Esquerda
Perplexa
Introdução
A
eleição de Lula para a presidência da República, com tudo o
que ela implicava – chegada ao poder do PT, um partido de
esquerda, representante declarado da classe trabalhadora; acesso
ao mais alto posto de poder de um operário, e ainda mais, de um líder
sindical combativo e que se dizia socialista – provocou uma
verdadeira onda de esperança não só em milhões de pessoas, mas
também em muitos intelectuais que se proclamavam de esquerda.
A
eleição de Lula foi saudada por muitos como uma vitória sobre o
neoliberalismo. Como o início de um projeto nacional que mudaria
os rumos até então seguidos pelo governo FHC de submissão aos
ditames do capital internacional e que levaria à construção de
um Brasil mais justo e mais igualitário.
O
impacto foi tão grande que mesmo as alianças problemáticas, as
concessões programáticas aos interesses do capital já
evidenciadas mesmo antes das eleições e aprofundadas nos
primeiros meses de governo, foram aceitas a título de elementos
necessários para enfrentar uma situação considerada muitíssimo
delicada e desfavorável ao Brasil. As alegações são
sobejamente conhecidas, o que nos dispensa de enumerá-las.
Governo
da esperança; governo da mudança. Estes os qualificativos mais
definidores desse estado de espírito.
Como,
porém, nem tudo eram flores e o governo tomava medidas
conflitantes com aquelas esperanças, criou-se a idéia do
“governo em disputa”. Segundo essa teoria, o governo estaria
sob intensa pressão do capital, especialmente internacional, mas
não teria, em si mesmo, uma vinculação direta com aqueles
interesses. As concessões feitas seriam apenas decisões momentâneas,
necessárias face às dificuldades prementes. Portanto, seria um
governo que, dependendo da força, da organização e da pressão
das classes populares, poderia ser trazido para o favorecimento
dos interesses dessas classes. Teríamos, então, um governo que
procuraria navegar entre o Cila dos interesses do capital e o Caríbdis
das necessidades e expectativas das classes populares. Só o andar
do processo e as lutas desenvolvidas permitiriam dizer quais
classes seriam privilegiadas nessa disputa.
Foi,
e ainda é, um momento riquíssimo para refletir sobre os
problemas da esquerda no Brasil e no mundo. E, também, sobre a
influência dos nossos desejos nas análises que realizamos.
Quanto à segunda questão, é evidente que não é possível
descartar a influência dos sentimentos nas análises que se
pretendem científicas. Até porque se sabe que não se trata de
questões meramente teóricas, mas de problemas que têm profundas
repercussões na vida prática. Essa questão foi muito debatida
ao longo da história do pensamento ocidental, mas no caso da
esquerda ganha conotações particulares.
Sabe-se
que mesmo Marx e Engels, ao escreverem sobre as tentativas
revolucionárias de 1848, deixaram o desejo se fazer presente em
suas análises. Eles mesmos reconheceram, mais tarde, os erros
cometidos por causa disso.
Esse
desejo voltou a manifestar-se com enorme intensidade a partir da
revolução soviética. Muitíssimas vezes a defesa do socialismo
confundiu-se com a defesa do sistema soviético. E, de igual
maneira, qualquer crítica ao chamado “socialismo realmente
existente” era tida ou como uma desqualificação da luta e do
sofrimento de milhões de pessoas ou simplesmente como uma oposição
ao socialismo em si.
Ainda
hoje podemos ver os efeitos da interferência dessa vontade quando
se discute a questão cubana. Estabelece-se uma polarização
imediata entre os que defendem e os que atacam, o que torna
extremamente difícil uma discussão serena e objetiva. Qualquer
questionamento a respeito do possível caráter socialista –
passado e/ou presente – de Cuba é imediatamente visto como um
menosprezo pelas lutas do povo cubano ou, então, como uma oposição
ao socialismo em geral.
Essa
influência da vontade também pode ser sentida no caso presente.
Quando, anunciada a vitória, se gritou “ganhamos”, não era
mais permitido perguntar: quem ganhou? quem ganhou o que? Qualquer
crítica aos rumos tomados pelo PT/governo era imediatamente
desqualificada ou como “esquerdismo infantil” ou como
manifestação de conservadorismo. O que, evidentemente, tornava
muito difícil uma análise mais serena da questão.
