Idéias
vencedoras e conceitos derrotados
- de volta ao
velho debate sobre a grande ruptura
Em
novembro de 2002, poucos dias depois do anúncio da vitória do
candidato da oposição sobre seu adversário da situação, no
segundo turno das eleições presidenciais daquele ano,
elaborei, um tanto quanto às pressas, um ensaio intitulado
“Conseqüências econômicas da derrota: identificando
vencedores e vencidos” (ganhadores e perdedores, registre-se
desde logo, referiam-se a idéias, não a pessoas). Último na
seqüência de vários outros textos dessa mesma série analítica
sobre as conseqüências econômicas da vitória, esse brainstorming
de idéias foi publicado na revista Espaço
Acadêmico
(novembro de 2002, nº 18), tendo sido, pouco depois,
incorporado a meu livro A Grande Mudança: conseqüências econômicas da transição política
no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003; com sumário
neste link: http://www.pralmeida.org/01Livros/2FramesBooks/58GrdeMudanca.html).
Esse
ensaio provocador – como acontece com vários outros dos meus
escritos “contrarianistas” – apresentava um conjunto de
proposições sobre aspectos econômico-conceituais da “grande
ruptura” até então proposta pelo partido vencedor,
argumentando eu, ao contrário do que se queria fazer acreditar,
que as muitas contradições teóricas, os desajustes práticos
e os vários comportamentos irracionais que estavam até ali
inscritos no grande “programa mudancista de revolução pelo
alto” (e um pouco por baixo) iriam fatalmente ser revistos em
face da nova realidade criada com a vitória política. Eu não
tinha a pretensão de ser profeta, mas já tinha absoluta
certeza de que o caminho a ser seguido na política econômica
era mesmo o do neoliberalismo, para desespero intelectual dos
muitos adeptos da “ruptura econômica” e para frustração
prática dos que acreditavam na “revanche dos vencidos”.
Elaborei,
para maior clareza de exposição, uma “tabela periódica das
novas partículas elementares”, cuja estrutura tripartite se
destinava a acolher, respectivamente, as antigas idéias
derrotadas, as vencedoras, que passaram a tomar o seu lugar, e
um conjunto correspondente de “idéias indefinidas” (que
deveriam aguardar a necessária clarificação de conceitos no
seio do movimento ascendente). Lembro-me de, atendendo a convite
da ANPOCS, ter apresentado um resumo das idéias vencedoras no
encontro de Caxambu em 2003, tendo sido sonoramente vaiado pela
platéia de (até então) partidários da grande ruptura, o que,
de certa forma, confortou-me e confirmou que minhas propostas
eram, de fato, provocadoras (o texto que serviu de base para
minha palestra, “A longa marcha do PT para a
social-democracia: algumas idéias vencedoras, outras
indefinidas e questões ainda não-resolvidas”, foi publicado
na revista eletrônica Achegas
(janeiro de 2004, nº 15; link:
http://www.achegas.net/numero/quinze/pralmeida_15.htm).
Três
anos depois da redação daquele ensaio provocador, seria possível
fazer um balanço, ainda que preliminar, da “ruptura com as
velhas idéias”? Talvez sim, mas muito provavelmente os novos
conceitos não terão sido ainda plenamente absorvidos pelo
movimento em questão – não se sabe, agora, se ainda
ascendente –, mas nada obsta, em princípio, a que se faça
uma espécie de avaliação conceitual dos progressos alcançados
no período decorrido desde então. Cabe ressaltar que muitas
das idéias indefinidas permanecem até hoje nesse estado lamentável,
ou então se tornaram “esquecidas”, à falta de
esclarecimentos pertinentes por parte do movimento vitorioso
(seja por conveniência pragmática, seja por falta de
“vontade política” de enfrentar as hordas ululantes de
adversários ruidosos).
Para
esse tipo de exercício, retomo neste momento (mas apenas
parcialmente) aquela minha “tabela periódica”, eliminando a
coluna das idéias “indefinidas” – uma vez que com três
anos de governo, pouca coisa deveria permanecer indefinida, em
termos de intenções e práticas –, e proponho, em seu lugar,
uma nova tabela de idéias vencedoras, de um lado, e de
conceitos derrotados, de outro. Alguns poucos ajustes se
tornaram necessários, em função das realidades criadas com a
importante dimensão das mudanças prometidas (e nem sempre
entregues).
