamente comemorada pelos defensores da soja transgênica,
incluindo o Ministro da Agricultura, um dos maiores articuladores da
nova lei no interior do governo.
Do
ponto de vista científico, não há nenhum novo estudo disponível
que possa corroborar a decisão tomada pelo governo brasileiro em
favor da liberação do cultivo de transgênicos. Pelo contrário,
os resultados de novos estudos desenvolvidos durante o período de
discussão da Lei de Biossegurança só reforçam a necessidade de
maior precaução com relação ao tema. Não há evidência científica
de que estejamos livres de riscos à saúde e ao meio ambiente ao
priorizarmos os transgênicos; não há nenhuma variedade de soja
transgênica disponível mais produtiva que as convencionais ou que
tenha alguma qualidade a mais com exceção da resistência ao
herbicida Roundup e, nos países onde a soja transgênica vem sendo
cultivada há mais tempo, as crescentes desvantagens são
flagrantes. Com esse conhecimento disponível, não há argumento
científico que justifique a liberação de transgênicos, tendo em
vista que não há vantagens à vista que possam compensar os riscos
do uso desta tecnologia, cujos efeitos negativos, após sua liberação
na natureza, passam a ser incontroláveis.
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