Contudo,
não é isso o objeto do presente texto. O que nos preocupa é a
seguinte questão: o que teria levado tantos e tão qualificados
intelectuais, cujos compromissos de esquerda não podem ser, de
modo nenhum, postos em dúvida, a acreditar, contra um acúmulo
cada vez maior de evidências, que o governo Lula lideraria um
processo de transformações profundas na sociedade brasileira, em
favor das classes subalternas?
O
fato é que não só nos primeiros meses, mas mesmo antes das eleições,
a direção do PT vinha deixando claro o caminho que pretendia
seguir. Após as eleições, este caminho se viu cada vez mais
consolidado, com o estabelecimento de um núcleo de poder –
Presidência, Casa Civil, Fazenda, Banco central, Agricultura e
Indústria e Comércio – não apenas submetido a pressões, mas
inteiramente afinado e articulado com os interesses do capital
internacional. E as decisões mais significativas de política
econômica confirmavam essa orientação. Sem falar de outras
decisões e dos próprios métodos de ação, que expressam o modo
tipicamente burguês de fazer política (autocratismo, burocratização,
corrupção, tráfico de influências, caráter decorativo da
participação popular e tantos outros).
Tudo
isso foi um tremendo choque para muitos intelectuais, que não
esperavam uma guinada tão imediata e tão profunda à direita.
Em
função disto, ao longo destes primeiros meses de governo temos
visto vários destes intelectuais passarem da esperança ao
desencanto e deste a uma atitude cada vez mais crítica. Mesmo,
assim, porém, em vários deles pode-se notar – através dos
seus escritos – o quanto foi penoso aceitar a crueza dos fatos.
Mas, fica a pergunta: teria sido apenas uma erro de avaliação
que, dados os elementos existentes, dificilmente poderia ser
evitado ou haveria algo mais?
Certamente,
cada um destes intelectuais tem uma trajetória particular que
deveria ser levada em consideração no caso de um estudo
individual. Aqui nos interessa apenas o que há de comum nesta
situação. Parece-nos que, em todos os casos, se fez sentir o
peso de uma determinada maneira de pensar que reflete a inflexão
da esquerda em direção ao reformismo (chamado de socialismo
democrático). E também o fato de que a emoção jogou um papel
maior do que seria razoável, levando ao obscurecimento do exercício
da racionalidade. Neste último caso, não estamos, de modo
nenhum, afirmando que as posições destes intelectuais tinham uma
base puramente e nem mesmo preponderantemente, emocional. Longe
disto! O que queremos dizer é que a emoção contribuiu
poderosamente para obnubilar o exercício da racionalidade, ou
seja, de apreensão do processo real de forma mais objetiva, sem a
interferência do desejo, levando a interpretações que estão se
mostrando profundamente equivocadas. Contudo, para não ficarmos
em explicações meramente psicologizantes, perguntamos de novo:
por que? Por que a emoção sobrepujou a razão? E, ainda mais,
considerando que ao longo da trajetória do PT, e sobretudo nos últimos
anos, havia claros sinais de mudança profunda de rumo, como é
possível que este desfecho tenha causado tanta decepção e
perplexidade?
Buscando
explicações
A
resposta não é nada simples. Certamente não existe uma
“causa” única. Não é nossa intenção buscar uma explicação
mais abrangente desse fenômeno. Procuraremos abordar tão somente
um dos elementos, que nos parece dos mais significativos. Trata-se
do processo de “democratização” da esquerda, tanto nacional
quanto internacional. Este processo criou um contexto que, ao
nosso ver, ajuda muito a entender o que está acontecendo.
Sabe-se
que a teoria de Marx tinha um caráter claramente revolucionário.
E que este caráter revolucionário estava fundado tanto numa
determinada compreensão do processo histórico quanto na natureza
da classe trabalhadora que emergiu com o capitalismo.
A
fundamentação marxiana começava por identificar no trabalho o
ato fundante do ser social, isto é aquele ato que, realizando a
mediação entre o homem e a natureza, dá origem a este novo tipo
de ser que é o ser social e, ao mesmo tempo, cria a base material
da sociedade. Isto significa que o trabalho, independente da sua
forma concreta, sempre será o fundamento ontológico de qualquer
tipo de sociedade.
Além
disso, a constatação de que o trabalho é o fundamento ontológico
do ser social permite a Marx concluir que este ser é radicalmente
histórico e social, isto é, produzido integralmente pelos próprios
homens. Conclusão esta que deixa clara a possibilidade – mas,
de modo nenhum a inevitabilidade – de superação da atual ordem
social.