Trata-se
de modesta contribuição que faço, em direção dos diletos
companheiros do grande projeto de mudança no Brasil, desejando
que ele empreendam, de fato, um novo “comércio de idéias”,
de forma mais consentânea com a situação criada a partir da
experiência inédita de governo mudancista (de fato, ele operou
uma grande mudança, em primeiro lugar nas antigas idéias do próprio
partido que o sustenta). Como no exercício precedente, divido a
tabela (agora bipartite) em três grandes grupos sucessivos de
idéias ou conceitos, nomeadamente os “grandes projetos” de
reforma social, as “relações econômicas internacionais” e
as medidas de “economia doméstica”. Retomo, entretanto,
algumas das idéias anteriormente indefinidas que agora passam a
ter uma definição mais precisa, numa ou noutra coluna, mas
sempre no caminho da ruptura (com as velhas idéias daquele
partido, obviamente).
Minha
intenção (e desejo sincero) não é exatamente exasperar os últimos
crentes da causa da ruptura radical e da construção de um
“outro mundo possível”, alternativo a tudo isso que está aí,
mas tão simplesmente induzir à reflexão, convidar a uma revisão
de conceitos e mesmo a uma reversão de expectativas, com base,
não em slogans rápidos, típicos dos contextos eleitorais, mas
fundamentada em dados quantificáveis e aferíveis na realidade
cotidiana das “coisas”. Vejamos a nova tabela:
|
Tabela
das rupturas com a velha alquimia político-econômica
(ou,
da confusão nasce a luz...)
|
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Antigos
conceitos (derrotados)
|
Novas
idéias (vencedoras)
|
|
O
charme (muito pouco discreto) dos grandes projetos de reforma social
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Karl
Marx
|
Milton
Friedman
|
|
Vladimir
Ilich
|
Karl
Kautsky
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|
Oskar
Lange
|
Paul
Samuelson
|
|
Antonio
Gramsci
|
Norberto
Bobbio
|
|
Ideologia
|
Pragmatismo
|
|
Materialismo
dialético
|
Empirismo
|
|
Um
novo mundo possível
|
Por
uma globalização solidária
|
|
Forte
papel do Estado
|
Capitalismo
“administrado”
|
|
Socialismo
popular
|
Neoliberalismo
(precariamente social)
|
|
Plataforma
maximalista
|
Programa
(tentativo) de governo
|
|
Modelo
alternativo completo
|
Reformas
econômicas modestas
|
|
Cartorialismo
português
|
American
dream
|
|
Princípios
fundadores
|
Governabilidade
|
|
Socialismo
utópico
|
Economia
solidária
|
|
Projeto
nacional
|
Exercícios
de concertação social
|
|
Vontade
política
|
Determinação
do governo
|
|
A
esperança venceu o medo
|
De
volta ao jeitinho brasileiro
|
|
Relações
econômicas internacionais
|
|
Autonomia
nacional
|
Globalização
|
|
Não
ao Consenso de Washington
|
Serve
o Consenso de Buenos Aires?
|
|
Não
à “subordinação”
|
Interdependência
pragmática
|
|
Fora
FMI
|
Acordo
preventivo contra novas crises
|
|
Não
aos capitais “voláteis”
|
Abertura
aos fluxos externos
|
|
Não
à desnacionalização
|
Sim
à complementaridade
|
|
Mercantilismo
vieux style
|
Livre
comércio nouvelle
manière
|
|
Grande
mercado interno de massas
|
Prioridade
às exportações
|
|
Monopólios
internacionais
|
Multinacionais
brasileiras
|
|
Teoria
da anexação comercial
|
Acordos
regionais de liberalização
|
|
Intervenções
cambiais dirigidas
|
Manutenção
do câmbio flutuante
|
|
Centralização
do câmbio
|
Conversibilidade
gradual
|
|
Reestruturação
unilateral da dívida
|
Entendimento
com os credores
|
|
Moratória
soberana
|
Respeito
aos contratos
|
|
Impostos
proibitivos
|
Tarifas
regulatórias
|
|
Tobin
Tax sobre capitais especulativos
|
Pequena
taxa sobre passagens aéreas
|
|
Controle
de capitais
|
Menor
custo de captação
|
|
Não
à participação estrangeira
|
Parceria
para o desenvolvimento
|
|
Economia
doméstica
|
|
Gastança
keynesiana
|
Responsabilidade
fiscal
|
|
Investimentos
sociais
|
Superávit
primário
|
|
Reversão
das privatizações
|
Parcerias
público-privadas
|
|
Orçamento
elástico
|
Planejamento
das despesas
|
|
Orientação
política da economia
|
Forças
de mercado e soft
planning
|
|
Crescimento
máximo
|
Metas
de inflação
|
|
Redistribuição
patrimonial
|
Ampliar
fluxos, antes de distribuir estoques
|
|
Mercado
interno de massas
|
Demanda
ampliada em escala mundial
|
|
Autonomia
tecnológica nacional
|
Estímulos
à geração endógena de patentes
|
|
Limitação
constitucional dos juros
|
Autonomia
do Copom e taxas de mercado
|
|
Não
à “financeirização”
|
Preservação
do sistema bancário
|
|
Multifuncionalidade
agrícola
|
Agronegócio
competitivo
|
|
Salário
mínimo máximo
|
Salário
mínimo mínimo
|
|
Direitos
adquiridos intocáveis
|
Reforma
da Previdência
|
|
Reforma
agrária milagre
|
Agricultura
familiar de mercado
|
|
Novos
direitos sociais e laborais
|
Flexibilização
do mercado de trabalho
|
|
Fim
da unicidade sindical
|
Pragmatismo
na reforma da CLT
|
|
Políticas
industriais ativas
|
Indução
horizontal da P&D
|
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Renda-cidadã
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Bolsa-família
|
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Recuperação
da universidade sucateada
|
Qualidade
do ensino fundamental
|
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Fonte:
Elaboração: Paulo Roberto de Almeida, 2002-2005.