Afirmar
o caráter fundante do trabalho não significa, porém, para Marx,
desconhecer a existência de inúmeras outras dimensões que também
fazem parte deste ser. A complexificação da sociedade, cuja
origem está na capacidade do trabalho de produzir em escala cada
vez mais ampliada, levou ao surgimento de problemas que já não
poderiam ser resolvidos no âmbito do próprio trabalho. Daí a
emergência de outras dimensões, com uma natureza e uma
legalidade próprias, capazes de permitir à humanidade fazer
frente a esses novos desafios. Assim, temos a política, o
direito, a arte, a religião, a ciência, a filosofia, a educação,
etc. Uma coisa, porém, fica clara: só o trabalho tem um caráter
fundante. Todas as outras dimensões se originam a partir dele.
Portanto, todas elas guardam uma dependência ontológica em
relação ao trabalho, mas, ao mesmo tempo, por força da própria
realidade, uma autonomia relativa.
Uma
destas dimensões – a que mais nos interessa aqui – é a
dimensão do Estado, do poder político. Segundo Marx, este surge
como conseqüência das contradições em que está envolvida a
sociedade de classes. E com a clara finalidade principal de
defender os interesses das classes dominantes. Por isso mesmo, por
causa desta sua natureza, ele jamais poderia contribuir para a
superação das classes sociais. Na própria revolução a ser
realizada pela classe trabalhadora, o poder político só pode
desempenhar tarefas negativas, ou seja, de limpeza do terreno, de
quebra do poder do Estado burguês. Por isso mesmo diz Marx, nas Glosas
Críticas, que a revolução proletária tem que ser uma revolução
política com alma social. Porque a luta política
revolucionária dos trabalhadores tem como único objetivo quebrar
o poder político da burguesia e permitir a entrada em cena da
alma social do trabalho, isto é, uma nova forma de trabalho – o
trabalho associado – que seja o fundamento da ordem social
comunista. Mesmo quando, como no Manifesto do Partido Comunista,
Marx (e Engels) afirma que o proletariado vai arrancando o capital
das mãos da burguesia e concentrar nas mãos do Estado, ele tem o
cuidado de precisar que esse Estado é a classe trabalhadora
organizada e não um poder à parte. Engels enfatiza ainda mais
esse novo caráter do “Estado” ao afirmar que já nem se
deveria mais utilizar a palavra Estado para designar essa
realidade, mas sim comuna (em alemão Gemeinwesen e em francês
Commune). Com isso ele pretende deixar claro que já não se trata
de um Estado no sentido próprio da palavra, isto é, um
instrumento de opressão da minoria sobre a maioria. Não se trata
de um instrumento para manter a dominação e a exploração de
uma classe sobre outra, mas apenas para impedir, durante um breve
tempo, a volta da opressão permanente e, com isso, permitir a
instauração de uma forma de trabalho que seja a base para a
emancipação de toda a humanidade.
Não
é nosso objetivo, aqui, discutir a problemática da transição
do capitalismo ao comunismo. Uma questão extremamente complexa.
Queremos apenas deixar claro que, para Marx, o papel positivo
na construção do comunismo deve ser desempenhado pelo trabalho,
em sua forma de associação livre dos produtores livres. De forma
alguma pode o Estado capitanear essas tarefas positivas. Porém,
este tipo de trabalho só pode efetivar-se onde haja um
desenvolvimento suficientemente grande das forças produtivas
capaz de satisfazer plenamente as necessidades de todos os indivíduos.
Esta
posição central do trabalho implica, por sua vez, que, tanto nos
momentos anteriores à revolução, quanto durante e após ela, o
eixo da luta social esteja posto na fábrica – aqui entendida
como o local da produção material – e não no parlamento. Sem
diminuir a importância deste último, todas as batalhas travadas
nele devem ser norteadas pela luta que se desenrola fora dele. A
inversão desta relação é que constitui o deslocamento da
centralidade do trabalho para a centralidade da política, de
funestas conseqüências para a luta pela superação do capital.
Poderia
alguém argumentar que a luta pelo socialismo não está no
horizonte imediato. E que, em função disto, a disputa pelo
controle do Estado, de modo a orientar as suas políticas no
sentido dos interesses da maioria da população, é que deveria
ser a tônica do momento. O desenvolvimento dessas lutas criaria
as bases para um futuro direcionamento no sentido do socialismo.
Há
um equívoco nessa maneira de ver as coisas. Este equívoco
consiste em raciocinar em termos de: ou isto ou aquilo. No
entanto, a nossa proposição não vai no sentido de abandonar a
disputa pelo poder do Estado. O que estamos propondo é a subordinação
das lutas no interior do parlamento às lutas fora dele. São
estas que devem dar a direção àquelas e não o contrário. E além
do mais, as lutas extra-parlamento têm que estar nucleadas por
aqueles setores que desempenham o papel fundamental na criação
da base material da sociedade, vale dizer, os trabalhadores. No
entanto, o que vemos hoje é a mais completa subordinação das
lutas extra-parlamentares ao parlamento. E, mais ainda, a diluição
da centralidade do trabalho.
O
trajeto deste deslocamento – da centralidade do trabalho para a
centralidade da política – começou na segunda metade do século
XIX, com a Social-Democracia alemã. Por circunstâncias muito
conhecidas (intenso desenvolvimento das forças produtivas,
conquistas econômicas e políticas significativas obtidas pela
classe trabalhadora), a Social-Democracia alemã abandonou a idéia
de uma mudança revolucionária do capitalismo, substituindo-a
pela de reforma gradativa. O processo de passagem de uma
perspectiva revolucionária para uma reformista foi longo,
complexo e extremamente tumultuado.
A
perspectiva revolucionária, embora minoritária, continuou a ser
defendida e, com efeito, foi retomada pelos revolucionários
russos. Sabiam eles que não seria possível construir o
socialismo em um país atrasado. Por isso mesmo tinham esperança
– fundada em uma determinada análise da realidade – de que
sua revolução seria apenas o estopim que detonaria a ruína do
capitalismo nos países mais desenvolvidos, especialmente a partir
da Alemanha. Frustrada essa esperança, viram-se eles diante de
uma situação extremamente difícil. Como prosseguir em direção
ao comunismo em um país atrasado? A solução encontrada foi –
contrariando a teoria marxiana – atribuir ao Estado o papel de
liderar a construção das bases materiais do comunismo. Tarefa
que o Estado, dada a sua natureza, jamais poderia executar.
Deste
modo, o que se pode observar é que tanto pela via reformista
quanto pela via revolucionária se acabou atribuindo ao Estado a
tarefa de conduzir o processo de superação positiva do capital.
Como
não podia deixar de ser naquela situação concreta, a revolução
soviética, em vez de conduzir à construção de uma forma de
sociabilidade superior ao capitalismo, desembocou em um sistema
profundamente burocratizado e até anti-democrático.
Ao
perceberem estes desvios, muitos críticos, especialmente no seio
da esquerda italiana e francesa, lastreando-se nos países da
Europa ocidental, identificaram no menosprezo da democracia a
causa principal do fracasso daquela revolução e de outras que
seguiram o mesmo caminho. Tinham eles a convicção de que, do
ponto de vista econômico, estavam sendo dados passos importantes
rumo ao socialismo. Contudo, o menosprezo pelas franquias democráticas
teria impedido não só o desenvolvimento destas instituições e
direitos, mas teriam também se tornado um obstáculo à própria
democratização mais profunda da economia.
Este
raciocínio os levou a opor ao “socialismo autocrático” um
“socialismo democrático”, ou seja, à afirmação de que o
verdadeiro socialismo tem que incorporar em si aqueles institutos
e franquias democrático-cidadãos que fazem parte do sistema
burguês, mas que, segundo eles, em sua essência, se chocam
contra os interesses do capital.
Daí
para diante, até os nossos dias, o caminho seguido foi
extremamente complexo. Ele implicou inúmeras reformulações teóricas,
referentes à natureza do socialismo, do Estado, da política, da
democracia, da cidadania, da sociedade civil, etc. E reformulações
práticas no sentido de conceder prioridade às lutas no interior
do parlamento sobre as lutas externas a ele. E implicou,
sobretudo, um respeito sacralizado pela democracia, como se o
oposto desta fosse a ditadura e não a plena liberdade. Aqui está
o grande nó da questão: até os marxistas caíram na armadilha
de discutir a superação do capital tendo por pano de fundo o
chamado “socialismo real”
(um regime ditatorial que nada tem a ver com socialismo), opondo
deste modo ditadura e democracia. Ora, a oposição que se deve
fazer é entre democracia e
liberdade, pois a questão central é: qual a melhor forma de
sociabilidade que permite aos homens gozarem da maior liberdade
possível; serem senhores efetivos do seu destino?