|
Eu
terminava aquele meu ensaio de novembro de 2002 pelo seguinte
parágrafo: “No mais, tenho certeza de que estes meus poucos
argumentos ‘contrarianistas’ já estão totalmente
integrados ao pensamento – ainda que não ao discurso – da
nova maioria, que parece reunir todas as condições para
realizar uma administração bem sucedida da sua própria agenda
de mudanças sociais e econômicas. O Brasil sempre foi um país
muito pouco ideológico e bem mais pragmático, ainda que esse
pragmatismo tenha, ao longo da história, sido exercido
preferencialmente em favor daqueles do ‘andar de cima’ (para
emprestar a expressão de um conhecido jornalista). Dispõe-se
agora de uma chance única para mudar completamente a agenda e a
forma de aplicação das políticas públicas. Essa chance não
pode ser desperdiçada na tentativa de se provar alguma tese
acadêmica, mas sim aproveitada na introdução de uma nova
forma de fazer política, desde que esta não maltrate em
demasia alguns princípios básicos da velhíssima economia política
dos clássicos.”
Não
tenho certeza de que a chance referida tenha sido aproveitada.
Em todo caso, a iniciativa de se repensar o “movimento” não
foi em nenhum momento tomada, a não ser em alguns comunicados
insossos e em resoluções auto-justificatórias do diretório
nacional (que faz às vezes de “comitê central”),
defendendo, justamente, a política econômica neoliberal que
estava sendo aplicada. Em nenhum momento o movimento em questão
sequer cogitou de fazer uma espécie de “Bad Godesberg” (do
SDP, em 1957) ou uma “revolução renovadora” (do Labour, em
1995), ou se isso foi cogitado, e planejado, foi em seguida
abandonado, em virtude do tsunami
de revelações comprometedoras a propósito dos “recursos não
contabilizados”. Não seja por isso: sempre há tempo para
colocar no papel algumas novas idéias de “ruptura”, desta
vez de verdade, com os poucos fragmentos econômico-filosóficos
que sobraram daqueles toscos conceitos defendidos anteriormente
e nunca é tarde para passar a abraçar, resolutamente, as idéias
vencedoras.
Sei
que a tarefa de romper com as antigas certezas sempre é
dolorosa, envolvendo algum sentimento de perda e de frustração,
dificilmente compensável com a promessa de um futuro melhor,
depois da longa travessia do deserto neoliberal. Sei igualmente
que as minhas idéias, oferecidas em contrapartida a tudo aquilo
que era servido anteriormente como remédio milagre, comportam
algo de subjetivo e de indefinido, uma vez que elas também se
situam, justamente, no terreno das “idéias”, faltando algum
embasamento empírico para ancorá-las mais solidamente na
realidade.
Um
exercício de fundamentação prática das mudanças operadas
desde 2003 pela nomenklatura
dirigente no cenário político-econômico do Brasil atual, ao
mesmo tempo que de sustentação conceitual da validade das
propostas intelectuais por mim efetuadas, exigiria a apresentação
de fatos concretos, de números seriados e de dados pertinentes
que possam comprovar a natureza e o sentido das transformações
operadas nos últimos três anos, algo que me proponho fazer em
um balanço preliminar a ser apresentado dentro em breve. Esse
tipo de exercício deve comportar uma confrontação honesta dos
muitos resultados positivos alcançados pela política
neoliberal em curso com eventuais pontos negativos acumulados a
despeito da vontade sincera de mudar “tudo isso que estava aí”.
Até a realização desse balanço preliminar, destinado a
cobrir tanto questões de política econômica, como de
governabilidade e de relações internacionais, só posso
desejar, com este novo ensaio “contrarianista”, boas reflexões
aos meus poucos leitores.