Esta
trajetória da esquerda significou uma enorme e profunda mudança:
da centralidade do trabalho para a centralidade da política; da
centralidade das lutas sociais externas ao parlamento (nucleadas
pela questão do trabalho) para a centralidade das lutas
parlamentares ou das lutas nucleadas pela dimensão política. O
que, em resumo, significa dizer que o foco da luta entre capital e
trabalho foi transferido da fábrica para o parlamento. E isto,
mesmo com o surgimento dos chamados “movimentos sociais”.
Pois, afinal, embora as lutas desses movimentos se dessem
fora do parlamento, nenhuma delas se chocava frontalmente contra o
capital. Ao contrário, todas elas acabavam por confluir para o
interior daquela instituição.
Como
resultado disso, o socialismo passou, cada vez mais, a ser
entendido como o aprofundamento da democracia (“democracia
radical”), ou, como diz Boaventura de S. Santos (...) uma
“democracia sem fim”. Estabelecendo um falso dilema entre
“socialismo autocrático” e “socialismo democrático”,
estas teorias afirmavam que a instauração de uma sociedade
socialista implicava a conquista da hegemonia no interior dos
aparelhos de poder político e da chamada “sociedade civil”
para, por intermédio do poder do Estado, realizar as transformações
que interessavam às classes populares.
No
afã de desfazer-se da herança do “socialismo autocrático”,
a esquerda foi diluindo a idéia de socialismo até transformá-la
na simples idéia de um mundo “mais justo, mais livre, mais
igualitário”, enfim, um “mundo cidadão”. O objetivo final
deixou de ser a erradicação total do capital, para se
transformar numa progressiva reforma, democratização, humanização,
aperfeiçoamento do próprio capitalismo.
Expressão
disto é o Fórum Social Mundial, cujo lema é exatamente “Um
outro mundo é possível”. Em nenhum momento se faz referência
– o que é extremamente sintomático – ao fato de que um mundo
efetivamente justo, livre e igualitário, só é possível com a
supressão do capital.
Outra
expressão disto é a focalização da maioria das críticas no
neoliberalismo e na globalização. Como se o problema fundamental
fossem o neoliberalismo e a globalização e não o capital.
Confunde-se aí aparência com essência, forma histórica com
conteúdo substancial. A maioria das críticas da esquerda
denuncia o neoliberalismo e a globalização como os grandes
culpados pelos problemas vividos hoje pela humanidade. Embora isto
seja verdade imediatamente, obscurece-se o fato de que o problema
fundamental reside na lógica do capital, da qual o neoliberalismo
e a globalização são apenas formas fenomênicas. Com isto,
leva-se a crer que basta controlar os efeitos maléficos do
neoliberalismo e da globalização para que se possa construir um
mundo “mais justo, mais livre e mais igualitário”.
Esta
crescente “democratização”, outro nome para “reformização”
da esquerda, teve enormes conseqüências para a luta social. De
um lado, as lutas sociais foram sendo orientadas cada vez mais no
sentido de conquistas parciais, imediatas e nos marcos legais da
ordem burguesa; concomitantemente, foi desaparecendo sempre mais a
idéia de superação radical do capitalismo (revolução,
socialismo), para dar lugar à idéia de avanço gradual, de
democratização e de aperfeiçoamento desta ordem social. De
outro lado, já que o acento estava na democracia, o foco da luta
foi sendo cada vez mais concentrado no parlamento e em torno do
processo eleitoral. Às massas populares nada mais restava do que
depositar, a cada tanto tempo, o seu voto nas urnas, esperando
depois que os parlamentares resolvessem os seus problemas.
Deste
modo, em vez de a atuação parlamentar ser vista como um meio,
como um instrumento de luta subordinado às lutas
extra-parlamentares, passou a ser o eixo, o objetivo para o qual
deveriam ser canalizadas todas as demandas sociais. A pretexto de
não colocar em risco a democracia, a organização, a autonomia e
a radicalização das lutas sociais foram sendo limitadas,
cerceadas e desestimuladas. Assim, em vez de os parlamentares
estarem a serviço das massas populares, eram estas que estavam a
serviço daqueles, pois tudo devia ser feito no sentido de elegê-los
e conservá-los no poder.
Ora,
o PT assumiu, pelo menos durante boa parte de sua trajetória,
aquele figurino de partido socialista democrático. Fazia questão
de distanciar-se do “socialismo autocrático”, proclamando sua
plena adesão à causa da democracia. Contudo, na sua definição,
socialismo era sempre algo muito vago e impreciso. E basta
acompanhar a sua trajetória para ver como ele foi deslocando,
cada vez mais, o foco da luta da fábrica para o parlamento.
Vale
ressaltar que, nesse deslocamento, os intelectuais, que
participaram e ainda participam do PT, tiveram e têm um papel
fundamental. Pois foram eles que elaboraram a teoria do “caminho
democrático para o socialismo”, da qual hoje não sobra mais
nada, pois o próprio Presidente da República afirmou, alto e bom
som, que “nunca foi de esquerda”.
Foi
assim que esse partido se tornou, sempre mais, um partido
tipicamente burguês: eleitoreiro, burocrático e verticalizado.
Um partido em que as ordens emanam da direção para serem
simplesmente cumpridas pelos filiados. Um partido para o qual não
são as massas que fazem a história, mas é ele que faz a história
pelas massas. O que necessariamente resulta em uma história feita
contra as massas. Mas, tudo isto envolto em uma retórica de
transformação, de mudança, de democratização e de defesa dos
interesses das classes populares. Ironicamente, um partido autocrático
que se arvorava em paladino da luta contra o que chamava de
“socialismo autocrático” e em favor de um “socialismo
democrático”. A farsa – trágica – em que se transformou a
política nacional nos últimos dias é apenas o resultado natural
dessa degeneração.
Não
admira, pois, que os intelectuais que estavam imbuídos – uns
mais, outros menos – deste ideário de “socialismo democrático”
investissem tantas esperanças na chegada ao poder de um
“partido de esquerda”, “socialista, mas democrático”, de
“origem trabalhadora” e capitaneado por um autêntico
“trabalhador”, “líder de trabalhadores”. Por um momento
parecia que razão e emoção se encontravam juntas, e do lado
“bom”, isto é, do lado das classes populares.
Eppur...
Existia toda a experiência européia de partidos que se diziam de
esquerda e que, após chegar ao poder, realizaram exatamente
aquelas tarefas que eram do interesse do capital. Basta lembrar
dos trabalhistas de Blair, na Inglaterra; dos socialistas de
Jospin, na França; dos social-democratas, de Schröder, na
Alemanha; dos ex-comunistas, de D’Alema, na Itália. E até de
maneira melhor do que os representantes diretos do capital, pois
contavam com o apoio das classes populares, iludidas com as suas
teorias. Contudo, estes também eram partidos que, se algum conteúdo
de esquerda tiveram algum dia, não era um conteúdo de esquerda contra
o capital, mas apenas da esquerda do capital.
Esse
desfecho trágico – para as classes populares – de uma trajetória
que parecia tão promissora e que, por isso mesmo, deu origem a
tantas esperanças, deveria servir de advertência para todos
aqueles que pretendem lutar não por um mundo “mais justo, mais
livre, mais igualitário”, mas simplesmente por um mundo
“justo, livre e igualitário”. Deveria servir de aviso de que
não é possível avançar nessa direção sem uma profunda crítica
do passado e sem a retomada da centralidade do trabalho.
Infelizmente,
o que se vê não é o atendimento a essa advertência. As críticas
são, no mais das vezes, superficiais e apressadas. Limitam-se a
denunciar a traição ou o aburguesamento do PT, sem um exame da
trajetória mais ampla da esquerda e do próprio PT. Em nenhum
momento a questão decisiva, vale dizer, o deslocamento da
centralidade do trabalho para a centralidade da política, é
apontada. O que é, ao nosso ver, uma receita antecipada para a
repetição dos mesmos erros do passado.
Esse
deslocamento, como já vimos, é resultado de um processo
extremamente complexo, que tem início na segunda metade do século
XIX, com a social-democracia alemã, passando, depois, pelo
eurocomunismo, pelos partidos socialistas, pela via democrática
para o socialismo (especialmente os italianos), até o atual
socialismo democrático. Em síntese, esse deslocamento significa,
em graus e modos variados, abrir mão da superação radical do
capital para admitir o aperfeiçoamento desta ordem social como
objetivo último, ou, então, a instauração de uma sociedade
“mais justa”, “mais livre”, “mais igualitária” por
intermédio de um Estado que seria posto a serviço das classes
subalternas. O resultado prático desta concepção é que o foco
das lutas sociais é deslocado do lugar onde se produz a riqueza
(a fábrica, em sentido extremamente amplo) para o lugar onde se
trava a luta política por ela (o parlamento).
Um
claro exemplo de como esse deslocamento da centralidade do
trabalho para a centralidade da política se firmou na cabeça da
esquerda é a polêmica que está sendo travada em torno da
construção de um novo partido que deveria ser, de fato, de
esquerda. Esperar-se-ia que o primeiro passo fosse exatamente a
necessária crítica do passado. Mas o que se vê é uma corrida
desabalada para criar um instrumento com o fim de viabilizar a
candidatura de alguns parlamentares às próximas eleições. Toda
a preocupação está, de novo, voltada para o calendário
eleitoral e para o parlamento. O que significa que a questão mais
importante, que é a relação entre fábrica (entendida num
sentido amplo) e parlamento, continua a ser colocada e resolvida
do mesmo modo como era e é colocada e resolvida pelo PT. Receita
certa para trilhar os descaminhos anteriores e para uma nova
derrota das classes populares.
De
nada adianta alegar urgência: urgência do calendário eleitoral,
urgência dos problemas a serem enfrentados. Repitamos a velha
frase de Lênin: “sem teoria revolucionária não há prática
revolucionária”. Ora, nenhum dos agrupamentos de esquerda tem,
hoje, uma teoria revolucionária. Isto se por teoria revolucionária
entendermos, no mínimo, um aparato teórico que signifique um
patamar científico-filosófico radicalmente crítico e revolucionário,
que permita fundamentar a possibilidade e a necessidade da superação
do capital; com base nesse aparato, uma identificação muito
clara do objetivo que se quer atingir (a definição de comunismo)
e a compreensão da crise atual do capital e de seus
desdobramentos concretos tanto em relação à classe burguesa,
quanto à classe trabalhadora e às outras classes; a identificação
do(s) sujeito(s) da revolução e de elementos mínimos que possam
unificar as lutas dos vários segmentos sociais; a definição da
relação entre a fábrica e o parlamento, ou seja, entre as lutas
intra e extra-parlamentares; e, não por último, a compreensão
da realidade brasileira e das possíveis estratégias revolucionárias.
Outro
exemplo muito significativo dessa postura “politicista” é a
“Carta aos Brasileiros” escrita e publicada em 21 de junho do
corrente e subscrita por inúmeras entidades. Após várias
considerações em que se inclui o impossível – “fundamentar
a vida política em princípios éticos como a separação entre
interesses privados e interesses públicos”, a carta diz: “Por
isso, vimos a público defender e propor ao governo Lula, ao
Congresso Nacional e à sociedade civil, as seguintes medidas:
“. E segue-se uma lista de “proposições” que implicaria a
realização plena da revolução burguesa no Brasil. Algo
obviamente impossível. Mas, o mais importante é o tom de
solicitação, quase de súplica ao governo. E, além do mais, a
um governo que tem demonstrado com toda clareza, pela sua política
econômica – espinha dorsal de qualquer orientação – que está
postado firmemente do lado dos interesses do capital. Movimentos
sociais desmobilizados e com uma posição ambígua em relação
ao governo pedem-lhe “muito respeitosamente” que faça o contrário
de tudo o que vem fazendo. Santa ingenuidade!
Como
se vê, são questões extremamente complexas e de difícil solução.
Não é, porém, apenas a complexidade que torna difícil a solução.
É a própria configuração atual da realidade social. Em artigo
publicado na revista Novos Rumos (n. 29), nos referíamos
ao paradoxo que caracteriza a realidade atual. Dizíamos que ela
implica, ao mesmo tempo, a necessidade e a inviabilidade de uma
teoria revolucionária. Necessidade, porque “sem teoria
revolucionária, não há ação revolucionária”.
Inviabilidade, porque as intensas transformações, que estão
acontecendo há algumas décadas e que favorecem amplamente o
capital, não permitem ver com clareza quais as tendências mais
profundas do processo social e nem os contornos mais gerais e
essenciais do conjunto da realidade. Mas, também observávamos
que isto não significava que não fosse possível nenhum momento
de elaboração teórica. Citando
ipsis litteris (Tonet: 34):
Poderia
parecer que esse preceito – de reconstruir a teoria revolucionária
– N.A) – conflita com a afirmação acima acerca da
inviabilidade da teoria. Tal não é o caso, porque se trata de um
processo no qual a reconstrução teórica é um momento importantíssimo
do próprio amadurecimento do objeto e, especialmente, do objeto
enquanto sujeito revolucionário. Como já acentuamos acima: a
afirmação acerca da inviabilidade da teoria não se refere a uma
impossibilidade de todo trabalho teórico, mas apenas à
impossibilidade de uma teorização que, apreendendo o mundo nas
suas determinações essenciais, pudesse orientar claramente uma
intervenção transformadora.
A
reconstrução dos fundamentos teóricos marxianos e a investigação
das transformações do mundo atual – não obstante as limitações
impostas pelo próprio processo real – são parte importantíssima
da construção da teoria revolucionária. Mas, é preciso
admitir: as concepções a respeito destas e de outras questões
relevantes são as mais diversas possíveis, para não falar das
idéias a respeito do que seja um partido revolucionário hoje. Não
adianta escamotear as divergências, fazer de conta que não
existem. Mas, também não adianta cada agrupamento fechar-se em
suas idéias como se já detivesse a chave do processo. Há mais
incertezas do que certezas. Considerando, portanto, a confusão
ideológica e política vigente hoje na esquerda, faz-se
absolutamente necessário abrir um espaço de debate, não para
“ganhar” ou para impor as suas idéias, mas para permitir que
o confronto de idéias contribua para melhor iluminar o caminho a
seguir.
Não
se trata, evidentemente, de pretender esgotar essas questões como
condição prévia à construção de novos partidos. Trata-se de
permitir que elas venham à tona, que sejam debatidas em
profundidade, sem que este debate esteja subordinado a nenhum
calendário eleitoral. Esta própria maneira de agir começaria,
ao nosso ver, a sinalizar um caminho diferente, isto é, um
caminho em que todas as ações – teóricas e práticas, –
inclusive as ações parlamentares, estariam norteadas pela
luta contra o capital.
É
imperioso que a esquerda volte a encontrar o seu próprio caminho
(ser radicalmente anti-capitalista) e que rompa com décadas de
reformismo, que vem colocando os trabalhadores a reboque da
burguesia. Isto significa, antes de mais nada, estabelecer, com
toda clareza, que o objetivo final é a erradicação do capital e
a construção de uma sociedade comunista e não as vagas idéias
de um “mundo melhor”, um “mundo cidadão”, um “outro
mundo”. É evidente que não basta afirmar isto. É preciso
sustentar solidamente e com argumentos racionais, de modo a evitar
tanto as posturas reformistas quanto as que expressam o
voluntarismo imediatista.
Talvez
possa parecer que, com isso, estamos propugnando a imediata revolução
socialista. Deixemos, então, bem claras as nossas posições. Até
para que, tendo sido bem compreendidas, possam ser devidamente
criticadas. O que propomos? 1) Que seja deixado muito claro que o
objetivo final é a superação radical do capital e não qualquer
tipo de reforma. E que, inclusive, quaisquer medidas imediatas
deverão significar passos em oposição ao capital. Neste
sentido, julgamos necessário repor claramente a idéia de
comunismo como única alternativa ao capitalismo. 2) Que o eixo
das lutas seja transferido de dentro para fora do parlamento. Que
a atuação no interior deste último seja apenas um meio,
inteiramente subordinado às lutas externas a ele. 3) Que seja
revista a concepção de partido, retornando à concepção
marxiana original, ou seja, de uma expressão de auto-organização
das massas; de um instrumento da luta das massas, em íntima conexão
com elas.
Não
é preciso dizer que isto é extremamente genérico. E cada um
destes pontos admite amplos debates, ainda mais quando se tratar
de traduzi-los em ações práticas. O que nos importa, porém, é
a afirmação de determinadas balizas que sinalizem o caminho a
ser percorrido.
Temos
certeza que não é um caminho fácil. Mas, as dificuldades não
cancelam a inescapável necessidade de percorrê-lo.
Referências
Bibliográficas
CHASIN,
J. A “politicização” da totalidade: oposição e discurso
econômico. In: Temas de Ciencias Humanas, n. 2, 1977.
_______,
A sucessão na crise e a crise na esquerda. In:
Ensaio, n. 17/18, 1989.
ENGELS,
F. Carta a Bebel, de 1875. In: LENIN, V. I. O Estado e a revolução.
São Paulo: Global editora, 1987.
MARX,
K e ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo:
Coretza, 1998.
MARX,
K. Manuscritos económico-filosóficos. Lisboa: Edições
70, 1989.
______,
Glosas críticas al articulo “El rey de Prusia y la reforma
social”. Por un prusiano. In: Marx - Escritos de juventud.
México: Fondo de Cultura Económica1987.
MÉSZÁROS,
I. Para além do capital: São Paulo: Boitempo, 2202.
SANTOS,
B. de S. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade.
São Paulo: Cortez, 1999.
TONET,
I. As tarefas dos intelectuais, hoje. In: Novos Rumos, n.
29, 1999.